Olhar tático ao Famalicão x Sporting: o comportamento zonal da equipa de Carlos Carvalhal e as duplas roturas dos leões para criar espaços

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O Sporting não foi além de um empate no terreno do Famalicão (1-1), em jogo referente à 6.ª jornada da Primeira Liga. Tendo em conta o jogo a meio da semana para a Champions League, diante do Galatasaray, seria extremamente importante que o Sporting entrasse em campo com capacidade para ferir uma equipa do Famalicão que, até então, ainda não tinha conseguido qualquer vitória na competição. Nesse sentido, era expectável que os leões procurassem assumir desde cedo o controlo do jogo, sobretudo através da posse e da capacidade para encontrar espaços perante uma equipa que ia procurar defender num bloco mais baixo.

Com a entrada de Flávio Gonçalves no onze, em detrimento de Rodrigo Zalazar, o Sporting foi tentando, ao longo da primeira parte, desmontar um bloco que se mostrou muito compacto desde cedo por parte dos famalicenses. Em 4-4-2 em organização defensiva, com Mathias de Amorim e Koutsias numa primeira linha de pressão, o Famalicão conseguiu condicionar os caminhos do Sporting pelo corredor central, sobretudo porque a proximidade entre a linha média e defensiva permitia controlar os espaços entrelinhas e, ao mesmo tempo, ter capacidade para pressionar rapidamente qualquer jogador que recebesse entre setores.

Com a linha média e defensiva da equipa minhota muito junta, destacou-se o trabalho de Marcos Peña e Tamaz Szucs no controlo do espaço interior, ao mesmo tempo que Sorriso e Gil Dias, e posteriormente Romeo Beney, assumiam um papel importante nas coberturas defensivas pelos corredores. Desta forma, o Famalicão conseguia fechar o espaço entrelinhas do Sporting e, perante a dificuldade dos leões em encontrar soluções por dentro, obrigava a equipa de Rui Borges a procurar alternativas sobretudo pelos corredores laterais.

Apesar da entrada afirmativa do Sporting, com capacidade para circular a bola e chegar algumas vezes ao corredor esquerdo através das combinações entre Maxi Araújo, Luis Guilherme e Issa Doumbia, foi faltando, com o passar dos minutos, maior capacidade para desbloquear o jogo no último terço. A circulação permitia ao Sporting chegar a zonas mais adiantadas, mas, perante a densidade defensiva do Famalicão, faltava depois encontrar o espaço que permitisse transformar essa posse em situações de maior perigo.

Luís Guilherme Sporting
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Uma das boas dinâmicas apresentadas pelo Sporting na primeira parte passou, precisamente, pelo posicionamento mais adiantado de Issa Doumbia na meia-esquerda, por vezes também com maior largura, mas sobretudo ocupando o espaço entrelinhas. Perante um bloco médio/baixo do Famalicão, não faria tanto sentido manter Sergi Altimira e Issa Doumbia atrás da primeira e segunda linha de pressão do Famalicão, até porque o Sporting poderia controlar eventuais transições do adversário através da superioridade numérica que tinha atrás da bola, com Altimira a assumir-se mais posicional e com Debast, Gonçalo Inácio e Fresneda – este último mais baixo na primeira parte – a garantirem a estrutura de construção e de equilíbrio. Assim, libertar Issa Doumbia para zonas mais adiantadas permitia ao Sporting ter mais um jogador entrelinhas e, simultaneamente, criar diferentes alturas dentro da estrutura ofensiva.

No entanto, apesar de conseguir ocupar esses espaços, o problema surgiu precisamente na capacidade para os aproveitar, uma vez que o espaço se tornou progressivamente mais curto perante a ocupação zonal do Famalicão. A equipa de Carlos Carvalhal mantinha as distâncias muito curtas entre setores e, sempre que a bola entrava por dentro, existia capacidade para aproximar rapidamente jogadores da zona da bola, dificultando a possibilidade de o Sporting virar-se e atacar a última linha (fundamental jogar a um ou dois toques).

Outro aspeto importante esteve relacionado com a primeira fase de construção. O Famalicão não pressionava de forma constante os centrais do Sporting, recorrendo sobretudo a alguns gatilhos de pressão quando a bola regressava para trás. Nesse contexto, era fundamental a capacidade de Debast e Gonçalo Inácio para identificar e explorar linhas de passe, tanto por dentro como por fora, uma vez que tinham tempo para receber e pensar o jogo, mas precisavam depois de encontrar a melhor solução para ultrapassar a primeira linha de pressão e fazer a bola chegar aos jogadores mais adiantados.

Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Ainda assim, com o decorrer da primeira parte, foi faltando alguma paciência ao Sporting, assim como maior velocidade na circulação. A equipa começou a recorrer com maior frequência ao passe longo e, quando Debast ou Gonçalo Inácio assumiam posições mais centradas nesse passe, tornava-se mais fácil para os defesas do Famalicão atacar essas bolas de frente e realizar os cortes.

Tendo em conta os comportamentos zonais do Famalicão e a tendência da equipa para vascular para o lado da bola, era importante que o Sporting conseguisse fazer a bola circular rapidamente de corredor para corredor. Só através dessa capacidade de mudar rapidamente o centro do jogo seria possível aproveitar o espaço que surgia no lado contrário, sobretudo porque a aproximação dos jogadores do Famalicão ao lado da bola acabava por libertar zonas no corredor oposto. Nesse contexto, o Sporting poderia encontrar espaço para ferir a estrutura adversária, seja através de cruzamentos, seja através de possíveis permutas através dos laterais e médios.

Além disso, para esticar a linha defensiva do Famalicão, o Sporting foi promovendo várias duplas rupturas. Maxi Araújo, que na primeira parte esteve muitas vezes mais por dentro, Luis Suárez e Issa Doumbia procuraram atacar diferentes espaços, enquanto Fresneda também apareceu em alguns momentos mais adiantado. A intenção passava por criar um dilema à última linha do Famalicão: se os defesas acompanhassem as rupturas na profundidade, poderiam abrir espaço entrelinhas; se, pelo contrário, mantivessem a posição para proteger esse espaço interior, permitiam ao Sporting atacar a profundidade. Era precisamente nessa relação entre os dois espaços que os leões procuravam encontrar uma vantagem.

No entanto, com o Sporting a construir a três e Fresneda a assumir, na maioria das vezes, uma posição mais baixa, senti que Geny Catamo teve mais dificuldades para conseguir criar situações de 1×1 no corredor direito. Existia quase sempre uma cobertura rápida de Sorriso, que procurava impedir o duelo direto do ala moçambicano, ao mesmo tempo que Pedro Bondo esteve a bom nível no controlo das suas investidas. Assim, Geny encontrava frequentemente uma situação em que, mesmo quando conseguia receber de frente, tinha pouco espaço para acelerar e atacar o lateral adversário.

Rui Borges Sporting
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Nesse sentido, poderiam ter sido importantes mais incursões de Fresneda por dentro, através de permutas, não só para ajudar o Sporting a entrar na área do Famalicão, mas também para arrastar referências defensivas e criar melhores condições para Geny Catamo atacar o 1×1 no corredor.

Na segunda parte, o Sporting voltou a entrar de forma afirmativa e Ivan Fresneda acabou por ter maior liberdade para se projetar pelo corredor direito. A partir daí, e através das combinações com Geny Catamo, os leões foram conseguindo aproximar-se com maior frequência da área de Lazar Carevic, criando uma dinâmica diferente daquela que tinha sido observada em alguns momentos da primeira parte. A maior projeção de Fresneda permitia também ao Sporting ter mais presença em zonas adiantadas e criar situações de superioridade no corredor.

Ainda assim, tal como tinha acontecido na primeira parte, o Famalicão procurava explorar os momentos de transição ofensiva, sobretudo através de Koutsias, Mathias de Amorim, Sorriso e Gil Dias, que rapidamente se projetavam para criar perigo. Merecem também destaque os movimentos de Sorriso de fora para dentro quando o Famalicão tinha bola. Em determinados momentos, estes movimentos conseguiram confundir as referências defensivas do Sporting e essa indefinição acabava por criar condições para o Famalicão encontrar jogadores em zonas mais interiores.

Outro comportamento interessante esteve relacionado com o posicionamento entrelinhas de Mathias de Amorim durante a saída de bola do Famalicão. O médio procurava posicionar-se de forma a poder ganhar uma eventual segunda bola após um passe longo dos centrais, mas também para receber entre a linha média e defensiva do Sporting e, posteriormente, explorar a condução ou o passe.

O Sporting foi tentando impor-se ao longo da segunda parte e Lazar Carevic foi assumindo um papel importante na baliza do Famalicão, sobretudo à medida que os leões começaram a chegar com maior frequência a zonas de finalização. Ainda assim, o golo acabaria por surgir aos 79 minutos, quando Luis Godinho assinalou grande penalidade a favor dos leões. Luis Suárez assumiu a responsabilidade e converteu, colocando o Sporting em vantagem e dando a ideia de que, finalmente, a maior iniciativa dos visitantes poderia traduzir-se nos três pontos.

