Diogo Gago é provavelmente um nome que não diz nada à maioria dos portugueses e que pouco diz aos que gostam de ralis mas que não acompanham de forma “fiel” a modalidade em Portugal.
Gago é um dos pilotos em que os portugueses podem depositar mais esperanças para o futuro, visto ter cada vez mais um ritmo consolidado e estar a fazer uma aposta séria na sua carreira. O piloto algarvio está a correr em Portugal, Espanha e França neste momento, o que lhe traz um ritmo e experiência muito superiores à grande maioria dos pilotos portugueses. Mas se a participação nestes três campeonatos é importante, para mim, existe uma falha grave na sua participação: o piloto corre em cada campeonato com um carro diferente. Em Portugal corre com um Citröen C2 R2, em Espanha corre no troféu da Suzuki com um Suzuki Swift Sport, e em França corre com um Peugeot 208 R2. Se as diferenças de carros podem ser boas por não permitirem uma habituação excessiva a um só carro, ter de conhecer três também me parece excessivo. Para melhorar este aspeto e reduzir de três para dois carros, considero que o piloto devia começar a usar em Portugal o carro da marca do leão, que usa em França.
Diogo Gago em ação em França. Fonte: Facebook de Diogo Gago
A nível de resultados, estes têm sido sempre equilibrados, e penso que posso afirmar que são melhores no estrangeiro do que em Portugal; no passado fim de semana, na primeira participação em França deste ano, o piloto do Algarve ficou em terceiro, não ficando no primeiro lugar apenas devido a uma penalização dada ainda antes do início da prova.
O algarvio é sem dúvida um talento com muito futuro, e podemos esperar voos mais altos para o mesmo. Ainda estamos a meio da temporada de 2014, mas para a época de 2015 o piloto deveria continuar a apostar em carros ‘R2’ e de preferência num carro melhor do que o C2 com que corre no nosso país; mas em vez de correr em três campeonatos nacionais devia, na minha opinião, correr ou no europeu ou no mundial, e se pudesse ir testando e até fazer uma ou outra prova de R5 ou carro do género. Em 2016 deveria então mudar de classe para um muito mais competitivo R5, de forma a sustentar todo o seu desenvolvimento e mostrar todas as suas qualidades.
O segundo jogo dos quartos-de-final do Mundial era um dos mais aguardados de toda a competição. De um lado estavam os anfitriões, desejosos de fazer esquecer uma prestação pobre diante do Chile e com o sonho de celebrar o hexacampeonato em casa sempre em mente. Do outro lado, a Colômbia, uma das selecções- sensação deste Mundial, liderada pelo inconfundível James Rodriguéz – melhor marcador da prova (5 golos) e indiscutivelmente uma das figuras do Mundial até então. O embate sul-americano prometia e bastaram 6 minutos para a primeira explosão de alegria no Arena Castelão em Fortaleza. Neymar bate o canto e Thiago Silva aparece sozinho ao segundo poste para inaugurar o marcador, num lance em que a defesa Colombiana fica muito mal na fotografia. Zapata e Yepes falham a intercepção e Sanchéz parece esquecer-se do central brasileiro, que só precisou de encostar.
Havia ainda muito jogo pela frente e a Colômbia mostrou-se empenhada em dar a volta. Cuadrado, aos 10 minutos, deixou o aviso à nação brasileira que ainda festejava o golo madrugador, com um remate potente a sair muito perto da baliza de Júlio César. No entanto, a selecção brasileira queria mais, e continuou a carregar no acelerador. Fora algumas saídas velozes em contra-ataque e uma ou outra jogada de insistência colombiana, a primeira parte foi do total domínio canarinho, com Hulk e Neymar a serem os responsáveis pelas maiores ocasiões de perigo. A Colômbia aguentava como podia aquele que era sem qualquer dúvida o melhor Brasil da prova até ao momento – forte, organizado, entrosado e perigosíssimo. Num jogo aberto, aguerrido e intensamente disputado (25 faltas só na primeira parte), as oportunidades seguiram-se a um ritmo alucinante, mas o 1 – 0 manteve-se até ao intervalo.
