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Elisabete Jacinto: A heroína do asfalto

Diogo Rodrigues · 4 min

Elisabete Jacinto: A heroína do asfalto
Foto: Africa Eco Race

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O nosso destaque de hoje vai para a grande impulsionadora do desporto todo-o-terreno no nosso país, que provou não existirem barreiras nem limites quando se toca a competir nos maiores palcos do mundo.

Elisabete dos Santos Marques Jacinto nasce em oito de junho de 1964 no concelho do Montijo,  distrito de Setúbal. Desde cedo começa a interessar-se pelo mundo dos ralis, bem como por conduzir veículos capazes de “sacudir  o pó” dos asfaltos internacionais de maior cartel. Paixão esta que admite correr-lhe nos genes, uma vez que o pai e o avô foram grandes entusiastas destas lides, tendo inclusivamente participado na década de 60 no Nacional de todo-o-terreno, sempre tripulando automóveis.

Foto de Capa: Africa Eco Race

O DESAFIO DOS PRIMEIROS ANOS

A jovem inicia-se em 1992, com a participação no Grândola 300 na categoria de motos, ao comando de uma Suzuki DR 350, mas devido a um percalço não logra terminar a competição alentejana.

No ano seguinte compete e vence a 1ª edição da Taça de Portugal feminina de todo-o-terreno, ainda ao serviço da moto do construtor nipónico. Este ano fica também marcado pelo facto da desportista se ter classificado na 8ª posição à geral, na classe 5 (motos até 350cc ).

A SAÍDA PARA O OUTRO LADO DA PENÍNSULA

Corria o ano de 94 e a setubalense permanecia, mas agora a tempo inteiro, no campeonato nacional conduzindo uma Honda DRX 250, concluindo a competição no 12º lugar da já referida classe de motos a quatro tempos. Intercala as atuações entre portas com algumas visitas ao campeonato espanhol de todo-o-terreno, com presenças na Baja de Altacarria onde se quedou pela 5ª posição e na Baja de Aragão onde terminou entre o Top Ten, numa competição que superava os 650Km de extensão.

Estava assim demonstrado todo o talento da à data única mulher lusa a ter competido nesta vertente em certames internacionais.

A MUDANÇA DE CLASSE, MAS NÃO DE OBJETIVOS

No ano seguinte a piloto ainda exclusivamente nas motos conquista, novamente, a categoria senhoras dominando a  belo prazer, conseguindo ainda em Kawasaki DRX o 18ºposto na categoria 4 (motos a dois tempos até 400cc).

A AVENTURA ESTENDE-SE A ÁFRICA

Após inúmeras provas em solo lusitano e espanhol, disputando em paralelo ambos os campeonatos, é em 97 que Elisabete e a sua equipa decidem apostar em provas no deserto africano. Tal aconteceria em maio desse ano, quando  levam a cabo uma aventura no Rali da Tunísia. Aí de novo com uma Suzuki de maior cilindrada ocupa o degrau intermédio do pódio, na categoria “maratona” de motos até 650cc.

O INÍCIO NO “MONSTRO DO DESERTO”

Em 98 participa pela primeira vez no Rali Paris-Dakar, não terminando o exigente percurso  pois é forçada ao abandono fruto de um problema mecânico quando levava sete etapas percorridas. A mesma admitiria anos mais tarde que tal se devera à sua inexperiência .

No ano seguinte com uma KTM Rali, tenta novamente, mas desta feita foi o deserto a castigá-la quando à 8ª tirada  viu um “erg” de areia fina calar o motor da moto do construtor austríaco.

Com a persistência que todos lhe reconhecem a atleta volta a tentar aventurar-se nas dunas da Mauritânia em 2000 e em parceria com Mário Brás escrevem uma bonita história para o desporto Português, concluem entre os 50 primeiros à geral, com a piloto a terminar em 13º lugar na Taça do Mundo absoluta, arrecadando  o triunfo nas senhoras.

O ano veio ainda com uma novidade! Elisabete estreia-se  ao volante  de um automóvel, ao mais alto nível em Optiroc, com a jornalista Cecília Carmo no papel de co-piloto terminam a prova, mesmo que longe dos lugares da dianteira.

A portuguesa faz ainda algumas participações entre 2005/07 no Lisboa Dakar na categoria de camiões, mas a prova anulada em 2008 veio fazer com que este mítico rali sai-se do seu calendário.

O ÁFRICA ECO RACE: UM CAPÍTULO DE SUCESSO

Desde então a piloto opta por concentrar as suas atenções na preparação anual para competir na recém criada prova: o África Eco Race. Num percurso que compreendeu 11 participações com oito pódios. O ponto máximo chegaria em 2018 com a  conquista da geral, englobando carros e camiões, feito  já mais  esquecido pelos aficionados!

ELISABETE E O MUNDO DA ESCRITA

A piloto de 58 anos conta com três livros editados: “Irina no Masters Rali” em parceria com a Plátano Editora, onde conta as  aventuras vividas ao longo da carreira. Segundo a mesma a obra premiada como melhor Cartoon em 2007, na cidade do Porto, é uma BD que tem como objetivo mostrar aos jovens que é possível viver emoções muito para além de um ecrã de computador. Fazem ainda parte do seu currículo o livro: “Os tugas no Dakar”, uma BD que conta as histórias da natural do Montijo, bem como dos primeiros pilotos lusos a pisar as areias mais temidas do mundo. O último  em parceria com o fotojornalista  Mário Cunha conta em imagens as principais conquistas e desilusões desportivas da sua carreira.

Audaz, batalhadora e inspiradora, assim é uma mulher com M grande, que não se atemorizou com a presença em alguns dos mais duros ralis do mundo e que desafiou um meio ainda dominado pelo sexo masculino. Uma referência intemporal do desporto nacional.

Diogo Rodrigues

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