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16 dos 18 clubes da Liga têm casas de apostas nas camisolas. E se amanhã o dinheiro desaparecesse?

João Esteves · 4 min

Liga Portugal Futebol. Betclic
Foto: Carlos Silva / Bola na Rede

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A 25 de setembro, o Brasil anunciou a proibição das bets. Quatro dias depois, Lisboa recebeu a SBC Summit, a grande cimeira internacional da indústria. Em Portugal, 16 dos 18 clubes da principal divisão têm uma casa de apostas nas camisolas.

A 25 de setembro, o Brasil anunciou a proibição das casas de apostas. Quatro dias depois, Lisboa recebeu a SBC Summit, a grande cimeira internacional da indústria. Em Portugal, 16 dos 18 clubes da principal divisão têm uma casa de apostas nas camisolas.

A distância entre Brasília e Lisboa mede milhares de quilómetros. Mas, neste final de setembro, os dois lugares ficaram ligados pelo mesmo tema: as apostas desportivas. A 25 de setembro, Lula da Silva assinou uma Medida Provisória que proíbe no Brasil a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa, abrangendo as apostas desportivas e os jogos online. As plataformas autorizadas terão de deixar de operar a partir de 6 de outubro.

Quatro dias depois, a 29 de setembro, Lisboa abriu as portas da SBC Summit. Até 1 de outubro, a FIL e a MEO Arena recebem milhares de profissionais de uma indústria que movimenta operadores, tecnologia, pagamentos, marketing, investimento e regulação.

A decisão brasileira chegou, aliás, diretamente à agenda do encontro de Lisboa, com uma sessão extraordinária dedicada às consequências da nova realidade regulatória brasileira. Enquanto isso, o futebol português continua profundamente ligado às bets. Na Liga Portugal 2026/27, 16 dos 18 clubes têm uma casa de apostas nas camisolas. Em 15 casos, a marca surge na frente do equipamento; no Benfica, aparece na manga. As únicas exceções são Nacional da Madeira e Académico de Viseu.

É uma presença demasiado grande para ser tratada como um simples detalhe comercial. Betano, Betclic, Bwin, Placard, Solverde, LeBull e GoldenPark fazem hoje parte da paisagem do futebol português. Nas camisolas, nas competições, na publicidade, nos meios digitais. E a própria principal competição nacional assume a ligação no nome: Liga Portugal Betclic. Mas existe uma dimensão ainda menos visível: o dinheiro que as apostas colocam diretamente no desporto através da receita fiscal.

Em 2025, a Federação Portuguesa de Futebol recebeu 38,8 milhões de euros provenientes do Imposto Especial de Jogo Online. A Liga Portugal recebeu 16,24 milhões. No total, foram distribuídos 73,52 milhões de euros às entidades desportivas através deste mecanismo. Mais de 55 milhões de euros para FPF e Liga Portugal num único ano.

É aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre patrocínios. Se Portugal proibisse amanhã as apostas de quota fixa, a questão seria muito maior do que retirar nomes de marcas das camisolas. Estaria em causa uma atividade económica que gera receitas fiscais para o desporto e uma fonte de financiamento comercial que se tornou omnipresente no futebol profissional.

Mas essa não é a realidade portuguesa. Portugal tem um mercado legal e regulado. O SRIJ licencia e fiscaliza os operadores e mantém mecanismos para bloquear plataformas não autorizadas. E o mercado continua a crescer: no segundo trimestre de 2026, a receita bruta dos jogos e apostas online aumentou 14,4% face ao mesmo período de 2025.

A discussão sobre os patrocínios, contudo, já chegou ao Parlamento português. Em abril de 2026, foi rejeitado, na generalidade, um projeto de lei que pretendia proibir o patrocínio de eventos e competições por entidades que explorem jogos e apostas. Ou seja: a possibilidade de separar as bets do desporto já está no debate político português.

E o Brasil oferece agora uma espécie de laboratório inesperado. Poucos dias depois do anúncio de Lula, um levantamento da Bet Legal identificou 543 novas casas de apostas ilegais entre a noite de 25 de setembro e a tarde de 28 de setembro. O número corresponde a plataformas identificadas nesse período e não significa necessariamente 543 empresas independentes ou operações sustentadas.

É demasiado cedo para saber qual será o resultado dessa experiência brasileira. Mas existe uma pergunta que Portugal não pode ignorar: quando se fecha o mercado legal, a procura desaparece ou procura outro caminho?
E existe outra, especificamente portuguesa. Se amanhã as bets deixassem de poder patrocinar o futebol, quem ocuparia o espaço deixado por elas? Não sabemos quanto valem, somados, todos os contratos entre clubes portugueses e empresas de apostas. Não existe uma base pública consolidada que permita apresentar esse número com rigor.

Sabemos, porém, que 16 dos 18 clubes da Liga têm uma casa de apostas nas camisolas. Sabemos que a principal competição nacional se chama Liga Portugal Betclic. Sabemos que FPF e Liga Portugal receberam mais de 55 milhões de euros de receita de jogo online em 2025. E sabemos que as apostas estão presentes em praticamente todas as dimensões comerciais do futebol português. Por isso, talvez a questão não seja saber se Portugal deve fazer o mesmo que o Brasil. São mercados diferentes. São modelos regulatórios diferentes. São realidades económicas diferentes.

A questão é perceber quanto do futebol português está hoje preparado para viver sem o dinheiro das bets. Porque uma coisa é retirar uma marca de uma camisola. Outra, bastante diferente, é substituir uma fonte de receita que entretanto se tornou parte da estrutura do futebol. E, enquanto Lisboa recebe a indústria mundial das apostas, esta é uma pergunta que o futebol português dificilmente poderá continuar a adiar.

João Esteves

Redação Bola na Rede · ver artigos