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“Vanderpoelismo”: eis o termo improvisado que traduz uma espécie de culto sobre um dos atletas mais excitantes da nova geração no ciclismo. Na mesma medida do “Landismo” e de outras crenças devotas a pensar fora da caixa, Mathieu van der Poel é o nome do perpetuador desta requintada forma de encarar Ciclismo, consolidando-se cada vez mais como um atleta de elite dentro da modalidade.
Para os mais desatentos, por “Vanderpoelismo” entende-se o carácter autoritário, dominador e polivalente de um autêntico canibal que, com apenas 26 anos de idade, detém inúmeros títulos de elite em três especialidades diferentes: estrada, MTB e cyclo-cross.
Herdeiro de dois degraus genealógicos repletos de talento para manusear a bicicleta, não fosse neto do grande Raymond Poulidor e filho do reconhecido Adrie van der Poel, o corredor natural dos Países Baixos deu mais um passo rumo à construção de uma figura memorável com a conquista de uma etapa na Volta a França, envergando a camisola amarela, num dos momentos mais emotivos da história ciclística recente.
Van der Poel vence 2ª etapa e é líder #TDF2021 pic.twitter.com/WgpqaJpaOK
— Eurosport Portugal (@EurosportTV_Por) June 27, 2021
Se gosta de uma boa história, com tons emocionantes e improváveis, sente-se e relaxe. Todo este livro gira em torno dos tais antepassados de Mathieu van der Poel: o incrível background desta família, nomeadamente do seu avô Raymond Poulidor e do significado enorme da conquista do líder da Alpecin-Fenix em memória do também conhecido por “eterno segundo”.
Foto de Capa: Alpecin-Fenix Cycling Team
O LEGADO DE POULIDOR… VIVE, SUBSISTE E IMORTALIZA-SE
Raymond Poulidor é a personificação real de que, no ciclismo, os grandes campeões não se fazem apenas de vitórias. Nascido a 15 de abril de 1936, “Poupou” viria a falecer em novembro de 2019, ainda a tempo de vivenciar não só as conquistas de Adrie, o cônjuge da sua filha Corinne, mas como também algumas dos netos Mathieu, ao mais alto nível, e David van der Poel, também a correr pela Alpecin-Fenix em provas de cyclo-cross maioritariamente, porém, sem o sucesso do irmão mais novo.
Belo vídeo da @canyon_bikes sobre Mathieu van der Poel, filho de Adri van der Poel, Campeão de Flanders (1986) e Liege (1988), e neto de Raymond Poulidor, Campeão de San-Remo (1961) e Wallone (1963). Família tem pedigree. pic.twitter.com/2fi2AZAzGX
— País do Ciclismo (@DoCiclismo) April 5, 2019
Se algum dia perguntar a um cidadão francês pelo nome de Poulidor, toda e qualquer resposta vai entrar em conformidade com o grau de estatuto de nomes como Jacques Anquetil ou Bernard Hinault, por exemplo. Palmarés distinto, bem distinto em comparação com estes grandes campeões, no entanto, com uma significância enorme na história. Certamente perguntar-se-á por que razão isto acontece, e a resposta não podia ser mais genuína do que a capacidade de resiliência, de persistência e de todo o culto derivado a uma personalidade especial, que caiu nas boas graças dos seus compatriotas.
Não se engane, Poulidor foi um ciclista de elite. 189 vitórias na estrada, com destaque para várias conquistas, como em dois grandes monumentos: Flèche Wallone e Milano-San Remo, e na Vuelta a España de 1964. Venceu em casa, registando-se as vitórias no Paris-Nice ou no Dauphiné Libéré e ainda os vários triunfos em etapas do Tour de France. Por três vezes segundo classificado e com cinco terceiros lugares no Tour, num total de oito pódios na mais importante competição de três semanas do mundo, Poulidor consagrou-se em França no Tour de France sem o caneco, digamos assim.
Raymond Poulidor was loved because he never won the Tour de France. The race’s “eternal runner-up,” forever warm and gracious, has died at age 83.
Story by @sampetrequin >> https://t.co/kd3TnXBLxR pic.twitter.com/ZrGqk6dpxg
— AP Sports (@AP_Sports) November 13, 2019
Em tempos de Anquetil e Eddy Merckx, não se trata apenas de um poema que deixou os títulos nestes dois e o romantismo no nome de Poulidor. A forma como batalhou durante anos e, tal como o seu neto Mathieu, demonstrou sempre uma ambição gritante, espelhada numa maneira de correr ousada, valeu-lhe um lugar no concílio dos deuses da bicicleta, sendo até considerado por muitos como o ciclista francês mais popular de sempre.
