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Hoje falamo-vos de algumas das maiores traições do Futebol Português. O nosso campeonato não lida bem com trocas de jogadores entre clubes rivais. Ao contrário do que historicamente se foi verificando em campeonatos como Itália ou Inglaterra, um jogador que em Portugal troca o seu clube por um rival direto, fica quase que imediatamente riscado pela massa adepta do anterior clube, normalmente rotulado de vendido ou traidor.
Existiram alguns exemplos claros do que acabei de mencionar, com transferências sempre envoltas de enorme polémica e contestação. Por esse motivo, decidi elencar algumas das principais “trocas” de emblema em Portugal, que na maior parte dos casos tornou os atletas figuras odiadas por uma massa adepta que normalmente os aplaudia e venerava.
André Carrillo (Sporting CP/SL Benfica)
.@18andrecarrillo é reforço por cinco anos. Sabe tudo na #BTV às 14h00. #EPluribusUnum pic.twitter.com/D8cnMHma1o
— SL Benfica (@SLBenfica) July 1, 2016
Foi já com Bruno de Carvalho como presidente do Sporting CP que se deu a última mudança direta entre os dois rivais. O internacional peruano representou os leões entre 2011 e 2016. Depois muda-se a custo zero para os encarnados em mais uma transferência que abanou a opinião pública e que fez correr muita tinta. No seu último ano do contrato com o Sporting CP, Bruno de Carvalho não facilitou e o jogador fez apenas sete jogos e acabou a treinar sozinho. Já se estava a adivinhar o que viria a seguir: uma transferência a custo zero para o grande rival.
Esta gestão de carreira acabou por ser ruinosa para o jogador: perdeu protagonismo em Alvalade, nunca se impôs na Luz, acumulou um número reduzido de minutos em duas temporadas seguidas que lhe custaram igualmente o destaque na seleção. Depois de uma passagem por Inglaterra, acabou por ingressar na Arábia Saudita, onde ainda permanece, ficando claramente a sensação de que para a qualidade técnica apresentada, podia ter atingido outros patamares de protagonismo se tivesse sido mais inteligente na gestão da relação com os clubes.
Custódio (Vitória SC/SC Braga)
ADN 💯% Gverreiro! 🧬🗡
Custódio assume a liderança da equipa principal do SC Braga! pic.twitter.com/zPGl4zMnMa— SC Braga (@SCBragaOficial) March 5, 2020
Corria o ano de 2010 quando ocorreu uma pouco usual transferência direta entre os rivais do Minho. Custódio era atleta do Vitória SC (onde aliás foi formado antes de rumar ao Sporting) e decidiu que o próximo passo na carreira envolveria deixar de ter ao peito o D. Afonso Henriques para passar a ser um Guerreiro do Minho.
Previsivelmente, a transferência não foi bem vista pelos adeptos Vitorianos, que foram aguentando os seus impulsos até fevereiro de 2012. Nesse mês, a casa em Guimarães do futebolista foi vandalizada, numa atitude relacionada com a forma como o médio festejou o seu golo na goleada por 4-0 que a equipa Bracarense impôs ao Vitória SC. No muro da sua casa foi possível encontrar mimos como “Traidor” ou “Vendido”. Sabendo da paixão Vitoriana pelo futebol e pelo clube, dificilmente Custódio passaria por uma situação destas de forma pacífica.
Simão Sabrosa (Sporting CP/ SL Benfica)
Simão Sabrosa celebra hoje o seu aniversário. Muitos parabéns, Simão! 🎁🎂 #EPluribusUnum pic.twitter.com/WkUJCvVpep
— SL Benfica (@SLBenfica) October 31, 2017
“Sou benfiquista. A partir do momento em que me tratam mal no Sporting e me tratam bem no Benfica e depois de tudo o que vivi no Benfica, sou benfiquista”.
