Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Quando pensamos no mais incrível Tour de France, quase sempre nos vem à cabeça o de 1989 com a inacreditável reviravolta por oito segundos de Lemond no contrarrelógio dos Campos Elísios, mas há um outro quase tão emocionante e com ainda maior importância para a história da modalidade, o de 1971.
Eddy Merckx é considerado unanimemente como o melhor ciclista de todos os tempos. 1964 em Sallanches foi o primeiro passo com a conquista do título mundial de amadores e, após o triunfo no Giro de 1968, os sucessos surgiram rapidamente, terminando a carreira com cinco Tours (e 34 etapas), cinco Giros (e 24 etapas), uma Vuelta, três Campeonatos do Mundo, sete Milano – Sanremo e tantas outras vitórias no palmarés.
Este período da história do Ciclismo foi, simultaneamente, brilhante e negro. Por um lado, o belga somou recordes em catadupa e presenteou os adeptos com exibições heróicas. Mas o seu avassalador domínio também teve o nefasto efeito de dar às provas em que participava uma (pouco desejada no mundo do desporto) previsibilidade.

Fonte: Le Tour de France
No Tour de 1971, contudo, Luis Ocaña estava decidido a dar a volta ao fatalismo do vencedor pré-anunciado. Oito meros dias mais velho que Merckx, o espanhol havia entrado para a elite do ciclismo no ano anterior ao vencer a Vuelta e preparara o Tour, levando o belga ao limite no Paris-Nice e no Dauphiné Libéré.
Chegados à La Grande Boucle, rapidamente, Eddy Merckx começou a impor o seu domínio, com a sua equipa a vencer o contrarrelógio por equipa inaugural e o Canibal a vestir de amarelo. O seu equipier Wagtmans também teve direito a um dia de maillot jaune, mas Merckx rapidamente a recuperou e a envergou até à etapa nove. Pelo meio, Merck e Ocaña aproveitaram para vencer uma etapa cada um, o belga em Strasbourg e o espanhol no alto do Puy de Dôme.
À décima jornada, Merckx mostrou fraqueza e cedeu tempo para os seus adversários da Geral, com Joop Zoetemelk, que venceria o Tour em 1980, a aproveitar para desfilar de amarelo pelas estradas francesas pela primeira vez na carreira.
Para ganhar o Tour era preciso aproveitar o momento de fraqueza do Canibal, e Ocaña tinha o guião para o fazer.
O ATAQUE
De Grenoble a Orcières-Merlette, os ciclistas percorreram 134 quilómetros, grande parte deles pela Route Napoléon, por onde Napoleão fez primeira parte da sua marcha até à derrota final em Waterloo. Espalhadas pela estrada, encontram-se estátuas da águia imperial francesa, mas para Ocaña bem poderiam ser lembretes da águia de Toledo – Federico Bahamontes, à data o único espanhol a ter ganho o Tour – a inspirá-lo para uma das mais épicas cavalgadas a duas rodas.
Para Ocaña e o seu Diretor Desportivo, De Muer, havia um plano claro, mas era preciso ajuda e o homem certo para isso dava pelo nome de Joaquim Agostinho. A participar no Tour pela terceira vez, poucos dias após conquistar os campeonatos nacionais tanto no contrarrelógio como em fundo, Agostinho tivera uma primeira parte da Grande Boucle tranquila e ansiava pelas dificuldades montanhosas para escalar a tabela classificativa.
Os homens da equipa Bic recrutaram-no, então, para ajudar a colocar a pressão desde o primeiro momento. Assim, na noite anterior à etapa, De Muer explicou o plano a Agostinho e este dispôs-se a ajudar. Numa das últimas entrevistas que concedeu antes de falecer, o técnico francês não poupou elogios ao torreense: «Agostinho era assim, uma estrela de ciclista, um dos melhores rapazes que havia, alguém que se tornou a grande figura esquecida do desporto».
Assim, na primeira das três subidas do dia – o Côte de Laffrey, com 7,5 quilómetros a 18% de pendente média -, Joaquim Agostinho assumiu a dianteira, pôs prego a fundo e deixou toda a gente em dificuldades. No final da subida, com ele já só restavam Ocaña, Pettersson, Zoetemelk e Van Impe e foi este grupo que trabalhou afincadamente para colocar tempo entre si e Merckx.
Na segunda escalada da jornada, Ocaña mostrou a sua superioridade e rapidamente se isolou na frente, e, daí em diante, o espanhol foi somando minuto após minuto e chegou à meta com quase seis minutos sobre Van Impe, e mais de oito sobre o grupo do Canibal. A grande escapada era recompensada, Ocaña era o novo herói da maillot jaune e, envergando pela primeira vez o símbolo de líder do Tour de France, fazia-o com a soberba de ter oito minutos e 43 segundos de vantagem sobre o segundo, Zoetemelk.
