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Sonho do Olimpo #3: Asfalto americano deu 1.º Ouro Olímpico português

João Pedro Barbosa · 10 min

Foto: Comité Olímpico de Portugal

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É caso para dizer que neste «Sonho do Olimpo» “quem corre por gosto não cansa”. Seja pelos nossos atletas, e, consequentemente, os nossos personagens, seja por nós, que continuamos a dar o prazer da uma boa leitura sobre os acontecimentos dos Jogos Olímpicos. Foi a correr que a bandeira de Portugal subiu ao topo dos topos e «a Portuguesa» soou alto e a bom som. O asfalto norte-americano viu, sentiu e deu um ouro olímpico e uma futura campeã olímpica – uma medalha de ouro que chegou, quatro anos depois.

Uma viagem aos anos 80 que, no início da década, nos permitiu visitar o primeiro país comunista, União Soviética, a organizar os Jogos Olímpicos e, logo depois, fomos aos Estados Unidos capitalista para a edição seguinte. A incoerência, a disputa, a vontade de querer ser melhor a todo o custo, a divisão em dois blocos, tudo e mais alguma coisa. Uma reflexão sobre o Mundo na altura… Não há certo, nem errado, mas há uma certeza: que as competições não são para serem usadas por motivos políticos, mas sim desportivos.

EM CLIMA DE GUERRA FRIA, A AFIRMAÇÃO DE UM BLOCO – Parte I

Caro leitor, lembra-se no último artigo de falarmos nos “Jogos Políticos”? Pois bem, apesar de não ser esse o grande objetivo destes dois, já sabemos que a Política, normalmente, anda de mãos dadas com todos os eventos, sejam eles desportivos ou de outro tipo, mas andam! Nem os Jogos Olímpicos conseguem ser exceção…

De uma forma muito (MUITO) simplificada, após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, vivíamos num Mundo dividido em duas partes. De um lado, os Estados Unidos e o Capitalismo e, do outro lado, a União Soviética e o Socialismo. Um clima de Guerra Fria onde se verificava conflitos indiretos com apoio das duas potências mundiais aos intervenientes em questão e também constantes disputas estratégicas (a nível militar ou propagandístico; a corrida ao espaço, etc.). Enfim, um queria ser melhor do que outro e faziam de tudo, menos o ataque direto, para conseguir sê-lo.

Ora bem, em 1980 a União Soviética recebeu os Jogos Olímpicos e adivinhe lá, caro leitor? Pois é! Houve boicote dos Estados Unidos e nenhum atleta norte-americano viajou para Moscovo, a capital da União Soviética e sede da XXII Olimpíada. O boicote norte-americano, aparentemente devido à invasão do Afeganistão por parte da União Soviética, levou a que outras nações apoiassem a decisão e também ficassem de fora destes Jogos. Das 64 nações que não participaram estima-se que 45 a 50 tenham decidido não o fazer devido ao boicote liderado pelos Estados Unidos.

Os melhores momentos da edição de 1980 dos Jogos Olímpicos em Moscovo, União Soviética (Fonte: Olympic)

Enquanto que os atletas norte-americanos não tiveram outra opção se não aceitar que não iam aos Jogos, outros Estados deram a opção aos atletas de escolherem se queriam ir ou não. A título de exemplo, Grã-Bretanha e Austrália apoiaram os Estados Unidos, mas deram a possibilidade de os seus atletas participarem. Portugal não participou como nação, porém, houve 11 atletas portugueses que estavam presentes e competiram sob a bandeira olímpica.

EM CLIMA DE GUERRA FRIA, A AFIRMAÇÃO DE UM BLOCO – Parte II

A vingança soviética viria a concretizar-se, quatro anos depois, quando Los Angeles (Estados Unidos) voltaria a receber os Jogos Olímpicos, em 1984. Apesar do boicote soviético, o evento teve a presença de um total de 140 países e foi um sucesso total! Ainda assim, 14 nações ficaram de fora desta edição e 58% das medalhas de ouro dos Jogos de 1976 tinham sido conquistadas por essas mesmas nações.

A memória curta pode ser um dos grandes problemas da Humanidade… Ora aqui está um exemplo! Os norte-americanos, que não tinham participado em 1980 por a invasão do Afeganistão por parte da União Soviética, acabaram em 1983, um ano antes dos de Los Angeles, por invadir Granada, uma pequena ilha nas Caraíbas. Razão suficiente para os soviéticos não participarem? Sim! E também de o invocar publicamente, contudo, não o fizeram.

