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O Parlamento Britânico, através da sua Comissão de Digital, Cultura, Media e Desporto, liderada pelo conservador Damian Collins, publicou o relatório “Combater o Doping no Desporto”, a conclusão de uma investigação de anos – até com uma eleição legislativa pelo meio – que lança várias dúvidas sobre a posição da Team Sky e da British Cycling (a Federação de Ciclismo do Reino Unido) quanto ao recurso a práticas proibidas e pouco éticas.

Comecemos por sumariar os vários temas relacionados com o ciclismo e sobre os quais os deputados levantam questões. Em primeiro lugar, é dedicado uma grande extensão do documento ao recurso aos Therapeutic Use Exemptions (TUEs) para saber se estes são adequados ou se há um abuso destes com intenções de melhorar o desempenho desportivo. Em seguida, analisa-se o caso do “jiffy bag”, a embalagem levada para Bradley Wiggins no último dia do Critérium du Dauphiné 2011 e as dúvidas sobre o que continha e, finalmente, o uso exagerado do medicamento legal Tramadol pelos atletas da Team Sky e do British Cycling. Ao longo de todos estas situações, um tema recorrente é a falha em manter registos médicos apropriados.

Ora, o que é um TUE? Tratam-se de isenções para uso terapêutico, ou seja, o atleta é autorizado a recorrer a uma substância proibida após provar que necessita desta para tratar uma condição médica. Neste caso, a investigação surgiu devido ao revelar pelos hackers Fancy Bear em setembro de 2016 de que Bradley Wiggins tinha tido direito a TUEs nas vésperas dos Tour de France 2011 e 2012 e do Giro d’Italia 2013, provas em que pretendia disputar a Classificação Geral, para recurso a Triamcinolone para tratar a sua asma.

O conceito do TUE exige que este seja requerido pelo atleta indicando o porquê de fazer esse pedido e provando que este é necessário. Depois, será feita uma análise por médicos ligados à Agência Mundial Anti-Dopagem (WADA) ou ao órgão de governo da modalidade (neste caso a UCI, União Ciclista Internacional) que defere ou indefere o pedido. Na altura dos TUEs de Bradley Wiggins havia uma espécie de fast-track da sua atribuição, que permitia que apenas um médico analisasse o caso e decidisse. Em 2014, passou a ser sempre obrigatório que passasse por um painel de três médicos que teriam de aprovar unanimemente o TUE para este ser atribuído.

Este abuso dos TUEs não se limita ao ciclismo e foi levado à consideração da WADA por Richard McLaren, o autor do Relatório desta agência sobre o esquema de doping estatal russo e que percebeu nesse contexto que esse regime precisa der melhorado, pois ainda pode ser abusado. No caso concreto do ciclismo, um dos pontos curiosos era que no período em Wiggins usufruiu deste sistema, quase todos os pedidos apresentados por ciclistas eram tratados apenas por um médico e sempre o mesmo, o Dr. Mario Zorzoli.

O Presidente da UCI à altura, Pat McQuaid, diz ter falado com este médico e que ele lhe confidenciou que, por exemplo, na altura das Clássicas havia ciclistas que pretendiam ter bons resultados que tomavam corticosteroides em TUEs que não eram legítimos. McQuaid tem também sido um grande crítico público da Sky e do British Cycling, no entanto, há duas considerações que não podem ser ignoradas.

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