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Tom Dumoulin: Recordações de um diesel neerlandês

Miguel Monteiro · 5 min

Tom Dumoulin: Recordações de um diesel neerlandês
Foto: Giro d'Italia

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Tom Dumoulin nasceu a 11 de novembro de 1990 na cidade de Maastricht, nos Países Baixos, e tornou-se célebre no universo velocipédico pelo seu “motor a diesel” de altíssimo gabarito. Tom, também conhecido entre os aficionados como “the butterfly of Maastricht”, conquistou a sua primeira vitória a 29 de março de 2014, no contrarrelógio individual da 83.ª edição do Critérium International e, para além dessa, durante a sua carreira, pôde festejar mais 21. Com contrarrelógios imaculados e exibições impressionantes, Dumoulin cedo passou a ser um dos ciclistas mais apreciados do pelotão internacional e é considerado por muitos um dos grandes atletas da modalidade da segunda década do século XXI.

Foto de Capa: Giro d’Italia

MAIORES FEITOS PESSOAIS

PROTAGONISTA DE UMA DAS MELHORES ETAPAS DA HISTÓRIA DA VUELTA

O que Tom Dumoulin fez na nona etapa da Vuelta de 2015 ainda hoje, já depois de ele ter mais de duas dezenas de vitórias na carreira e de se ter estabelecido como um dos melhores ciclistas da última década, é tido como algo inacreditável e quase inexplicável. Com 24 anos de idade, o jovem Tom decidiu mostrar ao que vinha, na chegada a Cumbre del Sol: suportou toda a dureza da última subida, aguentou a produção elevada de ácido lático e superiorizou-se com classe e imprevisivelmente a lendas da modalidade, como Chris Froome, Alejandro Valverde e Joaquim Rodríguez e a outros craques, como Nairo Quintana e Fabio Aru.

Essa Volta a Espanha (2015) de Tom Dumoulin foi absolutamente impressionante, tendo constituído a afirmação da sua qualidade, mas nesta etapa, em específico, presenteou os espetadores com algo de sobrenatural. De relembrar que o neerlandês chegou a envergar durante bastante tempo a camisola de líder da competição, mas acabou por perdê-la, com bastante honra, na penúltima etapa da prova, tendo finalizado no sexto lugar da classificação geral.

CAMPEÃO DO MUNDO DE CONTRARRELÓGIO EM 2017

Em 2017, Tom Dumoulin já havia ganho todo o tipo de contrarrelógios, acumulando mais de dez vitórias em esforços contra o cronómetro, faltando-lhe apenas acrescentar a medalha de ouro no campeonato do mundo de contrarrelógio à já bem preenchida “vitrine doméstica”. Esse feito foi alcançado a 20 de setembro de 2017, em Bergen, na Noruega. O neerlandês partiu para a prova com o estatuto de favorito e não sucumbiu à pressão, assumindo o favoritismo e “exterminando” as aspirações dos rivais. Tom foi muito regular durante todo o percurso e, no topo do Mount Floyen (linha da meta), acabou por bater o esloveno Primoz Roglic por aproximandamente um minuto e outros especialistas na disciplina (Chris Froome, Nélson Oliveira e Vasil Kiryienka) por quase um minuto e meio

VENCEDOR DO GIRO DE 2017

A primeira e única grande volta vencida por Tom Dumoulin foi o Giro de 2017, no qual se mostrou ser um ciclista verdadeiramente completo: ganhou um contrarrelógio com autoridade (etapa 10), triunfou numa chegada em alto com categoria (etapa 14), soube gerir os esforços na alta montanha com recurso ao seu soberbo “motor a diesel”, não desabou perante situações mais difíceis (toilet break da etapa 16), aguentou os ataques poderosíssimos dos experientes Vincenzo Nibali e Nairo Quintana e resistiu à dureza das três semanas de competição. A maglia rosa envergada por Tom Dumoulin traduziu um desempenho completo do neerlandês na competição, que foi ganha por quem realmente mereceu. O Giro de 2017 é, indubitavelmente, a conquista mais notável do extenso palmarés de Dumoulin.

VICE-CAMPEÃO OLÍMPICO DE CONTRARRELÓGIO

No início de 2021, Tom Dumoulin debateu-se com problemas de motivação e decidiu fazer uma pausa para avaliar a sua permanência na modalidade, havendo dúvidas se este regressaria ao ciclismo profissional. Felizmente para os aficionados, “the butterfly of Maastricht” optou por voltar já na segunda fase da época, revigorado, com um objetivo preciso em mente, a prova de contrarrelógio dos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Em Tóquio, Dumoulin surpreendeu tudo e todos, pois, com pouco mais de dez dias de corrida acumulados, desde que retornara ao primeiro escalão do ciclismo mundial, acabou por conseguir preparar de forma quase ideal o seu objetivo e obteve a medalha de prata na prova de contrarrelógio, fazendo apenas pior do que Primoz Roglic. Para alguém como Dumoulin, um segundo lugar nunca seria algo a realçar em situações normais, mas esta não era uma situação usual: Tom havia regressado à competição em junho e tinha batido ciclistas que se preparavam desde o início do ano para aquela prova, o que comprovou a capacidade física única do neerlandês e a sua imensa força de vontade.

A DESPEDIDA

Ao fim de 12 temporadas como ciclista profissional e de 22 vitórias (17 delas em contrarrelógios ou prólogos e com etapas conquistadas nas três grandes voltas), com passagens por equipas como: a Rabobank Continental Team, a Argos-Shimano, a Giant-Alpecin, a Sunweb e a Jumbo-Visma; Tom Dumoulin decidiu pôr um termo à sua espetacular carreira no passado mês de agosto.

Com apenas 31 anos de idade, Tom Dumoulin despediu-se de um desporto ao qual deu tanto, que lhe deu tanto e que, quem sabe, ainda mais lhe poderia ter dado. Para trás, deixa um legado incrível no que diz respeito à arte do contrarrelógio e, ainda que possa não estar diretamente envolvido no desporto, continuará a ser recordado como um ciclista consensual, que sempre foi honesto consigo mesmo e que, através do exemplo, alertou para a necessidade de se dar também relevância à saúde mental dos atletas de alta competição.

Obrigado, Tom!

Miguel Monteiro

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