Foi assim que o antigo internacional Português resumiu a sua passagem pelos grandes de Lisboa. Com dezassete anos, quando era ainda júnior, foi chamado à equipa principal do Sporting, marcando na estreia e no seu primeiro toque na bola em pleno Vidal Pinheiro. Parecia uma história de amor que tinha tudo para dar certo, mas após três épocas de leão ao peito e de uma passagem de dois anos pelo FC Barcelona, de forma surpreendente ingressa no SL Benfica, onde acabaria por ficar seis épocas antes de voltar a Espanha. Durante esses seis anos tornou-se uma verdadeira lenda dos encarnados, colecionando quase 100 golos, assistências, polémicas e a braçadeira de capitão. Ainda hoje é um forte símbolo do clube e do período em que a rivalidade SL Benfica – Sporting CP estava especialmente acesa.
Liedson (Sporting CP/ FC Porto)
Hoje um dos maiores ’31’ para a cabeça dos defesas adversários celebra 39 anos!
Parabéns, ‘levezinho’ #Liedson! pic.twitter.com/n8EPBTKtcQ
— Sporting Clube de Portugal (em 🏠) (@Sporting_CP) December 17, 2016
Uma contratação estranha e sem grande nexo por parte do FC Porto leva um Liedson, quase em fim de carreira, a trocar o CR Flamengo por seis meses de dragão ao peito. O jogador que chegou a ter uma cláusula num contrato em que prometia que qualquer regresso a Portugal seria exclusivamente ao Sporting, acabou por manchar a sua boa imagem junto dos adeptos Leoninos com este inusitado retorno. Muitos poderão dizer que estes seis meses pouco ou nenhum interesse tiveram para a carreira do avançado luso brasileiro, mas a verdade é que a sua única intervenção direta num golo do FC Porto resultou numa assistência para Kelvin aos 92 minutos de um decisivo FC Porto x Benfica. Abandona Portugal como campeão nacional, mas sem credibilidade junto de Alvalade.
Valeu a pena, levezinho?
Derlei (FC Porto/ SL Benfica/ Sporting CP)
Derlei não tem dúvidas de que “o FC Porto é o clube mais especial” que representou. http://t.co/qZIJeZxeVI. pic.twitter.com/mXsPERtZS4
— FC Porto (@FCPorto) November 27, 2013
Um dos pouco a fazer o “pleno” dos grandes, algo que se tornou quase impossível nos dias de hoje. Derlei foi o último a consegui-lo. Apesar de tudo, a sua imagem ficará sempre fortemente associada ao FC Porto, uma vez que foi um dos jogadores mais importantes nas conquistas Europeias de 2003 e 2004 – «Joguei no Benfica, ganhei até duas supertaças [e uma Taça de Portugal] pelo Sporting, mas quem me conhece melhor sabe que sou portista desde o momento em que joguei no FC Porto. Foi o clube que mais me deu, está noutro patamar, mas como bom profissional que fui, dei sempre tudo quando joguei contra o FC Porto».
O rendimento do “Ninja” foi de altos e baixos à medida que foi mudando de clube: começou com 39 golos ao serviço do FC Porto, fez um golo ao serviço do SL Benfica e acabou com 13 tentos de leão ao peito. Mais um jogador que viveu os seus tempos de ouro na invicta.
Zlatko Zahovic (FC Porto/ SL Benfica)
Parabéns, Zlatko Zahovič! #EPluribusUnum pic.twitter.com/r4KImldyZl
— SL Benfica (@SLBenfica) February 1, 2017
A transferência não foi direta entre clubes, mas foi dolorosa para os azuis e brancos. Era um jogador muito acarinhado pelos adeptos, que viveu o seu período de ouro na invicta (foi Tri, Tetra e Pentacampeão) e que depois de um ano com pouco brilho em Valência, decidiu regressar a um país que tão bem conhecia para jogar no SL Benfica. À semelhança do que tinha acontecido em Guimarães e no Porto, Lisboa foi também uma cidade de bons ventos para o Esloveno. Sai da Luz duas épocas depois com o título de campeão.
Em 2017 confessou: «Aprendi a gostar do Benfica. Eu sei que é muito difícil explicar aos portugueses isso. Como explico a um português que amo o FC Porto e o Benfica? Não dá, ninguém compreende. Mas é verdade».
