“Congratulations on the constructors’ world championship. History in the making!” Lewis Hamilton sabe-o. Aliás, todos o sabem. A Mercedes vive uma época histórica no Campeonato Mundial de Fórmula 1 e a edição inaugural do circuito de Sochi – cidade russa que depois dos Jogos Olímpicos de Inverno está pela primeira vez incluída no calendário da competição – serviu de primeiro palco para a festa da equipa alemã.
Talvez assombrada pelo terrível acidente testemunhado em Suzuka sete dias antes, a corrida decorreu de forma mais tranquila do que, inclusive, era previsto: sem safety car, sem acidentes de maior ou polémica. A corrida de estreia em Sochi fica, sim, marcada por boas razões: foi lá que a Mercedes fez a festa no que ao Mundial de Construtores diz respeito. Confirmou o inevitável, por outras palavras, dado que os resultados de Lewis Hamilton e Nico Rosberg não deixam margem para dúvidas já há alguns meses.
Em pista estavam 21 pilotos e um ‘fantasma’. E que fantasma. Jules Bianchi tinha gravada na pista uma mensagem de incentivo e esteve presente em cada uma das cinquenta e três voltas dos pilotos — talvez por isso não se tenha verificado nenhum acidente de maior e não tenha sido necessária a intervenção do safety car.
Com o estado crítico de Bianchi presente no pensamento de todos, a edição inaugural do Grande Prémio de Sochi serviu… Para cumprir calendário. Sem acidentes, sem surpresas Fonte: Sutton Images
Lá na frente, Hamilton viu Rosberg ganhar-lhe o primeiro lugar ao falhar a travagem na primeira curva, motivo pelo qual a Mercedes se apressou a restabelecer a ordem. A partir daí, foi mais um passeio para o britânico, enquanto o alemão fazia o impensável: recolheu à box no final da primeira volta com vibração de pneus e… Não mais terminou. Um jogo de pneus para uma só corrida.
Se à Mercedes tudo corria bem, a Red Bull ajudava a equipa germânica como se assim fosse necessário: nem Ricciardo (7º), nem Vettel (8º) conseguiam fazer frente à irreverente dupla que lidera e, assim, estava confirmada a primeira parte de um filme inevitável – Mundial de Construtores para a Mercedes, que pela nona vez na temporada terminava uma corrida com os dois carros na linha da frente!
No que ao mundial de pilotos diz respeito… É apenas uma questão de tempo. Depois de muita polémica entre os dois, Lewis Hamilton tem agora uma vantagem de 17 pontos sobre Nico Rosberg na classificação geral. O título será certamente entregue a um dos dois, dado que Daniel Ricciardo tem menos 75 pontos que o alemão. Para já, seguem-se 17 dias de pausa até ao GP dos Estados Unidos da América ter início. Depois, Brasil e Abu Dhabi.
Ainda sou do tempo em que se começava a discutir a Globalização …
Ainda sou do tempo em que ia ao Dragão cantar músicas a jogadores portugueses…
Ainda sou do tempo em que o Porto ganhava a Taça UEFA com 15/18 jogadores portugueses…
Ainda sou do tempo em que o Porto ganhava a Liga dos Campeões, com 13/18 jogadores portugueses…
Ainda sou do tempo em que Portugal chegava à Final de um Europeu, com 6 jogadores do Porto no 11 inicial…
Ainda sou do tempo em que Portugal chegava à Meia-Final de um Mundial, com 9 jogadores que tinham passado pelo Porto, pouco tempo antes…
Ainda sou do tempo em que ia ao Dragão cantar “Tu aqui vais jogar, para ganhar, ser campeão… João Moutinho”
Sou do tempo em que, no Dragão Caixa, se assiste aos jogos das diferentes modalidades e os planteis são constituídos na sua grande maioria por portugueses…
Sou do tempo em que, pela primeira vez na história, o Porto jogou sem NENHUM Português no 11…
Sou do tempo em que apenas 14,3% do plantel portista é português (4/28) mas em que só dois jogadores jogam (mas nem sempre!)…
Sou do tempo em que são convocados 12 jogadores do FC Porto para as respetivas seleções e apenas Quaresma para a principal Seleção Nacional…
João Moutinho – possivelmente, a última grande figura portuguesa do FC Porto Fonte: publico.pt
O Porto é um clube de cidade! É um Clube onde a mística do Dragão e dos seus adeptos é a cidade! É facto que, cada vez mais, o Porto é conhecido pelo mundo. Não só pelos resultados alcançados, mas por todo o universo que o FC Porto representa. É reconhecido por ser um dos melhores “caça-talentos” do mundo, um dos melhores formadores desses talentos do mundo, um dos melhores valorizadores e vendedores de ativos do mundo. Esse reconhecimento é feito não só pelos portugueses, mas também por estrangeiros adeptos do futebol, bem como por jogadores que passaram pelo Reino do Dragão e que, na sua maioria, descrevem o clube como “o melhor por onde passaram”. Também as instalações são fantásticas, o estádio é fantástico, e, como não podia deixar de ser, os adeptos são fanáticos e muito exigentes. É um clube cuja filosofia é sempre “ganhar” e onde dificilmente um adversário consegue sair vencedor das partidas no estádio do Dragão.
