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Faltariam precisamente dois meses para o arranque do sexto Europeu deste século se a realidade não tivesse optado por percorrer outro caminho fora do comum. Nesse sentido, convido-vos a entrar numa viagem a um futuro imaginado.
Depois de uma longa e desgastante temporada, marcada pela entrada de uma nova década, eis o sempre aguardado Europeu de futebol, que pela segunda edição consecutiva vê o número de participantes alargado para 24 seleções e conta com uma novidade em relação a todos os outros: é jogado em 12 cidades de 12 países diferentes, o que revoluciona toda uma organização que antes estava confinada a um único país e que agora se estende pelo continente inteiro. Sinais dos tempos modernos. De Bilbau a Baku, a magia do grande convívio do futebol europeu está de volta e o Velho Continente prepara-se para um mês de grandes vibrações.
Da nossa parte, o importante é levar (outra vez) a Taça para Portugal e não tanto se jogamos bem ou mal. Gelson Martins, com uma ampla redução do seu castigo e Ricardo Pereira, com uma recuperação milagrosa da sua lesão, puderam jogar a parte final da época e viram os seus nomes constarem da lista final de convocados para o Europeu que em breve partiria para Budapeste, onde se situava o nosso quartel general oficial.
“Safámo-nos de boa”, confidenciavam os atletas aos repórteres presentes à entrada do aeroporto. De facto, foram ambos os grandes privilegiados, uma vez que eram quase nulas as hipóteses de participarem neste grande evento. Os dois acrescentavam que iriam dar tudo pelo país e esperavam apenas regressar dentro de um mês, relembrando uma célebre frase. Estava dado o mote com as atenções viradas para os dois afortunados jogadores e com uma presença massiva de adeptos que se deslocaram para incentivarem e se despedirem da Seleção, que rumava ao Europeu.
16 a 24 de junho 2020
Em solo húngaro, por entre treinos e conferências, autógrafos e sorrisos, os nossos jogadores preparavam-se para encarar o primeiro desafio deste Europeu. Sabe-se desde o final de março que o oponente na estreia é precisamente a nação anfitriã e que, por isso, iríamos defrontar duas nações que jogariam perante os seus adeptos nas duas primeiras partidas, o que esfriava um pouco os ânimos lusitanos. Apesar de termos o exemplo do Europeu anterior, a desconfiança permanece como um suporte básico natural, bem ao estilo português. Talvez fossem precisas conquistas regulares para ultrapassar esse desígnio e ainda estamos numa fase embrionária deste processo.
Segue-se o dia de estreia e o campeão europeu entra num Arena Puskas completamente lotado e pintado de vermelho e branco, notando-se uma mancha mais vermelha num dos cantos do estádio. Estima-se que estão cerca de 60 mil húngaros e apenas cinco mil portugueses no interior. Para amostra, este não era bem o cenário idealizado para quem inicia a defesa de um título. Na altura do hino, os 11 selecionados de Fernando Santos entoavam-no com uma firmeza tal que seria complicado para os húngaros pararem esta equipa se estes jogassem com o mesmo empenho com que, emocionados, cantavam “A Portuguesa”. Talvez fosse um importante antídoto em relação à ideia de jogar em terreno altamente hostil.
E a primeira parte foi tudo menos tranquila, com a equipa da casa a mostrar-se bastante confiante e a jogar como se a vida dependesse daquilo. Ainda assim, o nulo ao intervalo era um resultado ajustado, face à escassez de oportunidades. Embora as dificuldades sentidas no primeiro tempo fossem evidentes, a verdade é que a Seleção entrou por cima na etapa complementar e chegou ao primeiro golo por volta dos 65’. Aos 85’ fez o segundo e descansou definitivamente os seus seguidores. Com um bloco forte desde trás e com boas saídas para o ataque, Portugal demonstrou ser superior à Hungria e teve a arte de silenciar um estádio que, no início, se assemelhava a um vulcão. “O primeiro já está” afirmava o capitão Cristiano aos microfones à saída para os balneários.
