Quarenta anos depois do Campeonato do Mundo 1986, há que recordar alguém que esteve pela última vez em grande plano na sua carreira na competição disputada do México. Esse alguém é Manuel Galrinho Bento, considerado ainda hoje um dos melhores guarda-redes portugueses de sempre. Nascido na Golegã (Ribatejo) a 25 de junho de 1948. Desde cedo se tornou, no sentido positivo, um obcecado pelo seu trabalho e pelo treino.
Dá nas vistas pela primeira vez clube onde inicia a sua formação, o Clube Atlético Riachense. Foi-se mostrando um guardião bastante consistente entre os postes e atrevido nas bolas baixas. Pouco tempo depois, soube que o clube da sua terra (o Goleganense) abriu uma secção de juniores. Assim, em vez de fazer os já tradicionais cinco quilómetros de bicicleta depois do trabalho na construção civil para ir treinar e jogar, Bento já podia fazer o que amava ao lado de casa. Mal se deu a mudança, aumentaram os rumores que de havia forte talento nas balizas da Golegã. É por esta altura que surge uma das suas primeiras alcunhas: “O Yashin da Golegã”. Despertou o interesse de diversos clubes, mas era “sol de pouca dura”. Acabavam por desistir, muito com base no argumento da sua altura (1,73cm). No entanto, o Sporting acaba por se chegar à frente, mas a forma de atuar do clube verde e branco acaba por indignar Bento.
O jovem Ribatejano foi levado por um amigo a treinar em Alvalade e ficou à experiência durante várias semanas. Bento convenceu e os leões querem ficar com o “baixote” da Golegã para a baliza. No entanto, em vez de abordar o Goleganense pelo jovem guardião e oferecer uma verba, sugere a Bento que se vá desvincular ao seu clube e só depois tem porta aberta em Alvalade. Manuel Bento não aprecia minimamente a atitude, pois considera que não essa não é forma de tratar o clube da sua formação. A partir deste episódio, Bento faz uma jura: Nunca jogará no Sporting.
Depois dos leões saírem da equação, acaba por surgir interesse do Barreirense. Ao contrário dos verde e brancos, o clube do Barreiro apresenta uma verba significativa (dez contos) e o acordo é feito sem grande dificuldade. Assim, finalmente Manuel Bento vai trocar a vida pesada de pedreiro e o futebol amador, pelo futebol português ao mais alto nível (primeira divisão). Entre 1968 e 1972 atua pelo Barreirense e destaca-se com boas exibições. Durante este período, há um episódio que é marcante.
Em dezembro de 1970, há um jogo entre a seleção europeia e o Benfica no Estádio da Luz, em homenagem ao fim de carreira do lendário Mário Coluna. Na baliza da seleção europeia vai atuar Lev Yashin, o guardião soviético que era considerado por muitos, o melhor guarda-redes do mundo. No entanto, Yashin acaba por não vir e é necessário um substituto. José Augusto (ex-jogador do Benfica e oriundo do Barreiro) sugere Manuel Bento. A sugestão é aceite, mas tem muitas reservas. A opção de ser alguém de um clube modesto como o Barreirense a defender as redes da Seleção do Mundo e ainda por cima com sua baixa estatura, era tida em conta com muito ceticismo. Mas não havia tempo a perder e Bento vai à baliza. Faz uma exibição excelente e espanta o mundo do futebol, terá sido aqui que o Benfica olha com mais interesse para o jovem guarda-redes ribatejano, o seu clube de família.


Após competir quatro anos e meio no Barreirense, chega à Luz em 1972 e estreia-se logo numa equipa que foi campeã sem derrotas e uma das melhores até hoje na história das águias (Eusébio, Nené, Artur Jorge, Simões, Toni, Vítor Martins, Humberto Coelho, José Henrique, Adolfo, Malta da Silva e Artur Correia). Mas José Henrique era o guarda-redes titular e o jovem da Golegã iria ter de esperar pelo seu momento. Aos poucos e com trabalho regular, foi ganhando a confiança de treinadores como Jimmy Hagan, Fernando Cabrita, Milorad Pavic e do “velho capitão” Mário Wilson. Entre as épocas 1973/74 e 1975/76 alternou na titularidade com “Zé Gato” (José Henrique) e finalmente titular absoluto a partir de 1976/77. Durante praticamente uma década, a baliza do Benfica foi sua. Um período de tempo em que ficara também apelidado de “guardião do templo”. Todas as suas épocas no Benfica foram de sucesso a nível individual. Mesmo quando a equipa não teve bons resultados, Bento teve uma média inferior a um golo sofrido por jogo em todas.