Depois do 1-0, e sobretudo após a expulsão de Romeo Beney aos 87 minutos, seria expectável que o Sporting conseguisse controlar o resultado, ainda para mais perante uma equipa que estava reduzida a dez jogadores. No entanto, o Famalicão acabou por chegar ao empate já no tempo de descontos. Depois de uma insistência pelo corredor direito, surgiu o cruzamento para a área, onde Abubakar ganhou no jogo aéreo e contou com um desvio de Gonçalo Inácio para colocar a bola no fundo das redes de Rui Silva.

Carlos Carvalhal
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

O empate acaba por penalizar um Sporting que teve mais bola e procurou assumir o controlo do jogo, mas que encontrou muitas dificuldades para desmontar a organização defensiva do Famalicão, sobretudo durante a primeira parte. Do ponto de vista tático, a equipa de Carlos Carvalhal merece destaque pela forma como conseguiu proteger o corredor central, manter as linhas próximas e condicionar os espaços entrelinhas do Sporting. Ao mesmo tempo, a capacidade para vascular para o lado da bola e garantir coberturas rápidas nos corredores permitiu ao Famalicão controlar os duelos individuais e obrigar os leões a procurar soluções sobretudo pelos corredores.

Com este resultado, o Sporting soma 14 pontos, e fica agora a dois pontos do Benfica e a quatro do FC Porto. Já o Famalicão ocupa agora o 12.º lugar, com quatro pontos conquistados até ao momento na competição.

Relatório Tático – Famalicão x Sporting

Famalicão

Organização defensiva

  • Estrutura: 4-4-2 em bloco médio-baixo, com Mathias de Amorim e Koutsias na primeira linha de pressão, procurando sobretudo fechar o corredor central e condicionar movimentos de Sergi Altimira.
  • Orientação da pressão: numa primeira fase, o Famalicão permitia que o Sporting saísse através dos centrais Gonçalo Inácio e Zeno Debast, procurando não expor demasiado a estrutura. A pressão surgia sobretudo através de gatilhos, nomeadamente quando a bola era jogada para trás ou quando existiam condições para encurtar sobre os centrais.
  • Comportamento zonal: o Famalicão apresentou um comportamento predominantemente zonal, com o bloco a oscilar em função do lado da bola. Esta opção era particularmente importante perante a mobilidade dos jogadores ofensivos do Sporting, permitindo que os jogadores pudessem sair das suas posições para pressionar quem aparecesse na sua zona sem ficarem presos a referências individuais.
  • Controlo das zonas interiores: Sorriso e Gil Dias baixavam para a linha dos médios, juntamente com Tamas Szucs e Marcos Peña, formando uma linha de quatro compacta. O objetivo passava por proteger o espaço interior e, simultaneamente, dar capacidade para realizar coberturas sobre Rodrigo Pinheiro e Pedro Bondo.
  • Controlo dos corredores: a estrutura procurava impedir situações de 1×1 de Geny Catamo, Luis Guilherme e Maxi Araújo nos corredores. Quando a bola chegava aos corredores, o extremo do lado da bola tinha capacidade para sair na largura, enquanto os restantes jogadores ajustavam o bloco.
  • Proteção entrelinhas: a proximidade entre a linha defensiva e a linha média dificultou a capacidade do Sporting para encontrar jogadores entre linhas, obrigando os jogadores de Rui Borges a procurar frequentemente movimentos de rutura para tentar desorganizar a última linha.

