Publicidade

«O exemplo de Cristiano inspirou-me a ajudar os mais afetados por esta pandemia» – Entrevista BnR com Martunis

Frederico Seruya · 9 min

«O exemplo de Cristiano inspirou-me a ajudar os mais afetados por esta pandemia» – Entrevista BnR com Martunis
Foto: Facebook de Martunis

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Quando ouvimos o nome Martunis, é inevitável associá-lo ao trágico tsunami que devastou a Indonésia em 2004. Mas, 16 anos depois, aquele para quem Cristiano Ronaldo é um herói, nele se inspirou para ser ele mesmo um herói em tempos de pandemia, leiloando uma camisola autografada por CR7 para ajudar os mais afetados. Com muitos “Okey, okey” à mistura, ouço a sua história e apercebo-me que a criança encontrada no meio dos destroços com a camisola da seleção portuguesa é já um homem feito, casado e com a ambição de regressar a Portugal para ser jogador de futebol profissional. Com o sorriso de alguém em quem cabem todos os sonhos do mundo, desfaz-se em elogios ao seu ídolo e mentor, e quem melhor que Cristiano Ronaldo, para muitos o melhor do mundo, para lhe ensinar como tornar os seus sonhos realidade?

– Nunca desistir, aconteça o que acontecer –

Bola na Rede [BnR]: Martunis, how’s everything?

Martunis [M]: Good, good. You look like Paixao [Martunis não diz o til e abre um sorriso genuíno].

BnR: Miguel Paixão?

Martunis: Sim, o amigo do Cristiano Ronaldo.

BnR: Já sei, já sei. Vou aceitar isso como um elogio.

Martunis: Ehehe.

BnR: Quando foi a última vez que estiveste em Portugal?

M: [Sai o primeiro “Okey, okey”] Foi em 2016.

BnR: Quando estiveste na formação do Sporting?

M: Sim, quando estive na Academia.

BnR: Aprendeste a falar português enquanto cá estiveste?

M: Não muito, era difícil para mim.

BnR: Que tal a experiência na Academia de Alcochete?

M: Foi um tempo muito feliz para mim, poder jogar futebol e aprender no Sporting. Mas, infelizmente, durante essa época tive um problema no joelho.

BnR: Foi um problema grave?

M: Sim, dava-me muitas dores e impedia-me de jogar. Depois voltei para a Indonésia e parei de jogar por uns tempos. Foi um problema do qual demorei a recuperar. Mas agora já estou bem.

BnR: Foi difícil a tua adaptação a Portugal?

M: Muitas pessoas em Portugal, sobretudo na Academia, receberam-me muito bem e olharam por mim. Foram muito bons e ajudaram-me a adaptar a uma nova realidade. Portugal é o meu segundo país. Tenho muitas saudades de Portugal, foram ótimas memórias e claro, é o país do Cristiano [Ronaldo].

BnR: O que é que ele te disse quando foste para a Academia do Sporting?

M: Ele é uma grande pessoa e ensinou-me muitas coisas.

BnR: Tens a ambição de voltar para Portugal?

M: Sim, agora que já recuperei quero voltar para Portugal. Quero voltar a jogar e posso trabalhar em qualquer coisa.

BnR: O que é que impede o teu regresso a Portugal?

M: É difícil, muito difícil pela questão financeira. Mas tenho muitas saudades de Portugal e quero muito voltar.

BnR: Para ti ainda é um sonho seres jogador profissional de futebol?

M: Sim, é o meu sonho. Esta lesão atrasou o meu percurso, mas vou dar tudo o que tenho para voltar a jogar. Adoro o futebol.

BnR: Que conselho é que o Cristiano Ronaldo te deu relativamente a seres jogador de futebol?

M: A minha comunicação com o Cristiano é normalmente feita através dos seus assistentes, Ricky [Regufe] e Miguel [Paixão]. Mas às vezes estou com ele pessoalmente e ele deu-me um conselho que jamais esqueci: “Nunca, nunca, desistas, porque o sucesso é um processo. E a escolha de nunca desistir é tua, aconteça o que acontecer.” Nunca sabemos quando é que vamos ter sucesso, mas pelo processo conseguimos ver se vamos ter sucesso ou não.

BnR: Já foste a Turim vê-lo jogar?

M: Sim, fui em agosto passado, patrocinado pela Shopee Aplications. Gostei muito do Allianz Stadium, é muito bonito.

BnR: Assististe a que jogo?

M: Foi contra o Nápoles. O Cristiano marcou um golo e a Juventus ganhou 4-3.

BnR: Desde que regressaste à Indonésia, o que é que tens feito?

M: A minha vida aqui tem sido muito difícil, não é fácil ganhar dinheiro e a lesão ainda me incomoda de vez em quando. Mas tenho um canal de Youtube.

BnR: É verdade, descobri o teu canal ao preparar esta entrevista. Quando é que o criaste?