Um dos marcos da sua carreira de águia ao peito, foi alcançado na época 1985/86 (a sua melhor época com apenas 18 golos sofridos em 43 jogos). Entre outubro de 1985 e inícios de inícios de janeiro de 1986, Bento chegou aos 1000 minutos sem sofrer qualquer golo nas provas nacionais. Mais marcante foi quando se entrou em campo para o Benfica x FC Porto de cinco de janeiro, o duelo entre os dois candidatos ao título. O jogo está empatado a zero e foi por volta dos 30 minutos de jogo que Bento atinge esse feito. No entanto, aos 73 minutos o árbitro marca penálti contra os encarnados. Todos julgam que o recorde vai ficar por ali e que Fernando Gomes (marcador de penáltis dos azuis e brancos) irá colocar os portistas em vantagem (tentando repetir o resultado da época anterior, 1-0 com golo também de Gomes). Manuel Bento fica olhos nos olhos com o capitão azul e branco e aí veio mais um momento especial. Fernando Gomes bate o penálti em força e Bento atira-se para o lado certo e impede o golo. O “velhinho” estádio da Luz vem abaixo e fica em delírio como se de um golo do Benfica se tratasse. Realmente, Manuel Bento não era um guarda-redes qualquer.
O recorde terminaria na semana seguinte, quando sofreu um golo frente ao Marítimo nos Barreiros. Já o recorde total de 1065 minutos sem sofrer golos de Bento, só seria ultrapassado em 1992 pelo portista Vítor Baía (que chegou a somar 1191 minutos imbatível). Outra das marcas são os penáltis defendidos (embora também os soubesse marcar). De águia ao peito, parou nove pontapés da marca de grande penalidade (três dos mesmos foram de Fernando Gomes em duelos com o FC Porto), mais do que qualquer outro guarda-redes nos três grandes.
Durante toda a sua carreira, destacou-se por ser o guarda-redes que era. Sobre os tempos de Manuel Bento na baliza, existia uma expressão o caracterizava perfeitamente: “Metia a cabeça onde os outros não punham os pés”. Forte nos reflexos, também dentro da baliza, mas mais ainda fora dela. Era um guardião quase sempre eficaz nos momentos em que saia dos postes para encurtar o espaço do adversário na hora do remate ou antes que o mesmo pensasse em fazê-lo. Quase imbatível no “um contra um” e matava muitos lances ainda antes da bola chegar à pequena área, por vezes antes ainda grande área. Muitos adeptos do Benfica e do futebol português em geral, recordam a sua “loucura” na abordagem de certos lances, nomeadamente quando se atirava com bravura aos pés dos jogadores que não eram da sua confiança futebolística. Algo que foi confirmado pelo mesmo mais tarde, já muito depois de ter terminado a carreira. “Para se ser guarda-redes tem de se ter um pouco de louco e eu talvez tivesse de ser um pouco mais que os outros, porque com a minha estatura e físico, tinha de arranjar uma maneira sempre de ludibriar o adversário”, disse Bento num programa de entretenimento em 2002.
O ribatejano que mais tarde se mudara para o Barreiro, foi um dos criadores e líder marcante de um grupo que marcou a história do Benfica e o clube da Luz a marcar os mesmos: o grupo do Barreiro. Carlos Manuel, Diamantino, Fernando Chalana, José Luís, Jorge Silva, Oliveira e Neno eram os mais célebres membros de um coletivo que se caracterizava por uma rotina dos tempos antigos do futebol. Manuel Bento acordava bastante cedo para ir a Sesimbra, buscar o peixe que pessoas da sua família (nomeadamente a esposa) vendiam no Mercado. Depois de realizar a tarefa e com a sua carrinha ainda a cheirar ao peixe, percorria as ruas do Barreiro para ir buscar os seus jovens colegas de equipa. Após todos estarem “a bordo”, percorriam o caminho em direção ao Estádio da Luz, atravessando a ponte 25 de Abril, para o treino matinal. Um ritual que se fez por muitos anos e que marcou a vida de todos eles.
Foi um grupo que se destacava não só pela sua amizade e qualidade em campo, mas como a base do balneário encarnado que oferecia ao plantel restante a união, a integração e uma mística especial que se refletia em tudo o resto. O grupo do Barreiro esteve no Benfica entre os anos 1970 e 1980, ajudando o clube a ter equipas inesquecíveis e a vencer imensos troféus. Todos os jogadores, também por tal liderança e amizade, nunca esquecerão Manuel Bento.
Marcou também a história da seleção nacional portuguesa na década de 1980. Após 18 longos anos sem participar em qualquer fase final, Bento fez parte do elenco que se conseguiu apurar para o Euro 1984. Com a seleção orientada pelo triunvirato Toni-Fernando Cabrita-António Morais e dominada pelos jogadores do Benfica e FC Porto a chegar às meias-finais, houve um jogo que saltou à vista de uma geração. Portugal caiu aos pés da França após um 2-3, conseguido pela seleção gaulesa através de Michel Platini perto do fim do prolongamento.
