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Danilo no “Lago dos Tubarões”

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a minha eternidade

Danilo, lateral direito do Futebol Clube do Porto, tem, nos últimos dias, feito manchetes na imprensa desportiva espanhola mais representativa, sendo veiculado que Real Madrid e Barcelona o querem (os dois tubarões) “abocanhar” para os seus planteis. Este incansável lateral direito chegou ao clube azul e branco com apenas 20 anos, proveniente da equipa brasileira Santos, que havia sido, em 2011, campeã da Taça dos Libertadores da América. Custou 18 milhões de euros aos cofres portuenses, ficando os adeptos dos dragões muito relutantes e indignados com o esforço monetário feito pelo clube para a sua contratação. Dos canarinhos do “Peixe” veio também o seu colega de linha Alex Sandro, contratado também por um valor relevante (9 milhões de euros). Diria que o valor dispendido para a contratação destes dois velozes craques foi inflacionado pelo interesse do rival de morte Benfica, que batalhou ferozmente com o Porto pela contratação desta dupla.

Danilo, o segundo atleta mais caro da história portista (apenas suplantado por Hulk, que custou 19 milhões de euros), tem demonstrado uma consistência exibicional altíssima, estando na sua melhor forma de sempre ao serviço dos dragões. Tem lugar cativo e incontestado no onze, sendo crucial para a equipa na grande maioria dos encontros. Este internacional pela canarinha é uma das mais exuberantes individualidades da sua equipa esta temporada, contribuindo para o bom momento dos comandados de Julen Lopetegui. O potente defesa direito tem sido, ao longo dos três anos que leva de instituição, uma presença assídua nos embates que o clube tem enfrentado. Mas importa ressalvar que, nesta época, o seu reinado tem sido incontestável, contando trinta jogos oficiais (tendo jogado de início em todos) no total de trinta e seis partidas do colectivo.

Agraciado com o Dragão de Ouro para Futebolista do Ano em 2014, Danilo deverá ser transferido para um clube com um potencial financeiro superior. Presumo que fique apenas mais uma época no FC Porto, podendo mesmo, pela cobiça de que tem sido alvo, sair já no final da presente temporada.

Danilo tem sido um dos pilares do FC Porto de Lopetegui Fonte: Página de Facebook do FC Porto
Danilo tem sido um dos pilares do FC Porto de Lopetegui
Fonte: Página de Facebook de Danilo

Este jogador tornou-se num lateral direito completíssimo, muito forte nos cortes a queimar (vai ao chão com facilidade), tem boa compleição física para controlar o jogo aéreo e melhorou imenso o seu jogo posicional, aspecto onde apresentava algumas debilidades que o ligaram a golos que feriram a baliza da sua equipa. No aspecto ofensivo sempre foi muito exuberante, apresentando uma condução de bola em velocidade estonteante, um cruzamento preciso, uma técnica aprimorada e um remate potentíssimo e oportuno. Combina bem com o extremo, executando movimentos de fora para dentro, quer para assistir (passes longos bem medidos) como para finalizar (incorporando-se em zonas muito adiantadas, chega mesmo a visar a baliza com sucesso já dentro de área).

Congratulo Danilo pelo nível a que chegou no futebol nacional e internacional (tendo já actuado de início em alguns jogos da selecção brasileira) e parabenizo-o pelo grande defesa direito que já é. Dito isto, acho que este jogador pode exponenciar mais ainda o seu talento se alterar a posição na estrutura táctica. Antes de chegar ao Porto, vi jogos seus na “Vila Belmiro” (casa do Santos) e na selecção, sendo muitas vezes o seu espaço primordial de acção o de médio interior. Tendo feito grandes exibições nessa posição, acho que o seu futebol tinha muito mais a ganhar com uma mudança de posicionamento táctico. Vejo Danilo (compreensivelmente) acomodado com as suas prestações e sucesso desportivo. O interesse destes dois gigantes espanhóis vai agudizar certamente a sua imutabilidade futebolística. O que é pena, pois acho que Danilo poderá ser um médio interior “costa a costa” com capacidade de roubo de bola, qualidade no jogo em posse, tendo ainda mais oportunidades (como interior) para aplicar o seu forte e colocado pontapé de meia distância, assistir os colegas e chegar a zonas de definição com melhores perspectivas e em mais ocasiões (combinando em tabela com um colega e recebendo mais à frente para matar).

Julgo que o jogador mais parecido com ele é Daniel Alves (curiosamente do Barça). Ambos têm “qualidade a mais” para laterais e já fizeram grandes exibições no miolo. Eu sei que Danilo sabe onde radica o seu melhor futebol – é um médio “adormecido” que se tornou um excelente lateral. Apesar disso, gostava que o Porto acordasse para esta sua vocação, permitindo o despertar da sua aptidão natural. Digo isto pensando no jogador em si (estando muito curioso em aferir quais as suas potencialidades máximas e como se consubstanciam). Acho sem dúvida que a equipa até fica mais completa e com nuances mais imprevisíveis com o atleta partindo recuado da direita.

Danilo tem despertado a atenção dos maiores predadores futebolísticos jogando a lateral direito. Mas será essa a sua melhor posição? Fonte: Página de Facebook do FC Porto
Danilo tem despertado a atenção dos maiores tubarões jogando a lateral direito. Mas será essa a sua melhor posição?
Fonte: Página de Facebook de Danilo

Eduardo Galeano, dissertando sobre “A uva e o vinho” escreveu o seguinte:

Um homem dos vinhedos falou, em agonia, junto ao ouvido de Marcela. Antes de morrer, revelou-lhe o segredo:

– A uva – sussurrou – é feita de vinho.

Marcela Pérez-Silva contou-me, e eu pensei: se a uva é feita de vinho, talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.”.

Pelo que se escreve e ouve, já reificou a ideia de que Danilo é lateral. O brasileiro já provou ter o “toque de Midas” que lhe dará um aurífero conforto. Mas será que o seu âmago futebolístico se sente apaziguado com aquilo que é apontado como sendo já definitivo em termos do seu jogo? Danilo foi para lateral por vontade alheia. Sucumbiu a ela ou ainda não desistiu da sua natureza selvática e primordial de médio?