Organização ofensiva

  • Saída de bola: numa primeira fase, o Famalicão procurava sair com a linha defensiva baixa, atraindo a primeira linha de pressão do Sporting. No entanto, perante a pressão alta dos leões, a equipa procurava rapidamente recorrer ao jogo longo através dos centrais.
  • Estrutura dos médios: Tamas Szucs e Marcos Peña assumiam posições mais baixas na construção, procurando atrair Sergi Altimira e Issa Doumbia e criar espaço entre a linha média e defensiva do Sporting.
  • Ocupação da última linha: Sorriso, Gil Dias e Koutsias procuravam fixar a linha defensiva do Sporting, enquanto Mathias de Amorim aparecia entrelinhas. O objetivo passava por criar condições para disputar a segunda bola e, caso o médio conseguisse receber, aproveitar espaço para conduzir e desequilibrar.
  • Jogo direto e segundas bolas: perante a pressão do Sporting, o Famalicão procurava colocar rapidamente a bola nos quatro jogadores mais adiantados. A intenção era criar situações de duelo, conquistar a primeira ou segunda bola e, a partir daí, acelerar o ataque.
  • Projeção dos laterais: numa fase mais adiantada da construção, Pedro Bondo e Rodrigo Pinheiro tinham diferentes alturas. Com maior frequência, Rodrigo Pinheiro assumia uma posição mais projetada no corredor direito, enquanto Pedro Bondo permanecia mais baixo no corredor esquerdo para garantir equilíbrio.
  • Ataques rápidos: após recuperação da bola, o Famalicão procurava acelerar imediatamente, projetando Koutsias, Mathias de Amorim, Gil Dias e Sorriso em transições ofensivas.
  • Sorriso por dentro: em determinados momentos, Sorriso realizava movimentos de fora para dentro, encontrando alguns espaços entre linhas para receber e progredir.

Limitações

  • Dificuldade para progredir perante a pressão alta: a tentativa de atrair o Sporting para depois jogar longo nem sempre permitiu ao Famalicão controlar o jogo após a primeira bola, sobretudo quando não conseguiu conquistar o primeiro duelo.
  • Excesso de procura pelas transições: na primeira parte, o Famalicão procurou frequentemente acelerar o jogo e explorar as transições, mas revelou pouca capacidade para ter bola e dar continuidade às suas posses. Perante um Sporting que teve mais bola durante largos períodos, teria sido importante colocar mais gelo no jogo e circular a bola com maior calma.
  • Pouca continuidade após a recuperação: quando não conseguia ganhar imediatamente o duelo ou a segunda bola, o Famalicão tinha dificuldade em manter a posse e voltar a instalar-se no meio-campo ofensivo.

Sporting

Organização defensiva

  • Estrutura: na pressão à saída de bola do Famalicão, o Sporting apresentou diferentes estruturas, entre o 4-2-4 e um 4-3-3 assimétrico. Geny Catamo podia assumir uma posição mais alta ou baixar, dependendo também do posicionamento de Pedro Bondo.
  • Bloco mais baixo: quando baixava no terreno, a equipa podia organizar-se em 5-3-2 ou 4-4-2, com Geny Catamo a baixar para a linha de cinco mediante o lado da bola.
  • Equilíbrio na perda: em vários momentos, Ivan Fresneda permanecia mais baixo e Sergi Altimira mais posicional. O Sporting procurava, assim, garantir uma estrutura de 3+1 – Fresneda, Inácio e Debast na primeira linha, com Altimira à frente – para controlar as transições do Famalicão.
  • Dificuldade em contrariar os cruzamentos: o Sporting revelou algumas dificuldades em contrariar os cruzamentos do Famalicão. Curiosamente, uma dessas situações acabou por resultar no lance mais perigoso da equipa adversária na primeira parte, com um cabeceamento de Sorriso e outra situação resultou no auto-golo de Gonçalo Inácio.

Organização ofensiva

  • Construção a três: o Sporting procurou construir com três jogadores na primeira fase, através da descida de Sergi Altimira para o meio de Zeno Debast e Gonçalo Inácio ou com Ivan Fresneda a assumir uma posição mais baixa, ou com Issa Doumbia a também a lateralizar à esquerda.
  • Opção mais frequente: ao longo do jogo, foi mais frequente Fresneda permanecer baixo, permitindo ao Sporting manter uma saída a três, com Sergi Altimira e Issa Doumbia em terrenos interiores. Esta solução, contudo, teve consequências na capacidade de atacar o corredor direito.
  • Corredor esquerdo: o Sporting encontrou algumas das suas melhores soluções pelo lado esquerdo, através das combinações entre Luis Guilherme, Maxi Araújo e Issa Doumbia.
  • Maxi Araújo por dentro: na primeira parte, Maxi Araújo procurava frequentemente zonas interiores, enquanto Luis Guilherme assumia a largura. Maxi tinha também como função atacar a profundidade, procurando esticar a última linha do Famalicão através de movimentos de rutura.
  • Issa Doumbia entrelinhas: Doumbia assumia uma posição mais adiantada na meia-esquerda, procurando estar próximo da área e participar nas combinações, mas também atacar o espaço entre central e lateral.
  • Ataque à última linha: perante o bloco compacto e zonal do Famalicão, o Sporting procurou desorganizar a última linha através de movimentos coordenados de rutura de Maxi Araújo, Luis Suárez, Issa Doumbia e, em alguns momentos, Fresneda.
  • Centrais como iniciadores: com Gonçalo Inácio e Zeno Debast pouco pressionados na primeira fase, os dois centrais assumiram responsabilidade na progressão. Procuraram utilizar a qualidade de passe para encontrar diretamente jogadores nas costas da defesa ou entrelinhas.
  • Problema dos passes longos: como os defesas do Famalicão estavam frequentemente de frente para o jogo, conseguiram controlar várias dessas bolas longas, reduzindo a eficácia dessa solução.
  • Segunda parte: maior liberdade para Ivan Fresneda ocupar o corredor direito e atacar espaços mais adiantados. O lateral conseguiu aparecer em zonas de cruzamento e dar maior profundidade ao ataque do Sporting.