M: Em 2016.

BnR: É algo em que gostavas de trabalhar no futuro, por exemplo?

M: Sim, era bom ganhar algum dinheiro com o canal. Gostava muito de arranjar um trabalho a sério, mas é algo que não consigo neste momento. Gostava que alguém me pudesse ajudar a comprar um bilhete para Portugal e ajudar a arranjar um trabalho. Quem sabe, ter o meu próprio programa.

– Desfeito o mito sobre o número na camisola da seleção –

BnR: Não te vou perguntar pormenores sobre o tsunami, nem obrigar-te a reviver essa tragédia, mas queria confirmar um detalhe que muita gente erradamente o diz.

M: Força, sem problema.

BnR: É sabido que foste encontrado com a camisola da seleção portuguesa. Muita gente crê que estavas com a camisola 7 e que por isso é que tens a relação tão especial com o Cristiano. Mas, pelo que investiguei, a tua camisola tinha o número 10, do Rui Costa. Confirmas?

M: Sim, era a camisola com o número 10.

BnR: Aliás, nessa altura, o 7 na seleção portuguesa era o Figo. O Cristiano ainda usava o número 17.

M: [Martunis ri-se] Sim, é verdade. Já passou algum tempo desde essa altura, não me consigo lembrar de tudo, mas eu percebo que as pessoas façam essa confusão porque o Cristiano criou desde logo uma ligação muito especial comigo.

BnR: Isso demonstra o quão boa pessoa ele é.

M: O Cristiano é um ser humano muito bom e eu nunca me vou esquecer do que ele fez por mim. Ele podia ter simplesmente enviado uma camisola e não se ter preocupado mais, mas não. Visitou-me e conheceu-me, o Ronaldo é um herói. Treinou-me e ajudou a que eu tivesse a oportunidade de viver na Academia do Sporting.

BnR: Não é só um jogador de topo, tem uma grande personalidade.

M: Sim, exatamente. Acredito que nem todas as pessoas faziam o que ele fez, tenho muito orgulho nele.

BnR: Consegues descrever o que sentiste quando conheceste o Cristiano pela primeira vez, em 2005?

M: Lembro-me que eram tempos muito difíceis, depois do tsunami passámos por muitas dificuldades. O Cristiano e a seleção portuguesa juntaram-se para nos ajudar. Mas lembro-me bem desse dia em que o conheci, aquele momento em que ele saiu do autocarro e nos olhámos nos olhos pela primeira vez…

BnR: O que sentes nesse momento?

M: Nem sei descrever, sei que comecei a chorar, mas ao mesmo tempo estava tão feliz de o ver ali comigo. Lembro-me como se fosse hoje do momento em que o conheci, mas é muito difícil explicar por palavras o que senti.

BnR: Depois vieste a Portugal e assististe a um jogo da seleção portuguesa não foi?

M: Sim, no Estádio da Luz. Vi o jogo ao lado do Rui Costa, foi muito simpático comigo. Sempre a sorrir, olhou por mim e tratou-me muito bem. Nunca me vou esquecer dele por isso, foi uma honra conhecê-lo ao vivo.

BnR: Anunciaste no início do ano que te ias casar. Quando é que vai ser o casamento?

M: [Martunis ri-se a bom rir] Já foi, há três meses atrás.

BnR: Ehehe, muitos parabéns então!

M: Obrigado, estou muito feliz. Decidi casar-me porque queria ter uma família e poder levá-la para Portugal.

– Herói em tempos de pandemia –

BnR: Vi no teu Instagram que leiloaste uma das tuas camisolas autografadas pelo Cristiano Ronaldo, para ajudar as pessoas afetadas pelo coronavírus.

M: Sim, o meu objetivo foi angariar dinheiro ao leiloar a camisola. Olhei para a camisola e pensei que é “apenas” uma camisola, e eu felizmente tenho muitas assinadas pelo Cristiano. E pensei, não sou o Cristiano Ronaldo, mas com o pouco que tenho posso ajudar os mais afetados pelo Covid-19. O exemplo de humanidade que ele foi para mim há uns anos inspirou-me a ser eu a ajudar desta vez os mais necessitados.

BnR: Como está a situação em Aceh?

M: Está a ser difícil para muitas pessoas. Há muitas famílias com dificuldades, pois há muitos infetados aqui na zona.

BnR: Quanto dinheiro angariaste com a camisola?

M: Foram cerca de 12.000€.

BnR: É muito dinheiro.

M: Sim, sobretudo para a realidade na Indonésia é muito dinheiro mesmo. Pude ajudar muitas pessoas e elas ficaram felizes com isso. Aqui na Indonésia toda a gente adora o Cristiano Ronaldo e esperam ansiosamente que ele possa vir cá visitar, sobretudo em Aceh [onde Martunis mora].