Fonte: Página de Facebook do FC Porto

O Passado também Chuta: Osvaldo Silva

o passado tambem chuta

Muitas vezes esquecemo-nos de jogadores que marcaram e determinaram grandes feitos sem nos aperceber. Evidentemente não foram o todo, mas, esse todo, essa equipa, não seria nada sem a sua presença. O Sporting e o Leixões (o FC Porto também, no entanto, a sua passagem pelo Porto foi um bocado efémera.) tiveram e disfrutaram dum jogador que era esse tipo de jogador faísca que transforma uma boa equipa numa grande equipa. Era brasileiro e despontara no América. O FCP foi buscá-lo, no entanto, depois de dois anos e de defender o treinador, foi parar ao Leixões. O clube de Matosinhos tinha uma belíssima equipa. No seu plantel tinha dois jovens que depois triunfaram no Benfica. Chamavam-se Jacinto e Raul. Jacinto foi um jogador primoroso, capaz de jogar como defesa e no meio- campo; marcava faltas como só os grandes as marcam. No entanto, no meio desse grupo estava o tal jogador que transforma uma boa equipa numa grande equipa. O seu nome era Osvaldo Silva.

Este Leixões foi mágico e foi campeão, como costumam ser as grandes equipas: ganhou uma Taça de Portugal no Estádio das Antas, comendo as tripas ao FCP. Osvaldo Silva deixou a sua marca e o seu golo. Falou-se da grande vingança de Osvaldo Silva. Estávamos na época do grande Benfica; a década dos 60 começara e o Sporting precisava de se reforçar e chamou-o. Osvaldo Silva chegou ao Sporting com 28 anos. O clube de Alvalade tinha grandes jogadores; se pensarmos no Fernando Mendes, no Alexandre Baptista ou no Hilário estamos a pensar e a recordar craques de primeira ordem mundial. Faltava-lhe o jogador faísca, e Osvaldo Silva, com 28 anos, tinha a faísca e a maturidade.

Mas, depois de conquistar a Taça de Portugal de 1963, o Sporting disputou a Taça das Taças de 1964. Esta competição estava cheia de grandes equipas e de magníficos jogadores. O clube de Alvalade teve que enfrentar o temível Manchester United de Denis Law e George Best. Foi a Inglaterra e perdeu. Perdeu mal e de forma avultada. O Sporting tinha que fazer uma goleada histórica em Alvalade. O jogo começou. Osvaldo Silva estava em campo e também estava o Mascarenhas e todos os craques que conformavam aquela equipa. O jogador faísca estava em dia sim; estava cheio de magia e vontade. Marcou três golos, um de falta, e o Sporting derrotou o colosso Manchester United por 5-1. Chegaram as meias-finais e desta vez tocou o Lyon. Nesta equipa jogavam dois craques temíveis, bem conhecidos dos jogadores portugueses pelos confrontos entre as seleções militares; chamavam-se: Di Nallo e Combin. O Sporting emperrou em Lyon e em Alvalade o Combin fez-lhe um chapéu ao Carvalho que deixou o Estádio gelado. O Sporting, na segunda-parte, conseguiu empatar. Jogaram o desempate em Madrid no velho campo do Atlético de Madrid. Osvaldo Silva inventou um remate à meia volta que congelou a vontade dos franceses.

Osvaldo Silva com a camisola do Sporting Fonte: tesouroverde.blogspot.com
Osvaldo Silva com a camisola do Sporting
Fonte: tesouroverde.blogspot.com

Era dia da final. Pela frente estava o MTK, uma das equipas representativas do futebol magiar (húngaro). A luta foi travada. Chegou um canto e o magriço Moraes pegou na bola; beijou-a; acomodou-a e lançou o canto… Golo Olímpico! Golo de canto! O Sporting acabava de fazer história. O jogador faísca, no meio daqueles craques, era Campeão da Taça das Taças.

Osvaldo Silva era um jogador de meio-campo. Tinha finta; técnica; tática e génio. Além disso, goleava e goleava com arte. Infelizmente, já não está no mundo dos vivos. Faleceu em 2002; mas perdura na História do Leixões; do Sporting e na mente dos amantes do bom futebol.

Foto de capa: sporting.pt

Young, Wild, and Free

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diva de alvalade catarina

Cheguei ao intervalo do jogo de domingo com um misto entre um nó no estômago e uma falta de ar estranha no peito. É que já me vinha desabituando a que o Sporting me inquietasse, me deixasse em ânsias, com suspiros nervosos, súbitos e repentinos, como tem feito nas últimas semanas. A bem dizer, como apenas tem feito desde o jogo com o vizinho rico da Segunda Circular.

Este Sporting continua a ter muitas falhas, muitas incoerências – dentro e fora do campo -, muitas inconstâncias, e isto ainda que não possamos negar a evidente melhoria na capacidade para disfarçar algumas delas, fruto da preparação bem estruturada e, no fundo, do trabalho desenvolvido por Marco Silva. Como bem dizia Luís Freitas Lobo, logo após o golo de Tanaka, também Marco se precipita muitas vezes. Muitíssimas. Age por impulso (se há pessoa que sabe o que isso é e que não o condena em nada, acreditem (!), sou eu), deixa-se levar por repentismos próprios da juventude, por si partilhada nestas bandas da responsabilidade de liderar equipas grandes (e grandes equipas).

Esta juventude que tanto nos faz claudicar em momentos chave é, por outro lado, causa maior de uma das minhas virtudes favoritas, tão extensível ao mundo do futebol e que tanta cor dá às nossas vidas: a irreverência, o arrojo, a capacidade de assumir riscos que, a agir racional e cautelosamente, provavelmente nunca correríamos!

Por falar em juventude, depuis déjà longtemps ando para escrever sobre a nossa mais nova dupla de centrais, única coisa que, nas últimas duas semanas, me tem tranquilizado neste Sporting.

