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«Sou portista e tive duas oportunidades de ir para lá» – Entrevista BnR com Elpídio Silva

Frederico Seruya · 18 min

«Sou portista e tive duas oportunidades de ir para lá» – Entrevista BnR com Elpídio Silva
Foto: Facebook de Silva

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Elpídio Pereira da Silva Filho. O pistoleiro. Ele é O “cara”. Atende-me com um olho no telemóvel e outro na televisão, no Tondela-FC Porto. Como disse? É isso mesmo, Silva confessa-se adepto dos dragões, clube que esteve perto de representar por duas vezes. Da passagem pelo SC Braga, recorda a gratidão a Vítor Oliveira e a “desfronta” com Manuel Cajuda. No Boavista, afirmou que iria ser campeão e todo o balneário se riu, incluindo o presidente João Loureiro, o que fez com que Silva o obrigasse a colocar uma cláusula especial no contrato. Da passagem pelo Sporting, recorda um clube grande mas mal gerido, a admiração por Fernando Santos e um golo muito especial no derby com o Benfica. É bola na rede e Silva faz: Bang! Bang!

– De Campina Grande para o mundo –

“Eu via muitos filmes de cowboys e disse para o Duda “Qualquer dia eu vou fazer igual”

Bola na Rede [BnR]: Alô Silva, tudo bem?

Elpídio Silva[ES]: Tudo! [Silva está com um olho no telemóvel e outro na televisão]

BnR: Dá-te jeito falar agora?

ES: Sim, sim. Estou só aqui a ver o FC Porto…

BnR: A sério?

ES: Sim. Eu sou portista.

BnR: Ai é?

ES: Ehehe sim.

BnR: Mas nunca jogaste no FC Porto.

ES: É, foi o clube em que eu nunca joguei mas tive oportunidade duas vezes de ir para lá. Só que não consegui, não se fechou contrato. Mas era um clube em que eu gostava muito de ter jogado em Portugal.

BnR: Quando é que estiveste para ir para o FC Porto?

ES: Foi no tempo do SC Braga.

BnR: Porque é que acabaste por não fechar contrato?

ES: A primeira vez foi o Presidente do SC Braga que não me liberou no tempo. Acho que ele estava com medo dos adeptos. A segunda vez foi já na saída, estavam indecisos entre eu e Benni McCarthy e foram para ele.

BnR: O que é a tua ocupação hoje em dia?

ES: Temos aqui um hotel, trabalhamos com festas de casamento e tenho também um projeto com campos de futebol que alugo.

BnR: Em Campina Grande?

ES: Não, é uma cidadezinha que se chama Lagoa Seca. Fica a cinco quilómetros de Campina Grande.

BnR: Já não vens há quanto tempo a Portugal?

ES: Fui a Portugal em dezembro, passei aí uns 20 dias.

BnR: Para estar com o teu filho?

ES: Sim, também. Passámos o Natal. Já faz dois anos que ele não vem cá.

BnR: Qual foi o primeiro impacto quando chegaste cá em 1998?

ES: Cheguei a Portugal vindo de um futebol completamente diferente, o futebol japonês. Cheguei aí e estava há dois meses de férias no Brasil, estava muito fora de forma. Fui muito bem recebido em Braga pelo treinador Vítor Oliveira, a quem eu devo muita coisa. Até hoje agradeço-lhe tudo o que fez por mim, deixou-me muito à vontade desde que cheguei e por isso é que me adaptei muito mais rápido do que eu pensava. Deu-me muito tempo para perder o peso a mais.

BnR: Como é que uma pessoa de Campina Grande vai parar ao Japão?

ES: Cara, essa história… Eu tenho muita vontade de um dia lançar um livro ehehe. Foi uma coisa de repente, mesmo. Eu estava muito bem no Atlético Mineiro e o empresário disse assim “Tu gostarias de jogar no Japão? Vais ganhar 10 vezes mais do que ganhas aqui.”

BnR: E tu?

ES: Aí eu virei-me para ele e disse “Onde é que está o contrato para assinar?”.