No entanto, houve três elementos portugueses que são elementares na história desse mítico jogo. Rui Jordão fez dois grandes golos que empataram o jogo e colocaram Portugal em vantagem, com gestos técnicos que sempre caracterizaram o então avançado sportinguista. Fernando Chalana por diversas vezes mostrou o génio técnico e habilidoso que era, tendo assistido os dois golos de Jordão. Um através de um picar de bola delicioso para a área e o outro através de um cruzamento certeiro após deixar um defesa francês com dores de cabeça por não saber para onde se dirigia. O terceiro homem, mas nada menos importante, foi Manuel Bento. Sendo certo que o já veterano guardião do “templo da Luz” não conseguiu parar os golos gauleses, a verdade é que a derrota portuguesa podia ter sido mais pesada ou ter ficado sentenciada mais cedo. Manuel Bento fez inúmeras defesas nesse dia, umas magistrais e outras… impossíveis. Tantas que fez Platini, Tigana e companhia ficaram loucos do porquê a bola não entrar. Este foi um dos principais momentos que fez Bento fazer jus a um dos seus principais atributos: “homem de borracha”.
Dois anos mais tarde, está novamente presente de “pedra e cal” na equipa nacional que se apura para o Mundial do México 1986. Após uma fase de apuramento muito sofrida, a seleção orientada por José Torres (o “bom gigante”) podia apurar-se… se vencesse a seleção alemã na sua casa. Tal foi possível após um enorme e certeiro pontapé de Carlos Manuel, mas também a mais uma exibição de gala na baliza. Manuel Bento evitou imensos golos germânicos e mantendo o 1-0 português. No Mundial 1986, joga apenas no único triunfo da seleção portuguesa na prova, por 1-0 (golo de Carlos Manuel) frente à Inglaterra orientada por Bobby Robson.
Contudo, esta prova é marcada pelo “Caso Saltillo” e Manuel Bento (então capitão da equipa) foi dos rostos e impulsionadores da revolta dos jogadores contra as condições de trabalho (campos de treino repletos de buracos, posteriormente tapados com cimento e jogo de treino marcados contra cozinheiros e empregados de hotel) e prémios de jogo (valores muito baixos). Um episódio da história da seleção nacional e da FPF que mudou o curso da história e a partir daí, as condições de trabalho e remuneração só foram melhorando para os jogadores chamados a representar a equipa das quinas. Manuel Bento fez parte do mesmo.
No entanto, a estadia no México ficou marcada negativamente para Manuel Bento individualmente. Após o jogo com Inglaterra e nas vésperas do embate com a seleção da Polónia, um episódio infeliz acabou com o “pé de chibo” para sempre. Bento juntamente com alguns colegas de equipa, entre eles Augusto Inácio e Rui Águas, jogavam uma peladinha na brincadeira. Entretanto, o guarda-redes dá um mau jeito, magoa-se e o pé esquerdo fica virado ao contrário. A lesão parece grave (uma fratura no perónio) e terminou a competição para Bento, sendo rendido na baliza pelo então guarda-redes do Sporting, Vítor Damas. A lesão acabaria por não ser tratada devidamente e não só Bento estaria quase um ano sem jogar, como nunca mais voltaria a ser titular do Benfica e da seleção nacional. Até terminar a carreira, em 1990, só jogara cerca de mais meia dúzia de encontros pelos encarnados. Após 18 anos na Luz, Bento venceu oito Campeonatos, seis Taças de Portugal e três Supertaças, além de ter participado na enorme caminhada benfiquista até à final da Taça UEFA 1982/83, em que os encarnados foram finalistas com uma equipa inesquecível (Bento, Carlos Manuel, Nené, Diamantino, Chalana, Álvaro Magalhães, Humberto Coelho, Pietra, Veloso e Bastos Lopes).
Foi um guarda-redes que marcou para sempre o Sport Lisboa e Benfica e o futebol português em geral. Ainda hoje é recordado a par de Vítor Baía e Vítor Damas, como um dos melhores guarda-redes portugueses de todos os tempos. Havendo quem o considere mesmo o melhor, como foi em 2015 para um grupo de correspondentes oficiais da UEFA. Líder, corajoso, disciplinador e atrevido. Venceu tudo coletivamente a nível nacional, deu nas vistas a nível internacional e triunfou com muito trabalho a nível individual. Para os benfiquistas, Manuel Bento será sempre o “guardião do templo”. Para os adversários, nomeadamente os internacionais, foi o “homem de borracha”. Para a história, ficou o “pé de chibo” e uma eterna saudade.