A qualidade que Tobias tem revelado não me surpreende em nada. Lembro-me de o ver jogar em juniores, com idade de juvenil, nas deslocações a Faro e, bem assim, de o ver em campo aquando do reaparecimento das equipas B’s, no segundo escalão do futebol português. A sua afirmação quase simultânea no plantel principal, primeiro, e no onze, depois, não é senão mais uma manifestação concreta de uma política de formação tão bem sustentada, que tão bons frutos nos deu no passado como no presente e que, honestamente, tenho muitas dúvidas que continuem a proliferar daqui a dez ou quinze anos…

Tobias tem tudo para ser o patrão desta defesa por muitos e bons anos, se por cá o conseguirmos, entretanto, manter: tempos de entrada à bola quase sempre perfeitos, um metro e oitenta e oito de uma agressividade inata e em nada confundível com belicismos (poderíamos apelidá-los de estilo Bruno Alves, não acham?!), jogo aéreo forte, uma boa gestão dos tempos de pressing e de contenção, não excessivamente faltoso e, mais do que tudo, tremendamente sereno nas manifestações da sua – espero – irreverente juventude! Este é um equilíbrio difícil de obter, com o qual eu própria me debato diariamente. Se, por um lado, nos esforçamos para não desvirtuar o arrojo da irreverência, que tantas vezes nos brinda com novas soluções, novos métodos, novas dinâmicas, por outro tememos a catástrofe, porque ela é sempre hipótese quando pisamos terrenos verdes. Talvez seja da serenidade de Paulo Oliveira, quiçá da responsabilidade que sente – legitimamente – carregar aos ombros, mas Tobias tem respondido, quase sempre, mais do que bem.

A Paulo Oliveira não me consigo referir como a um miúdo da minha idade, embora factualmente o seja. E não consigo porque dele emana uma serenidade que eu me acho incapaz de vir a demonstrar daqui a 50 anos, quanto mais na flor dos 23 aninhos. E isso, meus caros, ou se tem ou não se tem. Mostra-se, não se pragueja. Noutros mundos que não o das quatro linhas, apontar-lhe-iam a frieza de espírito, o pragmatismo, até o calculismo, nos quais eu apenas consigo identificar virtuosismos, mas aos quais o homem comum, medíocre e invejoso, aponta, pejorativamente, o dedo.

Cada um por si tem uma grande margem de progressão. Juntos, ela deixa de ser grande e passa a ser enorme. Que nunca percam o Norte, e que se lhe lembrem que, em Alvalade, se grita por ambos, na Curva Sul!

SL,

P.S.– Sublime, Nani! Fosse outro o dia e sobre tal haveria sido esta crónica, intitulada de “Os Grandes também choram”.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Boavista 0-2 FC Porto: Recordar é Sobreviver

Pronúncia do Norte

Tratando-se de um derby na ressaca de um duelo europeu, tendo o Benfica cumprido o seu dever de dilatar provisoriamente a vantagem para sete pontos na tabela classificativa e havendo tantas baixas confirmadas à partida para o jogo, este seria sempre um desafio difícil para um FC Porto sob pressão.

Os dragões subiram ao relvado sintéctico do Bessa com seis caras novas em relação ao onze que iniciou a partida em Basileia – Óliver (lesionado) foi substituído por Quintero; Danilo, Alex Sandro e Casemiro (suspensos) abriram espaço para a titularidade de Ricardo, José Ángel e Ruben Neves e os extremos Brahimi e Tello foram preteridos (por opção técnica) por Quaresma e Hernâni.

O jogo começou na mesma toada com que terminou – com o FC Porto em cima do adversário, tendo quase sempre a bola, mas conseguindo poucas vezes encontrar o caminho da baliza. A monotonia só foi quebrada por volta do primeiro quarto de hora, quando um bom cruzamento de José Ángel deu origem a um canto “estudado” que resultou num penalty claro sobre Hernâni não assinalado pela equipa de arbitragem.

Depois disso, Jackson apareceu à entrada da área para atirar pela primeira vez (sem perigo) à baliza de Mika (apenas aos 18’), rubricou um pontapé de bicicleta desastrado (30’) e teve nos pés a única real ocasião de golo da primeira parte, na sequência de um grande passe do compatriota Quintero (43’) – falhou, isolado, na cara do guardião português. De resto, nada mais há a registar, senão um livre directo de Quintero que passou a dois metros do poste direito da baliza axadrezada e o único remate do Boavista até ao intervalo.

Hernâni estreou-se como titular e esteve longe de desiludir  Fonte: Facebook do FC Porto
Hernâni estreou-se como titular e esteve longe de desiludir
Fonte: Facebook do FC Porto

Face a uma defesa bem organizada e aguerrida, com as linhas bem juntas e bem estendidas (impedindo o FC Porto de dar a habitual largura ao seu jogo), os azuis e brancos nunca tiveram a velocidade e a imaginação suficientes para sufocar o adversário. Quintero, apesar das esporádicas demonstrações do seu génio criativo, nunca foi capaz de pautar o jogo do Porto; Herrera e Ruben Neves jogaram demasiado recuados (o mexicano rompeu menos vezes do que poderia e deveria; o português, estando quase sempre junto aos centrais, não conseguiu dar uso à sua capacidade de passe em zonas mais decisivas), e Quaresma também apareceu pouco. Hernâni, não raras vezes empurrado, rasteirado e pisado, deu uso à sua capacidade de explosão e teve uma performance positiva na sua estreia como titular.

No segundo tempo, mais do mesmo: domínio com bola do FC Porto, controlo do Boavista sem ela. À excepção de um remate rasteiro de Quaresma em posição frontal após uma boa recuperação de bola, das entradas de Tello e Brahimi para os lugares de Hernâni e Quintero e de um tiro de Brito que pôs Fabiano em sentido (a única oportunidade digna desse nome dos pupilos de Petit) nada de muito relevante aconteceu até à entrada para o último quarto de hora.

Foi só aos 78’, numa fase em que o FC Porto já acusava algum nervosismo (sabia que a perda de pontos significava a perda do campeonato), que o nulo se desfez. Tello, que tinha entrado muito mal no jogo (nos primeiros vinte minutos em campo, tocou três ou quatro vezes na bola para fazer maus passes ou más recepções), recebeu um cruzamento de Ricardo dentro da área, tirou um defesa do caminho de forma célere e cirúrgica e foi à linha cruzar para Jackson, que se adiantou a Carlos Santos para atirar contra este e fazer a bola entrar na baliza. Já com Evandro em campo (substituiu Quaresma), o mesmo Tello voltou a fazer uma assistência – desta vez entregou a redondinha a Brahimi para o argelino, com um chuto colocado, fazer o 0-2 final. Depois disso, foi só esperar pelo apito final de Hugo Miguel.

