Inglaterra 0-0 Escócia: Ideias, alguém tem?

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A CRÓNICA: E QUANDO SE ESPERAVA REEDIÇÃO DE ’96… HOUVE DE 1872!

O confronto futebolístico mais antigo do planeta e uma rivalidade de 900 anos prometia mais um encontro escaldante entre Inglaterra e Escócia, o 116.º entre as duas selecções. O primeiro, em 1872, acabou num arrebatador 0-0 – desajustado para a época.

Esperava-se mais para o encontro de hoje, e a ‘Tartan Army’ invadiu Londres confiante em espectáculo de outro calibre: foram noticiados aproximadamente 25 mil escoceses nos arredores de Wembley e, dentro do recinto, eram 2500. Audíveis, sobretudo, aquando do hino rival que também é o seu – o God Save The Queen, hino oficial dos integrantes do Reino Unido, é substituído em eventos desportivos pelo Flower of Scotland, que também mereceu, naturalmente, assobios dos adeptos da casa.

Estavam criadas as condições para um grande jogo de futebol, 25 anos depois do último na fase final duma grande competição continental. Lembrando Gascoigne e o seu momento de génio, Phil Foden entrava de cabelo platinado para acalentar esperanças em repetir exibição idêntica da Inglaterra, dando continuidade aos bons apontamentos frente à Croácia e que lhe deram estatuto de estrela da equipa.

Depois do empate entre Croatas e Checos, umas horas antes, a equipa dos Três Leões sabia que uma vitória os qualificava automaticamente para a próxima fase. Aos escoceses, derrotados na primeira jornada, importava sobretudo pontuar e continuar a sonhar com o terceiro lugar.

Esperava-se então, acima de tudo, efervescência. Confrontos físicos, muita disputa na intermediária, prudência de parte a parte – o que se confirmou, quando no primeiro lance da partida Dykes faz tombar Luke Shaw em disputa aérea. McGinn, jogador do Aston Villa, puxou para si os pergaminhos de principal agitador emocional, sendo acalmado pelo árbitro espanhol, Lahoz, que lhe mostrou o amarelo aos 16’.

Perigo junto das balizas era raro, apesar dos intervenientes do lado da Inglaterra: com Mount, Sterling e Kane, além de Foden, teve que ser Stones a avisar primeiro os escoceses, que subiu lá acima para cabecear ao poste. A resposta do lado contrário demorou até á meia-hora, quando Tierney conquistou a ala esquerda e cruzou, em balão, para o segundo-poste e onde aguardava O’Donnel, que obrigou Pickford a grande estirada com remate cruzado.

Se em oportunidades se fixava o empate, como no jogo, na posse de bola era goleada inglesa – 65 para 35% – ainda que se traduzisse em domínio inconsequente, posse de bola inofensiva e várias tentativas falhadas de penetrar no bloco rival; Á Escócia cabia esperar e tentar manietar a criatividade inglesa: o duelo Gilmour-Mason Mount, numa marcação cerrada á moda antiga, foi um dos principais destaques táticos da primeira metade.

No segundo tempo, continuaram as ideias inglesas a esbarrar na má vontade escocesa. A toada morna que caracterizou a maior parte do encontro só foi interrompida em raras ocasiões, como aquela em que Dykes vê o golo ser negado em cima da linha por James (61’) – aliás, o equilibrio nas aproximações á baliza foi tanto que, a dez minutos do fim, a Escócia tinha mais remates que Inglaterra: 10 para 9.

A entrada de Grealish ou Rashford pouco acrescentaram, a Inglaterra não mostrou argumentos para merecer os três pontos e o empate final acaba por ser justo. A situação agrada aos dois lados, que confiam numa última jornada em grande estilo para garantir a passagem á fase a eliminar, que seria uma estreia para a Escócia.