Se o facto de nunca ter desistido de tentar vencer o Tour fez com que valores como empatia, mérito e compaixão viessem ao de cima, Poulidor tinha algo intrínseco à sua personalidade que o catapultou para a ribalta mediática. Nas suas intervenções com fãs, jornalistas, colegas de equipa e com toda a gente que o rodeava, a humildade e a simplicidade de um homem que sempre se demonstrou grato com pouco – ou na medida de nunca ter ganho apesar de ter ficado tão perto -, aliado à imagem de uma pessoa bem-disposta e com um sorriso contagiante, levou a que, hoje em dia, Poulidor seja um capítulo e não apenas uma página do Ciclismo francês.
🎬 #TDFunited one day, one story 🎬
⏪#TDF1964, Puy de Dome
A look back on a historic duel between two🚲 greats, 🇫🇷 Raymond Poulidor and 💛Yellow Jersey💛 Jacques Anquetil 🇫🇷 pic.twitter.com/D3UniWzTgM
— Tour de France™ (@LeTour) July 16, 2020
Beneficiou da época gloriosa do Ciclismo francês, assim como da exposição e multidão de adeptos que vibraram com o Tour numa das fases mais bonitas da competição. Também a própria veia vitoriosa de Jacques Anquetil e a rivalidade acesa entre ambos levou a que, naturalmente, muitos escolhessem um partido, e muitos escolheram Poulidor, a personagem que nunca desistiu e que sempre correu com um querer desmedido numa das maiores rivalidades da história.
Campeão moral, termo que muitos se atrevem a associar ao nome de Poulidor, e que na verdade até se adequa. Na estrada, talvez, porque a figura do corredor em causa é transversal a esse pequeno grande pormenor que marca a sua carreira que, porém, não traduz a sua grandiosidade.
Para além dos genes e do talento natural, o maior legado que poderia ter deixado aos sucessores está na forma de compreender Ciclismo, na maneira de correr e na forma de o viver. Mathieu van der Poel reencarna isso e muito mais: apesar de o genro Adrie ter sido um ciclista de grande nível, vencendo seis clássicas da primavera e duas etapas no Tour (para além de vários feitos no cyclo-cross), é mesmo o neto do grande Poulidor que parece ter nascido para acrescentar o ingrediente que mais falta faz a um legado enorme: triunfos.
Prachtige foto samen met zijn Opa Raymond Poulidor. De ploeg herdacht het feit dat 45 jaar na het einde van zijn loopbaan kleinzoon Van der Poel voor het eerst aan de start stond van de Tour. #TDF2021 pic.twitter.com/i3bQmO1ii5
— Frits Sparnaaij ❣🙏 (@CommentaryNL) July 3, 2021
Neste ponto, Mathieu van der Poel não passa despercebido a ninguém. O próprio Poulidor chamava à atenção sobre o potencial do neto, afirmando que já era melhor que o pai e que o avô, e que o seu palmarés falava por si, isto em 2019, pouco antes do seu desaparecimento. Ora, em 2019, o ciclista holandês deixava a sua marca sobretudo fora da estrada: desde as categorias mais jovens até à elite, o mundo do cyclo-cross conhecia um novo canibal que, a par de Wout van Aert, outro prodígio (este da Bélgica), tornava-se campeão nacional, europeu e do mundo.
Estas duas figuras do pelotão de estrada atual concentraram os seus êxitos enquanto “rookies” no meio alternativo do cyclo-cross e MTB, mas, já em 2019, à data das declarações de um avô orgulhoso, van der Poel já tinha sido campeão nacional holandês e havia vencido de forma inacreditável a Amstel Gold Race 2019, num dos finais mais épicos que o mundo ciclístico já viu.
🗣 “Alaphilippe – surely nailed on from here… Van der Poel! Can you believe it?!” #OTD in 2019: @mathieuvdpoel won Amstel Gold in most dramatic fashion 🤯 pic.twitter.com/peWKeWOnRu
— Eurosport UK (@Eurosport_UK) April 21, 2020
Após a morte do seu avô, a transição para a estrada sucedeu-se de forma natural, se bem que não está nos planos do magnífico corredor abdicar por completo das disciplinas que fizeram parte da sua vida desde que se iniciou no Ciclismo.
A par de todo esse sucesso, registam-se vários momentos que o enaltecem como um ciclista feroz, atacante, sem medo de mexer na corrida, seja a que distância for.