Os azuis e brancos suaram para bater os axadrezados no Bessa  Fonte: Ricardo Oliveira
Os azuis e brancos suaram para bater os axadrezados no Bessa
Foto: Ricardo Oliveira

A Figura

Jackson Martínez – O capitão deu, mais uma vez, o exemplo. Somando uma grande dose de empenho ao seu desempenho (quase) sempre positivo, tem-se revelado um verdadeiro líder dentro de campo. Hoje foi ele a abrir o caminho para a vitória. Já são 17 golos na Liga Portuguesa.

O Fora-de-Jogo

Quintero – Deslumbra sempre que sai do banco para mexer no jogo, mas raramente se destaca quando é titular. Hoje voltou a não render tanto quanto seria desejável – demasiados passes falhados e más decisões para alguém com tanto talento e tanta visão de jogo.

Foto de Capa: Ricardo Oliveira

Touré e a Teoria do Caos

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cab premier league liga inglesa

É intrigante e apaixonante verificar como uma pequena mudança numa peça de um sistema complexo pode alterá-lo de forma tão drástica… para o mal ou para o bem. Desde o início dos tempos que isso acontece, mas só Edward Lorenz teve o fascínio suficiente para desenvolver essa ideia,  tornando-se o pai da Teoria do Caos.

Esta aplica-se e abrange vários campos de estudo mais susceptíveis a mudança (pela sua interacção com fenómenos sociais), como a Economia ou a Sociologia, ou outros mais deterministas, como a Engenharia ou a Física. Uma alteração ínfima nas condições iniciais de um sistema dinâmico pode provocar alterações tão grandes que tornam praticamente impossíveis as tomadas de decisão baseadas em previsões de longo prazo.

O futebol também é “atingido” pela teoria do caos. Não pela interacção com o seu ambiente externo, mas sim pelo seu núcleo. Um sistema tático e respectivos princípios de jogo, trabalhados durante centenas de treinos, ao sofrer uma ligeira alteração no seu dinamismo no meio de uma época pode causar mossa e colocar em “cheque” os objectivos que uma equipa possa ter, sejam eles a manutenção ou a conquista de um título.

É, portanto, crucial, no futebol tal como em outras áreas, estar preparado para eventuais contrariedades, e o orçamento estabelecido terá de contemplar isso mesmo – a lesão ou o castigo de um jogador fundamental ou a adaptação a um adversário com um estilo de jogo radicalmente diferente daquele com que a equipa habitualmente se depara.

A avaliar pelas exibições anteriores ao encontro com o Stoke, na jornada anterior à deste fim-de-semana, parecia não exisiir um plano de contingência para a mudança dentro do sistema de jogo do Manchester City. Saiu uma única peça do seu onze, e as coisas alteraram-se drasticamente – Yaya Touré seguiu para a CAN, e a equipa, sem a ajuda do costa-marfinense, perdeu dois jogos e empatou três, cedendo muito terreno para o Chelsea e saindo da Taça de Inglaterra.

A vitória no Britannia Stadium aconteceu diante de um Stoke fragilizado (e que fora goleado, dias mais tarde, pelo Blackburn, de escalão inferior) e que, por isso, ainda não convencera os mais cépticos sobre a forma de jogar do City e do regresso às boas exibições da equipa…

… porém, o encontro com o Newcastle terá desfeito essas dúvidas. A equipa voltou a ser esmagadora no seu processo ofensivo e o Etihad voltou a assistir a um Manchester City alegre no seu futebol, com grande envolvência dos laterais no processo ofensivo e a genialidade de peças como David Silva, Agüero ou Nasri a emergirem, proporcionando, outra vez, o entusiasmo há muito desaparecido dos olhos e das bocas dos adeptos dos citizens.

Com Yaya, a equipa parece outra Fonte: Facebook do Man City
Com Yaya, a equipa parece outra
Fonte: Facebook do Man City

O que mudou? Exactamente. Yaya Touré. Entrou o costa-marfinense, e o processo ofensivo voltou a ser o rolo compressor que se fizera respeitar perante a Europa inteira. A frente de ataque ganhou um guarda-costas, a defesa ganhou o equilíbrio, o sistema voltou às suas configurações originais … e voltou a funcionar como antigamente, porque regressou Touré. Com ele, Dzeko, Agüero, Nasri e Silva, os quatro homens da frente, marcaram e assistiram, voltaram àquilo que era suposto ser, Fernandinho, Kompany e Mangala equilibraram-se tactica e emocionalmente, e Zabaleta e Kolarov puderam subir desalmadamente, como tanto gostam.

Touré voltou. Uma peça, somente, em onze, mas muitas dinâmicas a ela associada. O sistema City voltou a funcionar com Touré e, aproveitando o deslize caseiro do Chelsea, ameaça seriamente relançar o campeonato inglês.

Foto de Capa: Facebook do Man City

Rui Patrício: uma referência

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rugir do leao duarte

O futebol é um desporto de equipa e o conjunto mais forte é aquele que na maioria das vezes acaba por vencer, contudo, e penso que estejamos de acordo, as individualidades não são menos importantes. Quero por isso destacar aquele que para mim é uma referência do universo leonino: Rui Patrício.

A serenidade de uma equipa começa na baliza, o nosso eterno rival que o diga, e Rui Patrício é sem dúvida um jogador indispensável no conjunto verde-e-branco. Muito sinceramente, no início da carreira do guardião português tive algumas dúvidas sobre a sua qualidade: a falta de comando de área, a insegurança de quando saía de “dentro” postes e o horrível jogo de pés, apesar de ter melhorado ainda hoje é a grande lacuna do seu jogo, foram algumas das coisas que me levaram a questionar se este seria ou não o sucessor de Schmeichel ou eventualmente de Vitor Damas.

Pois bem, hoje não tenho quaisquer dúvidas, Rui Patrício é uma figura de destaque do universo leonino. A maioria já deve ter esquecido, com toda a certeza, as épocas em que era o Rui e mais 10; Arrisco-me mesmo a dizer que, caso não fosse Patrício, aquele penoso sétimo lugar podia ter sido bem pior.

Todos os grandes guarda-redes têm dias menos conseguidos e o titular da seleção nacional não escapa à regra. Não se iludam ao pensar que o nosso guardião não vai cometer mais erros, pelo contrário. No entanto nada disso inválida o excelente “serviço” que tem prestado à nação leonina.

Termino agradecendo a Rui Patrício por representar na perfeição aquilo que deve ser o Sporting Clube de Portugal – Esforço, Dedicação, Devoção e Glória. Seja a guardar as redes verde-e-brancas ou da seleção nacional, és um exemplo.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Somos mesmo todos iguais?

