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Obrigada, Dito!

Inês Figueiredo Mendanha · 7 min

Foto: Gil Vicente FC

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Nunca lidamos bem com o desaparecimento de quem tanto tem para dar, ainda para mais quando nos é levado de repente. É sempre difícil de aceitar. Foi o que aconteceu esta semana, quando o mundo do futebol foi surpreendido pela morte prematura e súbita de Eduardo Cameselle Mendez, carinhosamente conhecido por Dito, no desporto-rei.

O futebol nacional perde uma referência e a nossa cidade de Barcelos chora por um dos filhos pródigos que maiores voos alcançou. Compete-me fazer uma derradeira homenagem a um conterrâneo que foi mais longe do que qualquer outro, que brilhou enquanto jogador, chegou a uma final europeia, foi capitão da selecção nacional; como treinador, ajudou a cimentar várias equipas que hoje brilham na Primeira Liga e já como Director-Geral para o futebol, foi um dos rostos da campanha sensacional do nosso Gil Vicente FC na temporada transacta. Dito tem uma história ímpar no futebol português; proponho-me a contá-la para nunca esquecermos o excelente ser humano e o centralão que foi. Da minha parte, enquanto barcelense e adepta de futebol, muito obrigada, Dito. Foi um prazer.

Quem sai aos seus não degenera

O futebol sempre correu nas veias de Dito. Nascido em Barcelos em 1962, Dito era filho de Eduardo Cameselle Mendez, um futebolista galego que veio jogar para o Gil Vicente na década de 50, que por cá casou e ficou, criando uma ligação tremenda ao clube, tão forte como se fosse um barcelense de gema; dedicou grande parte da sua vida ao nosso Gil, servindo como defesa-central, capitão de equipa e anos mais tarde, quando o clube caiu nas divisões distritais, como treinador e, quando necessário, benemérito, pagando os equipamentos da equipa principal e dos jovens do seu bolso, sem nunca pedir nada em troca.

O seu irmão, Guillermo Cameselle Mendez, tio de Dito, foi um lendário funcionário do RC Celta de Vigo, “el jefe de campo”, responsável pelas instalações do Estádio de Balaídos, a casa do Celta de Vigo. Assim sendo, Dito já tinha a genética a seu favor e bem lhe fez jus. Começou a dar os primeiros passos no mundo do futebol, no modesto Alheira FC, um clube a norte da cidade do galo. Daí, saltou para a formação do clube de coração do pai, o Gil Vicente e daí para a formação do SC Braga, onde cumpriu grande parte da carreira e onde passou de jovem promessa a defesa-central de excelência. Quando a bons genes se junta qualidade técnica e muita maturidade, tem tudo para correr bem, como veio a acontecer.

A caminhada rumo ao topo

Muito cedo, Dito se evidenciou como um futuro patrão da defesa. As suas mais que reconhecidas qualidades valeram-lhe a estreia com a camisola do Braga com apenas 18 anos e a partir daí, pegou de estaca. Foram sete épocas, desde a estreia em 1979/1980, até 1985/1986 a ser o pilar da defesa bracarense. Nem podia ser de outra forma; com um sentido posicional impecável, uma capacidade de antecipação inacreditável, com pés de veludo para desarmar com classe os adversários e ainda uma qualidade na saída de jogo inacreditável para um defesa-central, Dito seria o que hoje chamamos “centralão”.

Um muro da defesa, um líder nato. A todas estas qualidades indispensáveis a defesas de excelência, Dito juntava uma invulgar veia goleadora, tendo muitas vezes ajudado os arsenalistas com golos e não só com segurança na defesa. Estreou-se pela Selecção Nacional com apenas 19 anos, isto depois de ter sido capitão por todos os escalões inferiores por onde actuou pela equipa das quinas. À medida que o tempo passava, tornou-se evidente que o SC Braga se tornava pequeno para a grandeza de Dito, o que o levou a dar o salto para o SL Benfica, em 1986. Logo na época de estreia, conquista uma dobradinha, festejando tanto o título de campeão nacional como de vencedor da Taça de Portugal de águia ao peito.

No ano seguinte, viria a chegar à final da Taça dos Campeões Europeus, mas isso será uma história diferente. Ao longo da carreira, viria ainda a defender as cores do FC Porto, Vitória FC, SC Espinho, Gil Vicente FC (seguindo as pisadas do pai) e ainda do Torreense e do Ovarense. Em todas as equipas destacou-se por “meter os avançados no bolso”, sendo sempre uma voz de liderança e um exemplo de integridade no futebol nacional. Somou ainda 17 internacionalizações pela selecção nacional, tendo inclusive capitaneado a equipa (embora isso não pareça ser suficiente para a federação se lembrar de prestar uma pequena homenagem no jogo de sábado, ao contrário dos seus antigos clubes).

