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Giro d’Italia | Recital de resiliência no Blockhaus deixa João Almeida à beira da liderança

Ricardo Rebelo · 6 min

Foto: Team Emirates UAE

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Eis a linha da frente no que respeita à luta pela vitória no Giro d’Itália. No passado domingo, em pleno Blockhaus, imponente subida na zona de Pescara, confirmou-se a seleção de favoritos à geral no final de uma primeira semana em que sprinters brilharam, escapados brilharam e os voltistas tiveram os seus primeiros obstáculos a ultrapassar.

A etapa mais influente na classificação geral viu Jai Hindley (BORA-Hansgrohe) a triunfar, batendo Richard Carapaz (Ineos Grenadiers) e Romain Bardet (Team DSM). Já agora, Mikel Landa (Bahrain-Victorius), João Almeida (UAE Team Emirates) e Domenico Pozzovivo (Intermaché-Wanty) foram os únicos a encostar a este trio de grande qualidade. A situação de corrida atual, ao fim de nove etapas, traduz as diferenças provocadas no Blockhaus e no contrarrelógio individual, sendo que à frente de João Almeida, segundo classificado, segue apenas… Juan Pedro López.

Exatamente, o espanhol da Trek-Segafredo beneficiou de uma fuga para vestir de rosa (e também obter a liderança na juventude), perdendo uma vantagem confortável com a primeira grande dificuldade da prova. Antes, Mathieu van der Poel (Alpecin-Fenix) deixou a sua marca, sendo o primeiro líder, após entrar a ganhar sobre Biniam Girmay (Intermaché-Wanty).

Para além do corredor natural dos Países Baixos, venceram Mark Cavendish (Quick-Step Alpha Vynil Team) e Arnaud Demare (Groupama-FDJ), por duas vezes, também ao sprint. Simon Yates (Team BikeExhange-Jayco) liquidou surpreendentemente o contrarrelógio individual, ao passo que Lennard Kamna (BORA-hansgrohe), Koen Bouwman (Jumbo-Visma) e Thomas de Gendt (Lotto-Soudal) triunfaram fruto de três fugas bem-sucedidas.

A PRIMEIRA LUTA DE GALOS

Nove etapas depois, a situação sobre a luta pela camisola de líder do Giro d´Italia é mais clara. O Top Dez contempla os ciclistas mais regulares até ao momento, ainda que Juan Pedro López, a grande surpresa e aposta da Trek-Segafredo para a geral (também pela incapacidade de Giulio Ciccone), se mantenha à frente. No entanto, com tendência para cair das primeiras posições.

Em termos de diferenças, não existe pano para mangas no que toca a uma reflexão profunda: Romain Bardet e Richard Carapaz estão fortes, ao passo que Jai Hindley pode estar perto de voltar a demonstrar-se ao nível que esteve no Giro 2020. Se mantiver a forma, o australiano será uma grande dor de cabeça, não só para Bardet e Carapaz, mas também para João Almeida.

O português não esteve ao seu melhor nível, mas salvou o dia, o que certamente vai continuar a gerar alguma preocupação nos adversários. O pico de desempenho do líder da UAE Team-Emirates parece estar igualmente concentrado na reta final do Giro (à imagem de 2021), já que a exibição no contrarrelógio e no Blockhaus foi contida. Existe espaço para crescer na segunda e terceira semana e, talvez mais importante, a classificação atual permite ao caldense ambicionar talvez mais do que o pódio.

Para além da situação em que o luso se encontra, as próprias circunstâncias de corrida já se encarregaram de eliminar vários dos principais rivais à partida: Miguel Angel López (lesão + abandono), Simon Yates (queda) e Wilco Kelderman (incapacidade) não contam para a geral, o que abre possibilidades para todos. Estamos a falar de uma tripla de corredores que, pela sua qualidade, alvejavam, no mínimo, um lugar no pódio. Sem eles, a missão pode estar mais facilitada, no entanto, ainda existem muitos corredores e vários coletivos que podem ameaçar João Almeida.