Estes são apenas alguns dos atributos dados ao clube. Ser FC Porto é inevitavelmente ser cidade do Porto. Ser cidade do Porto é inevitavelmente ser Portucale, … Pertencer a esta cidade ajuda a compreender o 2º lugar dos estádios mais temíveis do mundo.
É necessário censurar a não inclusão de qualquer português em campo bem como a ausência de jogadores portugueses no banco … Nos últimos anos, outros clubes em Portugal eram pelo Porto criticados por só jogarem com estrangeiros – brincando-se até com o “será que no balneário a língua utilizada é espanhol”? Se olharmos para o nosso plantel actual, 11 jogadores têm como língua materna o espanhol …
Ainda sou do tempo em que os adeptos podiam dizer: “não sou de Portugal, sou do Condado Portucalense”. Nós é que somos Portugueses, no sul são “os mouros”.
Hoje, a nação Portista ao olhar para o seu plantel deve questionar-se: “direi Condado Portucale ou Hispania”?
8 de Junho de 2009. A data em que Kaká, um dos extraterrestres do futebol, foi levado de volta para o seu planeta. Ninguém sabe bem porquê, mas todos conhecem o culpado. Foi o Real Madrid, interessado em formar uma nova equipa de galácticos, que o fez desaparecer. Kaká nunca mais voltou.
A 8 de Junho de 2009, o planeta futebol deixou de ter Kaká e passou a ter Ricardo Leite. A mesma pessoa, mas um jogador diferente. Um igual aos outros. Faltava-lhe a paixão genuína pelo jogo, a diversão por fintar um adversário, a emoção de fazer a bola abanar a rede e ir festejar com os adeptos. O Ricardo, por muita técnica que pudesse ter, não tinha o mais importante. Não era o Kaká que todos conheciam e que, inesperadamente e sem uma explicação racional, perdeu o génio que tinha dentro de si.
Kaká ganhou a Bola de Ouro em 2007 Fonte: photoa.dlnewera.com
O Kaká a que estávamos habituados entrou para a galeria de notáveis do AC Milan. San Siro vestia-se de gala só para o ver jogar, tal como fazia nos tempos de Gullit, Rijkaard e Van Basten. E Kaká retribuía, semana após semana, com golos e poemas de futebol. É impossível esquecer a exibição do outro mundo que fez em Old Trafford nas meias-finais da Liga dos Campeões 06/07. Ou o golo monumental que marcou à Argentina, em que correu 80 metros com Messi no seu encalço. O prémio de melhor jogador do mundo, ganho em 2007, elevou-o ao patamar que merecia. É este Kaká que vou recordar daqui a uns anos, mesmo que a minha memória me queira atraiçoar e fazer com que me lembre apenas do brasileiro vestido de branco (e até assim teve momentos de génio).
De Kaká sempre pudemos esperar tudo e nada; nada porque era de tal forma imprevisível que era impossível adivinhar o que iria sair dos seus pés, e tudo porque, fosse o que fosse, seria pura magia. Juntando a classe futebolística à postura exemplar fora dos relvados, demonstrando uma simplicidade e uma humildade fascinantes, difícil – eu diria mesmo impossível – é não admirar um jogador como Kaká. Um extraterrestre que aterrou em San Siro e que, entre 2003 e 2009 (esqueçamos o que se sucedeu daqui em diante), fez coisas que o comum dos mortais não seria capaz de fazer. E depois partiu, sem avisar. Deixou saudades.
…mas que nunca consegui. Para o caso nada importa o facto de ter jogado futebol durante onze anos: todos nós, jogadores ou não, num momento ou noutro, quisemos ser como um daqueles que nos encantavam nos relvados. Fazer a finta igual, bater o livre com o mesmo estilo, jogar de cabeça levantada como o tal médio criativo. Desde os posteres colados na parede ao replay consecutivo de vídeos no youtube, esta lista ultrapassa o conhecimento do jogo que entretanto adquiri e transcende também várias fases diferentes do meu acompanhamento ao desporto rei: uns, ídolos de infância; outros, modelos a seguir como futebolistas. Estes foram os dez que, um dia, também quis ser.
