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«Devíamos investir mais porque temos muito talento em Portugal» – Entrevista BnR com Henrique Chaves

Angelina Barreiro · 24 min

Henrique Chaves
Foto: TF Sport

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Natural de Torres Vedras, o sonho de miúdo levou-o a perseguir e a alcançar os grandes palcos do Desporto Motorizado, mais propriamente no Automobilismo, na categoria da ‘Endurance’.

A vencer as míticas 24 Horas de Le Mans em 2022, na sua estreia, na categoria dos LMGTEAM, Henrique Chaves é um dos nomes do momento do Desporto Motorizado em Portugal.

Como tudo começou, como vai o percurso, pensamentos sobre o futuro e como está o estado do Desporto Motorizado em Portugal, esta foi a nossa conversa com o piloto português, realizada no dia 4 de outubro de 2022.

– O início da caminhada até às pistas –

«Acho que, qualquer coisa para nos dar prazer, tem que dar algum trabalho, temos que nos esforçar, temos que nos sacrificar».

Bola na RedeComo é que começou a paixão pelos carros? Conta-nos um pouco sobre o teu primeiro contacto com o desporto motorizado.

Henrique Chaves: Começou tudo quando era miúdo, estava no terceiro ano. Tinha um colega na turma que o avô dele tinha um kartódromo, ele fez lá uma festa de aniversário e fomos todos andar de kart. Gostei muito da experiência e continuei a convencer o meu pai a ir lá mais vezes, por iniciativa própria e sem ser a festas de aniversário. Ele próprio também fez alguns eventos de empresa, e o «bichinho» foi parar ao meu pai.

Depois, tinha eu uns sete anos, comprei o meu primeiro kart, com a ajuda dos meus avós e do meu pai para dar umas voltinhas, divertir-me um pouco mais sem ter que alugar um kart no kartódromo, e, foi assim que começou. O dono do kartódromo que organizava lá o Campeonato Nacional, disse ao meu pai «o teu filho tem algum jeito, vou propor o contacto a algumas equipas para fazer um treino, e pode ser que dê para alguma coisa», e assim foi, fui a Palmela e fiquei numa das equipas mais consagradas de Portugal naquela altura, a Tony Kart, liderada pelo Norberto Martins. E depois, aos meus nove anos, em 2006, fiz o meu primeiro Campeonato Nacional, e depois, daí, é história, acho eu (risos).

Henrique Chaves esteve nos Campeonatos de Fórmulas de produção entre 2015 e 2017.
Fonte: AVF

Bola na RedeIniciaste a tua carreira ao competir nos Fórmulas, na Fórmula Renault e na World Series Formula V8 3.5, mas acabaste por seguir um rumo diferente, da resistência (endurance) e dos GTs. Quando é que te apercebeste que o caminho a seguir era o dos GTs?

Henrique Chaves: Como todos os miúdos, acho eu, nascem a ver Fórmula 1, e a perceber o que é a Fórmula 1. É o pináculo do Desporto Automóvel, e, por isso, o sonho é sempre tentar chegar à Fórmula 1. Trabalhei e tentei sempre de tudo para lá chegar, e daí ter ingressado nos fórmulas de produção, fiz três anos de fórmulas. A ideia era fazer um quarto ano, na Fórmula V8 3.5, em que fiz a última corrida do campeonato em 2017 e ganhei, e pensei «se calhar tenho aqui uma abertura e pode correr bem o próximo ano e posso dar um salto grande nessa aspiração, chegar à Fórmula 1» mas esse campeonato foi descontinuado, e no fundo, pode ser um contrassenso o que eu vou dizer, mas, foi algo bom.

Pensando hoje, sendo uma pessoa mais madura e percebendo como é que tudo funciona, um piloto português tentar chegar à Fórmula 1, em que é preciso também muito investimento, era complicado, e também esse cancelamento do campeonato [Fórmula V8 3.5] abriu-me outras portas, nomeadamente no endurance, e se calhar foi uma «luzinha», digamos assim, que me ajudou a tomar este ritmo e a mudar para o endurance, onde estou super feliz. É uma disciplina [endurance] dentro do automobilismo muito interessante, e que eu adoro e sigo, e vejo muitas corridas, não só as que faço, mas também as dos Estados Unidos, é algo que sigo bastante e que gosto muito.