Como sempre, quando se inicia um Europeu a vencer, a felicidade era notória no rosto dos jogadores e equipa técnica no dia seguinte. E Portugal só o conseguiu em duas ocasiões: 2000 e 2008. Através das equipas de reportagem que, exaustivamente, costumam cobrir o dia a dia da Seleção, era possível observar um ambiente descomprimido durante os dias seguintes que serviam de preparação para o embate frente à Alemanha. Seria o estigma frente aos alemães finalmente ultrapassado? Era sobre esta questão que os diários desportivos nacionais debatiam nos últimos dias. Agora que (ainda) somos detentores do título Europeu, devemos mostrar que temos capacidade para rivalizar com qualquer um.

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede
A verdade é que este era o jogo mais temido da fase de grupos, precisamente por ser contra a Alemanha. Lá estavam os portugueses, uma vez mais, apreensivos e desconfiados à partida. E mais ficaram quando, como em Budapeste, viram o primeiro plano da Arena de Munique repleto de apoiantes locais todos de branco, como manda a tradição.
Se antes enfrentámos um vulcão, agora mais parecia uma montanha de neve daquelas difíceis de escalar. Num ambiente totalmente favorável à equipa da casa, estes chegaram à vantagem a meio da primeira parte e fizeram o segundo já perto do intervalo. Parecia bater certo a inquietação da maioria dos lusos que já tinham visto este filme vezes demais. Os alemães, fortes e sagazes, arrumaram o jogo com um terceiro golo na segunda parte e nem o tento lusitano, quase no fim, serviu para incomodar. “Perdemos bem e agora é levantar a cabeça’’ exclamava o experiente Rui Patrício, com Fernando Santos a pedir fé e a mostrar confiança na passagem à próxima fase.
“Ainda não foi desta que superámos o estigma”; “Venha o próximo” – titulavam os jornais no dia seguinte. De volta ao quartel general na capital húngara, a Seleção tinha à sua espera bastantes adeptos que, juntamente com o staff daquele local, aplaudiam e mostravam confiança numa boa prestação futura. O ambiente era positivo e agora faltava, pelo menos, não perder a próxima partida para assegurar desde logo presença nos oitavos de final.
Chegava então o último dia da fase de grupos, sendo que à Alemanha era difícil perder o primeiro lugar no grupo F, bastando-lhe ganhar em casa à Hungria que já estava eliminada. No Arena Puskas, Portugal reencontrava um adversário que lhe ‘deu’ a maior alegria no Europeu de há quatro anos, mas desta vez os franceses mostravam-se mais cautelosos. Na altura dos hinos oficiais, voltava-se a entoar “A Portuguesa” de uma maneira impressionante, com uma ligação emocional entre os jogadores de fazer inveja a qualquer haka neozelandês. Voltava aquele momento especial que se tinha sentido no primeiro jogo e que transmitia a segurança necessária para se perceber que o foco e o empenho estavam na dose certa.
O recinto encontrava-se lotado, sendo a maioria apoiantes franceses (aqui somos sempre menos). No campo, a partida desenrolava-se num ritmo médio/baixo, notando-se respeito de ambas as partes. As oportunidades iam surgindo aqui e ali, e o jogador em maior evidência ia sendo Mbappé que nos assustava sempre que recebia a bola com um pouco mais de espaço. A turma lusa conseguiu aguentar o maior ímpeto francês durante o primeiro tempo e entrava no segundo com uma cara renovada. Começou a assumir o jogo e a criar perigo de quando em vez, até que, a partir do flanco direito e através de combinações entre Ricardo Pereira e Gelson Martins, este último cruza para a área onde surge o recém-entrado Rafael Leão – também ele novidade na convocatória – que cabeceia depois de fugir à marcação de Lenglet e faz o golo. Delírio total e triunfo confirmado cinco minutos depois.
Como se pode imaginar, a festa foi enorme, mas Fernando Santos não queria grandes agitações, ele que estava ali para completar a missão e esta ainda teria um longo caminho. A imprensa nacional desde logo destacou os três envolvidos no lance do golo e escrevia: “Tão improvável quanto real”, aludindo ao facto de estarem a viver um sonho, sobretudo Ricardo e Gelson que há poucos meses nem contariam estar ali.
