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Aly Cissokho atende-nos de Inglaterra, onde aguarda o regresso à Turquia para terminar a época ao serviço do Antalyaspor. Do vaticínio de Daúto Faquirá que se confirmou à dobradinha no FC Porto, Cissokho revela também a verdade sobre o negócio falhado com o AC Milan. Sobre a época no Valência, fala da importância de Mathieu e deixa rasgados elogios a Jonas. Termina o contrato este verão, e está livre para assinar por quem quiser, não pondo de parte o regresso a Portugal. Pormenor: falamos em inglês mais de meia hora e, quando a entrevista termina, Cissokho diz num português perfeito que pode gravar o vídeo de promoção da entrevista em português. Toma lá que é fresquinha!
– O vaticínio de Daúto Faquirá e a dobradinha no FC Porto –
Bola na Rede [BnR]: Aly, you’re still fluent in portuguese?
Cissokho [C]: [Primeiro “Ahhh” prolongado, seguido de uma gargalhada sonora] Ahhh, I can try to speak a bit portuguese. I can speak a bit.
BnR: Quais foram as primeiras palavras que aprendeste em português?
C: Ahhh, os palavrões claro. [Cissokho reproduz dois ou três deles enquanto se ri a bom rir].
BnR: Ehehe. Tens saudades do Porto?
C: Claro, claro. Tenho saudades de Portugal no geral, e do Porto, claro. Gostei muito de viver lá. Também passei bons momentos em Setúbal.
BnR: Em qual gostaste mais de viver?
C: O Porto é maior e tem zonas ótimas, como a Foz e Matosinhos. Setúbal é mais pequeno, mas a comida é ótima, tem excelente peixe. E o clima é mais quente.
BnR: Qual é que foi a tua primeira impressão quando chegaste a Portugal?
C: Foi um impacto grande, porque eu antes de chegar a Portugal jogava numa equipa pequena. Quando cheguei a Portugal, lembro-me do Daúto Faquirá, treinador do Vitória de Setúbal, dizer-me “Se me ouvires e se treinares bem, vais para um clube grande. Tenho a certeza!”. Eu confiei nele e, depois de cinco ou seis jogos, o FC Porto já estava atrás de mim. Fiquei muito feliz, porque o FC Porto é uma grande equipa, de nível mundial.
BnR: Como soubeste do interesse do FC Porto em ti?
C: O FC Porto falou com o meu agente, e ele falou comigo. Disse-me que o Porto viria ver jogos meus, assim como outros clubes que estavam interessados. Foi uma altura especial para mim perceber que havia um clube tão grande como o FC Porto interessado em mim.
BnR: Muitos nervos na chegada ao Porto?
C: Sim, era uma realidade completamente diferente para mim. Quando se chega a uma equipa deste nível, as expetativas sobre ti são enormes. Tens de ganhar sempre. E estás a jogar com grandes jogadores de nível internacional. Tens de estar no teu melhor.
[#Transfert] OFFICIEL ! Aly Cissokho est prêté une saison au FC Porto. pic.twitter.com/ZMqGiQ9vtH
— Footballogue⭐️⭐️ (@Footballogue) August 5, 2015
BnR: Fizeram-te alguma praxe quando chegaste?
C: [Sai mais um “Ahhh”, seguido de gargalhada forte] Sim, lembro-me de que tivemos um almoço grande com a equipa toda e queriam que eu bebesse qualquer coisa que eu não sabia o que era. Eu só dizia que não e eles todos a quererem que eu bebesse. E acabei por não beber.
BnR: Chegaste a saber o que era a bebida?
C: Acho que era Vinho do Porto. Mas havia um grande ambiente na equipa.
BnR: Quem eram os líderes dessa equipa do FC Porto?
C: Lucho González e Nuno, o guarda-redes.
BnR: Quem era o melhor exemplo de um “jogador à Porto”?
C: Eu gostava de olhar para os que jogavam na mesma posição, por isso tenho de dizer Fucile. Ele era um grande exemplo, porque era um lutador incansável, dava tudo nos jogos e fazia umas entradas malucas, eheheh. Era um jogador sempre muito focado e concentrado.
BnR: Como é que o Jesualdo Ferreira se relacionava com os jogadores?
C: Tive uma relação muito especial com ele, porque eu era muito novo e ele dava especial atenção aos jovens. Falava muito connosco e perguntava como é que nós estávamos. Com os jogadores mais velhos, como o Raúl Meireles e o Pedro Emanuel, ele dava-lhes mais espaço. Ele era bom com os jogadores e fez um grande trabalho esse ano. Até ganhámos a Liga e a Taça.
– A verdade sobre a transferência falhada para o AC Milan –
BnR: O que se passou para não teres ido para o AC Milan, uma vez que até já tinhas o pré-contrato assinado?