Ljubinko Drulovic (FC Porto/ SL Benfica)
Ljubinko Drulovic, 50.º 🎊🎁
👉 Pentacampeão de Portugal
🏆 4 Taças de Portugal e 5 Supertaças
➡ Deixa a tua mensagem de parabéns#FCPorto pic.twitter.com/lZlEkYDRDh— FC Porto (@FCPorto) September 11, 2018
Um dos mais categorizados estrangeiros do futebol português, decidiu prosseguir a sua carreira na Luz após sete anos nas Antas, onde fez parte da espécie rara dos jogadores pentacampeões. Uma mudança que surpreendeu o próprio jogador, que desde essa altura diz não entender porque não continuou de dragão ao peito. Aliás, o jogador experienciou uma situação muito rara no futebol português – «Lembro-me de um jogo na Luz em que estava no banco e quando saí para aquecer, atrás da baliza era só adeptos do FC Porto. Quando me levantei, os adeptos cantaram por mim. Foi um momento marcante».
Em algumas entrevistas, mantendo as lágrimas a custo, confessou a mágoa de deixar o FC Porto, mencionando que o clube não quis renovar o contrato. Uma decisão de gestão de Pinto da Costa que ainda hoje não se percebe, tendo em conta que este jogador providenciou valiosas assistências e deliciou os adeptos do FC Porto durante sete anos.
Ficou a ganhar o SL Benfica, que durante duas épocas aproveitou os seus maravilhosos cruzamentos.
Paulo Sousa (SL Benfica/ Sporting CP)
#SLBNesteDia: em 1993, dá-se a segunda baixa do “Verão Quente”. Paulo Sousa rescinde com o @SLBenfica alegando salários em atraso. O seu destino será o @Sporting_CP. pic.twitter.com/uVe6pwe2nH
— SLB Vintage (@SLBVintage) June 21, 2018
Quente verão de 1993. Aproveitando a crise no Benfica e a proposta tentadora de Sousa Cintra, o médio troca a Luz por Alvalade. Paulo Sousa confirmou todo o seu potencial, assumindo-se como patrão dos leões antes de rumar a Itália, onde se sagraria campeão europeu pela Juventus FC.
O impacto desta transferência foi de tal modo que Paulo Sousa enfrentou uma total rejeição por parte dos adeptos do Benfica, que se mantém até aos dias de hoje. Um cenário que se percebe, já que no final de contas estamos a falar de um importante produto da formação, que só na sua última época de águia ao peito participou em 40 jogos.
Yannick Djaló (Sporting CP/ SL Benfica)
À semelhança de Liedson, tendo em conta o seu fraco rendimento no Seixal, não é uma traição particularmente dolorosa para os Sportinguistas do ponto de vista estritamente desportivo. Ainda assim, foi no mínimo “estranho” ver um jogador que durante muitos anos foi uma das figuras de proa do Sporting CP e que representava o que de bom se formava em Alcochete. Um jogador muito associado à imagem de “menino da casa”, motivo pela qual considerei que merecia uma menção nesta lista.
Cristian Rodriguez (SL Benfica/ FC Porto)
Oriundo do PSG, aterrou em Lisboa (ironicamente junto com Maxi Pereira) para uma época de empréstimo com a águia ao peito, na qual impressionou muita gente. Impressionou tanto, que no final da época surgiu mais um dos sempre interessantes e conhecidos duelos FC Porto x SL Benfica que durante várias janelas de transferências nos deliciaram a todos e que providenciaram muitas e boas capas aos principais jornais desportivos. Acabou por ingressar no FC Porto onde ficaria quatro épocas. Sem nunca ter sido um titular absoluto e indiscutível, foi sempre um jogador muito utilizado e com enorme utilidade, acabando por contribuir para quatro anos de grande sucesso na invicta, incluindo o super ano de André Villas Boas.
O futebolista uruguaio mais titulado da história, refere que a mudança não foi uma traição, mas um ato de coragem: “Eu só sou adepto do Peñarol, na altura era o único clube do meu coração. Depois passei a ser adepto também do FC Porto. Mas, como dizia, eu só seria incapaz de trocar o meu Peñarol pelo Nacional de Montevideu. Isso sim, seria uma traição. O Porto confiou em mim, aceitei o desafio e senti-me rapidamente parte dessa família”.
Na próxima semana completamos uma lista que vai aquecer.
Boas leituras.
Artigo revisto por Inês Vieira Brandão