Em todo o lado podia ler-se “Déjà-vu saboroso” e ia sendo restaurada a confiança que parecia faltar no início deste Europeu. Assistiam-se a pequenas reportagens dentro do grupo e sentia-se que este estava unido e confiante para levar a missão até ao fim. Sempre que iam treinar, os jogadores eram acompanhados por centenas de adeptos e regressava o ‘regime liberal’ do selecionador, que permitia aos atletas passarem o dia com amigos e familiares. Parecia estar de volta o espírito do Europeu de 2016.
30 junho a 08 julho 2020
Com os alemães como líderes do grupo, Portugal ficou em segundo lugar, relegando os franceses para o terceiro posto. Nos oitavos, a Seleção Nacional iria defrontar a Croácia, primeira do Grupo D, em Dublin. Este encontro previa-se bastante equilibrado, existindo a perceção de que poderíamos voltar a ser felizes contra os croatas. Num estádio mais pequeno em relação aos anteriores, notavam-se bem mais portugueses, que viajaram esperançosos na qualificação. As atenções viraram-se novamente para a cerimónia dos hinos que começava a ser uma imagem de marca nossa e um ritual interessante de acompanhar. Dava a ideia que era a partir daqui que começávamos a ganhar o jogo.
Como qualquer um de nós pressentia, este era o jogo ideal para ser decidido no prolongamento ou em grandes penalidades, embora ainda não tivéssemos registado qualquer empate neste torneio, o que era de espantar. E devo desde já adiantar que esta antiga tendência passou ao lado do encontro, uma vez que o triunfo luso por 2-1 assegurou a presença nos quartos de final, o que tem sido nosso hábito.
Mais uma batalha superada e com nova exibição convincente, ainda que com sofrimento à mistura, mas isso é algo intrínseco no nosso ADN. Por esta altura, João Félix, Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Rúben Neves, entre outros, encantavam nos relvados europeus e os media nacionais exultavam os novos craques, tal como o grupo em si, que mostrava competência, ambição e união, visível sobretudo no mediático momento do hino.
Apesar de tudo, era preciso cautela, porque euforia em excesso costuma ser prejudicial. E os espanhóis também sabiam disso, eles que seriam os próximos adversários. Com Portugal cada vez mais a assumir-se como uma Seleção de topo, os discursos e as posições de quem se cruzava connosco eram cada vez mais moderados. A imprensa vizinha, que se habituou a ver ganhar tudo, adotava uma postura cautelosa e sublinhava João Félix como uma séria ameaça, ele que acabara de ter um fim de época espantoso no Club Atlético de Madrid. O confronto seria em Roma e o nosso historial recente frente aos espanhóis não era muito simpático.
No Estádio Olímpico estava tudo a postos para um dos jogos grandes da competição e apesar dos espanhóis estarem em maior número, verificava-se uma grande presença de portugueses que se faziam ouvir com facilidade. No nosso país, o mote era dado com o movimento “Não fiques em casa”, que serviu para encher praças, ruas e avenidas. “Mostrem-nos outra vez aquele hino”, pediam os radialistas nacionais pouco antes do apito inicial. E ele voltou, aquele momento épico que nos fazia a todos encher de esperança. Será que era mesmo necessário? Os especialistas motivacionais achavam que sim.
Fonte: Carlos Silva / Bola na RedeEm relação à partida, escusado será dizer que o sofrimento esteve sempre presente, ele que se agudizou quando Espanha marcou primeiro e conservou o resultado até meio do segundo tempo. Numa fase de maior ascendente, Portugal empatou e mostrava sinais de estabilidade com boas trocas de bola e uma organização eficiente. Não ganhámos para o susto quando, perto do fim, a bola foi à barra de Rui Patrício, mas conseguimos aguentar e fomos para prolongamento. “Finalmente um empate” – gritava Fernando Santos para a equipa, enquanto dava instruções. De facto, o resultado mais fiel estava de volta e podíamos estar mais descansados, pois resolver empates é connosco.