[tps_title]10º Cristiano Ronaldo[/tps_title]
Fonte: dailymail.co.uk
De todos os presentes nesta lista, Cristiano será simultaneamente aquele que mais leitores elegerão para um top deste género e o que menos me influenciou no que à forma de jogar diz respeito. De Ronaldo, guardo toda a personalidade: a perseverança, o querer, o trabalho, a confiança, o atrevimento e tantos outros traços de personalidade que o levaram ao sucesso e que dele tomei exemplo. Digo sempre que a minha maior virtude é não saber perder. E acho que o aprendi um pouco com ele.
Na época passada um novo projecto surgiu – chama-se Mónaco e apostava num regresso do clube aos grandes palcos do futebol mundial. O projecto era ambicioso. Contou com contratações sonantes, como as de Radamel Falcao, João Moutinho, Ricardo Carvalho, James Rodriguez ou Eric Abidal. Mas o que mudou de uma época para a outra? A época passada foi sem dúvida um salto imenso para um clube que tinha acabado de chegar da segunda divisão francesa – terminou como segundo classificado e foi apenas superado pelo poderoso Paris Saint-Germain. E agora? Muitos foram os adeptos, e amantes do futebol, que ficaram desiludidos com o que aconteceu no último mercado de transferências: as saídas de Falcao e de James e nenhuma entrada de peso para as colmatar.
O caso deu que falar. Esperava-se que o magnata russo, Vadim Vasilyev, continuasse a levar a cabo a ideologia demonstrada no início da época transacta: contratar nomes sonantes e elevar o estatuto do Mónaco. Tal não aconteceu e o início da época mostrou uma série de resultados negativos que deixou os adeptos do clube monegasco em alvoroço. Chegou mesmo a falar-se em devolução de bilhetes de época. Para o novo treinador, o ex-leão Leonardo Jardim, o cenário também não se afigurava bonito. Deixou o projecto leonino para se juntar ao Mónaco na expectativa de rumar a maiores destinos, mas viu-se a braço com as saídas de dois pilares da equipa e com um plantel que, aparentemente, não estaria ao nível daquele que lutou pelo título na época passada. O projecto morreu, diziam. Eu discordo.
O projecto não morreu e está longe de morrer. Esta época será ligeiramente antagónica. O fair-play financeiro não permitiu que o clube fizesse grandes movimentações no mercado de transferências, o que fez com que o Mónaco se visse obrigado a apostar essencialmente nos seus jovens ou em jovens talentos provenientes doutros clubes. E talento não falta a estes miúdos! Nomes como Kurzawa, Germain ou Yannick Ferreira-Carrasco representam o talento proveniente das camadas jovens do clube e têm agora maior margem de manobra para jogarem mais minutos e demonstrarem o seu verdadeiro valor.
Moutinho e Bernardo Silva – as caras da experiência e da juventude no meio-campo monegasco Fonte: Mónaco: madeinfoot.com
De outros clubes também chegou talento – Wallace, promissor central brasileiro, veio por empréstimo do Sporting de Braga, e Bernardo Silva, médio português proveniente do Benfica que tem brilhado com as cores do Mónaco e que promete cada vez mais vir a ser um dos maiores nomes do futebol nacional a vingar entre a elite mundial do futebol. Juntando estes novos talentos à experiência e qualidade de nomes como Berbatov, João Moutinho ou Ricardo Carvalho, acho que a equipa tem uma margem de progressão enorme, com idades e culturas muitos diferentes a convergirem e a crescerem juntas.
Este projecto está longe de morrer. Este ano, por razões externas, o Mónaco foi forçado a adoptar uma postura mais passiva no mercado de transferências e a apostar em empréstimos e em jovens talentos. As coisas têm vindo a melhorar e o mau início de época tem vindo a ser colmatado por um crescente rendimento no campeonato e por uma campanha sólida na Liga dos Campeões. Para além de tudo isto, ninguém me tira da cabeça que Vadim Vasilyev, juntamente com Leonardo Jardim, estará a preparar uma nova lista de alvos a contratar para a próxima época (ou até mesmo já no mercado de inverno) que irá deixar os seus adeptos muito satisfeitos e a recuperar a ideia original do projecto: grandes nomes para reerguer um grande clube.