No segundo tempo, mais do mesmo. Brasil por cima e jogo muito emotivo, com o árbitro espanhol Velasco Carballo a ter de interromper a partida por inúmeras vezes tal era a agressividade de parte a parte. Aos 65 minutos marca a Colômbia depois de grande confusão na área… mas o lance é anulado por fora-de-jogo. E como dita a gíria futebolística, quem não marca, sofre. Desta vez, a proeza coube ao outro central canarinho, David Luiz, que aos 69 minutos faz um verdadeiro golaço de livre directo após uma falta cometida por James sobre Hulk. 2 a 0, num “tiro do meio da rua” que é um verdadeiro hino ao futebol.
Esta tem selo. David Luiz, num golo para ver e rever. Fonte: FIFA
Inconformada, a selecção colombiana continuou incessantemente à procura do golo que faltava para a relançar na partida, e aos 78 minutos a sua insistência foi finalmente recompensada. Júlio César comete penálti sobre Bacca e na conversão James não perdoa e faz o 1-2, naquele que foi o sexto tento do avançado na presente edição do Mundial. Com 10 minutos de tempo regulamentar por jogar, a Colômbia foi para cima do Brasil com tudo o que tinha, mas a redondinha teimou em não entrar por uma segunda vez.
O Brasil está nas meias-finais do Mundial depois de um jogo durinho em que se fez valer da veia goleadora dos seus defesas-centrais. A agressividade acabou por ser o antídoto ideal para o jogo fluído dos colombianos, que saem do Mundial de cabeça erguida. Quanto ao Brasil, o sonho de festejar o hexa em casa pode estar cada vez mais perto, mas adivinham-se muitas dificuldades para a equipa de Scolari – Neymar saiu de maca nos minutos finais do encontro depois de uma dura entrada de Zuniga e tudo indica que irá falhar os restantes jogos do Mundial. Segue-se a poderosa Alemanha nas meias-finais veremos até onde vai o escrete sem a sua maior estrela. A Figura
David Luiz – Exibição quase irrepreensível do central brasileiro, carimbada com um golo de antologia. Melhor era difícil. O Fora-de-Jogo Agressividade em excesso – Se do lado do Brasil pareceu estratégia, a Colômbia soube responder à letra. Foram 54 (!) as faltas assinaladas pelo árbitro da partida na totalidade do encontro, que mostrou apenas 4 amarelos, dois para cada lado. É certo que há jogos assim, mas houve muitos cartões que ficaram por mostrar.
Se há coisa que nos tem chegado a nós, europeus, durante este Mundial, é um futebol diferente. Mais destemido, dizem os defensores do meio copo cheio. Mais desorganizado, dirão os que preferem ver que o meio copo também está metade vazio. O resultado tem sido quase sempre futebol mais apelativo, imprevisível e com os conjuntos a equilibrarem-se entre si. Estamos todos felizes, ou quase todos… Todos menos os treinadores. Por isso, Low e Deschamps preparam-nos duas equipas pragmáticas, equilibradas e competitivas para o primeiro embate destes quartos de final. Cá está o nosso bem conhecido futebol europeu!
O jogo iniciou-se inclusive com algumas semelhanças na estrutura das equipas: 4x3x3 clássico de parte a parte, procura pela saída de jogo a partir de trás, trio forte no meio e muita dinâmica na linha mais adiantada. A diferença acabou por recair na estratégia sem bola visto que a Alemanha optou por uma entrada mais agressiva a evitar que os franceses conseguissem iniciar o jogo sem dificuldades. Por outro lado, a equipa de Benzema e companhia mostrou-se muito passiva e demasiado preocupada com as coberturas defensivas sempre que a posse estava do lado alemão e isso acabou por levar quase a um esquecimento da bola que deveria ser sempre uma referência a nível defensivo. O golo acabou por chegar no minuto 13 através de uma bola parada irrepreensivelmente executada por Kroos à qual Hummels respondeu muito bem batendo Varane nas alturas.
