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Julgo que a maioria das pessoas concordará que as três épocas desportivas que antecederam a actual foram penosas para o FC Porto e os seus sócios e simpatizantes. Para além de maus resultados e da fatídica ausência de títulos, a qualidade de jogo da equipa principal de futebol raramente passou do medíocre. Processo ofensivo previsível e processo defensivo lento e desorganizado.
Ora, na nova época reparamos que, até ver, algumas das características associadas ao universo portista se mantêm. Os resultados estão longe de ser satisfatórios e as exibições, se retirarmos o jogo autoritário com final trágico que o FC Porto fez frente ao tricampeão nacional na jornada transata, têm sido pautadas pela inconstância. Já aqui critiquei alguns dos vícios da equipa, sendo que o que mais espécie me faz é a constante utilização do jogo direto, ao estilo do futebol dos pequeninos.
No entanto, embora este preâmbulo leve a crer que presente artigo se destina a mais um massacre à qualidade exibicional da equipa e à falta de resultados, que fique desde já claro que não é o caso. Haveria, é um facto, muito para dizer e criticar sobre a matéria e, porventura, poucos escapariam, desde dirigentes a técnicos ou jogadores, mas hoje isso são contas de outro rosário.
Se há algo que mudou radicalmente no presente em relação ao passado recente foi a consistência defensiva. Marcar golos ao FC Porto (vinha ameaçando tornar-se banal) voltou a ser um bico-de-obra. E, sendo certo que cada elemento da defesa e da equipa terá a sua quota parte de responsabilidade e de mérito neste facto, para aqui chegarmos muito e especialmente tem contribuído a dupla Felipe e Marcano.
Era, então, aqui que queria desaguar: no elogio a uma dupla de centrais que me tem surpreendido e que tem sido a base de sustento de toda a equipa.
Sejamos sinceros: melhorar a performance defensiva do Porto não era tarefa difícil. Aliás, arrisco-me a dizer que seria mais difícil piorá-la. O centro da defesa vinha sendo considerado, quase unanimemente, o elo mais fraco de uma equipa que, de si, já não era forte, e dizia-se que este era o setor que mais desesperadamente necessitava de reforços. Não obstante tudo isto, é sempre de salutar tamanha subida de rendimento em tão curto espaço de tempo.
Analisemos, então, a dupla propriamente dita. Sobre o lado esquerdo joga Iván Marcano, central espanhol de 29 anos que chegou ao clube no verão de 2014 pela mão do atual selecionador espanhol Julen Lopetegui e que teve duas primeiras épocas complicadas, alternando jogos aceitáveis com erros de palmatória que, para quem joga no FC Porto, são absolutamente proibidos (todos nos lembramos da final da Taça no Jamor). Houve sempre a ideia generalizada de que Marcano valia muito mais do que aquilo que vinha demonstrando e eis que, na terceira época de azul e branco, Iván se presta a dar razão àqueles que lhe auguravam melhores prestações. O espanhol tem protagonizado uma época irrepreensível. Impressiona, principalmente, pela sobriedade e pela calma com que executa todas as suas ações em campo.
Não é aquele central duro que mostra os dentes aos avançados, mas tem uma leitura de jogo acima da média que lhe confere uma capacidade invulgar de jogar na antecipação. Praticamente intransponível pelo chão, está sempre no sítio certo. Impecável nas dobras, quer a dobrar o lateral ou o central que joga ao seu lado, faz tudo com limpeza e elegância, se é que podemos aplicar esses termos ao futebol. O único aspecto negativo, por assim dizer, a apontar-lhe prende-se com a saída de bola e aquele primeiro passe fundamental, para início de construção da equipa, que, não sendo mau, tem bastante espaço para melhorar. Quem te viu e quem te vê, Iván!

Fonte: FC Porto
Sobre o lado direito, joga um reforço para a nova época: Felipe. Chega ao futebol europeu aos 27 anos, proveniente do Timão (alcunha do Corinthians), e a troco de seis milhões de euros pela porta do FC Porto. Vem com a missão de ocupar o lugar de Bruno Martins Indi, central internacional A pela Holanda mas nascido no Barreiro, que estava de partida para Terras de Sua Majestade para representar o Stoke City por empréstimo e não deixou grandes saudades no reino do dragão. Embora chegue com alguns vícios típicos e naturais do futebol brasileiro, que necessitam, obviamente, de ser corrigidos, Felipe Monteiro tem vindo, jogo a jogo, a subir de produção e a demonstrar todo o seu potencial.
Mais agressivo e menos refinado do que o seu colega de setor, não lhe fica atrás na eficácia. Tem como ponto forte o jogo aéreo, onde é praticamente insuperável e é, também, muito forte na marcação. É um central muito regular, que não cede um único milímetro aos avançados. Tem, ainda, criado uma empatia com os adeptos e patenteado uma simpatia pelo clube, anormais para um jogador que chegou a Portugal e ao Porto há dois pares de meses.
Para concluir, há que dizer que pode estar aqui uma dupla para alguns anos, visto que, não sendo jogadores velhos, são jogadores com uma idade considerada alta para o mercado europeu (principalmente no caso de Marcano) e, portanto, salvo uma saída para um mercado periférico como a China ou o Médio Oriente, dificilmente serão protagonistas das habituais transferências milionárias. Assim sendo, estará resolvida a questão Central.
Foto de Capa: FC Porto
Artigo revisto por: Manuela Baptista Coelho









