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Força da Tática: O CD Santa Clara de Daniel Ramos

Jaime Silva · 10 min

Foto: Diogo Cardoso / Bola na Rede

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O CD Santa Clara já conta com a terceira participação seguida no primeiro escalão e está a fazer uma época bastante regular, militando na 7.ª posição da Primeira Liga. Orientada pelo mister Daniel Ramos, a equipa açoriana tem ideias de jogo bastante vincadas, valoriza muitos jogadores e pratica um futebol simples e eficaz. Observei vários jogos deste conjunto de modo a perceber um pouco as suas dinâmicas e o resultado foi este. Venham daí.

Onze Base

Sendo uma equipa bastante rotativa e um plantel com boas opções, a equipa de Daniel Ramos sofreu muitas mudanças ao longo do campeonato. Por isso, escolhi o que considero ser mais forte de acordo com as ideias da equipa técnica.

GR: Marco Batista

DD: Rafael Ramos

DC: Fábio Cardoso

DC: Mikel Villanueva

DE: Mansur

MC: Hidemasa Morita

MC: Anderson Carvalho

MO: Lincoln

AC: Cryzan

AC: Carlos Jr.

EE: Allano

Um 4-3-3 no papel que sofre várias mutações em campo, como vou mostrar nos quatro momentos do jogo que vou mostrar (exceto bolas paradas).

Organização ofensiva

 1ª fase de construção

 – A equipa de Daniel Ramos sai a jogar com três defesas, com o lateral esquerdo a assumir a linha dos centrais.

– Lateral direito (Rafael Ramos) projeta-se na ala, extremo esquerdo faz o mesmo na linha horizontal do lateral direito.

– 1.º médio (Morita) aproxima e recebe junto aos três defesas.

– 2.º médio (Anderson Carvalho) posiciona-se entre a 1.ª linha de pressão e linha média mais do lado esquerdo, de modo a atrair a pressão adversária para junto dele e poder explorar a projeção de Rafael Ramos e do extremo esquerdo.

– O médio ofensivo posiciona-se junto aos avançados, formando uma linha de três, mas este com mais liberdade posicional.

– Os dois avançados Cryzan e Carlos Jr fixam ao lado do médio ofensivo de modo a desorientar a linha defensiva adversária. Para poder explorar a profundidade e sobrecarregar as marcações individuais da linha defensiva adversária, o que vai obrigar a um maior esforço defensivo dos alas e dar mais espaço à construção da equipa.

– A equipa tende a construir curto e com paciência desde trás, mas não teme em jogar longo se acontecer uma diagonal interessante de um atacante. Contudo, sempre com esse critério.

– Na primeira fase de construção a equipa forma um género de um 3-2-5.

– A equipa explora claramente os corredores laterais, sendo os corredores onde a equipa cria mais perigo.

– O jogador mais influente na construção é Mikel Villanueva, mas desde a chegada de Hidemasa Morita em Janeiro que se têm igualado nesse aspeto.

– Os jogadores que mais recebem da linha de três tendem a ser os alas (Rafael Ramos e extremo esquerdo), contudo, os dois médios também são opção para fazer essa ligação com os alas, aumentando a imprevisibilidade nesta fase.

Zonas de criação e finalização

– O momento de aceleração acontece quando a bola chega aos alas e eles têm timing e espaço para conduzir ou explorar rapidamente a profundidade dada pelos avançados.

– Os defesas centrais (Fábio Cardoso e Mikel) exploram por vezes a condução com bola, sendo Mikel o mais perigoso nesta dinâmica dada a sua qualidade com bola no pé.

– A imprevisibilidade de movimentos do médio ofensivo é determinante quando a bola entra no ala. Ou sobe e explora a profundidade com o apoio dos avançados formando uma linha de três, ou recua e dá um apoio entrelinhas ao portador ou até descai na ala para arrastar marcação e poder combinar com o lateral.

– A equipa aposta na superioridade numérica nos corredores laterais já em zonas de criação.

– Esta superioridade é usada para aproveitar as “overlaps” dos alas que potenciam depois o cruzamento em zonas de desequilíbrio.

– Aquando da bola na ala, Carlos Jr descai no corredor da bola e Cryzan fixa-se na área. E vice-versa.

– A maior ameaça da equipa em criação é claramente através de cruzamentos para a área, devido ao poderio em duelos e facilidade de finalização de Carlos Jr e Cryzan. Sete golos no campeonato com recurso a cruzamentos.

– A equipa tende a colocar um e/ou dois jogadores à entrada da área nos cruzamentos.

– Se o médio ofensivo consegue receber entrelinhas, tanto Cryzan como Carlos Jr exploram rapidamente a profundidade.

– Extremo esquerdo e lateral direito atacam o segundo poste nos cruzamentos.

Transição defensiva

– Jogadores mais pertos da zona da perda reagem de forma intensa e pressionam o portador, mas quando esse jogador larga a bola não têm o “mindset” de fechar rapidamente os espaços.

– A equipa tem dificuldades em controlar a profundidade nas transições, nomeadamente os centrais.

– Tende a perder a bola em zonas junto à área adversária e em lançamentos laterais ofensivos.

– Após a perda e já em zonas mais defensivas, a equipa tem dificuldade em controlar os espaços quando a bola é jogada na largura: abre-se espaço entre defesas no lado da bola e também junto à área, devido ao facto de os jogadores que recuam se concentrarem demasiado junto à baliza.

– Após a perda, o principal objetivo da equipa de Daniel Ramos é reorganizar-se, apesar de os jogadores mais perto do portador serem agressivos na pressão.