A cerimónia de abertura da edição de 1984 dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, Estados Unidos (Fonte: Olympic)

Mas passando para 1984: só os primeiros Jogos Olímpicos em Atenas (Grécia), em 1896, é que foram organizados sem qualquer financiamento do Estado do país que estava a organizar. Porém, 88 anos mais tarde e também no outro lado do Mundo, nos Estados Unidos, os Jogos não foram financiados pela Casa Branca. A organização teve de se suportar nas infraestruturas já existentes dos Jogos Olímpicos de 1932 e no financiamento das grandes marcas. Apesar de muito criticada, esta nova organização começou por ser adotada e os Jogos Olímpicos têm-se baseado muito neste tipo de organização, atualmente.

Em 1984, a Chama Olímpica voltava a arder nos Estados Unidos e pela segunda vez em Los Angeles. Depois de ter recebido a primeira vez em 1932, a «cidade dos Anjos» tornava-se a primeira cidade no Mundo a receber os Jogos Olímpicos por duas vezes e o mesmo em relação ao Los Angeles Memorial Coliseum. Engraçado, que já se fez história por ser duas vezes e ainda há a possibilidade de ser a terceira com a possível escolha para acolher também em 2028.

Esta foi a primeira vez que se introduziu no Programa Olímpico a Ginástica Rítmica e a Natação Sincronizada. Mas as estreias não ficaram por aí porque as atletas femininas puderam também participar nestes Jogos Olímpicos na Maratona (Atletismo) – e que linda história se escreveu para Portugal! – e também de participar na corrida de fundo de Ciclismo.

«THE AMERICAN DREAM» BANHADO A OURO (E BRONZE) 

«Em Viseu, nasceu para, a correr, o mundo conquistar». Sim, é verdade que até o Mundo conseguiu conquistar, porém, se recuarmos à antiguidade, temos de dizer que conseguiu mesmo um lugar ao lado dos “Deuses”, tal como os gregos acreditavam que aconteceria.

Carlos Alberto de Sousa Lopes chegou a 1984, e a Los Angeles, com um currículo já invejável (sem contar com as competições nacionais): dois ouros e duas pratas em Mundiais de corta-mato e uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976 (10.000 m). O atleta do Sporting CP era especialista nos 10 mil metros e também na Maratona e estava destinado a um caminho: o de fazer história.

O solo americano já conhecia as suas pisadas, o seu ritmo, o seu esforço, as suas conquistas, enfim. A marca das suas sapatilhas já estava cravada neste solo. Seria destino? Talvez. Acreditará nisso, caro leitor? Mesmo que não acredite, a história que se segue tem tudo e mais alguma coisa, por isso, acredite, pois, é a verdade.

O ano de 1984 ficará marcado na memória de Carlos Lopes como na memória dos portugueses e do Desporto português. Em março de 1984, no lado este dos Estados Unidos da América, em East Rutherford (Nova Jérsia), o atleta português tinha já vencido um ouro importante. Desta vez, nova conquista no Mundial de corta-mato.

Em março de 1984, Carlos Lopes já tinha feito das suas em solo americano ao vencer o ouro nos Mundiais de Corta-Mato, em Nova Jérsia (EUA)

Mas o regresso a Lisboa trouxe um valente susto ao atleta. A cerca de 15 dias de viajar para Los Angeles, após um treino, Carlos Lopes foi atropelado por Lobato Faria, candidato à presidência do Sporting CP – clube que representava na altura. Apesar de não ter passado de um susto, o incidente deixou mazelas em Carlos Lopes. Mas nem mesmo isto deixou que o seu caminho se alterasse… Olhe o destino aqui, caro leitor!

De viagem para «a cidade dos Anjos», já se sabia que a Maratona estava marcada para o último dia dos Jogos: 12 de agosto. Marcada para a madrugada de Lisboa e para a tarde quente de Los Angeles. Seria assim que os portugueses do outro lado do Atlântico esperavam ansiosamente o evento e seria assim o clima para os 42 km que Carlos Lopes tinha de correr. Nada que já não estivesse à espera e também preparado, física e psicologicamente.

Carlos Lopes, aos 37 anos, foi o vencedor da Maratona nos Jogos Olímpicos de 1984 e tornou-se no 1.º atleta português a vencer um Ouro Olímpico

Cerca de cinco meses, separou a vitória em Nova Jérsia e o Ouro Olímpico na Califórnia. Nem mesmo os 42 km, que Carlos Lopes acreditava ser o principal inimigo, foram uma distância impeditiva de, primeiro, vencer o PRIMEIRO (!) Ouro Olímpico português e ainda de bater o recorde Olímpico! 2h9m21s foi a marca que o atleta português estabeleceu num estádio repleto de espetadores à espera de presenciar este feito histórico.