Limitações

  • Fresneda demasiado baixo: a opção de construir frequentemente com Fresneda na primeira linha permitiu ao Sporting garantir uma saída a três, mas retirou presença, em alguns momentos, ao corredor direito numa segunda e terceira fase.
  • Geny Catamo: com Fresneda mais baixo, Geny ficou em alguns momentos desapoiado no corredor direito. O extremo tinha menos apoios para criar situações de 1×1 perante Pedro Bondo, sobretudo porque Sorriso realizava coberturas frequentes.
  • Dificuldade em atacar o bloco zonal: a organização zonal do Famalicão, com os jogadores a oscilar em função da bola, dificultou a criação de espaços interiores. O Sporting teve de recorrer frequentemente a movimentos de rutura para tentar abrir a linha defensiva.
  • Pouco aproveitamento da largura: quando o Famalicão concentrava o bloco no lado da bola, o espaço aparecia no corredor contrário, mas o Sporting nem sempre conseguiu variar o centro de jogo suficientemente rápido para explorar essa zona.
  • Dependência dos centrais: Inácio e Debast tiveram liberdade para conduzir e procurar passes verticais, mas, perante a organização de frente do Famalicão, várias tentativas de bola longa acabaram por ser controladas pela linha defensiva.

O que poderia ter sido diferente no Sporting

  • Altimira a construir a três: em determinados momentos, teria sido interessante utilizar mais Sergi Altimira entre os centrais em vez de Ivan Fresneda. Esta alteração permitiria libertar o lateral espanhol para uma posição mais adiantada.
  • Fresneda como apoio a Geny: com Fresneda numa segunda ou terceira linha, o Sporting poderia criar mais relações no corredor direito, através de permutas com Geny Catamo, movimentos por dentro ou sobreposições por fora.
  • Maior largura dos centrais: Além disso, ao utilizar Altimira como terceiro homem na construção, Gonçalo Inácio e Zeno Debast poderiam abrir mais, aumentando as distâncias relativamente à primeira linha de pressão composta pelos dois jogadores do Famalicão e criando melhores condições para procurar diretamente o corredor contrário.
  • Explorar a basculação do Famalicão: como o Famalicão apresentava um comportamento zonal e fazia o bloco oscilar em função do lado da bola, era fundamental procurar rapidamente o corredor contrário após atrair a estrutura para um dos lados.
  • Qualidade de Inácio e Debast na variação: com os dois centrais mais abertos, o Sporting poderia potenciar ainda mais a qualidade de passe de Inácio e Debast para encontrar Maxi Araújo ou Luis Guilherme à esquerda e Geny Catamo à direita, ultrapassando de uma só vez a primeira e segunda fase de construção, uma das alternativas para não procurar sempre virar flanco pelo chão.
Descrição: seria preferível ter Sergi Altimira a baixar mais entre os centrais para iniciar a construção, em vez de Ivan Fresneda. Esta dinâmica permitiria manter Fresneda numa segunda ou terceira linha, dando-lhe maior liberdade para ajudar Geny Catamo no corredor direito, através de movimentos de rutura e de permutas, tanto por dentro como por fora. Além disso, esta estrutura poderia contribuir para aumentar a largura entre Zeno Debast e Gonçalo Inácio, criando melhores condições para procurar passes longos para o corredor contrário. Perante um Famalicão que defendia de forma zonal e procurava sobrecarregar o lado da bola, era importante que o Sporting conseguisse chegar rapidamente ao corredor contrário, onde existia mais espaço. Com Debast e Inácio mais alargados na primeira fase de construção, o Sporting poderia facilitar a circulação direta para o corredor oposto e encontrar Maxi Araújo ou Luís Guilherme no lado esquerdo, ou Geny Catamo no lado direito. Desta forma, conseguiria ultrapassar mais rapidamente a primeira e a segunda fase de construção do Famalicão e atacar o espaço criado do lado contrário.