– O bloco defensivo tende a recuar pós perda da bola, devido à dificuldade no controla da profundidade.

Organização defensiva

– Momento mais difícil de análise devido à clara e boa adaptação às características ofensivas do adversário.

– A equipa organiza-se num 4-3-3 com o médio ofensivo a fixar a 1.ª linha de pressão. Um 4-3-3 que se pode tornar num 4-4-2 se um dos laterais adversários se projetar (um dos avançados baixa para a linha média).

– A equipa tende a jogar em bloco médio ou médio alto, raramente ou nunca em baixo.

– A 1.ª linha de pressão tende a ser passiva, mudando para alta intensidade quando a bola entra nos corredores laterais, que é para onde é forçada essa pressão.

– As marcações são feitas geralmente à zona, com exceção de uma/duas marcações individuais, normalmente a jogadores mais velozes e desequilibradores.

– O espaço entrelinhas tende a ser um problema devido à falta de uma referência em frente à linha defensiva (Anderson Carvalho e Morita alternam entre si) e à criação de uma linha média horizontal de três em organização defensiva (posicionamento subido).

– O comportamento aéreo não é um problema devido à capacidade dos centrais neste momento do jogo. A consequente 2.ª bola também não compromete esta equipa devido ao seu compromisso defensivo.

– Dificuldades da linha defensiva no controlo da profundidade.

– Quando é obrigada a recuar, a linha defensiva mostra-se compacta e mais junta, abrindo espaços nas alas, com forte participação dos alas neste processo defensivo.

– Quando os laterais são atraídos para os corredores laterais em zonas junto à área, os centrais tendem a permanecer na área e nenhum dos médios fecha esse espaço na linha defensiva maior parte das vezes. Esta situação provoca um buraco enorme junto da baliza.

Transição ofensiva

– Momento não tão forte da equipa, tendo apenas um golo marcado decorrido de uma transição.

– A reação ao ganho da bola é intensa.

– Se recupera em zonas avançadas, a equipa ataca rápido a baliza adversária.

– Se recupera em zonas recuadas, a equipa tende a preferir manter a posse de bola.

– Procura rápida da profundidade, falta de opções a procurar bola no pé.

– Dificuldades na articulação, jogadores longe uns dos outros.

– Linha defensiva e um dos médios ficam sempre a equilibrar atrás.

– Carlos Jr é o jogador mais influente devido à sua inteligência a atacar o espaço vazio.

– Foco nos corredores laterais.

– Imprevisibilidade e polivalência do médio mais ofensivo.

– Forte aposta nos cruzamentos.

– Procura da profundidade dada pelos avançados.

– “Overlaps” dos laterais/alas.

– Paciência na posse de bola do conjunto de Daniel Ramos.

– Aposta no jogo longo com critério.

– Jogadores inteligentes a receber dentro dos blocos adversários.

Defensivas

– Agressividade na pressão ao portador.

– Entreajuda nos duelos (2.ª bola).

– Marcação espacial.

– Adaptação ao adversário.

– Preocupação com a referência ofensiva adversária (forte concentração na área).

– Linha defensiva compacta.

– Equipa comprometida no processo defensivo (todos os jogadores participam).

Principais debilidades

– Falta de uma referência à frente da defesa (médios formam uma linha).

– Dificuldades no controlo da profundidade (centrais um pouco lentos).

– Dificuldades no controlo da largura na transição (laterais participam muito no processo ofensivo).

– Daniel Ramos tem um conjunto com dificuldades nas coberturas em organização defensiva.

– Espaço entre central e lateral quando a bola está no corredor lateral.

– Falta de cobertura dos médios nesse espaço.

– Quando a bola está descoberta, a linha defensiva encontra-se pouco ativa, o que abre espaço nas costas.

– Dificuldades em fechar o espaço à entrada de área (concentração na área).

– Falta de capacidade de criar perigo em transição.

Principais figuras

Mikel Villanueva – Apesar de algumas dificuldades defensivas, a capacidade e a sua relação com bola tornam Mikel num jogador fundamental para Daniel Ramos no processo ofensivo da equipa. Critério, qualidade na condução, qualidade de passe e visão de jogo. Bom central.

Fábio Cardoso – Central mais decisivo no aspeto defensivo, apesar de ser um pouco lento e mostrar algumas dificuldades no timing de saída ao portador. Contudo, é decisivo nos duelos aéreos e no chão, no desarme e é forte na leitura de jogo, que lhe permite encurtar espaços e controlar os atacantes adversários. Muito aguerrido e agressivo.

Hidemasa Morita – Chegou em Janeiro, mas já agarrou a titularidade e assume-se como uma das contratações da época. Possui uma grande qualidade de passe, inteligência posicional, chegada à área e capacidade de finalização. Excelente reforço.

Carlos Jr. – O avançado brasileiro tem sido uma das figuras deste Santa Clara. Conta com oito golos e duas assistências na época, alia inteligência a explorar os espaços a uma grande capacidade de se associar com os colegas e qualidade na finalização. Determinante.

Cryzan – Companheiro de Carlos Jr. no ataque da formação de Daniel Ramos, tem sido tão influente como o colega. Leva quatro golos e quatro assistências na época, mas oferece muito mais à equipa. O seu poderio físico permite-lhe ganhar bastantes duelos e jogar de costas para a baliza, mas também ser uma referência na área. A sua irreverência e arrogância com bola tornam-lhe num jogador entusiasmante e importante nesta equipa.

Jaime Silva

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