BnR: Ehehe

ES: Cheguei ao Japão sem noção nenhuma. Estava frio lá na altura em que eu fui. Lembro-me que fui com camisa de seda e quando cheguei lá eu via a galera a sair do avião toda encasacada. Quando eu saí do avião levei aquela pancada de vento frio… Cara, na sexta-feira eu adoeci. Eu quando cheguei lá fiquei em casa do Edilson Capeta, o Capetinha.

BnR: Craque da canarinha.

ES: É. E jogou no Benfica também. Eu fiquei com ele duas semanas e apanhei catapora, aí em Portugal diz-se varicela. Fui internado lá no Japão e passei 14 dias em isolamento total, perdi 12 quilos. É um país que eu até hoje falo muito bem porque tem uma educação, é um país de primeiro mundo, adoro o Japão.

BnR: Quando decidiste começar a festejar os golos como pistoleiro, tinhas ideia que ia ficar para sempre como a tua imagem de marca?

ES: [Silva ri-se com gosto] Não, por acaso foi uma brincadeira, eu sempre gostei daqueles filmes dos cowboys. Eu brincava muito com o Duda, tinha uma grande amizade com ele, e quando íamos para a concentração eu via muitos filmes de cowboys. E eu disse para o Duda “Qualquer dia eu vou fazer igual”. Por incrível que pareça, foi logo no primeiro jogo do campeonato, contra o Beira-Mar. Eu fiz o golo e comemorei como pistoleiro. E a galera gostou, porque quando eu atirava todo o mundo caía. Sinceramente não esperava que ficasse para sempre e para mim é um orgulho quando as pessoas vêm ter comigo e me dizem “Pistoleiro”, com carinho.

BnR: Lembras-te do teu primeiro golo em Portugal? Dou-te uma ajuda, também foi contra o Beira-Mar

ES: É, no Braga também marquei contra o Beira-Mar, no primeiro jogo. Os clubes a quem eu fiz mais golos em Portugal foram o Beira-Mar e Santa Clara. E o guarda-redes a quem eu fiz mais golos foi o Jorge Silva.

BnR: Repito: Lembras-te do teu primeiro golo em Portugal?

ES: Lembro, sim. Eu concentrava-me muito nas primeiras oportunidades no jogo. Só para você ver, eu era um jogador que não rematava muito mas quando rematava era sempre com perigo, com eficácia. Eu falo sempre para o meu filho também “Quando você joga, tem de estar sempre concentrado nas primeiras oportunidades. Porque às vezes a gente não tem mais oportunidades.” Não sei se você já viu alguns golos dele…

BnR: Sim, quando estava a fazer a pesquisa para a entrevista.

ES: [Silva alonga-se na reação] Ehhhh, ele sabe fazer golo.

BnR: Filho de peixe sabe nadar.

ES: Sinceramente, a gente colocou ele aí mas não foi com intenção de ser jogador de futebol. Queremos que ele estude mas ele está a conciliar o futebol com os estudos. Vamos ver se ele aparece mais para a frente.

BnR: Um antigo colega teu contou-me que não gostavas nada dos treinos físicos do Manuel Cajuda. Nem de treinar de pitons de alumínio, porque o mister Cajuda obrigava a subir as bancadas do 1º de Maio.

ES: É verdade, é verdade. Não é que eu não gostasse do trabalho do Manuel Cajuda mas tinha uns treinos que não tinha nada a ver com o futebol. Nada.

BnR: Então?

ES: Às vezes fazíamos uns treinos ao pé de Braga que era… sem noção. Ele era uma pessoa do tempo mais antigo e nós fazíamos, mas acho que 90% dos jogadores não gostava do trabalho dele. Eu não gostava nada de treinar com pitons de alumínio porque nos deixava muito pesados e nos desgastava muito. Já no Boavista praticamente era obrigatório treinar com esses pitons também. Eu “briguei” muito ainda com Jaime Pacheco, briguei entre aspas, eu pedia-lhe “Vamos jogar com chuteira mista”. Mas ele na cabeça dele era jogar e treinar assim. Deu certo no primeiro ano e na cabeça dele tinha que dar certo sempre.

BnR: Como é que era carregar o Idalécio às costas nas dunas de Ofir?

ES: Ehehe. Eu falo muito com o Idalécio nas redes sociais. Ele também era um dos que dizia “Cara, tem treinamentos aqui que não tem nada a ver com futebol”. No meu tempo no Braga eu pesava uns 83/84kg, o Idalécio pesava 102kg!