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eternamocidade

Escrever para o Bola na Rede esta semana não é tarefa fácil para mim. Não que seja um tormento, pois nunca o é; mas pela dificuldade que tive em escolher apenas um entre os muitos temas que pairaram sobre o meu pensamento. Entre uma análise à brilhante exibição portista em Basileia e um artigo relativamente ao campeonato da vergonha 2014/2015 – que teve em Moreira de Cónegos mais um capítulo de uma história pintada de vermelho – devo admitir que a escolha para esta semana não foi simples. Relativamente ao jogo dos oitavos de final da Liga dos Campeões, penso que a brilhante crónica do meu colega Filipe Coelho, na quarta-feira, disse tudo sobre aquilo que foi o comportamento dos jogadores no St. Jakob-Park. No que diz respeito ao campeonato da vergonha, penso que os dados são tão claros que mais umas linhas sobre o assunto no Bola na Rede seria, em bom português, “chover no molhado”.

Por isso, opto por nesta crónica abordar a única má notícia que os portistas tiveram no jogo da última quarta-feira: a lesão de Óliver Torres. Pouco depois dos 60 minutos, o médio espanhol caía no relvado após um choque com um jogador do Basileia. O pior veio com a imagem das queixas de Óliver em relação ao seu ombro direito. Esta foi aliás a segunda vez que o atleta emprestado pelo campeão espanhol Atlético de Madrid sofreu do mesmo mal. Na primeira ocasião, havia sido no momento do 2-0 na partida contra o Moreirense. Nessa altura, a luxação no ombro obrigou-o a uma paragem de sensivelmente um mês e à ausência em quatro partidas.

Ao olhar para o plantel portista desta temporada, rapidamente se chega à conclusão de que, para as várias posições do terreno, o que não faltam são opções para Julen Lopetegui. Essa é uma ideia que tem sido repetida até à exaustão e que faz do plantel portista 2014/15 um dos melhores da história do clube. Num mero exercício demonstrativo, basta reparar na quantidade de jogadores que existe, por exemplo, para o último terço de terreno. Quaresma, Tello, Brahimi, Hernâni, Ricardo, Adrián López, Aboubakar e Jackson são todos eles protagonistas e exemplos claros da riqueza do plantel portista para esta temporada. Bem sei que nem sempre são os nomes que ganham jogos e campeonatos, mas é bom convir que, quando comparado com a época passada, de facto, Lopetegui não podia pedir muito mais.

Óliver é o dínamo do meio-campo azul e branco  Fonte: Facebook do FC Porto
Óliver é o dínamo do meio-campo azul e branco
Fonte: Facebook do FC Porto

Ainda assim, e como sempre acontece, o sucesso ou insucesso de uma equipa ao longo da temporada baseia-se na consolidação de uma equipa, na chamada espinha dorsal. Depois de dois/três meses em que Lopetegui andou “à deriva” para encontrar uma equipa – o que lhe custou o afastamento da Taça de Portugal e a perda de pontos decisivos no campeonato – o técnico espanhol foi progressivamente conseguindo mexer pouco na estrutura da equipa, o que acabou por lhe trazer vitórias sucessivas e um crescimento sustentado que se reflete na própria qualidade exibicional do FC Porto. Com efeito, para a consolidação da equipa, em muito contribuiu a própria consolidação do meio-campo. A junção do tridente Casemiro, Herrera e Óliver veio trazer ao miolo portista quatro premissas essenciais para a qualidade do jogo portista: agressividade, intensidade, dinâmica e velocidade. De forma sustentada, o FC Porto foi crescendo na sua “sala de máquinas táctica”, dinamizada pela agressividade de Casemiro, pela intensidade de Herrera e sobretudo pela imaginação dada por Óliver Torres.

Como em qualquer construção, a falta de um destes três pilares poderá ser prejudicial a curto prazo para a equipa azul e branca. Depois de um jogo para a Liga dos Campeões onde a maioria da crítica destacou a exibição portista, apelidando-a de brilhante e dominadora – basta ver as declarações de Fabian Frei, médio do Basileia – a pior coisa que poderia acontecer ao FC Porto seria ver um dos seus jogadores mais influentes lesionar-se novamente.

Basta olhar para o histórico desta temporada para perceber a influência de Óliver Torres na dinâmica da equipa: num total de 35 jogos oficiais já realizados, o médio espanhol esteve ausente em apenas seis dos encontros. Aliás, Oliver – com 29 jogos e 2011 minutos somados –  é mesmo o quarto jogador mais utilizado por Julen Lopetegui, apenas atrás de Jackson (31 jogos, 2631 minutos), Herrera (31 jogos, 2303 minutos) e Danilo (30 jogos, 2665 minutos).

Curiosamente, dois dos três jogos que o internacional pelas camadas jovens espanholas falhou no campeonato resultaram em perda de pontos para a equipa portista: empate a um em Guimarães e a zero, em casa, na recepção ao Boavista. Coincidência ou não, o que é facto é que Óliver Torres voltará a ficar ausente no duelo contra os axadrezados. Contudo, mais do que a ausência no derby de amanhã no Estádio do Bessa, o mais preocupante é que se prevê que o médio espanhol só regresse à competição daqui a exatamente a um mês, no duelo da 26.ª jornada, marcada para o dia 22 de março, em casa do Nacional da Madeira. Até lá, é expectável que o jovem médio, para além do jogo com o Boavista, falhe o clássico do próximo domingo com o Sporting, o duelo escaldante em Braga, a segunda mão decisiva na Champions frente ao Basileia e o jogo em casa frente ao Arouca de Pedro Emanuel.

A veia goleadora de Óliver tem-se manifestado ultimamente  Fonte: Facebook do FC Porto
A veia goleadora de Óliver tem-se manifestado ultimamente
Fonte: Facebook do FC Porto

Ao olhar para o calendário portista, talvez fosse difícil encontrar um momento pior para ficar sem um dos alicerces da equipa. Num momento tão decisivo no campeonato nacional e com um apuramento para os quartos-de-final da Liga dos Campeões à mão de semear, acredito que ficar sem Óliver Torres é um verdadeiro soco no estômago para Julen Lopetegui. Ainda assim, e apesar da qualidade inegável que o médio espanhol dá, também é essencial chegar à conclusão de que o plantel desta época oferece soluções bastantes para que a equipa não sinta demasiado a falta do jogador emprestado pelos colchoneros. Apesar da tentação de alguns de afirmar que um atleta não faz uma equipa, é por demais evidente que há ideias de jogo que só existem porque há jogadores que em campo os interpretam de forma soberba. Seria possível ter existido o Barça de Pep Guardiola sem Xavi e Andrés Iniesta? Seria possível haver o Atlético de Madrid de Diego Simeone sem Gabi ou Koke?