C: Ahhh, ao fim de tantos anos ainda me perguntam sobre isso. Eu fui a Milão, assinei o pré-contrato e depois fui para o Senegal de férias. Quando eu estava lá, o FC Porto disse-me que o Presidente do AC Milan não tinha dado as garantias bancárias de pagamento. O FC Porto explicou-me que, como eles não davam as garantias de pagamento, o contrato estava cancelado.
BnR: E tu?
C: Eu disse que por mim não havia problema, não forcei a ida para o Milan. Mas eu estava de férias e toda a gente me ligou. “Aly, não vais para o Milan por causa dos dentes?”. E eu respondia que não era por essa razão, mas, na altura, não podia revelar que a verdadeira razão era a falta de garantias por parte do AC Milan.
BnR: Então o problema com os dentes não era verdade, foi uma desculpa que eles inventaram?
C: Sim, não era verdade. A única coisa que eu tinha que fazer nos dentes era pôr aparelho, mais por uma questão estética. Não tinha nenhum problema. A prova disso é que depois fui para outros clubes e não houve nunca problema algum com os meus dentes. Mesmo com o FC Porto! Eu assinei pelo clube, que é grande e tem elevadas exigências quanto a estas questões de saúde. O problema foi a falta de garantias. O Presidente [Silvio] Berlusconi e o Presidente Pinto da Costa são pessoas poderosas e orgulhosas. Se as coisas não são como ele quer, o Pinto da Costa cancela tudo, ehehe. O AC Milan não deu garantias bancárias e colocou nos jornais que eu tinha um problema nos dentes.
BnR: Acabaste por rumar a Lyon. A proposta era melhor do que ficar no FC Porto?
C: Sim, era melhor.
BnR: Adaptaste-te bem a Lyon?
C: Sim, correu bem. Antes de ir, falei com o Licha [Lisandro López]. Ele tinha assinado pelo Lyon três semanas antes, e eu perguntei-lhe tudo sobre o clube e a vida lá.
Braulio cerrando el fichaje de Aly CISSOKHO en lyon,ya lo tenemos casi!!gran fichaje! pic.twitter.com/F3OEuCcT
— ivan redondo (@ivanredondovlcf) August 21, 2012
BnR: Já falavas a língua, o que ajuda.
C: [Cissokho prolonga o “i”, com um sorriso largo] Siiiim, por isso é que me adaptei rápido.
BnR: Quando mudavas de país ou cidade, ias com família, amigos ou sozinho?
C: Sozinho, mas às vezes os meus amigos e os meus irmãos vinham ter comigo.
– A importância de Mathieu e os elogios a Jonas –
BnR: Reparei que no Valência tinhas franceses no plantel, como o Mathieu, que agora joga no Sporting, mas também portugueses, o João Pereira e o Ricardo Costa. Com quem te davas mais?
C: O Mathieu foi muito importante para mim, quando joguei lá. Recebeu-me e mostrou-me a cidade e os sítios importantes. O João [Pereira] e eu vivíamos no mesmo condomínio, estávamos juntos muitas vezes no ginásio e na piscina. Eu jogo na Turquia e ele também, é sempre bom quando conseguimos estar juntos e jogar um contra o outro.

Fonte: Instagram Cissokho
BnR: Jonas também fazia parte do plantel do Valência nesse ano. Ele teve muito sucesso na sua passagem pelo SL Benfica, mas não chegou com um rótulo de grande jogador, antes pelo contrário. No Valência ele destacava-se?
C: Sim, sim. Ele surpreendeu-me imenso, porque, quando olhas para ele, fisicamente, achas que ele não é muito forte. Mas quando ele tinha a bola no pé… a técnica, a inteligência, era incrível. Para mim, não me surpreende que ele tenha marcado tantos golos no SL Benfica.
BnR: O que achaste da qualidade do futebol na Liga Espanhola?
C: Era uma liga muito técnica. A qualidade técnica era enorme em todas as equipas, e jogava-se a um ritmo muito rápido. O nível é muito alto.
BnR: Mudando de país, tens boas memórias do Liverpool e da Premier League?
C: O Liverpool é um grande clube, e a Premier League é uma liga muito boa, muito competitiva. Todas as equipas jogam a um bom nível. Foi espetacular jogar lá.
BnR: Como era o Steven Gerrard como capitão e colega de equipa?
C: Ele é uma lenda. Foi um dos melhores médios do mundo, para além de ser o capitão de um clube com a grandeza do Liverpool. Foi uma oportunidade fantástica jogar com um jogador deste calibre. Mas também tive a sorte de jogar com outro grande jogador: [Philippe] Coutinho.
BnR: E que tal jogar em Anfield?