As medições de watts despendidos durante as suas atuações revelam a capacidade de um atleta propenso a provas explosivas, adaptando-se perfeitamente ao piso alcatroado, empedrado e até ao sterrato, onde, por exemplo, venceu a Strade Bianche 2021 em grande estilo, diferenciando-se numa questão técnica onde é manifestamente superior: capacidade para imprimir mudanças de velocidade em pendentes íngremes.
I finally did it. I’ve won my first XCO worldcup! Thank you to all the people who helped me achieve this dream, hopefully this is just the beginning 🥰 pic.twitter.com/v8ZBGgCNg7
— Mathieu Van der Poel (@mathieuvdpoel) May 26, 2019
Não é um escalador nato como o avô. Parecido com Poulidor talvez no contrarrelógio, onde não se destaca (apesar da grande prestação na quinta etapa do Tour 2021). No fundo, não é um voltista, longe disso. Neste momento, é um competidor à imagem do pai, talhado para clássicas de longa extensão, média montanha, sobe e desce constante. Consegue também sprintar com os melhores, ataca de longe, tem capacidade para partir um pelotão e coragem suficiente para se lançar ao ataque a 30, 50 ou 70 quilómetros da meta. É especial, tal como o progenitor da sua mãe, e sem dúvida que está predestinado a grandes feitos, tendo já arrecadado um monumento (Ronde van Vlaanderen) e várias etapas em competições World Tour.
Apesar de toda esta onda triunfante, a conquista da segunda etapa da Volta a França e a consequente camisola amarela que envergou ao final do dia destacam-se pelos moldes emocionantes relacionados com o seu avô, sobretudo pelo facto de Poulidor já não poder testemunhar e celebrar com o neto uma conquista tão importante e especial para o jovem Mathieu e para o próprio.
💛 🇳🇱@mathieuvdpoel for his grandfather!
🏆 At Mûr-de-Bretagne, Poupou’s grandson took the stage win and the famous Yellow Jersey!
🎬 Relive the 2nd stage of the #TDF2021 pic.twitter.com/p99asNeFUH
— Tour de France™ (@LeTour) June 27, 2021
Ao seu estilo, atacou na primeira passagem deste topo histórico para se aproximar de Julian Alaphilippe devido às bonificações em segundos. O ataque à etapa era eminente, todos sabiam disso, mas ninguém foi capaz de fechar o espaço quando o foguetão da Alpecin-Fenix arrancou colina acima, garantindo o objetivo principal para o seu primeiro Tour: vitória em etapa e a camisola amarela.
Entretanto, Mathieu van der Poel abandonou a competição para se concentrar na grande meta da época: o ouro olimpico em MTB, designação para Mountain Bike. Nunca seria um candidato a vencer o Tour, o que só por si seria a história do século caso se viesse a suceder. A palavra sonho não chegaria para classificar esse feito caso o descendente de “Poupou” fizesse o impensável. Há que pensar com os pés bem assentes na terra, até porque Mathieu van der Poel já afirmou que não pretende focar-se a 100% na estrada e, para vencer uma grande volta, teria que operar uma revolução drástica no seu corpo e na sua preparação, sendo, por isso, uma hipótese a roçar o impossível, porém, de proporções incríveis se o portento holandês algum dia se predispusesse a tal objetivo.
Aujourd’hui, il y a un champion qui doit être bien triste. Pensée pour lui, pour son frère David, pour leur maman Corinne et pour leur grand-mère Gisèle. pic.twitter.com/bnlapABSH4
— David Guénel (@davidguenel) November 13, 2019
Não desfocando o objeto central deste legado no ciclismo, importa refletir sobre os genes que um dos novos campeões do pelotão adquiriu do seu passado e da sua missão enquanto ciclista para, acima de tudo, honrá-los. Poulidor era carismático, van der Poel é uma máquina. Poulidor, a par de Jacques Anquetil, elevou a Volta a França, elevou o ciclismo para outro patamar, van der Poel, a par da nova geração de corredores, revolucionou o espetáculo, a mentalidade e o conceito de Ciclismo moderno.
Poulidor não venceu aquilo que mais queria, mas eternizou-se, e van der Poel é agora aquele a quem compete levar um pouco de “Poulidorismo” a toda e qualquer competição sobre duas rodas, até porque competir, pedalar ou respirar Ciclismo é essencialmente privilegiar a figura de Poulidor e os seus valores nobres, humanos e genuínos enquanto um dos maiores ciclistas da história.
Artigo revisto por Gonçalo Tristão Santos












