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Portugal 4-0 Polónia: Fez-se história na Maia | Ténis, Taça Davis

Diogo Rodrigues · 9 min

Portugal 4-0 Polónia: Fez-se história na Maia | Ténis, Taça Davis
Foto: Diogo Cardoso / Bola na Rede

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O fim-de-semana ficou reservado, no que respeita ao Ténis, à realização das eliminatórias da mais antiga competição de seleções da modalidade, a Taça Davis.

A armada lusitana, capitaneada pelo antigo Top 100 mundial e agora diretor do Centro de Ténis de Alto Rendimento no Jamor, o algarvio Rui Machado, contava com os seguintes intérpretes: João Sousa (número um nacional); Nuno Borges (número dois), o recuperado Pedro Sousa; o experiente Gastão Elias e o portuense estreante em convocatórias, Francisco Cabral, que em conjunto com Nuno Borges formam uma das mais promissoras duplas de sempre do nosso país.

Do outro lado, contávamos com a seleção da Polónia, capitaneada por Mariusz Fyrstenberg, via-se sem a sua maior figura, o já vencedor de uma prova de categoria Masters 1000 Hubert Hurkacz, que prescindiu de defender o seu país nesta eliminatória por forma a preparar melhor a próxima série de Masters 1000 que tem início em Indian Wells.

Aqui pode ter residido um dos segredos para o sucesso dos patrícios, pois ao serem anfitriões tiveram a possibilidade de escolher a superfície de jogo. Optando pela terra batida, condições que como é sabido não são do agrado do Top 10 Mundial, e assim conduziram à sua ausência. Assim sendo, o nosso adversário tinha como cabeça de cartaz: Kamil Majchrzak, o único Top 100 aqui em ação. Os restantes membros da equipa seriam: Kacper Zuk (número dois); Szymon Walkow; Jan Zielinski e Daniel Michalski.

De acrescentar que era com muita espectativa, entusiasmo e alguma nostalgia que o público do norte do país voltava a receber a seleção, algo que não acontecera nos últimos quatro anos, sendo que a cidade da Maia em concreto já não via o seu nome associado à mítica competição ia já para mais de uma década.

O recinto no qual seria levada a cabo a I Eliminatória alusiva ao play-off Mundial do grupo I era o Complexo de Ténis da Maia, um dos maiores courts de terra batida indoor da Europa. A justificação para esta escolha prendeu-se com o facto das condições atmosféricas adversas dada a altura do ano poderem condicionar o normal agendamento dos encontros.

Foto de Capa: Diogo Cardoso / Bola na Rede

SOUSA SOFRE, MAS PREVALECE

Com a eliminatória a ser disputada em dois dias, tanto os encontros de singulares quanto os de pares seriam jogados há melhor de três sets. Para abrir as hostilidades de uma jornada que se esperava repleta de ação e de grandes batalhas, víamos um duelo entre João Sousa (87.º ATP) e Kacper Zuk (190.º ATP). Este último não só tentaria contrariar o maior favoritismo, como a maior experiência do vimaranense num face a face vital para o decurso da restante contenda.

Com o conquistador a começar por tentar impor o seu jogo, baseado na velocidade da sua pancada de direita, o serviço não ia ajudando, pois, as percentagens de colocação da primeira bola iam estando longe das ideais. Por essa razão, e quem sabe não só acusando a questão do pouco tempo de jogo em terra na presente temporada, bem como o nervosismo inerente a atuar diante do seu público, o melhor tenista lusitano de todos os tempos sofreria a quebra de serviço logo no jogo inaugural.

Dado o seu espírito guerreiro conseguiu ripostar por forma a igualar a um. Desde então e mesmo com os servidores a denotarem algumas dificuldades, foi sempre o caseiro a “cheirar” o break, algo que passaria da teoria à prática ao oitavo jogo com Sousa a granjear uma liderança de 5-3, aproveitando-a, e no seu serviço acabaria mesmo por conquistar o set, levados que estavam 49 minutos.