Para além de tudo isto, Carlos Lopes, com 37 anos na altura, era o atleta mais velho de todos os 114 que estavam a participar na Maratona. O recorde olímpico só foi quebrado nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, por Samuel Wanjiru (Quénia), estabelecendo o novo recorde em 2h06m32s, ou seja, o recorde perdurou por 24 anos (!).

[Spoiler alert] E como se de destino não tenhamos já nós falado… temos mais um destino que germinou na América para em Seul (Coreia do Sul) tornar-se uma bela conquista. Falamos de Rosa Mota, que na primeira vez que a Maratona pôde ser disputada a nível feminino, trouxe uma medalha de bronze para Portugal. Foi só um presságio daquilo que ia ser… Caro leitor, falamos no próximo artigo!

Referência também importante para a medalha de bronze de António Leitão nos 5.000 metros. Os Jogos de 1984 em Los Angeles foi, a par dos Jogos Olímpicos de 2004 em Atenas, a edição onde Portugal arrecadou mais medalhas: um total de três.

A MODALIDADE: NATAÇÃO ARTÍSTICA

Não mudámos muito, visto que continuamos em estado líquido para falar da modalidade deste artigo. Sintonia, elasticidade, perfeição, coreografia, tudo e mais alguma coisa. São as competências necessárias para uma atleta da Natação Artística. Sim! A alteração em 2017 deu este novo nome àquilo a que estávamos habituados a chamar de «Natação Sincronizada».

Uma modalidade que combina natação, dança e ginástica e é considerado um desporto completo por combinar tantas competências. Com uma elevada popularidade nos Estados Unidos, não é surpreendente que a sua primeira presença em Jogos Olímpicos seja nos de 1984, em Los Angeles.

A federação internacional que coordena a modalidade é a Federação Internacional de Natação (FINA) e em Portugal quem está responsável é a Federação Portuguesa de Natação (FPN). Esta modalidade, juntamente com a Ginástica Rítmica, é exclusivamente dedicada às atletas femininas. Atualmente, só estão incluídas na agenda olímpica a prova de dueto e de equipas, um esquema seguido desde Sydney 2000. Antigamente, existia também a prova de solo, porém, foi retirada em Barcelona 1992.

Mas esta é uma modalidade em que há muitos pontos em avaliação e, consequentemente, muito que explicar em termos de pontuações! Pelas duas provas existentes, há três paneis de júris constituídos por cinco indivíduos, que avaliam as participantes de zero a dez. A pontuação mais alta e a pontuação mais baixa são sempre descartadas e a soma dos três resultados restantes darão o resultado final. Nas provas, o total de pontos é apresentado com a soma entre a «technical routine» e a «free routine».

A equipa russa que venceu a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 (Fonte: Olympic)

Na «technical routine» os júris avaliam a execução (30%), a impressão (30%) e os elementos necessários para a prova (40%). Os primeiros dois painéis têm de dar apenas uma nota enquanto que o último é necessário dar cinco notas para os cinco elementos necessários, que devem ser apresentados por uma ordem específica. Cada elemento tem um Grau de Dificuldade específico. No «free routine» há três painéis de júris que avaliam a execução (30%), a impressão artística (40%) e a dificuldade dos movimentos (30%).

Na competição de equipas há apenas uma sessão de «technical routine» e outra de «free routine», que é a Final. Na competição de duetos há duas sessões (uma «technical routine» e outra «free routine») antes mesmo da grande Final.

Há muitas regras a serem respeitadas e caso alguma seja quebrada pode levar a penalidades que vão afetar o resultado final das atletas. Estas são algumas regras que podem dar penalidades às atletas: o limite do tempo, uso do fundo da piscina ou o movimento incorreto dos elementos necessários nas «routines».

Em termos de medalhas, temos Anastasia Davydova (Rússia) como a mais medalhada de sempre na modalidade com cinco medalhas de ouro entre três Jogos Olímpicos (Atenas 2004, Pequim 2008 e Londres 2012). Portugal não tem qualquer medalha e também nunca teve nenhuma participação na modalidade em nenhuma das competições desde criação da mesma.

Ainda faltam 136 dias para o início dos Jogos Olímpicos na cidade de Tóquio, mas ainda há muito para (revi)ver connosco nesta viagem pela história Olímpica e portuguesa nesta competição. A nossa travessia ainda nem vai a meio e esperemos que você, caro leitor, continue a ser presença assídua para que possamos mostrar-lhe tudo. «Não perca o próximo artigo, porque nós também não!».

Foto de Capa: Comité Olímpico de Portugal

João Pedro Barbosa

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