Bola na RedePara ti, quais são as maiores dificuldades pela qual um piloto tem que passar?

Henrique Chaves: Neste desporto, a maior dificuldade é perceber, e vivemos num país que vê muito futebol. E temos três clubes grandes, onde 90% da população é desses três clubes, e estão habituados a ganhar, e veem o clube a ganhar, e quando perde, cai o mundo, basicamente. E neste desporto, é completamente diferente. As vezes que ganhamos são muito menos do que as vezes que perdemos, portanto, temos que aprender a lidar com a derrota, temos de saber perder, mas também saber interpretar que, por vezes, um segundo ou terceiro lugar continua a ser uma vitória ou um bom resultado, e é isso que temos que aprender.

Respondendo à tua pergunta, essa é, se calhar, a maior dificuldade. Obviamente que há muito mais por trás, o trabalho que temos que desempenhar e tudo isso, são dificuldades. Mas, se fosse fácil, não tinha piada. Acho que, qualquer coisa para nos dar prazer, tem que dar algum trabalho, temos que nos esforçar, temos que nos sacrificar, e passa por isso. Pelo menos para mim, a maior dificuldade foi ter que aprender a perder, porque, talvez tenha tido a sorte de, no percurso do karting, estar no sítio certo à hora certa, com as pessoas certas por detrás de mim, de ganhar várias vezes, mas depois quando cheguei aos Fórmulas e levei, algumas «estaladas», digamos assim, tive que aprender da pior maneira que temos que perder, e, de saber perder. E hoje em dia, acho que sei perder, mas o foco é sempre na vitória, mas, a maior dificuldade é mesmo essa, aprender a lidar com a derrota.

– O percurso até ao sucesso no mundo do ‘Endurance’ –

«Na minha estreia em Le Mans, há tantos que lá vão e tentam ganhar durante anos e anos, e não conseguem, e eu, na minha estreia, tenho a sorte de o fazer».

No ano de 2018, Henrique Chaves ingressou na European Le Mans Series, para a categoria LMP2, ao serviço da AVF (Gibson).
Fonte: AVF

Bola na RedeO teu caminho pela resistência (Endurance) tem sido vasto. Em 2018, estiveste na AVF (Gibson), na categoria dos LMP2, e agora, em 2022, estás na TF Sport (Aston Martin), na categoria dos LMGTE. Para ti, qual é a grande diferença, a nível técnico, entre um protótipo (LMP2) e um GT (LMGTE)?

Henrique Chaves: A maior diferença é o downforce, ou seja, a carga aerodinâmica que cada carro tem. O protótipo é um carro mais leve, tem cerca de 950 quilos, com bastante aerodinâmica, também muito veloz. A velocidade em curvas, especialmente em curvas rápidas, é muito alta, bem como as forças G. Tudo isso são coisas que nos temos que habituar, mesmo a própria forma de abordagem às curvas é diferente, ou seja, nas curvas rápidas temos que entrar um bocadinho mais cedo, porque temos toda a força aerodinâmica a «empurrar-nos» para o chão, e assim, curvar mais rápido. Mas tive apenas um ano nesse mundo dos protótipos, adorei, e se pudesse voltar hoje, voltava, porque é algo também muito interessante. Há também a questão do trânsito, pois, sendo a categoria LMP2, somos os carros mais rápidos e estamos sempre a ultrapassar carros, e agora, vejo a realidade de estar no LMGTE, pois, no fundo, somos a categoria mais lenta em pista. Temos que olhar pelos espelhos e perceber quando é que nos vão ultrapassar e tentar perder o mínimo tempo possível, esse é o grande foco nestas corridas. É perceber «ele vem ali, onde é que ele me vai atacar, para eu perder o mínimo de tempo possível» e às vezes é perceber onde posso poupar gasolina e pneus, e dizer «passa-me agora, ali na reta» em que eu vou perder duas ou três décimas, em vez de se atirar na curva comigo, e perder um ou dois segundos. Portanto, essa é uma das maiores diferenças, obviamente que o LMGTE é um carro mais pesado, com menor aerodinâmica, curva mais lento. No entanto, nas curvas lentas, é um carro um bocadinho mais pesado, é mais fácil, se calhar, de fazeres curvas mais lentas e também a tração em si dos GTs é um bocadinho superior à dos protótipos, portanto à saída das curvas, temos que levantar um bocadinho o pé nas curvas para não dar um toque na traseira. Mas, são essas as diferenças.