Na ideia de jogo de Lopetegui, Óliver Torres é um elemento essencial. A intensidade e dinâmica defensiva e ofensiva que o médio dá ao jogo portista é por demais evidente e por isso não é de estranhar que tão poucas vezes o técnico espanhol tenha prescindido da qualidade de Óliver. Contudo, com um plantel tão vasto e um estilo de jogo cada vez mais consolidado, a falta do médio espanhol não pode nem deve ser utilizada como desculpa para algum possível desaire que a equipa possa ter numa fase tão decisiva da época. Numa altura em que a equipa parece crescer a cada jogo que passa, não pode ser pela ausência de um jogador – por muito importante que ele seja – que esse crescimento sinta um forte revés. E verdade seja dita: se há momento em que não podemos falhar, é este. Seja no campeonato, seja na Liga dos Campeões. Com ou sem Óliver. Vai custar, mas é assim que terá de ser.

Foto de Capa: Facebook  do FC Porto

Jogo Interior #5 – A Arte da Guerra no Futebol

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jogo interior

(Assim como quem diz no futsal, no basquetebol, no andebol, no hóquei em patins, etc.)

O livro “A Arte da Guerra”, escrito no séc. IV a.C., há cerca de 2 500 anos, por Sun Tzu, um militar, estratega e general chinês, ainda hoje continua a ser admirado como fonte de conhecimento na área da estratégia, tendo sido alvo de análises e interpretações, utilizadas em diversos contextos. Muitos referem-se a “A Arte da Guerra” como tendo sido a origem do próprio conceito de estratégia. Embora seja um tratado unicamente militar, todos os conselhos, ensinamentos e conceitos de Sun Tzu são admiravelmente adaptáveis ao mundo empresarial e ao mundo desportivo, entre outras áreas. Basta contextualizar o que lá está escrito, olhar para a “concorrência” como se fosse o inimigo e para o “mercado” como se fosse o campo de batalha. É um exercício de criatividade, perspectiva e realidade.

Rui Vitória, há uns tempos, apresentou o seu livro, baseado em leituras do livro original e aplicadas à sua vida de treinador, “A Arte da Guerra Para Treinadores”. Rui Vitória fornece pistas para levar a sua equipa ao triunfo. Da formação de uma equipa à disputa de uma grande final, passando pelas etapas do treino e pela gestão do jogo, “A Arte de Guerra Para Treinadores” é um manual de estratégia aplicado ao desporto. Após a leitura do livro achei interessante o enquadramento que Rui Vitória fez, relacionando a obra original e a sua interpretação, e apeteceu-me reflectir sobre o assunto. Fui à procura da relação da guerra com o jogo, ou seja, da guerra como actividade bélica com um certo objectivo, com o jogo desportivo e competitivo, no contexto de actividade física e de superação a vários níveis.

Huizinga, em “Homo Ludens” (1938), argumenta que o jogo é uma categoria absolutamente primária da vida e define jogo como: “uma actividade voluntária exercida dentro de determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria, e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana.”

Noutras definições encontramos ideias muito parecidas:

“Um jogo é um sistema no qual os jogadores envolvem-se num conflito artificial, definido por regras, que determina um resultado quantificável”. (Katie Salen e Eric Zimmerman); “Um jogo é uma forma de arte na qual os participantes, denominados jogadores, tomam decisões, a fim de gerir os recursos através de elementos de jogo na busca de um objectivo.” (Greg Costikyan); “Um jogo é uma actividade entre dois ou mais tomadores de decisão independentes que procuram atingir os seus objectivos num contexto limitado.” (Clark C. Abott); “No seu nível mais elementar, então podemos definir jogo como um exercício de sistemas de controlo voluntário em que há uma oposição entre forças, confinados por um procedimento e as regras a fim de produzir um resultado de desequilíbrio”. (Elliot Avedon e Brian Sutton-Smith); Em Inteligência Artificial, um jogo é um modelo teórico de conflitos de interesse (decisões possíveis, resultados possíveis) entre dois ou mais agentes que têm motivações conflituantes.

Assim sendo, em qualquer jogo existe confronto, conflito, luta de interesses, vencedor e vencido. Elementos em comum na relação destas duas temáticas: jogo e guerra.

Há 2 500 anos, Sun Tzu na realidade escreveu um guia, um tratado, que ensinava vários aspectos a ter em consideração para um batalhão vencer uma guerra ou batalha, pois era muito habitual uma nação entrar em guerra com outra, e a História Mundial assim nos conta. O que vários leitores da obra perceberam foi que metaforizando o conteúdo de “A Arte da Guerra”, na verdade algo de valioso se obtinha. Um guia de estratégia para conseguir obter vantagem competitiva, através de certas acções e hábitos. Na realidade actual e em particular, numa actividade desportiva como o futebol, todos andam constantemente em busca de vantagem competitiva. Sun Tzu diz que “a Arte da Guerra baseia-se no engano”. Vendo bem, todas as acções, em todos os momentos, da maior parte dos jogos, mesmo nos jogos desportivos colectivos e competitivos (mas também individuais), são realizadas com a intenção de “enganar” o adversário. Não será um “enganar” com uma conotação negativa, no sentido de mentir, omitir, aldrabar, roubar, conquistar ou até matar, tal como sucede em qualquer guerra.

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Será um enganar com o intuito de iludir, cansar, fazer o adversário sentir que tem vantagem para depois aplicar a jogada decisiva. Será jogar muitas vezes pela esquerda para “adormecer” o adversário e desferir um ataque “mortífero” pela direita. Será lançar um jogador que o adversário não esperava. Será manter um certo registo no discurso com a comunicação social para que os adversários se confundam na recepção dessas mensagens. Serão muitas coisas mais…

Sun Tzu diz também “Quando fores capaz de atacar, deves aparentar incapacidade e, quando as tropas se movem, aparentar inactividade. Se estás perto do inimigo deves fazê-lo crer que estás longe; se longe, aparentar que estás perto. Colocar iscos para atrair o inimigo. Golpear o inimigo quando está desordenado. Preparar-se contra ele quando está seguro em todas as partes. Evitá-lo durante um tempo quando é mais forte. Irritá-lo quando tiver um temperamento colérico. Se for arrogante, tratar de fomentar o seu egoísmo. Ataca o inimigo quando não está preparado e aparece quando não te espera.”