BnR: “Só” mais 20 quilos…

ES: É, e era eu a carregar o Idalécio e ele a carregar-me a mim nos exercícios físicos. Há coisas na vida que nós temos que sofrer para ter sucesso lá na frente. Eu passei uns tempos com o Manuel Cajuda que não gostei e levo até hoje com uma “desfronta” comigo e com o Presidente do SC Braga. Na altura foi um dos motivos por que eu pedi para sair do Braga.

BnR: O que se passou exatamente?

ES: Eu estava com uma pubalgia, passei um tempão doente aí no SC Braga. O pessoal achava que eu estava brincando, a querer fazer tudo para sair do Braga mas não foi isso que se passou. Eu sei o que eu passei, fui a Espanha fazer o meu trabalho de recuperação com uma infiltração na região do púbis. Eu passei… foi na altura em que eu conheci a minha esposa, na altura minha namorada, e ela viu o sofrimento que eu tinha. Não desejo a ninguém, não se vê a lesão mas você sente. É muito difícil a recuperação desta lesão. E pronto, eu não aceitei o que ele fez comigo e aí já fiz de tudo para ir embora.

– Bessa, o sonho do título inaudito –

“Quando cheguei ao Boavista, na minha primeira entrevista eu disse que íamos ser campeões”

BnR: Jaime Pacheco. Que tal era?

ES: Ah, Jaime Pacheco é um cara porreiro. Eu sabia dar-me bem com ele mas também tinha uns treinos que às vezes nos deixavam exaustos, ele puxava muito por nós. Uma vez eu disse-lhe, ele não gostou muito, mas eu disse-lhe “Três temporadas contigo é equivalente a sete temporadas em qualquer clube”. Na minha terceira época no Boavista eu já estava cansado, cansado mesmo. Primeiro ano foi bom, puxámos pelo cabedal e fomos campeões. Segundo ano quase fomos campeões de novo mas no terceiro ano já estávamos desgastados com alguns treinos que tínhamos. Mas eu devo-lhe muito, por ele e pelo Boavista fizemos coisas que vai demorar mais uns 100 anos até o Boavista fazer isso de novo.

BnR: O que fez a diferença no ano em que o Boavista é campeão nacional?

ES: Além de termos um grande grupo, um grande conjunto de jogadores e profissionais, os jogadores comprometidos com o trabalho, tínhamos uma condição técnica que não nos dava hipótese de nos desviar do caminho certo. Quando cheguei ao Boavista, na minha primeira entrevista disse que íamos ser campeões.

BnR: Como reagiram no Boavista?

ES: Quando eu cheguei ao balneário todo o mundo se riu na minha cara. Até o Presidente João Loureiro. Aí, eu peguei ele e disse “Vamos alterar o meu contrato. Eu vim para ser campeão. Você vai me dar x se eu for campeão”.

BnR: E ele?

ES: Ele levou na brincadeira mas eu disse que era a sério. Então nós fomos lá acima, mudámos o meu contrato e nesse ano fomos campeões. Nessa época, a cada semana que passava e nós a estar mais perto de ser campeão, eu dizia-lhe “Você lembra daquela cláusula que eu coloquei?”. E quando chegou [o título], o João Loureiro disse “Você merece. Eu vou-lhe pagar o que acordámos”. No segundo ano eu fiz do mesmo jeito e quis colocar a cláusula, disse que íamos ser campeões de novo, mas o Presidente disse que nesse ano não fazia mais.

BnR: Como foram os festejos de campeão?

ES: Foi muito bom. Foi de outro planeta. A ficha ia caindo a cada semana que passava, vimos tanta gente naquela praça… eu esqueci o nome agora…

BnR: … da Boavista?

ES: [Os olhos de Silva brilham] Sim. Cara, foi muito legal. Foi espetacular. E outra coisa, jogar a Liga dos Campeões não é para todos os jogadores. Tem jogadores da seleção brasileira e das seleções de outros países que nunca jogaram a Liga dos Campeões. Para mim é gratificante ter feito parte desse leque de jogadores e fazer golos a grandes clubes.

BnR: Já lá vou. Antes disso, nasce Lucas André. Que tal é ser pai?