Este ano, para além de correr na categoria do LMGTE, corro no GT3, que é muito idêntico ao LMGTE, só que, o GT3 tem a particularidade de ter AVS [Adaptive Variable Suspension], e o AVS, não nos permite bloquear tanto as rodas, e quando salto de um carro para o outro, tenho de fazer essa adaptação no processo da travagem, e é algo desafiante, pois estou num carro ou no outro, tenho que mudar o chip rapidamente, para ser o mais rápido possível.

Bola na RedeEm 2022 estás a participar em várias categorias do desporto motorizado: WEC, ELMS e GTWC. Qual tem sido o maior desafio em conjugar todas estas provas num só ano?

Henrique Chaves: É difícil, não minto, mas se eu fizer o trabalho de casa, todo o trabalho por detrás, ou seja, no simulador, analisar todos os dados que a equipa disponibiliza, e também os [dados] que tenho antigos, ajudam-me quando me sento no carro, a adaptar-me mais rapidamente. Se calhar o salto de um GT3 para o GTE é mais difícil, porque, vou de um carro que tem AVS, onde posso carregar no pedal do travão com toda a força que tenho, que não há muitos problemas, e no início da temporada, ainda houve o caso que saltei desse carro [GT3] para o GTE, carreguei nos travões no GTE, e bloqueei as rodas instantaneamente, e pensei «okay, tenho que ser mais rápido, tenho que me lembrar de mudar o chip, sair do carro e tirar a cassete e pôr a outra» porque tem as suas dificuldades, para além dessa diferença do AVS. Por exemplo, o Aston Martin que corro no GTE tem motor à frente, o que tem as suas diferenças para um carro com motor central, como é o caso do McLaren [GT3]. Tudo isso, é uma questão de adaptação. Mas, no início da temporada, é um pouco mais estranho, e hoje, quando mudo de carro, é tudo muito mais automático, pelo menos para mim, porque já sei como é que cada carro se conduz, não teve que haver grandes adaptações, agora, pelo menos, para o final da temporada.

Bola na RedeDesde que assumiste a categoria dos GTs, achas que essa vertente te permite ser mais versátil no que concerne à participação noutras categorias do Desporto Motorizado?

Henrique Chaves: Sim, eu acredito que sim. Há exemplos de alguns pilotos que correm – até tenho um na minha equipa, na TF, que faz Campeonato na LMP2, da Racing Team Turkey, até estão na liderança do campeonato; é o Jack Aitken, que até já fez uma corrida na Fórmula 1, e até esteve na GT World Challenge a correr com o Lamborghini, ou seja, saltou de um protótipo para um GT.

Portanto, respondendo à tua pergunta, acho que estar no endurance dá mais essa versatilidade. Tanto podemos estar neste campeonato, como, por exemplo, ir para o outro lado do Atlântico e correr nos EUA, num carro idêntico, mas noutro campeonato, numa realidade completamente diferente, e essa versatilidade existe. Na Fórmula 1, é cada vez mais difícil [ser versátil], para o ano vão ser 24 corridas, daqui a cinco anos quantas vão ser (risos). Eles têm um foco completamente diferente, creio que os pilotos, estando no pico, não querem sair de lá e também têm que se dedicar àquilo a 100%, não podem estar a «brincar» noutros lados. Mas, aqui, temos essa versatilidade, às vezes um piloto falha, não pode, porque tem que estar noutro campeonato que está a correr – é muito natural isso acontecer – e sim, há versatilidade, e essa facilidade para nós corrermos no GT. O carro pode ser diferente daquele que vamos correr noutra corrida, mas, a adaptação é muito mais fácil, do que, se, por exemplo, estivéssemos noutra categoria, como Fórmulas, ou outra coisa assim do género.

