João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol no Tainan City, de Taiwan, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Cristiano Ronaldo é muito mais do que um futebolista português.
É uma referência mundial, uma marca de Portugal e um dos maiores jogadores da história do futebol. Pela longevidade, pelo profissionalismo, pela capacidade competitiva e pela forma como construiu a sua carreira, é também um exemplo para milhares de jogadores e para muitos treinadores, onde me incluo.
Sou treinador e trabalho há 11 anos fora de Portugal, e, por onde tenho passado, há palavras que ouço constantemente quando se fala do nosso país, Portugal e Ronaldo.


No Iraque vivi um momento que nunca esquecerei, entrei num restaurante repleto de iraquianos que apoiaram e festejaram a vitória de Portugal na Liga das Nações e muitos vestiam a camisola de Cristiano Ronaldo.
Confesso que me caíram algumas lágrimas, não apenas pelo futebol, mas por perceber, a milhares de quilómetros de casa, aquilo que Portugal e um jogador português representavam para aquelas pessoas.
É esta dimensão de Cristiano Ronaldo que também temos de saber reconhecer.
Mas reconhecer tudo isto não significa abdicar de um princípio essencial do futebol, a equipa está acima de qualquer individualidade.


E talvez seja precisamente aqui que esteja a discussão que verdadeiramente importa.
Portugal iniciou um novo ciclo com Jorge Jesus e venceu os dois primeiros jogos. Mas, depois da vitória na Noruega, grande parte da discussão deixou de estar no rendimento da Seleção e passou para a utilização, ou não utilização, de Cristiano Ronaldo.
É compreensível, estamos a falar de Cristiano Ronaldo.
Mas também estamos a falar da Seleção Nacional, o treinador tem de poder decidir
Há uma palavra que considero fundamental no futebol, soberania, um treinador tem de ter soberania sobre as decisões técnicas.
Quem joga, quem fica no banco, quem entra, quem sai, e que jogador responde melhor às necessidades de determinado jogo, caso contrário entreguem o futebol a quem quer brincar com ele.


Essas decisões podem estar certas ou erradas, faz parte da nossa profissão, depois serão analisadas pelos adeptos, pelos jornalistas e pelo próprio treinador, mas a decisão tem de pertencer ao treinador.
Porque, no momento em que o estatuto, o nome, o passado ou a dimensão mediática de um jogador condicionam uma decisão técnica, cria-se um problema muito maior do que escolher entre A ou B.
Cria-se um problema de liderança.
Como se gere depois o balneário?
Esta é a questão que muitas vezes esquecemos, um plantel observa tudo, os jogadores são seres humanos, com sentimentos, opiniões e pensamentos próprios.
Sabem quem treina melhor, quem está em melhor momento, quem cumpre as tarefas, quem respeita as regras, quem joga e quem não joga, e fazem comparações e sentem se o treinador é coerente ou não.
Como pode um treinador exigir rendimento, compromisso e disciplina a vinte jogadores se estes sentirem que existe alguém sujeito a regras diferentes?


Não estou a afirmar que isso esteja a acontecer na Seleção Nacional.
Estou a falar de um princípio de liderança que serve para Portugal, para um grande clube europeu, para uma equipa de uma divisão inferior ou até para uma empresa.
O estatuto deve ser respeitado, mas nunca deve substituir o mérito.
Respeitar Ronaldo também é aceitar esta realidade
Cristiano Ronaldo caminha para os 42 anos, mas isso não apaga absolutamente nada daquilo que conquistou, pelo contrário, torna a sua longevidade ainda mais extraordinária.
Mas o futebol de alto rendimento não vive do currículo, vive do presente.
Se Ronaldo estiver melhor e for a melhor solução para determinado jogo, deve jogar.
Se outro jogador oferecer ao treinador aquilo de que a equipa necessita naquele momento, deve jogar esse jogador.
Isto não diminui Ronaldo, é simplesmente futebol.


E talvez uma das maiores formas de respeitar uma carreira tão extraordinária seja precisamente não transformar Cristiano Ronaldo num jogador que tem de jogar por aquilo que fez no passado.
O futebol continua a ser um jogo colectivo
Preocupa-me que estejamos progressivamente a retirar autoridade aos treinadores, queremos liderança, mas questionamos a liderança quando ela implica decisões difíceis.
Queremos meritocracia, mas muitas vezes aceitamos que o estatuto pese mais do que o rendimento.
Queremos equipas fortes, mas depois individualizamos permanentemente um jogo que continua a ser colectivo.
Um treinador não pode gerir onze titulares, tem de gerir um grupo.
E, para que esse grupo acredite nele, precisa de sentir uma coisa muito simples, as regras são iguais para todos.
Depois existem hierarquias, capitães, referências e jogadores extraordinários. Naturalmente, mas ninguém pode estar acima da equipa, nem sequer os maiores.


Porque os jogadores passam, os treinadores passam, mas a equipa fica, os valores também devem ficar, e o futebol tem de ser feito de valores, de princípios.
E, no final, podemos discutir sistemas, jogadores, treinadores e decisões durante horas, mas há uma realidade que o futebol continua a ensinar-nos, só um colectivo forte nos pode colocar mais perto de ganhar títulos.

