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Maio ainda vem longe

João Amaral Santos · 4 min

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Nuno Espírito Santo, treinador do FC Porto, elegeu a última semana como adequada para deixar de falar de árbitros e de arbitragens – uma opção que, além de sábia, se veio a revelar muitíssimo conveniente –; agora, já só importa o futebol jogado, os golos marcados e sofridos, e qualquer “grande” que se preze, por muito que se sinta prejudicado, tem a obrigação de resolver por meios próprios, dentro das quatro linhas, os desafios que lhe são colocados. Até mesmo quando os ditos desafios surgem na forma de três golos sofridos, todos obtidos, sem excepção, no completo incumprimento das regras.

Não me querendo arvorar em crítico de arte, parece-me que estamos perante o melhor desenho da (ainda) curta carreira de Nuno; uma obra plástica de interpretação intrincada, complexa na forma e no conteúdo, com elevado espírito de contradição, mas com muito pouco de santo. Ainda assim, mais realista – já não diria honesta (não nos precipitemos no elogio) – do que as anteriores. Pois, a bem da verdade, as coisas são mesmo assim!

Respeitando, portanto, esta linha de pensamento, importa afirmar, sem mais preâmbulos, directa e claramente, para que todos os interessados o interiorizem: O Benfica empatou com o Boavista por demérito próprio e, obviamente, algum mérito do adversário. Qualquer outra explicação para o banho de Sol (e de bola) com que a nossa equipa se deleitou, sem matutar muito nos problemas da existência, durante aquela primeira meia hora, resultaria, muito em breve, noutras desilusões e, exemplos desses, existem bem próximos, e à vista de todos nós. O resultado foi, de facto, surpreendente e frustrante. Porém, não coloca minimamente em causa o que foi conseguido na primeira metade desta época; nem sequer o talento e a competência deste grupo.

E o que foi conseguido, até esta fase, pelo Benfica? A Supertaça Cândido de Oliveira; a liderança no campeonato (com quatro pontos de vantagem sobre o FC Porto e seis sobre o Sp. Braga); os apuramentos para os quartos-de-final da Taça de Portugal e para a final-four da Taça da Liga; e para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões: um percurso extremamente positivo e eficiente, que deve ser valorizado, não só à lente dos bons resultados, mas também tendo em conta as insondáveis limitações físicas que vêm martirizando, sem tréguas, grande parte deste plantel; e consequentemente, as opções do seu treinador.

 

Nesta estaca, tão acima do zero, o Benfica é a única equipa portuguesa que ainda pode almejar vencer todas as provas em que participa, posicionando-se – por força da vantagem pontual e dos próprios quadros competitivos – como a grande favorita à conquista das competições domésticas.

Os erros corrigem-se. Porém, convém evitá-los Fonte: SL Benfica
Os erros corrigem-se. Porém, convém evitá-los
Fonte: SL Benfica

Não estou preocupado com a perda destes dois pontos. Convém, todavia, realçar um facto: a grande diferença frente ao Boavista não esteve no resultado incomum, nem na sobrenatural marcha do marcador, mas antes na atitude demonstrada naquele início de jogo. A equipa esteve desligada, desconcentrada e desastrada, não se conseguindo revelar competitiva, nem na defesa, nem no ataque, ao mais alto nível. Foi como se os jogadores do Canelas 2010, desabituados a dar pontapés na bola e nas canelas – por força das circunstâncias conhecidas e a que são alheios –, fossem, assim, lançados do nada, neste preciso segundo, no mais exigente dos patamares competitivos. Os bons resultados servem, sobretudo, para reforçar a confiança e aumentar a tranquilidade; potenciando, mais facilmente, as qualidades futebolísticas individuais e colectivas da equipa.

Correndo o risco de cometer injustiças, parece-me, neste caso, que houve um certo excesso de confiança, e um excesso de tranquilidade, que resultou num inesperado facilitismo, que, normalmente, é fortemente penalizado (tal como foi). Vencer em Guimarães – um dos terrenos tradicionalmente mais hostis do futebol português –, por duas vezes consecutivas, num curto espaço de tempo, demonstrando total superioridade, mesmo utilizando duas equipas bem distintas, pode, eventualmente, ter contribuído para isso.

É normal, na mente dos nossos jogadores, que não se adivinhassem dificuldades de maior, frente a um Boavista teoricamente mais acessível, num jogo, para mais, a ser disputado no conforto de um Estádio da luz praticamente lotado. E, se essa ideia parece ter aflorado na mente de alguns jogadores, até as opções iniciais de Rui Vitória – sobretudo, a ausência de Mitroglou, ou de qualquer outro ponta-de-lança de raiz, do “onze” inicial –, parecem não ter ajudado. Aliás, podem mesmo ter contribuído para reforçar essa ideia ou sensação.

No entanto, nunca existem vitórias plenamente perfeitas; nem derrotas plenamente imperfeitas (também neste caso, o futebol é muito parecido com a vida). Podemos sempre aprender com esta experiência, retirar as devidas ilações, corrigir e melhorar. O Boavista recordou-nos, no passado sábado, que não existem campeões antecipados e que cada jogo, cada lance, deve ser disputado com a máxima seriedade possível. Rui Vitória e os jogadores perceberam-no e afirmaram-no numa extraordinária reacção. Não voltarão, certamente, a dar folga aos atributos que caracterizam este grupo: talento e trabalho. Qualquer que seja o adversário.

Artigo revisto por: Diana Martins

João Amaral Santos

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