A estratégia no futebol, assim como noutras modalidades, é o padrão de comportamento a adoptar em campo. Difere da táctica, embora possa ser confundida por alguns. A táctica é a organização sistémica da equipa. Independentemente do sistema táctico, a equipa pode adoptar uma postura mais ofensiva ou mais defensiva. Com o mesmo sistema táctico, uma equipa pode alterar a estratégia dentro de um jogo. Mais ligada à táctica individual e de grupo, a estratégia leva em consideração a movimentação dos jogadores na marcação e na articulação, e as características dos jogadores. Assim, a estratégia está mais directamente ligada aos comportamentos, e a táctica à disposição e funções individuais e colectivas dos “guerreiros”.

Da obra de Sun Tzu retiro cinco factores que são ensinamentos chave para quem deseja pensar ou repensar as suas estratégias, se bem que o ideal seria, e é uma recomendação minha, ler o livro original, que talvez possa encontrar por alguma livraria. Para prever-se o resultado de uma “guerra”, devemos analisar e comparar as nossas próprias condições com as do nosso “inimigo”, baseados em cinco factores:

  • A DOUTRINA (motivação) – significa “tudo aquilo que faz com que os liderados estejam em sintonia com seu líder, de forma que o seguirá aonde quer que ele vá, sem temer pelas suas vidas, nem correr qualquer perigo”. Representa aquilo que faz com que a equipa lute, o propósito, a causa moral.
  • O TEMPO (condicionantes) – significa o Ying e o Yang (a harmonia dos opostos), a noite e o dia, o frio e o calor, dias ensolarados ou chuvosos, etc… Tudo o que estiver relacionado com o que possa condicionar a batalha. Representam tudo o que está para além do nosso controlo. A única forma de nos defendermos deste factor é criar processos que nos permitam estar preparados e ter riscos mais reduzidos. Ter um plano B, C ou D é fulcral.
  • O TERRENO (espaço) – implica as distâncias e faz referência onde é fácil ou difícil deslocar-se, se é em campo aberto ou lugares estreitos, e isto influencia as possibilidades de sobrevivência. Representa a movimentação e o posicionamento em campo, o posicionamento físico. A forma como a equipa se movimenta. O sistema táctico.
  • O MANDO (liderança) – há de ter como qualidades a sabedoria, a sinceridade, a benevolência, a coragem e a disciplina. Está relacionado com os valores do líder.
  • A DISCIPLINA (competências e habilidades colectivas) – há-de ser compreendida como a organização do exército, as graduações e classes entre os oficiais, a regulação das rotas de mantimentos e a provisão de material militar ao exército. Representa a clareza organizacional da equipa, a coesão, o relacionamento dentro de campo, o entrosamento.

Cada vez mais, hoje em dia, a informação recolhida, a observação da organização do adversário, a recolha dos comportamentos padronizados ou caóticos, etc., são aspectos essenciais da preparação para a “batalha”. O scouting, as políticas de contratações e de formação são aspectos que podem fazer a diferença. Ter mais informação é ter mais poder, é ter mais capacidade de controlar as coisas. No entanto, ter informação sem ter a capacidade de decidir, sem uma liderança forte, sem a habilidade para filtrar o mais importante do residual, sem a capacidade de antecipação, é como a jogar cartas, ter um ás de trunfo e não o jogar quando devíamos. Ter um pensamento estratégico ajuda o líder a ter objectivos bem claros e definidos, e um ou mais planos de acção. Tudo isto aliado à capacidade de comunicar eficientemente com os liderados, à capacidade de ter uma relação empática, levará o “general” à conquista de mais vitórias e à glória dos seus “guerreiros”.

Sporting 2-0 Gil Vicente: Coincidências, chamam-lhe

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Há dois tipos de pessoas: os que acreditam em coincidências e os que não. Os que acreditam, aceitam as evidências sem as questionar e, muitas vezes, sem entender que as tendências têm quase sempre razões que as originam. Os que não acreditam em coincidências vão mais vezes ao fundo das questões. No campeonato português, e no Sporting em particular, há coincidências que parecem, umas mais do que outras, perfeitamente ocasionais. Não o são.

O Sporting de Marco Silva passou a conceder menos golos (e menos ocasiões aos adversários!) sensivelmente pela mesma altura em que deixou de apresentar a fluídez ofensiva que até aí vinha conseguindo gerar. Até aqui nada de novo. Mas porquê? Ainda hoje, o Gil só dispôs de uma oportunidade de golo, e mesmo essa foi gerada mais pela equipa de arbitragem do que pelo adversário leonino. O Benfica teve exactamente o mesmo número de oportunidades: uma. E mais exemplos existiriam.

Hoje, o Sporting não marca mais porque o guarda-redes do Gil Vicente assim não permitiu mas, por norma, a equipa de Alvalade não tem tido tantas oportunidades de golo como na primeira metade da época. A colocação dos extremos a dar largura, ao invés da procura pelo espaço interior que vinham adoptando, faz com que o jogo leonino seja exageradamente lateralizado e, por isso, menos perigoso. Assim, os laterais até passam a ter de atacar um pouco menos e, sobretudo isto, o espaço no corredor central passa a ser despovoado. O número de cruzamentos cresce, o número de perdas no meio diminui e, por isso, há menos situações de perigo… para cada lado. William passa a controlar melhor o jogo (na verdade, tem menos transições adversárias para controlar e mais espaço com bola para executar; daí a subida de rendimento), os extremos passam a desequilibrar menos porque estão mais longe da baliza (daí a descida de rendimento de Nani e de Carrillo), Montero passa mais dificuldades porque passa a ser solicitado através de cruzamentos e o jogo torna-se mais entendiante e cada vez mais parecido ao de Leonardo Jardim. Mas o Sporting deixa de sentir as dificuldades defensivas que sentiu na primeira metade. Este conjunto de factores é uma das coincidências que muitos analistas se esquecem de apresentar como uma não coincidência: a forma de atacar interfere com a forma de defender e o contrário também é verdade.