A entrada na segunda partida seria o período mais negro do lusitano: muito falhão, bastante lento e jogando muito na defensiva permitiu ao seu opositor crescer e acreditar nas suas chances, pois quebrando ao terceiro e ao oitavo jogos acabaria por minar por completo uma atuação, até então bastante competente do atleta que conta com quatro títulos ATP no curriculum. Resultado: contas equilibradas, com o polaco a aplicar um duro 2-6 ao cabo de 41 minutos.

Com tudo em aberto, e numa fase em que a fadiga mais que física ia sendo sobretudo mental, quem melhor gerisse a ansiedade daria o primeiro ponto à respetiva formação. Desta forma e conseguindo-o em branco eis que Sousa entrava logo apoderando-se do saque do oponente, algo que seria facilmente rebatível, dada alguma apatia do luso e ao fim de três pontos de break estava novamente tudo igual!

Depois de uma toada um pouco mais morna, e em que se assistiram a vários erros de ambas as partes, João Sousa voltando a comandar com a direita não fugindo tanto à esquerda, aguentar-se-ia com a sua pior pancada em longas trocas de bolas. Tal facto levaria a uma tentativa de aceleramento do visitante, contudo frustrada, visto que a relação entre pontos “ganhantes” e erros não forçados lhe foi claramente desfavorável. Assim, conduziu-se a uma vantagem de 5-2 por parte do nacional, já dispondo de duas quebras de vantagem.

Aí, e novamente tomado pela questão mental, não aproveitaria a primeira tentativa, com Zuk a ficar somente a um jogo do conquistador. Mostrando capacidade para inverter o rumo das suas emoções, valendo-se da incomparável experiência a este nível, e depois de pouco mais de duas horas e meia arrebataria mesmo o primeiro ponto para a seleção nacional conquistando a terceira partida pelo parcial de 6-4.

Tornando-se assim no tenista português com maior número de triunfos na Davis, 38, quebrando um recorde até então na posse de João Cunha e Silva.

UM DIA PERFEITO PARA O TÉNIS NACIONAL

Com a vantagem do nosso lado, assistir-se-ia de seguida a um duelo que teria de ser vencido pela Polónia, isto para ter ainda reais hipóteses de sucesso na eliminatória. De um lado, Kamil Majchrzak (75.º ATP) e do outro Nuno Borges (165ºATP), natural da Maia que atuando literalmente em casa e cumprindo o primeiro encontro de singulares na prova em toda a carreira, sentiu e de que forma o embate inicial. Findados os primeiros 15 minutos de disputa, o tenista luso venceu apenas meia dúzia de pontos “caindo” então para um parcial bem desfavorável de 0-5.

Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Embora não se podendo dizer que o nortenho estivesse mal taticamente, contava do outro lado com um jogador ultraconsistente que ia atuando em estado de graça, apresentando um nível que caso fosse constante seria de Top 20 Mundial, ou até mais!

Teimoso, persistente e fiel ao plano traçado, Nuno manteve as caraterísticas bem agressivas do seu jogo e com o seu oponente a “panicar” claramente recuperou para 3-5 e teve chances de devolver o terceiro break, contudo o mais cotado venceria a partida por 3-6 ao cabo de 33 minutos, com Nuno a ser superior na segunda metade do set.

A segunda partida confirmá-lo-ia, com Borges a estar sempre mais perto de importunar na resposta, algo que conseguiria ao sétimo jogo e após incontáveis possibilidades, o maiato desbaratava o saque do polaco. Depois de ser quebrado quando servia para igualar a contenda atuou ao seu melhor nível e fecharia o set que ao cabo de 52 minutos lhe sorria por 6-4.

A derradeira partida começava com o equilíbrio como pano de fundo, com ambos a manterem os jogos de serviço, embora fosse Nuno quem mais corria atrás dos pontos, ditando a sua intensidade e o seu destino. A cambalhota seria confirmada com um break ao sexto jogo que parecia decretar o desfecho, mas Kamil devolveria a  graçola reduzindo para 4-3.

