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João Meira. Um líder dentro de campo, aqui ou na América. Começou o rumo ao estrelato na casa onde agora se encontra, junto de uma geração de ouro. Seguiu-se a primeira passagem no Setúbal, onde se deu a mudança de médio para central. Mafra, Atlético, quase que podia ser em Antuérpia, mas foi em Belém que chorou e riu na sua melhor época. Lado a lado com Schweinsteiger, travou intensos duelos com estrelas do futebol mundial no Chicago Fire, Giovinco que o diga. No frio da Noruega, viu o calor que Haaland trazia ao campo e sugeriu que se tentasse trazer o Golden Boy para Portugal. Roménia e a salvação em Setúbal, onde esteve até ao abismo. De regresso a casa, enfrentou o avançado mais imprevisível, o vírus da Covid-19, e lidera uma equipa sem um “ponta de lança” especial. Quem quiser chutar esta Bola para a Rede que se cuide, João Meira está lá para cortar.

-A pandemia sem Piedade-

«Não tínhamos jogadores, nem para treinar»

Bola na Rede: A tua carreira já vai longa, mas gostaria de começar pelo presente. Estás no Cova da Piedade, parabéns pelo contrato e, então, gostava de saber como tem sido esta época atípica para ti.

João Meira: É mesmo como estás a dizer, é atípica, mas estou num clube que já conheço, sei com o que posso contar. Colegas novos que não conhecia, mas estou bem integrado no grupo e tive o privilégio de pertencer aos capitães de equipa. É uma daquelas boas-vindas que sonhamos, chegar e ser capitão de equipa. Felizmente, quando cheguei, tivemos duas vitórias, depois deu-se a situação da Covid, que é pública, e tivemos doze dias parados, tendo voltado agora a treinar quatro dias para um jogo complicadíssimo com o Estoril. Eles estavam muito acima de nós, quer a nível físico, quer a nível qualitativo, e perdemos bem. É uma situação muito estranha, não será quem tiver as melhores equipas que irá vencer, mas quem for mais regular na proteção dos jogadores…

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Bola na Rede: Quem tiver a sorte de manter os jogadores todos.

João Meira: Exatamente, quem não tiver o azar de parar dez ou doze dias, porque isso é como se fosse uma pré-época nova. Quem tiver a sorte de conseguir manter o grupo ou aquela espinha dorsal sempre a jogar, acho que essas equipas estão muito mais perto do êxito.

Bola na Rede: Falaste da situação da Covid aí no Cova da Piedade. Tiveram 15 atletas infetados e o vosso treinador está infetado. Foste um dos atletas infetados?

João Meira: Fomos 17 infetados. Eram 15 mais dois inconclusivos, que era eu e outro colega, mas acabamos por testar positivo.

Bola na Rede: Portanto ficaram praticamente todos positivos.

João Meira: Sim, o grupo creio que são 25 atletas, com três lesionados, dois musculares e o Edinho com a perna partida, não tínhamos jogadores, nem para treinar.

Bola na Rede: E a nível físico, sentiste alguma dificuldade que prejudica a tua performance agora?

João Meira: Sim, prejudica muito. Já tive lesões, já estive doente e já voltei, por exemplo, o ano passado, quando no Vitória houve um surto, um vírus que nós apanhamos, mas em três/quatro dias, os que não tinham jogado no jogo com o Sporting já estavam a treinar. Custou um bocado, mas tive uma semana complicada, com febre e dores no corpo, e no jogo com o Estoril estava muito preso, o corpo pedia para ir, mas a cabeça mandava parar, tive dores nas costas, nas pernas, tudo muito estranho, não consigo explicar.

Bola na Rede: Como é que têm vivido esta situação do vosso treinador, como têm acompanhado a situação clínica dele?

João Meira: Ele é o nosso grande pilar. Quem conhece o Toni Pereira sabe que as coisas andam como ele quer e nós estávamos bastante adaptados ao que ele pede, aos ideais dele. Não tendo a imagem do nosso treinador, porque apesar de respeitarmos todos nunca é igual, tentamos fazer tudo da mesma forma para quando ele chegar. Temos estado a receber informações dele e esperamos tê-lo connosco o mais rápido possível, porque vai ser uma ajuda muito grande, é o nosso ponta de lança, a nossa arma secreta.