Desejado por muitos, odiado por outros, a verdade é que o Estádio Nacional do Jamor tem um significado especial para o futebol português. É lá que termina a época a nível interno, mas apenas para dois clubes. A grande questão que aqui se coloca baseia-se na ausência do Futebol Clube do Porto dos palcos a um jogo na última época. Há Taça ou não há Taça?
2013/2014 foi terrível e não há como o contornar. Desde o terceiro lugar no campeonato às meias-finais das duas Taças perdidas com o eterno rival (e isto apenas no panorama nacional), o único ponto positivo resumiu-se mesmo à conquista da Supertaça num começo de época que por algumas semanas parecia promissor. Resumindo, foi uma época terrível e com ela veio uma pouco habitual ausência da primeira competição da temporada.
Como um grupo de crianças perdido no meio de uma floresta que tanto lhes devia dizer, os comandados de Paulo Fonseca e, mais tarde, Luís Castro, falharam redondamente. Mas são águas passadas. Este ano, o barco é outro e o mesmo se aplica ao capitão e à ‘turma’. Os fatores são outros. Tudo é diferente. E com isto vêm as primeiras perguntas. Uma vez mais, este ano há ou não há taça?
Sempre foi objectivo de Pinto da Costa dominar a nível interno. É assim há dezenas de anos, assim será nas próximas. Como tal, a Taça de Portugal tem de ser um dos principais objectivos dos Dragões para esta época e o primeiro desafio está à porta. Depois de mais uma paragem extremamente oportuna e bem posicionada no calendário, como todas (percebese a ironia?), a competição de clubes regressa igualmente de forma oportuna, com… uma eliminatória da Taça de Portugal frente ao Sporting e, pouco depois, uma jornada dupla com o Athletic Bilbao para a Liga dos Campeões. Mas aqui não há desculpas.
Em 2013/2014, a campanha azul e branca ficou manchada de vermelho, tanto numa como noutra taça. Este ano, é obrigatório remediar a situação Fonte: impresa.pt
É mais do que evidente que o Porto joga à Porto quando tem calendários apertados, ao invés de defrontar equipas de nível inferior. Como tal, não há nada a esperar senão uma boa exibição e, atrevome a afirmar, uma vitória em pleno Estádio do Dragão rumo à quarta eliminatória daquela que é (talvez) a mais emblemática prova do futebol português.
Mas com quem, em que condições e com que facilidades? Será este, mesmo sendo frente a um dos ‘três grandes’, um daqueles jogos em que a equipa principal aparece maioritariamente escalada para o banco? Mais, acontecerá o mesmo do outro lado? E, acontecendo ou não, quão fácil será o duelo?
Encaro o regresso à Taça cheio de dúvidas mas acima de tudo como uma enorme vontade de ver mais um jogo. Afinal, é mais um título que dentro de alguns meses se pode juntar às centenas de troféus que este ano observei no tão apaixonante museu.
“Os tempos são três: o presente das coisas passadas, o presente dos presentes e o presente das futuras” (Santo Agostinho: Confissões)
Os meus artigos versarão sobre a actualidade do Futebol Clube do Porto consubstanciada na história e no seu devir. Articularei revisitações e prolegómenos a uma instituição vencedora desde 1893 até ao fim dos tempos.
Este clube portuense, uma perpetuação eterna do meu espírito quando a matéria se dissolver, irá ser o meu objecto transcendente de reflexão, entrecruzando razão e paixão. A “Bola na Rede” propícia um extasiar de emoções desmedidas, contraditórias, dialécticas. O golo é o ponto marcante na ligação afectiva com este desporto, um marco na nossa cronologia vivencial. A marcação do tento constrói essa panóplia diversa de simbologias, vista por uns como um beijo na rede, por outros como uma lança que trespassa o coração. Esse momento de fruição e trauma momentâneo é relembrado, revivido e reconstruído ao longo das nossas vidas. O grito de golo é uma expressão da “liturgia” desportiva mais solene. Na religião e no desporto, as liturgias/gritos de golo devem apenas pautar o quotidiano, mas nunca a finalidade, a substância da crença. A racionalidade da veneração só é feita se empreendermos um questionamento constante e incessante da nossa identidade, não para negar, mas para fortalecer, solidificar e aprimorar essa natureza intemporal. Renego liminarmente a concepção de que a paixão é incontestavelmente a antítese da racionalidade. Para esse amor racionalmente lúcido, irei socorrer-me da conjugação dos tempos e de uma transdisciplinaridade de vários saberes.
