Há clubes que perdem jogos, mas o Manchester United parece ter-se especializado em perder a própria identidade neste arranque de época.
Já passaram treze anos desde que Sir Alex Ferguson saiu de Old Trafford e, por esta altura, já não faz sentido chamar-lhe uma fase de transição. É uma maldição. Uma daquelas que não aparecem em filmes de terror, mas que se manifesta sempre da mesma forma. Chegam jogadores de milhões, mudam treinadores, renovam-se promessas e, quando a bola começa a rolar, volta tudo ao mesmo. A esperança renova-se até agosto, mas a desilusão instala-se antes do outono.


Este início de época é apenas o capítulo mais recente de uma história que já se conta aos adeptos mais novos. Quatro jornadas bastaram para o United cair para o 13.º lugar da Premier League, somando apenas quatro pontos, precisamente depois de uma época em que tinha conseguido regressar à Liga dos Campeões. O mais estranho é que o plantel tem qualidade suficiente para discutir os lugares cimeiros, mas dentro de campo parece uma equipa que nunca se apresentou uns aos outros. Zero coordenação, completamente desconectados tanto do jogo como uns dos outros, o treinador ainda não conseguiu criar um 11 capaz de vencer jogos…
E honestamente o mais preocupante nem sequer são os resultados, mas a forma como acontecem.


O dérbi de Manchester, por exemplo, resumiu tudo. O City ficou reduzido a dez jogadores durante cerca de setenta minutos e, mesmo assim, foi o United que pareceu estar em inferioridade. Houve posse de bola, houve aproximações à área, mas quase nunca existiu a sensação de que o golo estava próximo. O VAR até acabaria por validar um lance polémico de Erling Haaland, mas agarrar-se a esse episódio seria uma desculpa demasiado confortável. O verdadeiro problema é que esta equipa simplesmente não sabe transformar posse em perigo.
Bruno Fernandes continua a carregar o peso de ser o cérebro da equipa, mas já não consegue resolver tudo sozinho. Matheus Cunha ainda procura justificar as expectativas criadas, Bryan Mbeumo também não encontrou a consistência esperada e Benjamin SeSko, que tem sido mais eficaz quando entra, parece pedir oportunidades enquanto o ataque insiste em tropeçar nas próprias ideias.
Michael Carrick chegou ao cargo depois da saída conturbada de Rúben Amorim e conseguiu devolver alguma estabilidade na época passada. Havia quem acreditasse que, finalmente, o United tinha encontrado um rumo. Só que estabilidade não é sinónimo de evolução.


A ideia de jogo continua demasiado dependente das transições rápidas. Quando o adversário oferece espaço, o plano funciona. Quando fecha linhas ou quando o contexto muda, o United fica sem resposta. Contra o City isso ficou mais do que evidente quando Maresca reorganizou a equipa depois da expulsão, e Carrick manteve praticamente tudo igual. O resultado foi uma equipa previsível, incapaz de aproveitar uma vantagem numérica durante mais de uma hora.
No meio-campo, a história repete-se. Andrey Santos ainda procura afirmar-se, Youri Tielemans tem rendido abaixo do esperado e Carlos Baleba passou demasiado tempo condicionado por problemas físicos. Em vez de controlar os jogos, o setor parece arrastar-se entre boas intenções e más decisões.
Atrás, o cenário não melhora. Luke Shaw voltou a sofrer com lesões, o clube falhou a contratação de um lateral-esquerdo quando essa parecia uma prioridade evidente, e tanto Patrick Dorgu como Diogo Dalot continuam a alternar entre momentos interessantes e erros que voltam a expor uma defesa desequilibrada.


O mais fascinante é que este United consegue iludir. Há estatísticas que mostram uma equipa mais agressiva na recuperação da bola e capaz de chegar ao último terço com frequência. Durante alguns segundos parece que finalmente existe uma base sólida. Depois chega o momento de decidir, de criar, de rematar, e tudo desaparece. Talvez seja isso que torna esta história tão diferente das restantes crises do futebol inglês.
O Manchester United não é uma equipa pequena a tentar crescer. É um gigante que já conhece o caminho para o sucesso, mas que parece incapaz de o reencontrar. Cada treinador chega convencido de que será o homem que quebra o feitiço. Cada mercado de transferências promete ser o último grande investimento necessário. Cada vitória faz acreditar que agora é diferente. Até deixar de ser.
A verdadeira maldição do United não é perder jogos. É conseguir convencer toda a gente, todos os anos, de que a maldição acabou, e voltam sempre ao mesmo.