Desde 2022, Henrique Chaves compete pela TF Sport, no Campeonato Mundial de Resistência (WEC), na categoria dos LMGTEAM.
Fonte: TF Sport

Bola na RedeEm relação à tua carreira na WEC, neste momento estás a assumir a posição na categoria dos GTEAM. Verias alguma mudança a acontecer neste sentido, como por exemplo, rumares para os GTEPRO ou mesmo para os Hyper?

Henrique Chaves: Estou aberto a qualquer proposta, qualquer oportunidade que me apareça. Eu estou sempre disponível para analisar, e, possivelmente, aceitar. Eu digo sempre que não quero pensar nisso, mas obviamente que penso, mas não gosto de comentar, porque gosto de me focar corrida a corrida. Ainda este fim-de-semana [1-2/10], acabou o GT World Challenge e há houve abordagens de alguns pilotos e equipas para fazer programas para o próximo ano, mas eu disse que ainda tinha a corrida em Portimão para o ELMS, e em novembro, a última corrida do WEC, portanto, quero terminar esses Campeonatos, quero estar focado nessas corridas, e depois disso, aí sim, pensar naquilo que poderá ser o próximo ano ou daqui a dois anos.

Mas, se hoje, me abordassem para incorporar um Hypercar ou mesmo para fazer um programa na LMP2, teria que pensar e dizer «okay, vou focar no que poderia ser o meu futuro, e guardar a preparação para a corrida de Portimão [ELMS] e do Bahrain [WEC] para mais tarde» mas sim, estaria aberto se essa proposta aparecesse. Primeiro, ficava muito satisfeito e orgulhoso do trabalho que tenho vindo a fazer nesse sentido – significaria que tinha chegado ao topo – mas, quero ter os pés assentes na terra e esperar que esse convite chegue, e sem grandes ilusões.

Ao lado de Marco Sorensen e Ben Keating, Henrique Chaves venceu as 24h de Le Mans em 2022.
Fonte: TF Sport

Bola na RedeFoste vencedor das 24 horas de Le Mans na última edição na categoria do LMGTEAM. Como é que foi essa sensação de o conseguir, mesmo na tua estreia na prova, e sendo uma prova tão icónica para o desporto motorizado?

Henrique Chaves: Eu não tenho palavras, acho eu, para descrever o que é que se passou naquele fim-de-semana. No fim-de-semana anterior tinha tido uma corrida, em Paul Ricard, onde lideramos a corrida toda, e acabamos com problemas na frente esquerda, e «morremos na praia». A corrida foi de 6 horas e estivemos 5 horas e 59 em primeiro, e acabamos por perder a liderança na última volta. Por isso, fui com um bocadinho de mindset daquela derrota, que deixa marcas.

Mas na verdade é que, depois, fui para uma nova realidade, um ambiente completamente diferente, algo que nunca tinha experienciado, que é Le Mans – os fãs; toda a atmosfera daquela corrida; a pista também é espetacular, especialmente o último setor com as curvas Porsche – e tive que mudar o chip novamente, e pensar que o foco seria nesta corrida, e esquecer o que já passou [Paul Ricard]. E estava a correr tudo muito bem, adaptei-me bastante bem, com a ajuda dos meus colegas de equipa que já tinham feito Le Mans bastantes vezes, e a equipa deu-me todas as ferramentas para eu me adaptar bem. E ainda tivemos um percalço no caminho, que foi a qualificação – quando o meu colega teve as voltas eliminadas por excesso de limites de pista, aquele clássico que são os limites de pista (risos) – e acabamos a qualificar em décimo nono, e pensei «vai ser muito difícil», apesar de saber que tínhamos ritmo para ganhar posições, mas estava longe de pensar que pudéssemos ganhar a corrida.