ES: É uma coisa que eu sempre quis mesmo. Deus deu-me quatro bênçãos na minha vida: a minha mulher e três filhos, uma menina e dois meninos. É muito bom ser pai, sinto-me muito especial por isso. O Lucas é um anjo na nossa vida, ele para mim é… às vezes fico emocionado até. Ele está longe há dois anos e está a passar um momento meio difícil agora porque está a estudar para as provas da faculdade, é stressante para ele passar por isso aí sozinho.

BnR: Lembras-te onde estavas no dia 11 de setembro de 2001?

ES: Ahhh, claro eu sei essa data. Essa data para mim é de felicidade. Infelizmente é uma data muito triste para o mundo mas por essa data eu fiquei conhecido na Europa, quando eu fiz o meu primeiro golo contra o Liverpool. Fiz um grande jogo, a equipa fez um grande jogo e foi aí que nós começámos a ser mais conhecidos na Europa. Eu acho que aquele grupo de jogadores que passou pelo Boavista naquelas épocas, todos eles têm essa lembrança, todos eles têm essa história bonita no futebol português e eu sou um cara privilegiado por ter participado desse grupo e Deus ter colocado a mão na minha cabeça e dito “Você vai ser campeão pelo Boavista”, que não é para todo o mundo.

 

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Belas recordações ⚽ Liverpool/Boavista Champions League quem jogou … Jogou!!

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BnR: Consegues descrever a jogada?

ES: Foi um jogo complicado para mim porque a dupla de zagueiros do Liverpool eram duas torres enormes [Hyypia e Carragher]. Para você ver, o golo que eu fiz, eu ganhei uma bola de cabeça ao Hyypia. Ele tinha quase 2 metros e eu 1,78m.

BnR: Maravilha.

ES: Eu consegui ganhar uma bola de cabeça a ele. A minha concentração naquele jogo foi tão grande, mas tão grande… Eu vim do Brasil, do nordeste, dum povoado muito pobre onde a ficha me passa por cima da cabeça. A primeira oportunidade que eu tive como jogador profissional de futebol na Liga dos Campeões eu aproveitei. Eu sempre me concentrava muito nas minhas oportunidades. Eu dizia “Meu Deus, eu só quero uma oportunidade”. E foi aquela. Eu fiz um jogão lá, um grande jogo, e fiz golo contra um monte de clubes grandes porque batia mesmo diferente naquela época, a nossa equipa era muito boa.

BnR: O que disse o Jaime Pacheco no balneário antes do jogo?

ES: Jaime Pacheco tinha uma maneira muito legal de nos motivar. Às vezes ele falava na brincadeira antes da motivação “Vá lá, vamos colocar o autocarro lá atrás a ver se não levamos muitos”. Mas depois ele falava a sério. Ele dizia que tínhamos duas pernas, eles também, nós corremos igual a eles e temos jogadores da mesma qualidade que eles. Tudo bem que eles estão num clube com expressão maior, um clube grande como o Liverpool, só que ele motivava-nos muito assim. Se você se concentrar no jogo pode levar de vencida. Para você ver, o golo que nós levamos [Michael Owen] é uma falha de passe do Sánchez. Mesmo assim, nós tivemos muitas oportunidades e nesses momentos o Jaime Pacheco conseguia motivar-nos e incentivar-nos e por isso é que chegámos mais longe.

BnR: Marcaste nos teus três primeiros jogos na Liga dos Campeões, recordavas-te?

ES: Foram três jogos e três golos não é? Liverpool, Borussia Dortmund e Dinamo Kiev.

BnR: Sim. E depois ainda marcas outras vez ao Liverpool no jogo no Bessa.

ES: É. Eu não sei se você se lembra mas, no jogo contra o Borussia Dortmund, Jaime Pacheco colocou-me no banco, por birra.

BnR: Fala sério?

ES: Começou a sair na imprensa que eu estava para me ir embora. Mas eu não tinha culpa que saísse na imprensa, não era eu que colocava isso nos jornais.

BnR: Mas não era verdade?

ES: [Ouço silêncio do lado de lá] … Golo do Porto! Danilo.

BnR: Recebi agora a notificação do golo.

