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Quem vive do passado é che | Valência

Ailton Pereira · 3 min

Ailton Pereira Tribuna VIP
Foto: Bola na Rede

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Para os adeptos do Valência, os che, o virar do milénio foi sinónimo de coleccionar quadros bonitos para mais tarde apreciar. No final dos anos 90 e início dos anos 2000, o Valência encheu a vitrina: uma Taça do Rei, uma Supertaça de Espanha, dois campeonatos, uma Taça UEFA e uma Supertaça Europeia. Importa referir que, embora não tenha vencido, disputou duas finais consecutivas da Liga dos Campeões, sendo derrotado primeiro pelo Real Madrid, depois pelo Bayern de Munique.

Em campo brilharam nomes como Santiago Cañizares, David Albelda, Pablo Aimar, Rubén Baraja e Gaizka Mendieta; já no banco, Claudio Ranieri, o futuro obreiro do conto de fadas em Leicester, plantou as sementes que Héctor Cúper e Rafael Benítez souberam regar e transformar em frutos.

Claudio Ranieri AS Roma
Fonte: João Freitas/Bola na Rede

O tempo trouxe Vicente Rodríguez, Juan Mata, David Silva e David Villa, mas, depois de 2008, os títulos foram-se. Real Madrid, Barcelona, Atlético e Sevilha repartiram quase tudo o que havia para ganhar, em Espanha e na Europa, durante a seca blanquinegra.

Para quem tem veias culés, como eu, o Valência deixou de ser um rival imponente para ser um adversário capaz de dar dissabores. Foi o que aconteceu em 2019, quando o extremo português Gonçalo Guedes ajudou a pôr a última peça no museu à custa do Barcelona de Messi, na conquista da Taça do Rei de Espanha.

Cinco anos antes, começou o declínio do Valência, mas fora das quatro linhas. Com uma comitiva portuguesa (Nuno Espírito Santo no banco, João Cancelo, Rúben Vezo, João Pereira e André Gomes no campo), Peter Lim chegou como novo dono.

De lá para cá, o empresário decide como quem gere um imóvel, não um clube. O próprio definiu o clube como um trophy asset, expressão do imobiliário para um bem que vale mais pelo prestígio do que pelo rendimento. Prova disso: poucos meses depois da Taça do Rei de 2019, Lim despediu Marcelino Toral, o treinador que lhe tinha dado o triunfo. Hoje o Valência é penúltimo na Liga, e até Rodri, no 5-0 do Barcelona em Mestalla, foi apanhado a dizer que a equipa nem passava do meio-campo.

Pablo Maffeo Benat Gerenabarrena Athletic Valência
Fonte: Valencia CF

Confesso que, enquanto adepto rival, há sempre um certo prazer em ver o adversário tropeçar. Faz parte do jogo e, até hoje, ninguém me convenceu do contrário. Contudo, esse gozo tem prazo, e o do Valência acabou há muito. Um rival é o espelho em que o nosso clube se mede, e ver esse espelho a estilhaçar-se aos poucos não tem tanta piada como julgava em miúdo.

Não preciso de viver em Espanha para saber o que custa. Basta olhar para o que aconteceu dentro de portas. Falo de Belenenses e Boavista, dois clubes que me dizem tanto a mim como à minha família. São um perfeito exemplo de que um gigante não cai de uma só vez. Desaparece aos poucos, entre uma decisão e outra, no silêncio dos conflitos de interesses, até ao dia em que ninguém se lembra de quando começou.

À semelhança das recentes palavras de Lisandro Martínez sobre quem gere o Manchester United, Cañizares, o antigo guarda-redes da era de ouro, tem sido uma voz externa muito crítica da gestão de Peter Lim. Segundo ele, o dono esgotou a confiança dos adeptos.

Peter Lim Valência
Fonte: Valencia CF

Há quem, entre os próprios, defenda que uma possível descida de divisão seria a forma de afastar o dono e devolver o clube a quem pertence. Compreendo essa vontade. Mas a equação tem uma condição fundamental: Peter Lim tem de querer vender. Se o Valência descer e Lim ficar, terá valido a espera dos adeptos? Sei que estão de mãos atadas: protestam, enchem o estádio e pouco mais podem fazer. Ainda assim, esperar que a queda resolva o problema é entregar a solução à inércia.

E se o dono não faz parte da solução, é preciso procurá-la noutro lado. Descer pode ser consequência, nunca o plano. O plano chama-se pressão sobre a venda. Quem trata um clube como um imóvel só vende quando ficar custa mais do que sair, e é aí que adeptos, antigas glórias e instituições têm de bater o pé, juntos e sem descanso. Diz o povo que quem vive do passado é museu. Neste caso, é che.

Ailton Pereira

Redação Bola na Rede · ver artigos

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