Claro que acreditamos no nosso valor e no nosso trabalho, mas, estão lá mais 23 ou 24 equipas e pilotos que também estão a trabalhar para isto, não estamos ali sozinhos. E, a verdade é que tínhamos um bom ritmo, mas os Porsche estavam muito rápidos. Mas, em termos de estratégia, a equipa esteve muito bem, nas paragens nas boxes, foram sempre rapidíssimos, andávamos sempre um segundo à frente das outras equipas e isso fez toda a diferença. E à hora 13 ou 14, creio eu, chegamos à liderança da corrida, e pensei «isto é real», mas ainda faltavam bastantes horas, portanto, foi continuar o foco. No desenrolar da corrida, houve coisas que nos prejudicaram, mas faz sempre parte da corrida, e, a nossa estratégia era, tentar, na parte da noite e da manhã, liderar, e se houvesse um safety car, poderíamos ter alguma sorte, e foi assim que aconteceu, a nossa estratégia era focar nisso, que nos permitiu gerir a corrida de outra forma.

E chegamos ao final, e ganhamos. Na altura nem acreditei, mas foi uma sensação espetacular. Na minha estreia em Le Mans, há tantos que lá vão e tentam ganhar durante anos e anos, e não conseguem, e eu na minha estreia, tenho a sorte de o fazer. Obviamente que por detrás da sorte, há muito trabalho, mas ter essa sorte de ganhar na estreia foi espetacular, e tenho aqui o troféu para me lembrar disso todos os dias que estou em casa. Mas, para o ano, se puder, quero lá voltar, e tentar ganhar novamente.

Bola na RedeDesafio-te a contares-nos uma história, qualquer uma, durante a tua carreira de piloto, que mais te tenha marcado. Certamente terás algumas!

Henrique Chaves: Ehhh… uma história que me tenha marcado… recentemente tive uma história que me marcou que não teve assim muita piada. Foi uma das que mais me marcou, foi o acidente mais horroroso que tive, se podemos dizer assim [6 horas de Monza]. Nunca é agradável perder os travões a 260 quilómetros/hora, e eu até diria que naquela pista foi na pior curva possível. Mas pronto, foi uma experiência das más, mas, que me deixa algo tranquilo, porque tive um acidente tão aparatoso, tão radical, e a verdade é que os carros hoje em dia, a segurança dos circuitos e todas as pessoas que trabalham nesses departamentos, fazem um trabalho espetacular para nós, pilotos, estarmos em segurança e conseguirmos fazer o nosso trabalho em segurança. Podemos estar tranquilos a fazer o nosso trabalho, dentro do que é aceitável, claro, e eu acho que isso é muito importante. Se nos sentimos inseguros, é claro que não vamos arriscar o suficiente para sermos mais rápidos, e pode acontecer acidentes mesmo trágicos, e já aconteceram, para mim não aconteceu, mas, continua a ser das experiências mais marcantes que tenho.

Mas também tenho uma boa, na altura dos Fórmulas, em que tive que aprender a perder, as corridas não corriam bem, algumas delas eram desastrosas. Salvo o erro que foi em 2016 ou 2017, já não me recordo, mas foi na Fórmula Renault, onde foram muitas corridas no top 5 – já era um ótimo resultado – e foi no dia de anos do meu pai que consegui o primeiro pódio na Fórmula Renault, e eu pensei «é agora que vai mudar a sorte» e assim foi, foi uma corrida que me marcou porque foi o primeiro pódio que consegui no panorama internacional do Automobilismo.

– A relação de Portugal com os Desportos Motorizados –

«Já não há muito interesse da parte da Fórmula 1 em vir a Portugal, porque, realisticamente, somos um país pequeno em dimensão».

Bola na RedeVivemos num país que tem o futebol como o maior destaque. Assim, pergunto-te, o que achas que Portugal tem feito para que o Desporto Motorizado se torne mais eficiente no nosso país, no que concerne a formação de novos atletas e à melhoria de resultados destes atletas a nível nacional e internacional? Achas que a influência de pilotos portugueses bem sucedidos no panorama internacional como o António Félix da Costa, o Filipe Albuquerque, ou mesmo tu, poderia ajudar nessa possível eficiência?