Hummels superiorizou-se a Varane e fez o primeiro e único golo da partida Fonte: FIFA
O jogo não mudou muito com o golo e manteve-se bastante equilibrado. A Alemanha e sobretudo Low souberam aprender com as dificuldades vividas com a Algéria e melhoraram nalguns aspectos em que tinham apresentado carências. A profundidade dos laterais foi melhorada com a passagem de Lahm para o corredor direito (saindo Mertesacker da equipa e passando Boateng para o meio) e o meio-campo também saiu reforçado com a entrada de Khedira que proporcionou a Kroos maior liberdade ofensiva que o craque alemão aproveitou da melhor forma. Já Didier Deschamps só conseguiu corrigir a apatia no momento sem bola da sua equipa ao intervalo, de onde os gauleses regressaram com uma outra atitude que proporcionou à Alemanha mais dificuldades. Matuidi soltou-se no meio e esse foi um pormenor importante no desenrolar do jogo. Valbuena, Griezmann e Benzema foram incomodando os defesas alemães mas, contra a corrente do jogo, até acabou por ser Schurlle (que entrou para o lugar de Klose) a ter a melhor oportunidade da segunda parte, mas desperdiçou-a com um remate frouxo. Do outro lado, ora Hummels – o melhor em campo, ora Neuer a negar o golo que forçaria o prolongamento.
No geral, uma vitória justa mas que também poderia ter sido perfeitamente um empate, face à reacção francesa no segundo tempo. A França sai da prova sem se poder queixar muito da sua prestação que acabou frente a uma das mais fortes candidatas ao título e a Alemanha segue para as meias mas sem deslumbrar. Brasil ou Colômbia estarão no seu caminho e, seja qual for, será um adversário bastante distinto do que foi a França.
A Figura
Hummels – Autor do golo alemão mas nem precisaria disso para ser apontado como o melhor em campo: autoritário desde o início ao fim, foi um autêntico pesadelo para Benzema nas várias vezes em que o francês parecia já ter conseguido desequilibrar. Até ao momento, candidato a melhor central do Mundial.
O Fora-de-Jogo
Pouco espectáculo – Não é justo exigir aos treinadores que sejam autores de um jogo desorganizado que favoreça os ataques em detrimento das defesas e, ainda mais, que satisfaça adeptos e não os próprios interesses. Mas não faltam na Europa exemplos de que é possível conjugar bom futebol com eficácia e, hoje, o encontro foi marcado por duas equipas com pragmatismo a mais… pelo menos para o que tem sido esta competição fantástica.
Escrevo com o coração, com a razão, com a incerteza. Mas, acima de tudo, com a revolta de ter de o fazer. E são muitas as perguntas. Porquê, Luis? Porquê tu e agora? Porquê pela terceira vez na carreira, em pleno Campeonato do Mundo, depois de uma época fantástica e a caminho de uma outra que tudo tinha para o ser novamente? E agora, o que se segue?
Visto que o espaço onde este texto possa vir a ser publicado é, em parte, destinado à opinião, seguirei esses contornos. E começo: do meu ponto de vista – assíduo seguidor do Liverpool Football Club e admirador confesso de Luis Suárez – é simples. Ficaria banido para sempre de praticar desporto profissional. Tal como teria ficado Pepe após o tão triste incidente frente ao Barcelona e muitos outros.
Se o Mundial de Futebol é já o assunto mais falado de sempre no Facebook – para que se perceba ainda melhor a dimensão da competição, o encontro dos USA frente a Portugal foi visto por mais norte-americanos do que, por vezes, determinados jogos da final da NBA –, o incidente que envolveu o uruguaio frente à Itália, mais particularmente com Giorgio Chiellini, não fica atrás.
Luís Suárez ganha, entenda-se, 200.000£ por semana. Duzentas mil libras por semana. Feitas as contas, são 10.400.000£ por ano, ou seja, ‘encaixa’ cerca de treze milhões de euros anuais. Com treze milhões de euros anuais (fora contratos publicitários) e todo o mediatismo de que é alvo, não pode, em momento algum, tentar morder um adversário. Mas fê-lo. Pela terceira vez na sua carreira e, agora, como jogador que mais golos marcou em todo o mundo numa temporada e… perante os olhos de todo o globo terreste.