A “Bola na Rede” pontua essa plenitude de significados que este jogo suscita. Sem dúvida, o objectivo final do jogo é apenas o início da procura da compreensão do fenómeno social total.
António Nicolau de Almeida, responsável pela fundação do Futebol Clube do Porto em 1893, era um importante comerciante de vinho do Porto. Esta instituição desportiva está perfeitamente incorporada e identificada com a identidade da cidade e dos portuenses. O comércio do vinho do Porto marca indelevelmente a história do seu clube mais afamado e também da cidade. Para essa actividade comercial não existe símbolo mais marcante do que os barcos Rabelos. Estas embarcações são o testemunho de uma era na qual cada viagem era uma aventura no limiar da vida e da morte. Em meados da década de 60 foram substituídos pelos comboios e camiões. A inactividade económica actual contrasta com o seu poder simbólico presente, atestado pela sua perpetuação como ícone, navegando ainda hoje nas ribeiras da Régua, Gaia e Porto. Sem as suas odisseias talvez o Alto Douro não fosse conhecido como a região da vinha e do vinho.
Barco Rabelo no rio Douro – um clássico portuense Fonte: pt.wikipedia.org
Os Rabelos foram durante séculos os únicos meios disponíveis para transportar as pipas de vinho desde a zona de produção até ao entreposto exportador, no Porto e em Gaia. No Porto “vintage” de Lopetegui quem será esse jogador “Rabelo”? Neste início de época, os azuis e brancos têm denotado imensa dificuldade na saída de bola, com uma troca de passes circular entre os quatro membros da defesa, que se tem revelado inoperante e, por vezes, muito arriscada. Essas deficiências provocadas por um excesso de jogo apoiado na 1ª fase de construção não se explicam apenas pela articulação dos membros de sector. É necessário enquadrar o médio defensivo neste processo.
Sendo descabido falar de um ex-jogador quando se quer explicar as deficiências da equipa, importa mencionar o “polvo” Fernando para compreender a mudança de estilo nessa posição específica. Este era um jogador mais posicional, com um perfil enquadrado e semelhante ao dos seus predecessores no lugar de médio defensivo puro (ou trinco). Paulo Assunção, Costinha, Jaime Pacheco ou André, para citar alguns, eram jogadores mais equilibradores, mais estáticos no posicionamento, lateralizando preferencialmente no passe. O Futebol Clube do Porto necessita de um médio defensivo que assegure não apenas a cobertura de espaços, mas que ligue o sector defensivo com os restantes colegas do “miolo” (passe curto) e com a linha de avançados (passe médio/longo), ou seja, necessita de um pivot. A indefinição do modelo de saída de bola na zona defensiva é também explicada pela constante alternância de jogadores e também da própria ideia de jogo para a linha média, mais concretamente na sua “pedra” mais recuada. Naquele posicionamento já actuaram Marcano, Herrera, Casemiro e Ruben Neves. O espanhol, central adaptado, é forte nas marcações mas empresta pouca dinâmica ao colectivo. O mexicano é muito bom na condução de bola junto ao pé em velocidade e apresenta destreza suficiente para sair daquela zona de pressão com a bola controlada; o seu problema surge no momento seguinte, o da entrega – Herrera ainda é algo débil no passe, mesmo no curto. O brasileiro Casemiro disponibiliza-se bem para jogar com os defesas e tem um passe longo magistral mas quando recebe a bola fá-lo inúmeras vezes de costas e tem dificuldade em rodar e se perfilar para a baliza adversária, perdendo a posse nessas ocasiões. Dito isto, o jogador mais completo para a posição é Rúben Neves. Recua, aproximando-se dos defesas para a ligação, sai bem da pressão em rotação ou progressão, vertical e seguro no passe curto, hábil na variação do sentido de jogo, confiante para procurar desmarcações a 30 metros e para arriscar a finalização com o seu potente remate de meia distancia.
Rúben Neves pode ser a melhor das soluções para posição ‘6’ Fonte: abola.pt
Este jogador, formado nas escolas azuis e brancas é esse médio, que, como um barco Rabelo, navega desde a “zona de produção” até aos “entrepostos exportadores”, ou seja, proporciona a ligação entre sectores – o defensivo e o ofensivo – sem descurar a segurança e a cobertura zonal.
O Futebol Clube do Porto, com a saída do “Polvo”, tem de alterar a tipologia estilística colectiva e o perfil individual nessa posição nevrálgica, que marcou historicamente estas últimas três décadas grandiosas do clube. Com este paralelismo histórico, procuro reavivar uma velha identidade, que proporcione carácter à equipa de futebol e familiaridade afectuosa a quem a segue com paixão.
Com Fernando Santos no banco de Portugal pela primeira vez – um cenário que dificilmente se repetirá tão cedo, dado o castigo que lhe foi imposto -, Portugal entrou no Stade de France com vontade de limpar a má imagem deixada no Mundial 2014 e na derrota diante da Albânia. O amigável frente a França era uma oportunidade perfeita – num grande estádio, frente a um grande adversário, a vitória seria muito motivadora. Mas o início da partida foi um autêntico film noir para os portugueses.
A desconcentração e as debilidades defensivas começaram a notar-se desde logo e foi com apenas dois minutos decorridos que Benzema fez abanar as redes da baliza de Patrício pela primeira vez – percorrendo uma auto-estrada do lado direito da defesa, Griezmann descobriu Sagna, o lateral rematou para defesa difícil e incompleta de Patrício e Benzema, sem oposição, desviou para o primeiro.
Benzema accionou o placard logo no início do jogo Fonte: larepublica.pe
Os vinte minutos seguintes foram de pura agonia para os lusitanos. Com Cédric e Eliseu – duas caras da nouvelle vague de Fernando Santos – muitíssimo permeáveis pelos corredores e um Tiago estranhamente desconfortável na posição 6, Portugal foi permitindo aos franceses chegar com facilidade à sua área – Pogba e Benzema tiveram boas ocasiões para fazer o segundo.
O ponto de viragem foi um remate rasteiro e milimétrico de Nani aos 20 minutos, que quase resultava no empate – o leão aproveitou uma asneira de Mangala, puxou para o pé esquerdo e, à entrada da área, assustou Mandanda. A partir daí, Portugal serenou, passou a conseguir ter a bola, foi capaz de assumir as despesas do jogo em vários momentos e ganhou alguma confiança. Danny, Nani e Ronaldo iam conseguindo boas combinações na frente, embora sofressem com a forte oposição da defesa gaulesa; André Gomes ia sendo o mais esclarecido de um meio-campo português em que os experientes Tiago e Moutinho falhavam demasiados passes. Foi do médio do Valência, de resto, que saiu a outra boa oportunidade para Portugal no primeiro tempo, aos 26 minutos – tirou um francês do caminho com uma simulação e atirou sem acerto com o pé canhoto.
Ao intervalo, Fernando Santos lançou os Carvalhos (William e Ricardo) para os lugares de André Gomes e Bruno Alves e fez algumas correcções (os laterais, que evidentemente não aprenderam a defender num quarto de hora, não voltaram a dar o mesmo espaço que deram primeiro tempo). Logo a abrir o segundo tempo, Portugal esteve perto do empate – Nani tirou um cruzamento perfeito para a cabeça de Ronaldo e o capitão esteve perto de fazer o 51.º de quinas ao peito. Mandanda defendeu. C’est la vie… Depois disso, o mesmo Nani recebeu de forma perfeita um lançamento longo de William, assistiu Danny e o luso-venezuelano rematou na atmosfera.
Fernando Santos voltou a mexer, fazendo entrar Quaresma e Éder para os lugares de Tiago e Nani e dando a ideia de que queria uma selecção mais ofensiva, mas no lance seguinte Pogba, num tête-a-tête com Patrício, destruiu a soirée aos milhares de adeptos portugueses que se deslocaram ao Stade de France. Remate preciso e touché: 2-0!
CR7 tentou várias vezes mas hoje não foi capaz de chegar ao golo Fonte: leparisien.fr
Aos 75’, Ronaldo ainda rematou contra a mão de Varane (sem penalty), após assistência de Éder, mas logo a seguir o cedeu lugar a João Mário. Et voilá – o menino do Sporting arrancou uma grande penalidade a Pogba, que Quaresma tratou de converter com uma calma desarmante. O 2-1 estava feito e Portugal foi à procura do empate. Quaresma ainda voltou a causar perigo, num livre mesmo à entrada da área, e João Mário também teve nos pés uma boa chance, num remate forte de fora da área, ligeiramente desenquadrado com a baliza francesa. No fim, Portugal perdeu com a França – um cliché, dado que já não ganhamos aos gauleses desde 1975!
A França jogou melhor na primeira parte, Portugal melhorou muito no segundo tempo. A derrota é, ainda assim, o resultado mais justo, se atendermos ao número de oportunidades obtidas de parte a parte. O próximo jogo, esse sim, será importante: é fundamental conquistar os três pontos em Copenhaga!