Henrique Chaves: Acho que não estou muito dentro do assunto, nem quero estar, porque, por vezes é algo que me chateia – o foco todo no futebol – mas eu acho que se tem feito muito pouco. Obviamente que há iniciativas, há pessoas a tentar divulgar mais, dar mais visibilidade, promover mais o Desporto Motorizado, mas acho que se tem feito pouco. Nós [pilotos] tentamos, ganhando Le Mans (…), ainda o Filipe Albuquerque esteve há pouco tempo perto de vencer o Campeonato de Resistência dos Estados Unidos [IMSA], o António [Félix da Costa] ganhou o Campeonato de Fórmula E recentemente, portanto, todos esses pilotos, não só nas quatro rodas, por exemplo, o Miguel Oliveira, que este fim de semana [1-2/10] ganhou uma corrida no MotoGP, que, no fundo, é a Fórmula 1 do Motociclismo.

Ainda assim, acho que ainda há muito pouca divulgação, incentivo, muito pouco apoio. Honestamente, acho que temos muito talento em Portugal – nós somos poucos, mas somos muito bons – e até estou farto de dizer isto, corri contra pilotos no karting que eram muito bons e com muito talento – talento sem trabalho não vale de muito – mas, com mais apoio, mais incentivos por parte do país, ou mesmo divulgação, porque se não houver divulgação, não há interesse dos patrocinadores, e se os patrocinadores não tem interesse, não há dinheiro, e é um desporto que, por si só, é caro. Não é comprar um par de botas e uma bola e jogar. É preciso, de facto, investimento, e se calhar, esse é um dos maiores problemas. É preciso investimento para mostrar resultados, e não o contrário.

Mas, acho que devíamos investir mais porque temos muito talento em Portugal. Por exemplo, no campeonato que faço do European Le Mans Series [ELMS], temos um miúdo – o Guilherme Oliveira – que está muito bem, está a liderar o campeonato na categoria dos LMP3. Mas, lá está, é mais um que teve que fazer o percurso nos karts, passar para o Automobilismo, e tudo isso é muito difícil, e se calhar, de um lote nos kartings que temos de 10, 20, 30 pilotos, sai um. Não há investimento, não há esse interesse. A Federação tenta fazer algumas coisas, mas não tem capacidade para mais. E é uma pena, porque temos grandes pilotos, que estão escondidos ou não podem mostrar aquilo que valem porque não há esse financiamento, esse apoio de Portugal.

Bola na RedeAgora, faço-te a mesma pergunta, mas em relação aos campeonatos e à organização de novos eventos. Achas que, em Portugal, tem havido alguma melhoria e maior incentivo à realização destes eventos?

Henrique Chaves: Tenho que ser 100% honesto, eu não sigo Desporto Motorizado em Portugal. Não sei se isso já responde, de certa forma, à tua pergunta. Obviamente que sigo algumas coisas, mas, se calhar, quando há 12 ou 13 carros inscritos, mas depois fazem seis categorias para dar um pódio a todos os carros, acho que não é assim que crescemos. Acho que deve haver uma categoria, ou duas, claro que depois há certas diferenças, mas acho que temos que fazer com que as pessoas que lá estão lutem para melhorar, e só assim é que podemos chegar aos grandes palcos, na Europa, no Mundo.

Tem vindo a haver progressos, naquilo que é a organização de Campeonatos Nacionais, mas acho que é preciso fazer mais. Por exemplo, é preciso melhorar na promoção deles [campeonatos]. Acho que os Ralis sempre foi algo com muita visibilidade em Portugal, temos tido boa promoção, pois os ralis, em si, têm uma História em Portugal, e por isso, também tem bons campeonatos. Mas há outros campeonatos, outras categorias em que é preciso inovar, é preciso melhorar, e por vezes, copiar exemplos que hajam além-fronteiras, não é mal de todo. Ou seja, se há uma solução do outro lado que funciona, não há problema nenhum em copiar a ideia. Ainda agora a Fórmula 1 introduziu as sprint races, e acho que a MotoGP vai introduzir também umas corridas de sprint. Não quer dizer que seja uma cópia. Se é um produto que funciona, vamos tentar buscar aquele produto para aqui, a ver se funciona. E acho que Portugal devia fazer mais isso, e não ter aquele pensamento de «vamos fazer nós, vamos fazer assim», porque, por vezes, sai furado.