A Bahrain-Victorius de Mikel Landa e a BORA-hansgrohe de Jai Hindley apresentam blocos assustadores, ao passo que a Ineos Grenadiers de Richard Carapaz não fica atrás. Neste aspeto, talvez João Almeida e Romain Bardet estejam mais desprotegidos, assim como Guillaume Martin, Domenico Pozzovivo ou o próprio Alejandro Valverde estejam remetidos a ambições mais modestas também pela falta de apoio coletivo.

Seguem-se várias etapas de transição antes das grandes decisões na geral. As montanhas do norte de Itália esperam os favoritos, assim como os corredores apostados em vencer a classificação da montanha: de momento, Diego Rosa da EOLO-Kometa é o líder, com 83 pontos. Em termos coletivos, a equipa mais compacta tem sido a BORA-hansgrohe, que lidera com três minutos e 21 segundos de vantagem sobre a Bahrain-Victorius.

ARRANQUE HÚNGARO, CONFRONTOS EM VELOCIDADE E FUGAS GLORIOSAS

A edição número 105 do Giro d’Italia começou na Hungria, com uma chegada explosiva, ganha por Mathieu van der Poel. O portento da Alpecin-Fenix foi o melhor “puncher” do pelotão, assegurando a camisola até ao Monte Etna (etapa quatro).

Antes, Simon Yates brilhou, vencendo com elevada nota artística o contrarrelógio de sensivelmente nove quilómetros. Existiram diferenças entre os favoritos, mas entre prestações razoáveis, abaixo das expectativas ou surpreendentes, foi mesmo o tempo do britânico de 29 anos que se destacou dos demais, prometendo muito em termos de geral. Contudo, a queda que sofreu no primeiro dia em Itália limitou claramente a sua prestação desde então.

À sua imagem, a primeira semana de Giro teve inúmeras oportunidades para os sprinters do pelotão somarem as primeiras etapas e, consequentemente, os primeiros pontos para a Maglia Ciclamino. Mark Cavendish venceu antes do Etna e ainda em solo húngaro: o veterano obteve uma vitória arrancada a ferros, depois de manter o seu ataque por uma distância impressionante, sem que mais ninguém conseguisse roubar aquela que foi a 16.ª vitória do britânico no Giro d’Italia.

Sem grandes notas sobre a subida ao Monte Etna para além da já referida fuga vitoriosa de Kamna (vitória em etapa) e Juan Pedro López (camisola rosa), as etapas que chegaram em grupo compacto e com um sprint conheceram apenas mais um vencedor: Arnaud Démare. O francês, já com uma bagagem recheada de vitórias na prova italiana, venceu duas jornadas com um sprint poderoso em ambas as ocasiões, batendo Fernando Gaviria (UAE Team Emirates) e Giacomo Nizzolo (Israel-Premier Tech) em Messina e Caleb Ewan (Lotto-Soudal) e Mark Cavendish em Scalea.

Das oito etapas em linha disputadas até ao momento, vingaram três fugas. Depois de Kamna ter sido o melhor escalador do grupo que se adiantou na quarta etapa, foi Koen Bouwmann que brilhou em Potenza, batendo Bauke Mollema (Trek-Segafredo) e Davide Formolo (UAE Team Emirates) numa jornada com um sobe e desce constante. Se o holandês foi quem demonstrou mais potência, o que dizer de Thomas de Gendt: na etapa oito, em Napoli, o belga de 35 anos conseguiu adiantar-se a Mathieu van der Poel e Biniam Girmay, levando consigo mais três ciclistas, e nem o grande trabalho que fez ao puxar o grupo o impediu de lançar um ataque espantoso… que culminou em vitória para a Lotto-Soudal.

De momento, Arnaud Démare lidera a classificação por pontos, com 147 tentos, contra os 120 de um rival improvável: Biniam Girmay. O eritreu tem somado bastantes pontos dada a sua regularidade nas etapas planas e de média montanha, sendo uma ameaça para o sprinter da Groupama-FDJ. A Volta a Itália segue agora o seu curso em direção a norte, em mais uma semana relativamente tranquila em questões “rosa” até à etapa número 15, mas com muita influência naquilo que pode ser o desfecho final em termos de classificação por pontos, principalmente.

Ricardo Rebelo

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