Por outro lado, hoje também é um bom fim-de-semana para falar de uma outra “coincidência” que se tem revelado decisiva para o encaminhamento do campeonato. Hoje, em Alvalade, deu-se mais uma arbitragem que poderia ter complicado o jogo aos leões. Ainda no início do jogo, João Mário foi (claramente) derrubado à entrada da área, existindo apenas lugar a dúvidas sobre se teria sido feita a falta dentro da área ou fora. Foi dentro, mas nada foi assinalado. Um pouco mais tarde, no final do primeiro tempo, o Gil dispôs da sua única ocasião de golo depois de Yazalde ter interferido no livre de William sem dar um metro que fosse para a cobrança do mesmo. A equipa visitante acabou por falhar, mas se marcasse estaria dado um passo gigante para que o Sporting acabasse por perder mais pontos na liga. E as coincidências, perguntam-me.

A coincidência é ontem, no terreno do Moreirense, o Benfica ter beneficiado (outra vez!) de muitas ajudas do apito. Desde a atribuição de um canto quando o correcto seria um pontapé de baliza até a uma misteriosa expulsão (por vermelho directo!!) por palavras, passando pela carga ilegal de Luisão no golo do empate ou do penalty por marcar de Eliseu sobre Danielson, com o resultado em aberto. Semanas antes, sem que se fale sequer nisso, Maxi Pereira estava em fora-de-jogo posicional (interfere na jogada porque pressiona o jogador do Sporting que era portador da bola) no lance do golo de Jardel, em Alvalade. Tal como em todas as coincidências viciadas, muito mais exemplos poderiam ser dados. E quem está atento (quem quer estar, sobretudo) sabe-o bem.

De resto, de assinalar as muitas alterações no onze do Sporting: Miguel Lopes cumpriu, mas continuo a achar que não dá a mesma profundidade de Cédric; André Martins, sem brilhar, esteve bem e porventura mais assertivo do que Adrien se tem apresentado; Mané não é, definitivamente, melhor do que Carrillo na actualidade; Tanaka está confiante e as coisas saem-lhe bem, embora me pareça que, nesta forma de atacar, Slimani vai ser sempre a primeira escolha de Marco Silva, assim esteja disponível. Do lado do Gil, pouco futebol e muito Adriano. Só assim evitaram a goleada.

A Figura:

Adriano – As defesas a Mané, na primeira parte, a Nani, de livre directo, e as diversas boas saídas dos postes foram muitíssimo positivas. Mas a defesa à finalização de Tanaka foi incrível.

O Fora-de-Jogo:

Jorge Tavares – Acaba por não ter influência no resultado, devido à superioridade do Sporting e devido ao falhanço do Gil na sua melhor oportunidade de golo, mas cometeu erros graves que poderiam ter mudado a história do jogo. Para além dos lances mencionados, é incrível como Semedo não vê o segundo amarelo e como foi muito mal assinalado um fora-de-jogo a Tanaka pouco antes de isolar Carrillo.

Foto de Capa: FPF

Todos caímos, apenas os fortes se levantam

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Depois do jogo do passado sábado, inúmeras foram as críticas dirigidas a Rui Patrício e, conseguindo dar de barato a graçola fácil para um qualquer adepto de clube rival, não consigo perceber os Sportinguistas que tão repentinamente se esquecem do que o guardião já deu ao Sporting Clube de Portugal.

Antes de continuar este texto, quero aqui ressalvar que fui um dos críticos de Patrício, aquando do seu início de carreira no meu clube. Continuo a achá-lo banal ao nível de jogo de pés e com alguma insegurança em momentos de aperto. No entanto, não valorizar a evolução do internacional português é digno de alguém que só ver uma cor – encarnado, por exemplo – à frente .

Dizer que um verdadeiro Sportinguista não crítica os jogadores do seu clube é demagogia bacoca e duma inverdade gritante. Quem nunca criticou um Krpan? Quem nunca se riu do Marian Had? Quem era capaz de ver um domínio de bola do Ribas sem soltar uma ofensa? Agora o que não podemos esquecer é daqueles que nos fazem bem, que estão lá nos momentos certos, para fazer exibições gigantes como a que Patrício realizou frente ao Chelsea em Alvalade esta temporada.

Durante épocas a fio, o capitão do Sporting tem vindo a ser um dos principais pilares do clube e do balneário, sem nunca levantar ondas, sem pedir – pelo menos publicamente – aumentos salariais ou exigir transferência para clubes que apoia desde infância. No entanto, grande parte dos Sportinguistas padece dum problema português, a necessidade de sentir falta, de suspirar pelo que já não tem; no fundo de sentir a tão nossa Saudade.

Sporting – Chelsea. Rui Patrício foi simplesmente brilhante Foto: Facebook Oficial do Sporting Clube de Portugal
Sporting – Chelsea. Rui Patrício foi simplesmente brilhante
Foto: Facebook Oficial do Sporting Clube de Portugal

E, muito provavelmente, Rui Patrício irá um dia sair do Sporting para experimentar outros campeonatos; e eu irei ter medo desse dia. Porque ter um guardião como o nosso custará muitos milhões ao nosso clube, ou então será preciso “criar” um novo Damas na Academia. Não devemos ter palas nos olhos, não podemos ser mal-agradecidos. Até aqueles que nas bancadas e nos sofás dizem que nunca gostaram de Patrício já aplaudiram as suas defesas, já festejaram as vitórias que ele nos deu; seja no Sporting ou na selecção.

Por fim, queria falar da Sagres e dos Charlies que apareceram esta semana. Não vejo nenhum problema no anúncio que a cerveja holandesa criou,e até lhe reconheço alguma piada e vanguardismo. No entanto, creio que esta mesma campanha comercial deveria continuar, com a mesma originalidade e para com todos os clubes, jogadores, árbitros e erros. Adoraria ver  um anúncio sobre o grande penalidade para o Porto que apenas Paulo Baptista viu, e após a terceira imperial, ou o golo limpo anulado ao Moreirense que apenas Capela, que estava ao balcão não apanhou.

Resumindo, e evocando uma frase dum dos melhores filmes de sempre…“O Captain, my Captain!”. Obrigado, Rui!

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal