O Torreense venceu o Kolos na primeira mão da primeira eliminatória da Europa Cup. Gonçalo Nunes fez o rescaldo do encontro.
Gonçalo Nunes, treinador do Torreense, fez o rescaldo do encontro entre a turma de Torres Vedras e o Kolos. O treinador português já reagiu à vitória conquistada pelas suas jogadoras. Em conferência de imprensa começou por dizer:
«Sim, sobretudo nós, como disse anteriormente e no lançamento do jogo, queríamos fazer um jogo de qualidade, queríamos fazer um jogo de ambição e queríamos, acima de tudo, tentar combinar o número daquilo que são as oportunidades que conseguíssemos criar com a eficiência e a eficácia, o que acabámos por ser. Portanto, naquilo que criámos, o que não marcámos andou próximo disso. E tivemos aqui uma outra bola que até acabou por ser uma jogadora nossa que acabou por tirar, e acabámos por salvar duas bolas nos ferros. Portanto, acho que o nível de eficácia também foi elevado, o que é importante neste tipo de jogos, e o compromisso e a qualidade de jogo dos jogadores foi bastante boa. Não, e lá está, relativizando aquilo que o adversário foi porque acho que foi sendo uma equipa superintensa, superagressiva, diria que demasiado em alguns momentos, com algum excesso de agressividade, a forma como também a equipa de arbitragem conduziu o jogo foi permitindo um excessivo número de faltas. Mas, até aí, dou os parabéns à minha equipa, porque acho que manteve sempre o foco, manteve sempre esse controlo emocional e soube, no fundo, também lidar com isso da melhor forma».
Sobre o posicionamento tático (com uma ponta fixa e a Nicole em zonas interiores) e o que se pretendia provocar na defesa adversária:
«Em relação às duas avançadas, não tinham uma obrigatoriedade em termos de tarefa de ser uma a ficar na profundidade e outra a baixar em movimentos de apoio. O jogo acabou por levar a que nós, pelo lado esquerdo, tivéssemos que utilizar a Nicole algumas vezes como uma média um bocadinho mais baixa. O que, com a marcação que estava a ser feita mais junto à Catarina, havia um espaço entre linhas muito grande, e a Nicole acabou por aproveitar algumas vezes esse espaço para poder receber entre linhas. O que nós pedimos sempre é o inverso, em relação ao trabalho das avançadas: se uma tem que trabalhar entre linhas, a outra tem que trabalhar mais na profundidade. E acabou por o jogo levar um bocadinho a ir nesse sentido, até mais na primeira do que na segunda parte, onde o Kolos também, com algumas alterações que fez, mudou um bocadinho essas dinâmicas, e nós também tivemos que reajustar um bocadinho essas dinâmicas posicionais».
Sobre a combatividade da equipa e a capacidade de não ir abaixo mesmo quando o adversário marcou um golo:
«Sim, essa diria que é a maior característica desta equipa. Realmente é uma equipa… No fundo, este é um clube resiliente e é um clube que tem ultrapassado muitas adversidades. Esta equipa é um sinal disso. Aliás, acho que se fizermos um rewind àquilo que foi a época anterior, foi uma equipa que ultrapassou a adversidade maior de não jogar nesta casa, que hoje, como vimos, foi claramente o 12º jogador. E isso também a eles se deveu, e a esta moldura humana também se deveu. Se calhar, a equipa, mesmo num momento — não diria de domínio do adversário, mas diria num momento em que o jogo se desorganizou e se partiu , e nós não somos uma equipa tão forte nessa fase com o jogo partido, tivemos ali alguma dificuldade em voltar a pegar e a controlar o domínio desse jogo. Mas, realmente, essa é uma característica das nossas jogadoras, desta equipa, acho que intrínseca, que é nunca virar as costas à luta e ultrapassar as adversidades. E depois, como eu tinha dito no lançamento, nós queremos sempre mais, podemos criar mais, podemos ir atrás de mais. E, novamente, uma excelente resposta de quem entra no jogo. Por isso, temos um plantel, não temos só 11 jogadoras. Portanto, é algo em que nós trabalhamos diariamente e estas jogadoras têm consciência disso. Às vezes umas estão dentro, outras fora. Há uma troca e há um equilíbrio grande naquilo que é a qualidade do grupo, e também, novamente, quem entrou acho que ajudou a fazer-nos crescer e a fazer-nos ganhar mais qualidade, mais ritmo, mais energia. Isso permitiu-nos estar, nos últimos 15, 20 minutos, novamente a dominar, a criar oportunidades e a marcar dois golos. Foi nesse período que tivemos mais duas situações de golo, uma bola na barra, uma bola com uma ótima defesa da guarda-redes e, portanto, nós continuámos novamente com esse forte forcing final nesses últimos 20 minutos».
Sobre o significado de voltar a casa, estrear o novo relvado e conseguir uma goleada no primeiro jogo europeu em Torres Vedras:
«Acima de tudo, mais do que a questão de estrear o relvado, que sinceramente não é esse o marco que nós todos valorizamos mais. Claro, ficamos contentes, mas, acima de tudo, ficamos orgulhosos por o clube ter a capacidade de investir numa relva e, no fundo, em proporcionar uma relva desta qualidade para dar melhores espetáculos e mais qualidade ao nosso jogo, ao jogo da equipa sénior. No fundo, àquilo que é o clube. Mas, acima de tudo, voltar a casa, voltar ao nosso estádio, agradecer aquilo que foi uma adesão gigante, naquilo que é um regresso num jogo que nós, salvo erro, já não fazíamos desde o jogo do Benfica. Quase há oito meses que não jogávamos aqui no Manuel Marques, o único jogo que fizéramos aqui na época anterior. E esse foi o marco que claramente as jogadoras também quiseram muito retribuir, não só por esta adesão (de que nós já estávamos mais ou menos cientes de que íamos ter uma excelente casa), mas também demonstrar aquilo que é a alegria, através do seu jogo, de jogar no nosso estádio, que é claramente diferente de jogar em qualquer outro lado. E acho que o culminar de tudo isso é, lá está, também aquele que é o grande marco histórico: este primeiro jogo europeu do Torreense, este primeiro jogo feminino em Torres Vedras, que esperamos que seja o primeiro de muitos esta época, já no imediato, e que também não seja apenas uma situação casuística, mas que o Torreense marque presença em termos de competições internacionais. Iremos trabalhar para continuarmos a ter essa oportunidade».
Sobre os objetivos da época e a possibilidade de lutar pelo título de campeão nacional:
«Nós, acima de tudo, não nos vamos deslumbrar. Temos consciência de onde nos posicionamos naquilo que é a realidade do futebol nacional e daquilo que é a realidade das grandes potências nacionais, bem como das suas capacidades e dos seus recursos. Aquilo que nós queremos é manter esta consistência que temos demonstrado, principalmente nestas duas últimas épocas. Queremos continuar a crescer enquanto clube, enquanto organização e em termos de recursos disponíveis para, sim, de forma sustentada e gradual, nos aproximarmos cada vez mais do topo do futebol feminino, porque esse era um objetivo que está a ser conseguido. Diria que é utópico nesta fase, se calhar, pensarmos em ser campeões nacionais. Claro que se, por realidade, e não sabemos o que vai pela frente, as coisas se afigurarem possíveis, nós não desistimos de nada, mas, acima de tudo, pés bem assentes na terra. Aquilo que queremos é ser competitivos em todos os jogos. Vamos sempre querer ter esta ambição e esta forma de estar em qualquer que seja o jogo ou adversário, assim como o fizemos, e mencionou o jogo em Itália. E acho que o maior orgulho que podemos trazer desse jogo é que, perante uma situação tão intimidante (sendo uma primeira vez e um jogo logo com uma das grandes equipas mundiais do futebol feminino), estando nós ainda a dar passos crescentes nesse sentido, não nos encolhemos nem nos amedrontámos em nenhum momento do jogo. Em alguns fomos dominados, em outros tivemos a capacidade de dominar. E é isso que nós queremos cada vez mais vincar no Torreense e nesta nossa identidade. Depois, no final, logo vemos o que é que isso traduz em termos de resultados finais. Mas acho que, neste momento, o mais importante é, enquanto organização no seu todo, continuarmos este crescimento, que tem sido um crescimento sustentado, um crescimento organizado, um crescimento sólido. E isso é fundamental para que isto não sejam apenas episódios, mas algo que se vai consolidando».
Sobre se o Torreense já pode ser considerado um dos favoritos para ir longe na prova europeia após os recentes resultados:
«Bem, eu acho que neste momento nós focamo-nos muito na eliminatória. A eliminatória… Claro que, como eu tinha dito anteriormente, queremos estar e continuar a lutar na Europa para podermos prolongar esta experiência o mais possível. Estamos a desfrutar muito deste momento e a crescer com ele, o que é importante, e com toda esta experiência europeia. Mas também cientes da realidade, até porque sabemos que ainda há nove equipas da Champions a cair aqui na Liga Europa. Sabemos que, mesmo na própria Liga Europa, já estão equipas e clubes com outro tipo de argumentos, com outro tipo de recursos e de condições. Portanto, somos muito realistas. Agora, aquilo que queremos é continuar a vincar esta nossa forma de estar, esta capacidade que a equipa tem demonstrado, esta garra, esta atitude, esta ambição e jogar desta forma. Isso para nós é o fundamental. Vamos ver onde é que isso nos leva».