C: [Cissokho ri-se com gosto] Anfield… De todos os sítios onde joguei, esse é onde há o melhor ambiente. Os adeptos são incríveis. Ouvir o estádio inteiro a cantar é especial, muito especial.
BnR: Ao entrar no túnel, também tocavas no símbolo do Liverpool que está por cima da parede?
C: Alguns jogadores tocavam, mas eu não, ehehe. Antes do jogo fazia só as minhas orações. Mas é um estádio com muita história, e a prova é que vêm pessoas de todo o lado para ver um jogo apenas. Vêm da Malásia, da Noruega… de todo o lado.
Photo: Stevie G, Luis Suarez and Aly Cissokho share a joke in training #LFC pic.twitter.com/1wOnbTmkeR
— Liverpool FC (at 🏠) (@LFC) October 31, 2013
BnR: Como é que os adeptos se comportavam quando te encontravam na rua?
C: Em Inglaterra, eles deixam o jogador em paz, não gostam de vir incomodar para tirar fotografias e assim. Podes andar na rua à vontade. Os adeptos vão ao jogo, apoiam até ao fim e, depois do jogo, estão ok. São muito simpáticos. Quer ganhes ou percas, no fim, eles aplaudem.
BnR: Aqui em Portugal não é tanto assim…
C: [Sai mais uma gargalhada estrondosa] Não, em Portugal é diferente. Quando ganhas, é bom, mas, se não ganhas, não é o mesmo.
BnR: Tiveste algum momento na rua onde os adeptos do Porto manifestaram o seu desagrado?
C: Não, não dessa forma. Era mais no final dos jogos. Se perdesses, aí eles [Cissokho imita um assobio], ehehe. Mas é normal, em qualquer equipa grande tens sempre pressão. Se perdes, tens de aceitar que os adeptos não estão satisfeitos.
– Contrato a terminar e Portugal no horizonte –
BnR: Jogaste na Grécia, e agora jogas na Turquia. Em qual dos países há um ambiente mais intenso nos estádios?
C: [Cissokho hesita bastante] Escolha difícil… Por exemplo, quando jogas contra o Besiktas, o Fenerbahçe ou Olympiakos, Panathinaikos, o ambiente é muito semelhante. Os adeptos são muito entusiásticos e fazem muito barulho, são loucos. O ambiente é incrível nos dois países.
📝 DEAL DONE: Antalyaspor have signed Liverpool legend Aly Cissokho on a 2-year contract. (Source: @Antalyaspor) pic.twitter.com/J13z6xiLBZ
— Transfer News Live (@DeadlineDayLive) July 23, 2018
BnR: Tens ideia de quando poderás voltar para a Turquia?
C: Em princípio, a Liga na Turquia irá recomeçar a meio de junho, mas ainda não está confirmado. Estamos a aguardar, é uma situação difícil para o futebol. Não é fácil todas as ligas retomarem. Na Alemanha, os campeonatos já recomeçaram. Na Turquia, também querem que isso aconteça, e acho que é positivo terminar o campeonato. Mas, neste contexto, é difícil correr riscos.
BnR: Tens contrato com o Antalyaspor até quando?
C: Eu termino o meu contrato este verão. Vou ver as oportunidades que surgem para a próxima época e escolher a melhor.
BnR: Considerarias voltar a jogar em Portugal?
C: Ehehe, claro, claro. Portugal é um país que estará sempre na minha cabeça, porque foi o país que me deu oportunidade para jogar na Primeira Liga, na Liga dos Campeões e num clube grande. Portugal será sempre especial para mim. Será um prazer regressar.
– Passes curtos –
BnR: Qual é para ti o melhor momento da tua carreira?
C: O primeiro jogo na Liga dos Campeões.
BnR: Contra o Atlético de Madrid?
C: Sim.
BnR: O que te recordas desse dia?
C: [Cissokho faz um som de puro deleite] Ahhh, a música da Liga dos Campeões.
BnR: Um estádio?
C: Dragao. [Assim sem o til, tal como Cissokho pronuncia].
BnR: Qual foi o melhor jogador com quem jogaste?
C: Pjanic. Grande jogador.
BnR: Um guarda-redes?
C: Hugo Lloris.
BnR: Um defesa?
C: [Cissokho carrega no “r”] Brrruno Alves.
BnR: Tough guy…
C: Sempre. É um jogador duro e muito forte.
BnR: Até nos treinos era assim?
C: Seeempre. Até nos treinos, eheheh.
BnR: Um médio?
C: Vou ter que dizer Pjanic novamente. Mas [Philippe] Coutinho também, muito bom jogador.
BnR: Um avançado?
C: Luis Suárez.
BnR: E o jogador mais difícil de defrontar?
C: Vou dizer sempre este: Arjen Robben. Jogador fabuloso.
Artigo revisto por Mariana Plácido