Quanto ao tempo extra e depois de Santos ter dado a receita de como ultrapassar empates, relembrando a campanha de 2016, lá chegámos à vitoria com um golaço de livre de Cristiano Ronaldo, desta vez a fazer lembrar 2018. Isto, também, depois do conjunto espanhol ter visto dois golos anulados que os fez enervar e desorientar coletivamente. Era impossível conter a euforia após mais uma ronda superada e isso era visível em toda a equipa e nos adeptos. Até foi recriado o cântico triunfal de há quatro anos, que passava agora a ser entoado no Olímpico: “Voltaremos voltaremos, Todos vós sabeis, Vamos levar a Taça, Como em 2016”.
Vivia-se um estado de espírito altamente positivo em toda a nação portuguesa e não era caso para menos. Com apenas quatro formações em prova, o caminho ia estreitando e a possibilidade de chegar a uma nova final era bem real. No entanto, o selecionador apelava à calma e a toda a prudência possível antes de embarcar para Londres, onde seria realizada a final-four da competição. A capital inglesa, que era o trono do futebol por estes dias, via o seu principal aeroporto invadido por entusiastas da Seleção, muitos deles estrangeiros que admitiam estar a torcer por nós, mostrando o quanto este grupo estava a encantar neste Europeu.
Seguiam-se dois grandes jogos nas meias finais com a Alemanha a enfrentar a Holanda, e Portugal a encarar a Itália, que tinha chegado aqui após ter afastado a poderosa Bélgica. Depois de terem sido felizes naquele país transalpino, os lusos esperavam sair por cima contra a respetiva seleção. Dotada de um conjunto renovado e ambicioso, a squadra azzurra era vista como uma potência em ascensão e estava a realizar uma excelente prova. A maioria dos media internacionais hesitavam em conceder qualquer favoritismo, bem como as casas de apostas.
Entre treinos, conferências e momentos de boa disposição, notava-se que os níveis de dedicação e motivação estavam no alto. Na verdade, estávamos habituados a marcar presença em fases adiantadas nos últimos anos e esta era mais uma. O mítico Wembley encontrava-se a abarrotar num final de tarde calorento e o ambiente era digno de uma final – esperava-se apenas que o jogo correspondesse. Quase tudo apontava para uma partida fechada, em que ambos os conjuntos privilegiam a organização defensiva, mas o que se viu foi um desafio de alta rotação, bastante intenso, com várias quezílias e golos. Em termos futebolísticos, foi até considerado pela crítica internacional como um dos melhores deste século em Europeus, numa daquelas partidas em que ninguém merecia ser eliminado.
Quanto ao resultado, esse sorriu à formação lusa que venceu por 3-2, evidenciando uma qualidade superlativa, assente numa nova e atraente filosofia de jogo e que faziam da nossa equipa um portento a jogar. Desta vez, as atenções viraram-se para a festa no balneário, onde Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa se juntaram para felicitarem os jogadores e staff técnico, num convívio onde não faltaram os famosos beijos e abraços. Estava assim garantida a presença em novo momento de decisão, o que já começava a ser hábito.
12 julho 2020
Hino. Emoção. Organização. Prolongamento. Sofrimento. Euforia. Estas são as palavras-chave que servem para descrever a final entre Portugal e Alemanha, em Wembley. Estava em jogo a quarta conquista germânica ou a segunda portuguesa e, já agora, a desforra da partida de Munique de há 19 dias. Essa mesmo aconteceu e a Europa caía aos nossos pés, depois de um mês revelador da nossa superioridade. “Bicampeões europeus”; “Missão cumprida e estigma superado”, exultavam os media que representavam a alegria de um povo que finalmente assistia a uma era de conquistas regulares.
Quando muitos pensavam que 2016 era uma exceção, eis que foi dada a melhor das respostas. No futuro, talvez a responsabilidade irá aumentar e o otimismo deve seguir-lhe os mesmos passos. O resultado, esse, pouco importa e a festa, essa, foi de loucos.
(Esta ainda pode vir a ser uma história real. Resta-nos aguardar pelo próximo ano.)
Artigo revisto por Joana Mendes