Em 2023, está confirmado o regresso da WEC em Portugal, para as 6 Horas de Portimão.
Fonte: TF Sport

Bola na RedePortugal tem conseguido assegurar grandes eventos de Desporto Motorizado como o Rali de Portugal, da WRC; o Grande Prémio de Portugal, da MotoGP; as 4h de Portimão da ELMS e, em 2023, as 6h de Portimão, da WEC. Quais mudanças seriam necessárias para Portugal conseguir assegurar o Grande Prémio de Portugal da Fórmula 1, tendo em conta que só o conseguiu, nos anos de pandemia?

Henrique Chaves: A Fórmula 1 está a mudar. A Fórmula está muito baseada no dinheiro, e, no fundo, aquilo é um negócio, e o negócio tem que dar lucro. Já não há muito interesse da parte da Fórmula 1 em vir a Portugal, porque, realisticamente, somos um país pequeno em dimensão, ou seja, em termos de área, somos pequenos. Apesar de, se formos colocar o oceano com as ilhas, somos bastante grandes em dimensão, mas, nem sempre é visto assim. E acho que, por isso, é um mercado pequeno para a Fórmula 1, é um mercado pequeno para as marcas, que, por vezes, tem mais interesse em ir aos Estados Unidos porque podem vender mais carros ou mais latas de Red Bull, ou se calhar, aos Emirados, onde podem pagar 40 ou 45 milhões por um Grande Prémio, e Portugal não tem dimensão nem capacidade para trazer um Grande Prémio, nas condições normais. Obviamente que, no COVID-19, foram situações extraordinárias, mas, em condições normais, não temos capacidade para o fazer.

Se calhar, se houvesse uma História mais abrangente no Desporto Automóvel em Portugal, noutras categorias – por exemplo, vamos trazer o WEC [2023]. Se conseguirmos manter o WEC no calendário, ir a Portimão, no próximo ano, e manter para os próximos anos, pode criar aqui alguma tendência, e poderá haver mais interesse por parte da Fórmula 1 em dizer «se calhar Portugal faz sentido aparecer no calendário». Talvez não como uma prova para aparecer todos os anos, mas talvez uma rotatividade – aparecer um ano, e voltar passados dois anos – mas, estar cativo, digamos assim, no calendário de Fórmula 1, acho mesmo muito complicado. E eu, pessoalmente, não sei o que é que Portugal poderia fazer para ter. Não é realista, acho que a solução seria encontrar um poço de petróleo infinito, sermos riquíssimos, e só aí é que a Fórmula 1 poderia ter interesse (risos). Mas, acho que não, acho muito difícil que a Fórmula 1 venha a Portugal mais recorrentemente.

– O pensamento para os próximos anos –

«O objetivo é, nunca parar de crescer».

Bola na RedeComentas (ou tens comentado, quando podes) Fórmula E na ELEVEN. Sendo uma categoria que, entre muitas outras, tem demonstrado que o Desporto Motorizado pode e deve lutar em prol da sustentabilidade ambiental, alguma vez passaria pelos teus objetivos a possibilidade de pilotares na categoria?

Henrique Chaves: Novamente, eu estou aberto a convites, a propostas, portanto, obviamente que, hoje em dia, não me veria na Fórmula E. A minha paixão pelo Endurance é bastante grande, gosto muito destas corridas. Mas obviamente que, e temos o exemplo do António Félix da Costa, e de outros pilotos no Campeonato de Fórmula E, que fazem o Campeonato do Mundo de Resistência [WEC], portanto, isso é possível, e estaria aberto para ter um papel no Campeonato. Acho o Campeonato interessante, com corridas espetaculares, ultrapassagens, uma grelha de pilotos com qualidade, que, se calhar, não se vê noutro lado, e se houvesse um convite para ingressar, acho que era um motivo de orgulho, porque o trabalho que estou a desempenhar está a ser bem feito, e estaria aberto a essa proposta.

Henrique Chaves, em ação, ao serviço da AVF, na Fórmula NEC 2.0, em 2015.
Fonte: AVF

Bola na RedeSe tivesses que definir a tua carreira até ao momento numa única palavra, qual seria?

Henrique Chaves: São duas palavras, tem que ser. EM CRESCIMENTO. Porque, o objetivo é, nunca parar de crescer.

Bola na RedeO que é que achas que o futuro tem reservado para ti, enquanto piloto? Qual é o teu maior objetivo para os próximos anos?