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Em organização defensiva, o Famalicão foi tendo capacidade para manter o bloco compacto ao longo do encontro. Pergunto-lhe de que forma tentou contrariar o jogo entrelinhas do Sporting com vários jogadores, e até com o próprio Doumbia a poder aparecer nesse espaço, e depois roturas e roturas e as duplas roturas, seja por dentro seja por fora do bloco?

Carlos Carvalhal: Sim, é uma boa pergunta, porque o Sporting é recheado de excelentes jogadores a jogar entrelinhas. Para além dos que jogaram, ainda tem o Zalazar, que joga muito bem naqueles espaços. O Flávio é um jogador fantástico também a jogar ali e seria um espaço fundamental para conseguirmos ganhar o jogo. As duplas desmarcações também foram uma realidade e de que forma podemos controlar isso? Tendo um comportamento zonal, fundamentalmente. Em vez de andarmos a fazer marcações HxH, andamos a fazer o bloco oscilar para o lado da bola e manter a integridade do bloco, não só do comportamento de dois no meio, mas fundamentalmente da linha média e defensiva. A partir do jogo zonal, bloquear o espaço entrelinhas, abrir eventualmente na lateral, mas os alas fizeram coberturas absolutamente fantásticas, não só na última linha, mas também a dar o primeiro combate com os extremos do Sporting. Nós, na primeira parte, e o que eu disse ao intervalo à minha equipa foi que nós tivemos várias situações para sair em ataque rápido, duas ou três aconselhavam-se ataque rápido, mas a esmagadora maioria não, e nós insistimos algumas vezes em ataque rápido. Nós devíamos ter identificado o que é ataque rápido e o que é a possibilidade de não ter êxito nesse sentido, porque o Sporting estava equilibrado. E aí tínhamos que ficar mais com bola e nós temos essa capacidade e, na primeira parte, em algum momento conseguimos circular bem a bola, mas levo isto também pelo facto de ainda não termos ganho no campeonato, alguma ansiedade, e temos de perceber estas coisas. Mas a equipa vai progredir e vai ser cada vez melhor, não tenho dúvidas nenhumas.

Bola na Rede: Com o bloco médio/baixo do Famalicão, o Sporting foi tentando explorar as roturas, as duplas roturas e a colocação de vários jogadores entrelinhas. Ainda assim, pergunto-lhe se, em determinados momentos, na primeira parte, o Geny acabou por estar um pouco desapoiado no corredor direito, também pelas poucas projeções do Fresneda? E depois por outro lado, que papel pode ter o Doumbia numa posição mais adiantada na meia esquerda para ajudar a equipa no último terço perante estes blocos mais compactos?

Rui Borges: Em relação à parte do Geny, acho que não. Tínhamos de ser mais incisivos quando a bola chegava ao corredor, para provocar essa profundidade, um, dois homens, como disseste e muito bem, a atacar a profundidade quando a bola chegava à largura. Nós fomos perdendo isso com o passar do tempo na primeira parte, tínhamos que arranjar espaço para ligar dentro, até porque a relva não estava muito fácil para jogarmos a um toque ou dois. A bola saltava muito e acabava por não facilitar o jogo interior. E, dentro de um bloco baixo, é natural que tenhamos de crescer e há jogadores que precisam de crescer nesse sentido e trabalhar dentro do bloco. A parte difícil dos grandes jogadores é trabalhar dentro de linhas curtas e coesas, que era o caso do Famalicão, e conseguirmos, mesmo em jogo interior, ter tomadas de decisão a um toque ou dois, e não estávamos a conseguir, e jogadores que não têm propriamente essas características. Por isso, não acho que era muito por aí, penso que a tomada de decisão nos últimos 20 minutos da primeira parte não foi a melhor. Deixámos o Famalicão entrar em ataques rápidos e, nesse momento, até estivemos muito bem, que era o momento mais perigoso de hoje. Por isso, tivemos oportunidade para fazer golo, poderíamos ter feito, não fizemos. É como eu digo, precisamos de estar ligados 91, 95, 96 minutos, não podemos desligar do jogo, acima de tudo.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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