O próprio Merckx, perseguindo praticamente sozinho durante toda a etapa, fez uma exibição soberba e ainda acabou em terceiro do dia. Contudo, nos seus Carnets de Route desse ano, chamou-lhe «a mais terrível derrota da minha carreira». A mais de nove minutos e meio do líder e declarando que «sou incapaz de atacar», parecia que a era do Canibal estava a chegar ao fim.
A QUEDA
Mas Eddy Merckx não atirou a toalha ao chão. Havia ainda força no Canibal e muito Tour pela frente para tentar reclamar aquela camisola amarelada que agora lhe escapava, mesmo que ninguém nisso houvesse apostado uns meros dias antes.
Logo no etapa seguinte, a 12.ª, houve espaço para loucuras. Com alguns colegas de equipa, Merckx atacou nos metros iniciais duma etapa plana de mais de 250 quilómetros e, durante cinco horas, o seu grupo da frente de nove foi perseguido arduamente por um pelotão enraivecido, chegando a Marselha meia hora antes do previsto e com quase dois minutos recuperados face ao rival. Sucedeu-lhe um contrarrelógio de 16,3 quilómetros em Albi e Merckx saiu vencedor, mas Ocaña foi segundo, cedendo somente 11 segundos. Dois dias de ganhos para o belga, mas o espanhol continuava com uma soberba vantagem de mais de sete minutos.
Três subidas marcavam a parte final da jornada que se seguia e os primeiros 100 quilómetros já indicavam que haveria luta entre os dois galos do pelotão, com ambos a colocarem um par de companheiros na frente da corrida, de onde José Manuel Fuente acabaria por resistir para vencer a etapa.
Finalmente, o momento dos escaladores. Primeiro, o Portet d’Aspet. Merckx ataca várias vezes, mas Ocaña não lhe larga a roda e no topo continua tudo igual. Em segundo vem o Col de Menté. Novamente, Merckx acelera uma e outra vez, Ocaña continua a segui-lo e novamente passam juntos na contagem de montanha.
Entretanto, também a meteorologia decide ajudar o tom épico da etapa e uma chuva torrencial abate sobre os ciclistas. Bernard Thévenet, que acabaria quarto no Tour de 1971, descreveu assim as condições enfrentadas: «era uma chuva tão pesada, nunca vi nada assim antes ou depois, era como ter baldes de água a serem descarregados na tua cabeça».
Sem medo, Merckx continua impiedoso e, pressentindo que o espanhol começa a apresentar debilidades, passa ao ataque também na descida. A velocidade estonteante e com os pés já a servirem de travões, é sem surpresa que, umas curvas mais à frente, acabem os dois no chão.
Van Impe era o mais próximo do duo e, pouco atrás, seguia Joaquim Agostinho. Nono à partida para a etapa, o português ia mostrando os seus dotes de escalador para se manter na dianteira e procurar melhorar a posição na Geral. Chegado à fatídica curva, também ele iria ao asfalto, mas não só por culpa da tempestade.
Descendo a alta velocidade, naquele local foi encontrar Luis Ocaña e contra ele embateu contra toda a violência, deixando o espanhol novamente prostrado no chão. Ocaña ainda fez o esforço para se reerguer, mas o destino de Agostinho repetir-se-ia, desta vez com Zoetemelk.
Enquanto Merckx continuava descida abaixo, Ocaña havia esperado para trocar uma roda na qual furara e esses instantes foram o fim do sonho. Os poucos registos que há do evento não mentem e neles podemos ver a agonizante dor do espanhol, forçado a abandonar de amarelo. Acabaria por não ter fraturas, mas o trauma era visível na parte superior do seu corpo e, durante dias, custava-lhe a respiração.
A bem ou a mal, o Canibal vencia novamente. Não sem mazelas, cairia ainda mais duas vezes na descida e faria o restante da prova com um estilo bem mais defensivo que o habitual, ainda assim suficiente para somar mais duas vitórias de etapa e triunfar na Geral final com mais de nove minutos de avanço sobre o segundo classificado, Zoetemelk.
Por seu turno, Agostinho chegaria a Paris no quinto posto da Geral, dando a Portugal a sua melhor classificação de sempre na mais importante prova velocipédica, melhorando o seu próprio oitavo de 1969 e o décimo de Alves Barbosa em 1956. Até ao final da carreira, terminaria por mais seis vezes entre os dez primeiros do Tour, incluindo duas subidas ao podium final.
O que teria acontecido à carreira do invencível Canibal se não tivesse ganho este Tour? O que mudaria na história do Tour se Ocaña tivesse ganho? E teria sequer Ocaña ganho se não tivesse caído? Johnny Schleck, colega de equipa de Ocaña nesse fatídico Tour, colocou em palavras os pensamentos de muitos, «se tudo se mantivesse igual, ele [Ocaña] teria na mesma derrotado Merckx, mas temos sempre de colocar algo em parêntesis: Merckx era Merckx».
Foto de Capa: CM Torres Vedras
Artigo revisto por Joana Mendes











