Publicidade

Denílson no Real Bétis: o brasileiro que encantou Manuel Lopera e que chegou a deter o título de jogador mais caro da história

Ricardo João Lopes · 7 min

Denílson Real Bétis
Foto: Real Bétis

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Comentários (0)

O Real Bétis contou nos seus quadros com Denílson, que chegou a ser o detentor do título 'jogador mais caro da história'.

SEVILHA, ESPANHA- Em 1997, o mundo preparava-se já para a viragem do século, com todos os países do mundo ocidental a procurarem a modernização e o protagonismo global. No futebol, não era distinto. Vivíamos os primeiros anos da Premier League, que procurava destronar a Serie A como o campeonato mais poderoso do mundo. Os ingleses tinham dinheiro e queriam a maior audiência possível, proporcionando assim ao espetador os melhores encontros possíveis. Era uma batalha entre poderosos, que hoje em dia é quase inimaginável.

Em Espanha, a La Liga tinha uma boa cotação, mas ainda não estava no mesmo patamar que as suas congéneres. No entanto, o caminho traçado era claro. Ainda em 1990, o governo espanhol, farto de ver os clubes a gerarem prejuízos dantescos, criou a Ley del Deporte, que levava a que os clubes profissionais criassem uma Sociedade Anónima Desportiva. A partir desse momento, as instituições também passavam a ser empresas. Os únicos que escaparam a isto (por terem fechado as contas no positivo)? Barcelona, Real Madrid, Athletic e Osasuna. Presentemente, estes quatro emblemas continuam a pertencer aos sócios.

Nos anos 90, o desporto rei em Espanha passou a estar recheado de donos excêntricos, que procuravam reforçar os seus clubes com as maiores estrelas. O objetivo final? Bons resultados, mas acima de tudo, o lucro. Se atualmente confirmamos que a criação das SAD’s trouxe um desequilíbrio entre os dois primeiros classificados e os restantes, nessa fase não existia essa ideia, bem pelo contrário. A La Liga cresceu e ganhou outros protagonistas. O Deportivo de A Coruña crescia a olhos vistos, o Valência e o Atlético Madrid procuravam disputar o título. Real Sociedad, Real Zaragoza ou Real Bétis tinham direito a sonhar. Foi uma década que permitiu à La Liga confirmar que podia chegar mais alto.

Voltemos a 1997. Espanha estava modernizada, vivendo o começo da era Aznar e ainda na ‘ressaca’ da Expo 1992, realizada em Barcelona. Um ano que ficou marcado em outubro pela abertura do Guggenheim e pela cimeira da NATO em Madrid, ainda em julho. Nesse mês, o assassinato de Miguel Ángel Blanco por parte da ETA, despoletou a ira dos espanhóis.

O futebol, também fez parte dos destaques. Manuel Lopera assumira a liderança do Real Bétis em 1996 e queria que a turma do Benito Villamarín chegasse ao topo, transformando-se na referência da Andaluzia. O dirigente ainda não sabia que ia ficar na história da instituição. Durante os meses seguintes deixou-se encantar com Denílson, extremo que pertencia ao São Paulo.

Não era só Manuel Lopera que o jogador deixava entusiasmado. Com apenas 19 anos, Denílson dava espetáculo no Brasileirão, com a sua capacidade de drible e de finta bem acima da média. Constantemente comparado ao Romário, tinha tudo para ser a próxima grande estrela do Brasil. O que vimos Ronaldinho Gaúcho ser, acreditava-se que seria o futuro do atleta.

O seu primeiro apogeu deu-se na Copa América 1997, conquistada pelo Brasil. Denílson fez bailar os adversários e abriu o marcador, num encontro que a Canarinha venceu a Bolívia por 3-1. Manuel Lopera estava convencido. O problema? O Barcelona e o Real Madrid também. No contexto de 2026, seria quase impossível que os andaluzes levassem a melhor. Há 19 anos, a situação era bem diferente. Manuel Lopera não facilitou nem hesitou, pagando 30 milhões de euros ao São Paulo, numa transferência que passou a ser esta a maior contratação da história, destronando Ronaldo Fenómeno. O dirigente ainda deu o seu aval para que Denílson ficasse emprestado por mais uma época no tricolor paulista, para completar a sua formação.

O dia 29 de agosto de 1998 gerava cada vez mais expectativa nos adeptos, que queriam ver de verde e branco a sua nova coqueluche. Denílson chegava para ser arrasador, o novo craque de todo o campeonato. O contexto não era o mais fácil. Manuel Lopera não era uma pessoa ‘fácil’ e o banco de suplentes já tinha mexido antes da época começar. António Oliveira, depois do bicampeonato com o FC Porto durou apenas umas semanas no Real Bétis, devido a desentendimentos com a direção.

Denílson não foi o protagonista do encontro frente ao Alavés (spoiler, não foi protagonista de quase nenhuma partida), embora tenha sido titular.  Com o passar das semanas, o brasileiro não se conseguia adaptar ao futebol europeu. Existia uma expectativa elevada para o ver em ação junto a Alfonso Pérez e a George Finidi. Porém, 1998/99 foi uma desilusão. O 11º. lugar refletia bem isso. Os dois golos marcados pelo brasileiro também.