Bola na Rede: Achas que este problema do Toni Pereira criou mais união ou instabilidade na equipa?

João Meira: Creio que mais união, porque estamos a tentar fazer tudo igual como se o mister estivesse lá, para que, quando ele chegar, não existirem diferenças, esteja tudo minimamente como ele pediu. Instabilidade há se estivermos cinco/seis jogos a perder, mas vamos fazer de tudo para manter os resultados positivos.

Bola na Rede: Curiosamente têm estado mais fortes fora de casa do que em casa. Como explicas isto?

João Meira: Eu, felizmente, quando cheguei, foi quando começamos a ganhar fora ao Académico de Viseu e em casa ao Leixões. Esta situação com o Estoril foi um jogo de borla, como foi o primeiro jogo com o Mafra, em que perderam quatro a zero, porque tinham praticamente uma semana e meia de trabalho enquanto o Mafra tinha quase dois meses. Empataram depois com a Académica, que é um candidato à subida e perderam com o Arouca com dois erros que não se podem cometer. Perderam ainda em Chaves, que é mais um candidato. Os jogos foram todos contra adversários difíceis, ainda não há uma explicação plausível.

Bola na Rede: O que te trouxe novamente a casa e quais são os teus objetivos para a temporada?

João Meira: Eu volto ao Cova da Piedade porque é o meu clube de base, o meu clube do bairro, eu vivia aqui muito perto quando era pequenino, o meu irmão também jogava no Cova da Piedade, as pessoas gostavam muito de mim quando fui para o Vitória, e sempre fui muito acarinhado quando vinha ver os jogos do meu irmão dos seniores. Sempre pensei: “um dia vou voltar ao Piedade e isto vai estar bem”.

Bola na Rede: E agora foi mesmo o regresso.

João Meira: Com esta instabilidade do Vitória, tive três dias para decidir a minha vida, tudo o que eu tinha de propostas até à data era do estrangeiro, propostas boas até, mas eu tentei sempre ver se o Vitória ia ficar na Primeira Liga, porque era lá que me sentia bem. Não ficou e, estando na Segunda Liga no Norte ou aqui, preferi ficar perto da minha família e do mister Toni, com quem já tinha trabalhado no Atlético, e preferi voltar ao sítio onde me sinto bem e onde as pessoas gostam de mim. Quanto aos objetivos, é pensar jogo a jogo, mas focamo-nos na manutenção.

Bola na Rede: Vi numa outra entrevista que deste que o Cova da Piedade não era a tua primeira opção. Em condições ideais, qual seria a tua primeira opção?

João Meira: Era o estrangeiro. Gostava muito de experimentar a Ásia, acho que é o que me falta. Já fui à América, agora ou era Ásia ou Austrália, por aí. Na Europa, dificilmente irei para Inglaterra ou Espanha, com a idade que tenho e no nível em que estou a jogar, então prefiro esses mercados secundários com culturas e mentalidades diferentes, para experimentar.

Bola na Rede: Se tivesses que escolher entre competir no Brasil ou na Arábia, sendo que há muitos treinadores em ambos os campeonatos, qual escolherias?

João Meira: Dependeria do projeto, das pessoas que estariam à frente dos clubes. O Brasil é mais propício à troca de jogadores e treinadores, a Arábia acaba também por ser, mas já há maior estabilidade de vida, por haver a regra dos sete jogadores estrangeiros em vez de três. Quando eram três, se não estivesses a render, em três/quatro meses mandavam-te embora e iam buscar outro. No Brasil ainda é muito assim, vemos pela dança de treinadores que acontece, se não vencem três/quatro jogos, vão embora e entra outro, chega a haver seis treinadores…

Bola na Rede: Em Portugal também acontece, infelizmente. Só se mantiveram sete treinadores no ano passado.

João Meira: Mas creio que hoje em dia está um pouco melhor. Eu, por acaso, juntamente com alguns colegas do Vitória, começamos a fazer um exercício de adivinhar quem ficaria ou não no comando técnico dos seus clubes.

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