O sonho quase concretizado

A maioria dos benfiquistas está (infelizmente) familiarizada com a “maldição de Béla Guttmann” e portanto sabe que o Benfica só poderá voltar a ganhar títulos europeus a partir de 2062. No entanto, já por várias vezes, o clube da Luz tentou quebrar o enguiço. Uma das equipas a tentar quebrar a maldição foi mesmo o Benfica da época de 1987/1988, no qual Dito era um dos pilares da defesa das águias. A campanha europeia das águias havia sido sensacional, contrastando com a pobre performance nacional, em que perdeu o campeonato e a Taça de Portugal. Ainda com Ebbe Skovdahl na fase de grupos, golearam o Partizani Tirana por 7-0 (no conjunto dos dois jogos) e o AGF Aarhus por 1-0. Já com Toni ao comando, eliminaram o Anderlecht por 2-1 nos quartos de final e o Steua Bucareste por 2-0 nas meias finais. A final contra o PSV Eindhoven era o último obstáculo antes de concretizar o sonho da nação benfiquista. Ainda por cima, as águias podiam vencer a Taça dos Campeões no ano seguinte à vitória do FC Porto na competição; maior motivação era impossível. O jogo foi bem disputado, com ambas as equipas a tentar resolver o jogo sem ter de ir a grandes penalidades, o que deu muitas dores de cabeça aos defesas de ambas as equipas.

Dito foi intransponível na linha defensiva do Benfica; notava-se ali toda a vontade de quebrar a maldição, muito foco para isso e, sobretudo, a responsabilidade de quem sabia estar a lutar por um sonho antigo, enquanto representava uma nação de adeptos e uma cidadezinha do norte do país. O jogo lá se arrastou para penáltis e aí é uma questão de sorte, mas sobretudo de competência. Dito concretizou a sua grande penalidade, assim como todos os jogadores das águias que bateram os primeiros cinco penáltis. Estava tanta gente a torcer por eles… infelizmente, já sabemos o que se segue. Veloso foi bater o sexto penálti, um decisivo, já que se falhasse, a taça ia para o PSV. O remate saiu meio frouxo, denunciado, e van Breuke defendeu. Terminava assim uma campanha brilhante das águias e o sonho de quebrar uma maldição antiga. Sei de vários barcelenses que ficaram destroçados ao verem o sonho de um filho da terra esbarrar nas luvas do guarda-redes holandês. O Benfica merecia aquela taça e Dito ainda mais. Não foi dessa. Raio do Guttmann…

Um novo começo

Terminada uma carreira memorável enquanto “centralão”, Dito não deixou o futebol. Pôs mãos à obra e usou toda a sua experiência enquanto jogador para ensinar os mais novos. Enquanto treinador passou por AD Esposende, SC Salgueiros, FC Felgueiras, GD Chaves, Portimonense SC, Ribeirão FC, Moreirense FC, os juniores do Sporting de Braga, Varzim SC, FC Famalicão e Sporting da Covilhã. Além disso, foi seleccionador da AF Braga, onde se sagrou campeão europeu da Taça UEFA das Regiões. Na última época, enquanto Director-Geral para o futebol do Gil Vicente, participou activamente na época brilhante dos galos, em que passaram de “bombos da festa” para 10.º classificados da Primeira Liga; uma campanha com ainda mais valor, se pensarmos que apesar de um treinador muito experiente, contava-se pelos dedos das mãos os jogadores com experiência na Primeira Liga portuguesa e logo depois da equipa passar uma temporada abandonada pela Liga no Campeonato de Portugal.

Com certeza, os anos de experiência ao mais alto nível de Dito, ajudaram os (muitos) novos jogadores a adaptarem-se ao futebol nacional, além da notória importância que teve para o clube e da proximidade com a equipa. É bom saber que, apesar de tudo, Dito passou os seus últimos tempos a ajudar o clube da sua terra, da mesma forma que o seu pai, muitos anos antes, o fez. É bom saber que o clube da minha cidade estava em boas mãos. Não posso fazer melhor homenagem ao nosso Dito do que contar a sua história para relembrarmos a sua vida inigualável. Espero agora pela homenagem do nosso Gil durante esta época. Mais uma vez, porque nunca é demais: em nome de muitos barcelenses, por teres levado a cidade contigo para os grandes palcos do futebol, obrigada, Dito!

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Inês Figueiredo Mendanha

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