A Figura
Pepe, João Mário e Nani – Pepe voltou a mostrar que é o esteio da defesa portuguesa – imperial em todas as acções; João Mário fez, num quarto de hora, o suficiente para baralhar as contas de Fernando Santos e mostrou que pode ser titular – tem uma classe que impressiona; Nani confirmou a subida de forma que tem vivido no Sporting e foi sempre muito interventivo e esclarecido no ataque – tentou marcar e dar a marcar várias vezes, só lhe faltou um pouco de felicidade.
O Fora-de-Jogo
Cédric e Eliseu – os dois protagonizaram exibições positivas na vertente ofensiva, mas foram claramente os dois elos mais fracos do colectivo na vertente defensiva, especialmente nos primeiros vinte minutos – o sportinguista concedeu todas as facilidades nos lances do golos; o benfiquista também foi muito imprudente na abordagem a vários lances (num deles, chegou mesmo a lançar o adversário em velocidade). Ivo Pinto e Antunes estão à espreita…
Estamos de volta! Lindo. Os últimos quinze minutos do jogo do passado domingo foram geniais. Primeiro vem o Talisca, depois aparece o Derley. E onde anda o Salvio? Ah! Lá vai ele meter mais uma de cabeça. E para fechar as contas, nada melhor que ver mais um génio a beijar o esférico – Sr. Jonas, seja muito bem-vindo ao majestoso relvado do Estádio da Luz, por onde tantos génios já passaram, quero ver-te mais vezes e apetece-me festejar mais golos teus. Uma palavra para o nosso Ola John, gostei de te ter de volta. A semana correu-me bem, ser líder dá nisto. Enche-nos a Alma. Que bom que é estar lá em cima, que seja para continuar! Uma breve palavra para o Lisandro – precisa de mais minutos ao lado do capitão e espero vê-lo já no jogo com o Mónaco.
Por falar no Mónaco, vêm duas jornadas fundamentais para o nosso caminho na Europa. Eu acredito! O Jesus gosta de ganhar ao Jardim, traz-me três pontos do Stade Louis II por favor. Chega daquelas exibições medíocres que nos fazem sentir pequenos. Não! Somos gigantes, eu sei, todos nós sabemos. Só falta explicar-lhes Jorge, mostra-lhes como os gigantes se debruçaram aos nosso pés. Mónaco? Jesus, não chega ser o maior em Portugal. Isso é simples. Obriga-os a darem 200%. Mais até se for preciso. Ah, e não inventes. Chega disso também. E depois da Champions vem o Braga. Um estádio que historicamente tem sido complicado, seja por razões externas ou não. A verdade é que temos apenas quatro dias entre a deslocação ao Mónaco e a ida a Braga. Vamos estar cansados, vai ser um jogo duro e difícil, mas dêem tudo outra vez. E outra, e mais outra… Ter atenção a este Braga de Sérgio Conceição, que vem de uma boa exibição no Dragão.
Stade Louis II, próximos três pontos Fonte: info-stades.fr
Agora a paragem. Pois é, quase três semanas sem jogar. Se estou preocupado? Parece-me óbvio que sim. Para além disso, o Jesus é uma voz activa contra este tipo de paragens tão longas, e ninguém conhece a equipa melhor que ele. Peço aos céus que a equipa não quebre. Que as rotinas continuem lá, mas ainda mais importante que isso, que os três pontos nos continuem a alegrar o espírito. E assim sendo, tenho a certeza que todas as semanas deste ano me correrão bem. Líder. Cinco letras que, quando juntas, me ligam o coração e a Alma. O coração encarnado enche-me a Alma sempre que o nosso Sport Lisboa e Benfica vence. Mas atenção, mesmo não vencendo ele vai continuará sempre, sempre, sempre encarnado (o nome da rúbrica explica tudo). Devo parafrasear uma conhecida música do panorama português – “Mesmo que percas o jogo, (nunca perdes!) não perdes a tua glória”.
Resumindo, sei que estas duas semanas que aí vêm vão ser um pouco cinzentas porque o Maior de Portugal não joga. No entanto, usem estes dias livres de loucura/prazer para apoiar a nossa Selecção. E juntem-se. Todos. Eu não vou poder ir ao Municipal de Braga porque, como sabem, sou um emigrante. Mas quem puder, que vá. Encham aquelas bancadas. Não parem de cantar, de apoiar e ainda mais importante, de os levantar quando eles assim o precisarem. As duas jornadas da Champions são para ganhar e espero que cada um de vocês acredite com todas as forças que tem que vamos fazer seis pontos nesses dois jogos. Temos de ser nós os primeiro a levá-los lá. Bem acima, onde olhamos para baixo com um sorriso nos lábios (e na Alma).