Foi aí que Borges, mais paciente, viu inesperadamente o seu adversário acusar a pressão, embora tenha tido um contributo gigante para tamanha quebra! Com o serviço do seu lado e depois de 123 minutos de uma intensíssima batalha Borges provou  categoricamente o que me leva a considerá-lo o futuro da modalidade, dando o segundo ponto a Portugal, fixando um derradeiro parcial de 6-3. Estávamos assim a um passo de fazer “tombar” a forte contendora.

DO SONHO À REALIDADE EM MENOS DE UM ANO

A abrir o derradeiro dia de competição e com o sucesso tão perto, eis que Rui Machado apostava as fichas no conhecimento mútuo entre Nuno Borges e Francisco Cabral, portuense que também era novidade na Davis. Do outro lado da rede, contávamos com os igualmente rotinados Jan Zielinski e Szymon Walkow, num encontro em que e embora as forças fossem bastante equiparadas, acreditava levássemos alguma vantagem devido aos seis títulos Challengers conquistados pela nossa dupla.

Com os Portugueses, principalmente Cabral, a grande nível os serviços imperariam numa fase inicial até que os polacos se apoderaram do saque do maiato e desferindo golpe fatal adquiriam um break fundamental para o resultado da primeira partida, um 3-6 em 31 minutos.

Com a garra, tenacidade e crença que lhes é tão caraterística, os lusos quebrariam Zielinski logo de entrada. Quebra essa, que apesar das inúmeras ocasiões de break desperdiçadas pelos visitantes. se revelaria bastante para fechar por igual cifra a segunda partida. Com a pressão toda do seu lado, os forasteiros cederiam logo de entrada o seu serviço numa fase em que atuando como que de olhos fechados Borges e Cabral, empolgados pelo público, praticariam aí o melhor ténis de todo o encontro adiantando-se para 5-2, com dois breaks à maior.

Mesmo vacilando no serviço de Cabral, perdendo aí dois pontos de encontro, seria no saque de Borges e ao fim de cinco pontos de encontro e de pouco mais de duas horas que ficaria selada a eliminatória com um parcial final de 6-4 que dava a passagem a Portugal. No entanto, e segundo os regulamentos, ter-se-ia de disputar, obrigatoriamente, mais um duelo de singulares.

NADA MELHOR QUE FECHAR COM UM ESPETÁCULO DE MAGIA

Com as contas do apuramento consumadas e depois de uma homenagem que o colocou no panteão da fama do ténis nacional ao lado de nomes como: Fred Gil, Nuno Marques, João Sousa ou João Cunha e Silva (fruto de uma caminhada iniciada em 2007 na Geórgia em defesa da nossa bandeira) era hora do antigo Top 60 Mundial e agora 199.º ATP, Gastão Elias, ter pela frente Jan Zielinski (926.º ATP), que após o desgastante encontro de pares era novamente escolha.

Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Com a confiança, a adrenalina e a motivação a nosso favor, o lourinhanense aplicando-as na perfeição e parecendo uma parede inquebrável colocou todo o seu melhor ténis em simultâneo. Algo que expôs ainda mais as já de si enormes fragilidades do tenista de leste, e em modo supersónico fechou a primeira partida por 6-1, pasmem-se em apenas dez minutos, set mais rápido que vi até hoje no circuito masculino!

Gastão não baixando o nível, apenas não repetiu o parcial dados os cerca de uma mão cheia de pontos de break por ele perdidos. Poderia ter corrido mal, mas tal não se verificou dada a gritante fragilidade do polaco. O encontro seria mesmo conquistado apenas ao fim de 48 minutos com um parcial final de 6-3.

Assim se escreveu uma página de glória no ténis português e se viveram dias já mais esquecidos, que certamente ficarão registados para a posteridade.

A Taça Davis regressa em Setembro deste ano, com Portugal a duas vitórias de marcar presença entre as 16 melhores seleções, que no começo de cada temporada jogam as finais do centenário torneio.

O BNR dá os parabéns a todos os membros do staff luso, desejando-lhes as maiores felicidades para as respetivas temporadas.

Diogo Rodrigues

Redação Bola na Rede · ver artigos