BnR: Foi um gesto de uma enorme generosidade da tua parte. São precisos mais exemplos desses para se acreditar mais na Humanidade.

M: Sim. Talvez o Cristiano saiba deste gesto, espero que ele fique orgulhoso. Gostava muito de estar com ele outra vez em breve.

BnR: Há pouco dizias que querias muito voltar a Lisboa e podias trabalhar em qualquer coisa. À parte do futebol, em que outras áreas estarias disponível para trabalhar?

M: Qualquer área, posso trabalhar em qualquer oportunidade que surja. Posso treinar e trabalhar ao mesmo tempo. Casei há três meses, por isso sinto ainda mais a necessidade de voltar para Lisboa e arranjar um trabalho para conseguir dar melhores condições de vida à minha mulher e à minha família. A minha situação aqui na Indonésia não é muito boa, é difícil receber bem. Aqui, infelizmente, não é bom para se ganhar dinheiro ou arranjar um trabalho decente.

BnR: Planeias ter filhos em breve?

M: Sim, mas tenho que melhorar a minha situação de vida.

BnR: Se for um rapaz, vais chamar-lhe Cristiano?

M: [Martunis ri sem parar] Sim, sim.

BnR: És religioso?

M: Sim, sou Muçulmano.

BnR: Como foi manteres a prática religiosa aqui em Portugal?

M: Foi fácil, muito fácil. Senti-me sempre confortável com isso e sempre respeitaram a minha crença. Para mim nem faz sentido categorizar as pessoas pela religião, somos todos iguais como seres humanos.

BnR: Percebo o que dizes. Eu sou católico e o meu avô era judeu, na minha família sempre me ensinaram a respeitar as diferentes religiões.

M: O Cristiano também é católico como tu.

BnR: Sim. E a verdade é que a base destas três religiões de que falámos é a mesma: o amor. Não é o ódio ou as guerras que tantas vezes se propagam.

M: Exatamente. Estamos todos ligados pela humanidade, independentemente da religião.

BnR: Qual a maior aprendizagem que retiras do futebol?

M: A maior aprendizagem foi que o futebol é um processo. E tens que trabalhar arduamente nesse processo e naquela que é a tua realidade se queres ser bem-sucedido. Nada se consegue sem prática e hard work. Esta é uma grande lição que não aprendi em nenhuma escola mas sim no futebol.

– Passes curtos –

BnR: Qual é o clube que apoias?

M: [Martunis sorri perante a óbvia resposta] O clube onde o Cristiano Ronaldo joga. E apoio também a seleção de Portugal ehehe.

BnR: Qual o jogo mais importante para ti? Aquele que teve mais significado?

M: Lembro-me de um jogo quando estava na Academia do Sporting, em que muitas pessoas da comunidade Muçulmana foram assistir. E houve imenso respeito das pessoas por isso, ninguém nos tratou mal pela nossa religião, fomos tratados como iguais.

BnR: Um estádio?

M: Santiago Bernabéu.

BnR: O teu guarda-redes preferido?

M: Casillas.

BnR: Um defesa central?

M: Pepe.

BnR: O teu médio preferido?

M: Bernardo Silva, ele é muito bom jogador.

BnR: O teu extremo preferido?

M: Quaresma.

BnR: O avançado mais matador?

M: Ronaldo, claro!

 Artigo revisto por Joana Mendes

Frederico Seruya

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes
Opinião

Torreense ‘Til I Die On The Beach

O Sunderland é uma das equipas mais românticas desta edição da Europa League. Não pelo futebol, mais próximo da ideia genérica do futebol inglês e britânico e pouco dado a estéticas e modernidades, mas pela história de um clube tradicional que, aos olhos de todo o mundo, desceu à 3.ª Divisão, fez o caminho das trevas e, à primeira, garantiu o acesso às competições europeias. Nesta caminhada, a série «Sunderland ‘Til I Die» ajudou o clube do Nordeste de Inglaterra a tornar-se mais global, solidarizando e sensibilizando adeptos de todo o mundo. No que toca a ter as ruas do seu lado, há poucos clubes mais bem posicionados do que o Sunderland. Um deles, ainda assim, é o Torreense. Por mais que seja interessante olhar para lá do óbvio, não nos podemos esquecer, em qualquer análise, que a competição para o emblema de Torres Vedras é altamente desigual. Enquanto se debela com um arranque de época delicado na Segunda Liga, o Torreense vai usando a Europa League como uma diversão cada vez mais competitiva, como uma montra de luxo para se publicitar enquanto clube e como uma recompensa merecida a um feito extraordinário. Este carinho natural para com o outsider roubou algum do protagonismo à primeira deslocação europeia do Sunderland em 53 anos. E, mais do que os dados lançados antes do jogo, o rumo dos 90 minutos ajuda a ganhar um sentimento de identificação com o Torreense.

Diogo Ribeiro · 7 min de leitura
Ler a crónica

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.