No próximo Sábado estou de volta. Que todos os vosso corações se encham de encarnado.
Diego Tardelli foi o herói improvável de um clássico fiel à rivalidade entre os dois países. O avançado do Atlético Mineiro marcou os dois golos da vitória brasileira sobre a Argentina no Estádio Nacional de Pequim, que foi o palco de um encontro particular disputado com grande intensidade e que de amigável teve pouco.
As duas selecções estão em momentos diferentes. A Argentina, apesar de Tata Martino ter substituído Sabella, procura dar continuidade à equipa que foi finalista no último Mundial, enquanto o Brasil, com Dunga no comando técnico, atravessa um período de renovação, depois do fracasso na competição que organizou. Os 11 escolhidos pelos dois treinadores confirmaram estas ideias. Em relação ao Mundial, só Lamela e Roberto Pereyra ganharam lugar na alviceleste; o cenário é bem diferente na canarinha, que teve Jefferson, Danilo, Miranda, Filipe Luís, Elias e Diego Tardelli como caras novas.
O Brasil apresentou-se bastante conservador neste encontro, dando a iniciativa de jogo à Argentina. A equipa de Dunga viu-se obrigada a recorrer inúmeras vezes à falta para travar a dinâmica do ataque argentino, que criou boas oportunidades para marcar mas que não teve pontaria para o fazer. Durante este período, Di María e Agüero estiveram em evidência, bem como Roberto Pereyra. O médio da Juve mostrou que tem qualidade para a selecção e que pode ser o médio de transição que tem faltado a esta equipa. Já depois da meia hora, e contra a corrente do jogo, o Brasil marcou na primeira vez que entrou na área argentina. Diego Tardelli, aproveitando um desentendimento entre Zabaleta e Fede Fernández, bateu Romero e fez o 1-0. O golo deu confiança à canarinha, que conseguiu finalmente soltar-se e ter ascendente sobre o adversário. Neymar, na sequência de uma grande jogada de entendimento com Willian (o melhor do Brasil na primeira parte) e Tardelli, teve uma grande arrancada e desperdiçou isolado a possibilidade de aumentar a vantagem. Ainda antes do intervalo, o árbitro decidiu entrar no jogo e assinalou penalty num corte limpo de Danilo sobre Di María. Messi, na conversão, permitiu a defesa de Jefferson, que evitou que a má decisão do árbitro tivesse influência no resultado.
Desta vez, nem de penalty Messi conseguiu facturar Fonte: globoesporte.globo.com
Na segunda parte o encontro foi mais dividido. A Argentina, a perder, tentou ir em busca do empate, mas nunca conseguiu mostrar a mesma qualidade que exibiu durante os primeiros 30 minutos (Gaitán não saiu do banco e as entradas de Pastore e Higuain não surtiram efeito). Com a equipa mais partida, consequência do facto de Roberto Pereyra (substituído por Enzo aos 76’) ter baixado de rendimento, a alviceleste surgiu em “modo Mundial” e viveu mais das iniciativas individuais dos seus craques. O Brasil manteve a consistência defensiva e, tendo mais espaço para jogar, foi a equipa mais perigosa em campo, com Neymar (em grande na segunda parte) e Willian a explorarem as fragilidades da defesa argentina. O 2-0 surgiu na sequência de um canto, com Tardelli a aparecer à boca da baliza a encostar. A partir daqui, o encontro perdeu qualidade e os jogadores envolveram-se em várias picardias. A Argentina só criou perigo através de livres de Messi, ao contrário do Brasil, que teve boas ocasiões para marcar novamente. Apesar de ter tido a felicidade do seu lado, com um golo “oferecido” e um penalty desperdiçado pelo adversário, a equipa de Dunga acabou por justificar o triunfo no Superclássico.
A Figura
Diego Tardelli – Não deve perder a titularidade nos próximos tempos. Para além dos dois golos que marcou, nos quais mostrou excelente sentido de oportunidade, o avançado provou que a sua mobilidade e qualidade técnica se encaixam bastante bem no ataque brasileiro (é totalmente diferente ter Tardelli ou um jogador mais estático, como Fred).
O Fora-de-Jogo
Demichelis e Federico Fernández – A zona central da defesa continua a ser o principal problema da equipa argentina. Por motivos diferentes, Demichelis e Federico Fernández não têm qualidade suficiente para jogar nos vice-campeões mundiais. Voltaram a demonstrar as suas limitações, tanto a nível individual como como dupla. A falta que fez Garay.