Henrique Chaves: Eu falo sempre, e é mesmo o que ambiciono, que é tornar-me piloto profissional. Ou seja, poder viver do Desporto, do Desporto Automóvel, que nem sempre em Portugal é o mais fácil. Temos poucos pilotos a viver do Desporto Automóvel, ou do Desporto Motorizado. Portanto, o meu objetivo para os próximos anos é trabalhar nessa direção do Desporto Automóvel.

Bola na RedeSe tivesses, em mente, uma carreira alternativa, qual seria?

Henrique Chaves: Eu digo isto, às vezes em tom de brincadeira, mas por vezes era muito a sério. Eu acabei a escola, fiz o décimo segundo ano, tirei um curso, de Gestão de Empresas, e sempre disse isto abertamente «eu estou aqui, estou a tirar um curso, mas não o tenciono usar». Ou seja, é mesmo um Plano B.

E agora, estás a perguntar-me o que é que eu poderia fazer, numa realidade paralela? Se isso não se concretizar, não tenho uma resposta concreta para te dar, porque nunca foi uma opção na minha cabeça. Ou seja, tenho as ferramentas – a Licenciatura – para poder seguir outro caminho, mas nem sequer pensei que caminho era esse. Vamos supor que há duas ruas, e uma das ruas cortou ali no curso, e nem quis imaginar o que é que poderia ser, porque, o plano é mesmo o caminho das corridas, e esse é o meu foco, e é para isso que eu trabalho todos os dias.

Ben Keating, Marco Sorensen e Henrique Chaves festejam o triunfo nas 6 Horas de Fuji, na categoria LMGTEAM, da WEC. Fonte: Wynn’s Racing

Bola na RedeCom 25 anos e certamente com um futuro brilhante pela frente, que conselho darias às futuras gerações do Desporto Motorizado?

Henrique Chaves: Bem, eu seguiria um pouco por aquilo que os meus pais fizeram comigo, que foi a decisão certa por parte deles, e diria «não deixes a escola, e depois da escola, tira um curso. Prepara sempre o Plano B». Ou seja, o Plano B tem que estar sempre preparado, porque, se fosse espanhol, francês, inglês, alemão, ou até italiano, eu diria «se calhar podes esquecer um bocadinho a escola, não deixar de fazer, mas esquecer a escola ou a faculdade por uns momentos para dedicar a isto», porque, por aquilo que eu vejo, há mais oportunidades nesses países; há mais vontade de terem pilotos e desportistas lá em cima. Mas, como é uma realidade portuguesa, eu diria «prepara o plano B, foca aquelas horas naquilo que vai ser o Plano B, mas também, dedica-te a seguir aquilo que são as tuas paixões, os teus sonhos. Seja Desporto Motorizado, seja Futebol, seja outro tipo de desporto. Foca-te naquilo que queres, trabalha duro, e tenta-te rodear das pessoas certas, porque sem as pessoas certas também não chegamos ao topo». Acho que seria isto que diria. Claro que o trabalho tem que estar sempre lá. Se não estiver, pode ter todo o talento do mundo, mas, sem trabalho, não chega lá.

Bola na RedePara finalizar, lanço-te um desafio: se tivesses que escolher apenas um carro e apenas uma pista, quais seriam?

Henrique Chaves: Outra pergunta difícil. Um carro e uma pista… não conduzi assim tantos carros quanto isso. Tão difícil (risos).

Foi um carro que conduzi poucas vezes, mas gostava de o explorar um pouco mais. Não é um Fórmula 1 nem nada disso, porque a meu ver, não seria realista. Se calhar, voltava a conduzir o Fórmula Renault, e iria juntá-lo a Portimão [Circuito]. Portimão está no meu top 3 de pistas, e aquele carro é um carro que conduzi poucas vezes, e gostava de explorá-lo mais e levá-lo ao limite. Dá muito prazer de conduzir, para além do som do carro, acho que era uma pista que combinava bem com aquele carro, especialmente, naquela última curva, a descer muito rápido a fundo, deve ser algo espetacular.

Foto de Capa: TF Sport

Angelina Barreiro

Redação Bola na Rede · ver artigos