ES: Mas dizia, ele por birra colocou-me no banco e eu até entrei bem na segunda parte. Mas eu acho que se ele não tivesse colocado essa corrente comigo, eu tinha feito mais golos.

BnR: Mas na altura estavas para sair do Boavista?

ES: Não. Saía era praticamente todos os dias na imprensa que eu estava para sair, que tinha clubes interessados e que eu só tinha mais um ano de contrato e tal. Mas eu sempre fui muito discreto, nunca fui de estar a falar em entrevistas que ia sair. Saía na imprensa, acho que ele não se sentiu bem e colocou-me no banco, não sei se para eu perder valor. Mas não guardo mágoa dele por isso. Fui sempre profissional e quando eu cheguei ao Boavista, fiz cinco jogos, marquei quatro golos e ele colocou-me no banco. Disse que eu tinha que correr mais, combater mais. Para voltar à equipa titular sofri muito mesmo. Foi esperar o Whelliton levar o quinto amarelo para depois voltar a ser titular e nunca mais saí.

– Gratidão a Fernando Santos no Sporting –

“Luisão era chato p’ra caramba”

BnR: Que memórias tens do primeiro dia no Sporting?

ES: Cara, é um clube que eu não tenho muita lembrança porque era um clube grande mas naquela época era mal gerido. Eu tenho um carinho muito grande e agradeço muito ao sr. Fernando Santos, foi um treinador que me deu uma força muito grande. É um grande senhor, estou-lhe muito grato porque foi das únicas pessoas no Sporting que não me deixou largado lá como muitos jogadores que foram contratados nessa época, como eu, Clayton, Wender e mais alguns. Quando cheguei ao Sporting eu me machuquei feio, coloquei uma platina na cabeça e estive um tempão de fora. E não regressei ao meu nível. Mas o Fernando Santos, para mim, para a minha esposa e para a minha família foi essencial. Não dei sorte no Sporting, a verdade foi essa.

BnR: O primeiro golo demorou a chegar, só ao 10º jogo, vs. Rio Ave. Foi difícil adaptares-te à realidade do Sporting?

ES: Você sabe que avançado vive de golo. Eu vinha procurando esse golo há muito tempo, a bola não entrava, pegava na trave ou pegava de raspão. E aquela ansiedade que todos os avançados têm atrapalhava muito e, quando chegou o meu primeiro golo, eu já estava muito pressionado para sair da equipa. O Fernando Santos continuou a segurar-me porque ele sabia que eu tinha potencial para fazer aquilo que ele queria só que os golos, que não apareciam, fazia com que a pressão sobre mim fosse enorme. Mas eu acho até normal ele ter-me tirado da equipa, porque um avançado vive de golos. Depois chegou o Liedson, aí eu joguei muito tempo com ele na frente.

BnR: Liedson, que craque.

ES: É. Tínhamos uma boa intimidade dentro de campo e fora. Era um jogador inquieto, não parava, raçudo como eu. O Liedson jogava mais fora da área, saía mais, tínhamos uma dupla legal. Ele quando chegou, acho que veio do Corinthians, demorou também a adaptar-se porque quando chegou muita gente não dava nada por ele por ser um jogador muito leve…

BnR: A alcunha era essa mesmo, “Levezinho”.

ES: Exatamente. Mas ele começou a ganhar o espaço dele, era um excelente jogador. Até nos treinos era muito difícil derrubar o Liedson, era magrinho mas ninguém derrubava o Liedson. Foi um jogador que fez história no Sporting, fez história no Porto por ser campeão e foi craque também na seleção portuguesa.

BnR: Depois, marcas ao SC Braga e ao Boavista. Festejaste esses golos?

ES: Festejei. Os adeptos do Boavista não gostaram na altura mas cara, sinceramente, é um momento único na carreira de um jogador, os golos. Eu optei por comemorar, com todo o respeito pelos clubes em que passei, por exemplo no Guimarães fiz golo contra o Sporting e comemorei do mesmo jeito. Eu acho que é uma coisa normal, vem de cada um. Não comemorei para magoar ninguém, comemorei porque é um momento que temos que festejar porque é uma coisa única no futebol.

BnR: Lembras-te do golo ao Benfica?