Manuel Lopera não desistiu e deu margem a Denílson. Afinal, estamos a falar de um investimento de 30 milhões de euros. Hoje, parece pouco. Naquela altura, era história. Porém, a época da viragem do século ficou marcada pela tragédia no Benito Villamarín. O Real Bétis, apontado à luta pelo acesso à Champions League, acabou despromovido e Denílson não foi mais consistente que na temporada anterior. Foram 32 encontros disputados e três tentos, o que levava a imprensa espanhola a julgar a sua aquisição.

Denílson mostrava rasgos da sua qualidade, mas era extremamente irregular e não compensava ao Real Bétis ter um ativo assim. Manuel Lopera insistia em não vender o jogador e em 2000 foi cedido ao Flamengo, procurando recuperar a sua alegria. Os registos não foram os mais animadores (17 partidas e quatro golos), mas a cedência deu frutos.

O extremo regressava à Andaluzia mais maduro, pronto a ajudar um Real Bétis que estava na La Liga 2. Denílson reentrava num plantel que tinha uma nova estrela: Joaquin. O espanhol tinha apenas 19 anos e vinha da cantera, o que o transformava automaticamente num dos jogadores preferidos dos aficionados. Denílson passava a ter menos responsabilidade, mas o peso de ter sido o jogador mais caro da história continuava a existir.

O brasileiro continuava a ser irregular, mas pelas mãos de Juande Ramos viveu os seus melhores momentos no Real Bétis. 2001/02 foi uma temporada positiva em toda a linha. Os béticos finalizaram o seu regresso à La Liga com um sexto lugar. Denílson convenceu Luiz Felipe Scolari de que merecia um posto na seleção que iria ao Mundial 2002. Na Coreia do Sul e no Japão, o extremo não foi titular, mas participou em cinco partidas, deixando a sua marca. No final, uma medalha de ouro para casa e a glória eterna no coração dos brasileiros.

Denílson voltara a ter o mundo aos seus pés, mas a sua trajetória decrescente tinha arrancado. A grande culpada? Uma lesão no joelho direito que já tinha estado presente no Mundial 2002, que o forçava a parar por algumas semanas e a não mostrar a sua melhor versão. O atleta tentava brilhar, mas não conseguia. A sua inconsistência era fruto das lesões e não da falta de qualidade.

A esta altura, o brasileiro era um coadjuvante no Real Bétis, longe dos holofotes. Denílson poderia ajudar a equipa a partir do banco, não mais do que isso. Manuel Lopera sabia que não voltaria a reaver os 30 milhões de euros investidos. Todavia, faltava uma última página nesta história.

Denílson não deixou o Benito Villamarín de mãos a abanar. Conquistou a Taça do Rei em 2004/05, uma época em que participou somente em 10 encontros. A glória chegou mesmo no último capítulo. Apesar de em 1997 ter assinado um contrato válido por 10 temporadas, o extremo não cumpriu o seu vínculo até ao fim. Em 2005, o Bordéus pagou 500 mil euros pelo seu passe, na esperança de revitalizar o jogador. Denílson entrou no Benito Villamarín como a próxima grande estrela. Saiu pela porta dos fundos, sem grandes aplausos.

Também não alcançou o sucesso em França e encerrou a sua carreira em 2009/10, fustigado por lesões no joelho direito. Denílson não conseguiu ser o jogador pelo qual Manuel Lopera se encantou. O que fica para a história? Uma transferência de 30 milhões de euros que não compensou. Um virtuoso que a espaços muito largos mostrou o que poderia ser. A expectativa de uma afición que nunca chegou a ser satisfeita.

Denílson podia ter sido o que Ronaldinho Gaúcho foi. Não deixa de ficar na história, mas por outros motivos. Hoje em dia, desempenha a função de comentador desportivo, enquanto o ex-Barcelona ainda joga, depois de ter vivido anos de polémicas.

Já Manuel Lopera, que até viu o Benito Villamarín mudar para o seu nome (voltou a ter a designação original em 2010), saiu da liderança do Real Bétis em 2006, apesar de se ter mantido por mais algum tempo como acionista maioritário. Acabou por ser condenado por delitos contra as finanças. Faleceu em 2024.

Ricardo João Lopes

Redação Bola na Rede · ver artigos

Comentários 0

Comentários moderados.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a dizer o que pensas.

    Respeita os outros leitores: insultos, spam e discurso de ódio são removidos. Política de privacidade.

    Continua a ler

    as mais recentes
    Opinião

    Em Portugal, as listas são horizontais, em Espanha, são verticais: o Real Bétis também é uma escola de extremos (e Souleymane Faye passou por lá)

    SEVILHA, ESPANHA- Ao pensarmos em escolas de formação, com a sua especialidade em extremos, o nosso cérebro vai pensar automaticamente no Sporting. Cristiano Ronaldo, Nani, Simão Sabrosa e Ricardo Quaresma são o expoente máximo de craques saídos da cantera do emblema do José de Alvalade, capazes de fazer magia a partir da linha, procurando espaços interiores ou dando profundidade nas zonas exteriores, aliando-se ao lateral. Nos últimos anos, Espanha assumiu-se como o país protagonista no futebol, não apenas nos seniores, mas também na formação. As academias ganharam um papel importante no desenvolvimento do desporto rei desde a viragem do século, com vários emblemas a apostarem na manutenção e criação de infraestruturas para que os atletas possam atingir os níveis máximos. As conquistas do Euro 2024 e do Mundial 2026 provam este ponto. São a cereja no topo do bolo de um processo que obviamente não se construiu de um dia para o outro.

    Ricardo João Lopes · 7 min de leitura
    Ler a crónica

    Newsletter Bola na Rede

    Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

    Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.