 

A FIGURA

Grant Hanley – Central á antiga: alto, robusto e com mais apetência para os duelos individuais que o contacto com a bola – características que o tornaram no jogador ideal para as circunstâncias desta partida, pela envolvência humana e pelas condições meteorológicas. Manietou Harry Kane como pôde, foi a âncora que segurou McTominay e Tierney a seu lado e assegurou a notável eficácia defensiva dos escoceses.

Liderou a grande resistência ao cerco montado pelos artistas ingleses e esteve irrepreensível em todos os momentos: sempre ciente das próprias limitações. A 10 minutos do fim, o lance chave do encontro – quando, no limite, evitou Rashford de se isolar e ficar frente a frente com Marshall. Limpinho!

O FORA DE JOGO

Gareth Southgate – Se demorar jogo e meio a estrear Grealish é, por si só, mau sinal, o que dizer quando a sua entrada representa o sacrifício de… Phil Foden? A impossibilidade de coexistência das principais estrelas de Inglaterra – ideia traduzida sobretudo pelo duplo pivot conservador que manteve na totalidade dos dois jogos – impossibilitou sonhar com outros desfechos.

Se a troca de laterais era bom augúrio para este encontro e sustentada por justificação lógica, a efectividade dessa mudança não foi visível no rectângulo de jogo. Luke Shaw e Reece James raramente foram opções na exploração da linha de fundo, estando mais preocupados com a prudência posicional e a participação na circulação de bola em terrenos mais interiores. Não satisfeito pelo sacrifício de Foden, aos 60’, ainda retirou Harry Kane um quarto de hora depois: sem a referência em campo, extinguia-se definitivamente o esclarecimento da Inglaterra no último terço.

 

ANÁLISE TÁTICA – INGLATERRA

Na Inglaterra, manteve-se o 4-2-3-1 apresentado frente á Croácia, com o duplo pivot Rice-Philips no comando das operações. Walker e Trippier deram lugar a Reece James e Luke Shaw, mas não se notaram diferenças no comportamento posicional, sendo a largura ofensiva proporcionada pelos três criativos.

Mason Mount ocupava a meia esquerda  para receber de frente para o jogo, sempre controlado por Billy Gilmour; Sterling, mais vagabundo, tentava explorar – muitas vezes com perigo, sim – o espaço entre McTominay e Hanley na zona central; Foden, partindo da direita, procurava criar perigo recorrendo à canhota. O bloco baixo do lado contrário foi onde esbarraram as pretensões da Inglaterra, demasiado previsiveis e sem recursos táticos suficientes para desmontar a organização de Steve Clarke.

11 INICIAL E PONTUAÇÕES

Pickford (5)

Reece James (5)

Stones (6)

Mings (6)

Luke Shaw (5)

Rice (5)

Kalvin Philips (6)

Foden (5)

Mount (6)

Sterling (5)

Kane (5)

SUBS UTILIZADOS

Grealish (5)

Rashford (-)

 

ANÁLISE TÁTICA – ESCÓCIA

Alinhou o 3-5-2 habitual, com quatro alterações que deram outra dimensão tática á equipa: McTominay e Tierney começaram como centrais, assegurando outro tacto nos momentos de posse e outras condições em manter a bola em seu controlo; Billy Gilmour encarregou-se impecavelmente de Mount, McGinn e McGregor foram as “formigas de trabalho” da intermediária; O’Donnel e Robertson não tiveram problemas em avançar pelas zonas laterais, juntando-se muitas vezes ás diagonais de Adams, que jogava no apoio ao gigante Dykes, elemento responsável por segurar o esférico e ganhar terreno (e tempo) essenciais á estratégia do conjunto.

11 INICIAL E PONTUAÇÕES

Marshall (7)

McTominay (5)

Hanley (7)

Tierney (7)

O’Donnel (6)

McGinn (6)

Gilmour (7)

McGregor (6)

Robertson (6)

Adams (6)

Dykes (5)

SUBS UTILIZADOS

Stuart Armstrong (5)

Nisbet (-)

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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