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“Justiça!” | Os 11 melhores jogadores não campeões no Sporting CP

Romão Rodrigues · 6 min

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A dicotomia justiça/injustiça é transversal a todo o decurso do tempo até aqui verificado. Toda e qualquer pessoa é capaz de tecer queixas e críticas duras, de prometer “mundos e fundos”, de fazer sobressair da lapela do casaco o distintivo que não se vê, mas que urge demonstrar, de realizar manifestações e reunir multidões de modo a pelejar pela causa descrita e de distender a temática pelas vastas áreas de atividade laboral, recreativa, cultural, entre outros. Porém, a pessoa dotada da mínima consciência sabe que a linearidade do caso é inexistente.

O futebol, por acréscimo, encerra em si o antagonismo do princípio – aparentemente – de esquerda. No futebol, não existe justiça nem ínfima réstia dela. No futebol, não há lugar pela igualdade ou pela distribuição equitativa de sucessos. No futebol, não existe solidariedade. No futebol, ganha a equipa mais forte, com melhores recursos dentro e fora de campo, com os jogadores mais dispendiosos, com a melhor arquitetura de estratégias. Tende para isso, pelo menos. E quando tal não se contempla, entramos no campo da exceção. Portanto, como podem constatar, a justiça é abafada.

Segue, numa lista de difícil segmentação, um dos inúmeros exemplos da situação descrita onde a justiça não existe: os onze melhores profissionais não consagrados campeões nacionais com a listada verde e branca. Tática 4x3x3 losango, extremamente ofensiva.

1.

Fonte: Sporting CP

Rui Patrício – (Ainda hoje me questiono pelo facto de já ter no seu currículo um Europeu e não possuir um campeonato nacional). Digam o que disserem, barafustem o que barafustarem, é o melhor guarda-redes português e um dos melhores do mundo. As primeiras épocas, devido à inexperiência característica da jovialidade, suscitaram dúvidas na massa adepta. Contudo, a evolução programada eclodiu. Ágil entre os postes, rápido na saída aos pés do adversário e arguto no posicionamento. Foi um líder com letra capital. Olvidem o orgulho, já podem afirmar que têm saudades dele!

2.

Fonte: FC Internazionale Milão

Cédric Soares – o lateral direito da minha geração – o golo do Caneira ao Inter de Milão não me convenceu, desculpem – e o antípoda da flecha humana. Pecava algumas vezes nos cruzamentos, é certo. Retive o seu nome após contemplar aquele “bilhete” ao Nacional da Madeira durante a época que todos queremos esquecer. Perdoo a expulsão da Taça em 2015. Considero-o um defesa completo: aguerrido, veloz, com qualidade técnica, maturo taticamente e capaz de alvejar a baliza contrária através de remates de longa distância. Esqueçam, de uma vez por todas, o Piccini!

3.

justiça
Fonte: UEFA

Marcos Rojo – após ler o nome do respetivo, foi outorgado, ao leitor, um cartão amarelo. Não reclame, pode levar o segundo por acumulação e ser expulso. Maurício era cumpridor porque estava a seu lado. Rojo é sinónimo de tempestade, mas um desastre climatérico merecedor de uma bonança. Nunca a teve. Vê-lo de leão ao peito restaurou a minha segurança na defesa leonina. Impunha respeito, impunha critério, impunha triunfos. Creio que a quantidade de expulsões está diretamente relacionada com o apelido…

4.

justiça
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Jérémy Mathieu – Oui, Monsieur. Je t’aime. Debruçado sobre um dicionário da língua portuguesa, procuro todos os superlativos para te classificar/ Nunca serão suficientes, chego a essa conclusão/ Tu ainda não partiste e já estamos a chorar/ Por ti, ilustre francês, que consideramos um “centralão”. No fundo, através deste poema de qualidade lírica duvidosa e piegas, queria demonstrar que Mathieu, pelo menos para mim, é pura poesia. Entretanto aguardamos a justiça poética.

5.

Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Acuña – Irascível. Caprichoso. Mente alarve, corpo entregue. Latino. De acordo com os propósitos do epitáfio leonino, cumpre três dos quatro, mais do que uma vez por jogo. O seu Esforço é requisitado constantemente e demonstrado do mesmo modo, a sua Devoção apaixona um amante genuíno de uma das essências do futebol e a Dedicação que confina e restringe à camisola rubra não é esquecida, garanto-lhe eu. Resta saber se “para o ano é que é” e a Glória aparece.

6.

justiça
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

William Carvalho – Sir, yes, Sir. “É lento”. “Parece um caracol”. “Não é dinâmico”. “Só passa para o lado”. Às duas primeiras missivas, acrescente a partícula “falso” antes de “lento” e “caracol”, à terceira retire o “não” e coloque o vocábulo “muito” e a quarta olvide a sua existência. O miolo leonino precisava dele como de “pão para a boca”. O ímpeto ofensivo tinha em si o principal ponto de partida, a água potável jorrava dali. A perspicácia defensiva e a matreirice posicional conquistaram corações de quem percebe um pouco do que é o jogo do povo. Um trinco moderno, um porto seguro e uma nova forma de vida. Sai um passe telecomandado!

7.

Fonte: Sporting CP

Adrien Silva – polémicas à parte, falemos do pulmão desobstruído da última década. Ainda o oiço a rugir. O palco da savana está montado, o jipe cruza os trilhos diferentes de circulação e observa o leão a calcorrear o terreno com uma energia que parece inesgotável, uma determinação única e uma autoridade digna de quem, efetivamente, sabe mandar. O antigo 23 era a metáfora do que se descreveu anteriormente. Até à última gota, o último a cair e o primeiro a levantar!

8.

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Bruno Fernandes – continuam a escassear termos para este senhor do hermetismo. A cartola estava recheada de uma panóplia infindável de truques e feitiços. Assistir a um espetáculo do mago conceituado é como ler Oscar Wilde e encarnar o talento de Basil Hallward ou vibrar diante do espírito híbrido de histerismo e ternura de “Doollitle” e “Surfer Rosa”, dos Pixies. Só consegui classificá-lo desta forma porque, entretanto, os olhos lacrimejaram. Peço desculpas! Exige-se justiça, merecia muito mais…

9.

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Gelson Martins – “Cu bo ti fim de mundo”. Alguns conheceram-no assim, mas para o Marcelo, o Casemiro e o Sérgio Ramos a perspetiva foi outra. Especializado em baile ao adversário, rodopio I, II e II e cálculo de ancas e rins partidos, o internacional português, numa primeira análise, evidenciou sinais de trapalhão, tosco e alguma insuficiência na finalização. Felizmente, foi um lapso nos registos: um rei dos flancos que tinha tudo para ser coroado coletivamente. Saudades de quando nem a câmara estava apta a fazer o seu trabalho! Irreverência pura.

10.

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Nani – o sucessor de Cristiano. Estas palavras bastavam, mas ele merece uma “dedicatória” alongada. Regressado em 2014, Nani era o Ás de trunfo de Marco Silva. Nem tudo correu pelo melhor, é certo. Sucessivas demonstrações de maturidade, tranquilidade, pés de veludo, qualidade (bem!) acima da média, golos de antologia, jogadas de força nas quais arrastava consigo quatro ou cinco adversários… Aquela maldade à defesa do Maribor! “LÁ VAI O NANI, VAI MARCAR UM GOLO, VAI DAR UM MORTAL”. Faltou, na letra, um “VAI SER CAMPEÃO” e talvez se concretizasse…

11.

justiça
Fonte: Sporting CP

Islam Slimani – da Argélia para o mundo por 300.000€. Lembro-me da primeira vez que o vi: ele transpirava uma postura desajeitada e pedante e remetia-me para o Corcunda de Notredame. O engano era meu, somente. Apercebi-me da raça numa das aceções da palavra, da corrida desenfreada por ser o primeiro homem a defender, da pouca qualidade técnica dos membros posteriores transformada no necessário e suficiente, da cabeçada como sentença de morte e da esperteza dentro da grande área. E, se um jogador já é assim e conquista o nosso coração, imaginem quando ele bate no peito e morde a língua aquando do festejo. Não me vou alongar, tremo só de falar nisto… Não há justiça no futebol.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Romão Rodrigues

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