ES: [Silva sorri com ar matreiro] Lembro, lembro sim. Sinceramente, eu esperava muito fazer o golo naquele jogo, não era daquela maneira em específico [de cabeça]. Eu vim lutando muito com Luisão durante o jogo, Luisão era muito grande, era chato p’ra caramba. Nesse momento do golo eu antecipei-me, foi a única bola que eu ganhei de cabeça do Luisão. E nesse jogo aí eu ainda sofri um penalty.

 

BnR: Pois foi. Mas se fosse hoje, se calhar o VAR anulava o penalty…

ES: Ehehe não dava não. Ele tocou-me mas acho que não foi um toque para penalty. Mas às vezes a gente é malandragem… o golo do título do Boavista, por exemplo, eu fiz o golo de mão.

BnR: As câmaras apanharam uma conversa tua e do Pedro Barbosa no aquecimento. É ele quem faz a assistência para o teu golo. Recordas-te do que falaram?

ES: Eu aquecia muitas vezes com o Pedro Barbosa. Era um jogador excelente. Por incrível que pareça, nesse dia ele disse “Tenta antecipar-te, porque o Luisão além de ser grande é lento”. E eu fiz o golo antecipando-me. Eu falava sempre com o Pedro Barbosa, porque ele era muito inteligente.

BnR: Do que é que tens mais saudades dos tempos de jogador?

ES: Tenho saudades daquela adrenalina dos jogos difíceis. Havia jogos que estávamos aflitos para ganhar, aquela pressão de vencer os jogos. Mas esta saudade é normal, são já muitos anos desde que deixei de jogar.

BnR: Representaste SC Braga, Boavista, Sporting e Vitória SC. Mas o teu coração acabou por “ficar” no FC Porto.

ES: Como eu falei antes, foi sempre um sonho jogar no FC Porto. É um clube que quando eu cheguei a Portugal ganhava tudo e eu passei quase nove anos em Portugal. É um clube que eu via que quando não era na bola era na raça, ganhava tudo. Tinha um presidente que cobrava muito mas tinha resultados e os jogadores eram “à moda do Porto”. Eu lembro-me que a minha estreia no Porto foi nas Antas, Porto-Braga. Eu ia voando naquele jogo.

BnR: Literalmente?

ES: Eu dou duas ou três tapas na frente do Jorge Costa e o Jorge Costa era muito lento. Naquela época ele era um bocado lento e ele tinha a mania de ser mau demais. Eu rodei duas bolas nele e na terceira bola ele deu-me no meio e passou por cima ainda. E disse “Brasileiro, na próxima vou-te matar”. Eu gostava muito da maneira do Porto jogar, porque os jogos nas Antas eram complicados. Quando íamos lá normalmente sabíamos que íamos perder por três ou quatro. E tinham lá o Jardel que fazia golo até debaixo de água.

BnR: Qual a melhor lição que o futebol te ensinou?

ES: Acho que a disciplina. É essencial no futebol, porque o futebol lá na frente cobra-te muito. Eu tentei ter disciplina ao máximo, o descanso e isso, mas nem sempre a 100%.

– Passes curtos –

“João Vieira Pinto, um craque. Um espetáculo”

BnR: Qual é para ti o melhor momento da tua carreira?

ES: Cara, agora você me pegou ehehe. O Boavista para mim é a cereja no bolo. No Boavista aconteceu-me tudo e foi uma fase muito legal.

BnR: Um estádio?

ES: Tive o prazer de jogar contra dois clubes e isso arrepiou-me: contra o Liverpool, em Anfield, e contra o Celtic de Glasgow [Celtic Park].

BnR: Qual o teu melhor golo?

ES: O golo que mais gosto foi o que fiz de cabeça contra o Beira-Mar [pelo Boavista].


BnR: Qual foi o melhor jogador com quem jogaste?

ES: João Vieira Pinto, um craque. Um espetáculo.

BnR: Um guarda-redes?

ES: William.

BnR: Um defesa?

ES: Litos e Pedro Emanuel. Grande dupla na zaga.

BnR: Um médio?

ES: Erwin Sánchez.

BnR: Um avançado?

ES: Liedson.

BnR: E o jogador mais difícil de defrontar?

ES: Bruno Alves.

Frederico Seruya

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