Jogar futebol profissional exige a um atleta um determinado comportamento em campo. Jogar futebol profissional na liga mais mediática do mundo e numa selecção que participa no Campeonato Mundial de Futebol exige um comportamento ainda mais exemplar. Durante aqueles 90 minutos, nações juntam-se com os olhos postos em vinte e duas dessas pessoas. E durante os 90 minutos essas mesmas nações seguem, muitas vezes, o seu exemplo. Talvez não o devessem fazer, mas seguem. E Luís Suárez passou, pela terceira vez na sua carreira, a mensagem de que, quando os pés não são suficientes para se levar a melhor numa jogada, a boca (e os dentes) são apropriados para mostrar toda a insatisfação.
O valor está lá. É tão claro quanto a água e de discutível nada tem. Mas apenas o futebolístico. Quanto ao monetário, desceu de forma dramática após o incidente; o uruguaio perdeu mesmo o patrocínio da 888 Poker e a Adidas retirou todas as campanhas que tem com a imagem de Suárez. A mordidela não parece, no entanto, tirar o sono ao Barcelona, que se mostra interessado em adicionar o seu passe à mesma gaveta onde estão os de Messi e Neymar. E agora, o que se segue?
O ‘Maracanazo’ esteve a uma trave de ter um remake agora em Belo Horizonte. Enquanto o Brasil encravava e soluçava perante a estratégia arquitectada na careca de Sampaoli, a fortuna fez as vezes de Neymar e foi resolvendo os problemas ao ‘escrete’ – com um autogolo, esbarrando a bomba de Pinilla no último suspiro do prolongamento e salvando os corações brasileiros no penalty de Mena. A ‘Canarinha’ continua a mostrar mais qualidade individual do que colectiva e muitos mais passos de samba desarranjado do que futebol de candidato. Com outra clarividência (e Arturo Vidal) mas sempre nas asas de Alexis, o Chile poderia ter sido tão feliz quanto o seu futebol, pensado pelo discípulo de Bielsa, é rápido e louco – e fez por merecê-lo. A Nossa Senhora do Caravaggio escreveu mais uma página na íntima relação que mantém com Scolari mas, com este Brasil, a estrelinha dificilmente estará sempre do seu lado – e aí, ou surge futebol ou a sexta estrela no uniforme mais titulado do Mundo não passará de uma miragem em 2014.
Colômbia 2-0 Uruguai
Só pode ter sido capricho! Haveria o palco brasileiro de cruzar as duas formas mais bonitas de futebol da América do Sul dos últimos anos. E de servir de testemunho. Aquele ‘Uru’ que surpreendeu em 2010 e que apaixonou em 2011, na Copa América, vencendo-a, levado pela mão do gentleman Tabaréz e exponenciado pela magia de Forlán, pela feroz capacidade goleadora de Suarez, pelo improviso de Cavani e por uns quantos ‘pitbull’ atrás deste trio, caiu, rendido à nova coqueluche cafetera. Esta Colômbia é o projecto de futebol mais apaixonante da Copa e tem em James a estrela suprema, anjo com pés de veludo, impondo a si mesmo a herança de Falcão e o papel de guia de sonhos de uma nação inteira. No banco, o avô Mondragón beija Pekerman a cada momento de maior magia, a cada etapa de um percurso que tem laivos de um romance improvável – a Colômbia pode mesmo sonhar ser campeã do Mundo, mas já se habilitou a ser a campeã do mais importante título: a da nossa memória. Enquanto isso, foi um poema de golo e alegria, foi James em mais um dia.
Cavani e Forlán foram impotentes perante a força colombiana Fonte: Getty images
Holanda 2-1 México
A coerência poderá ser uma questão de contexto. Van Gaal passou toda uma carreira a pregar uma ideia de futebol, ensinando e enriquecendo os seus aprendizes, e agora, chegado ao maior palco, alterou tudo aquilo em que acreditava. A página inicial do bloco de notas que religiosamente o acompanha estará, por certo, a esta hora, ainda confusa por perceber que de si consta uma Laranja que dá hoje ao jogo um sumo com paladar bem diferente – (provavelmente) por não ter Strootman para a ‘Copa’, Louis, com grande astúcia, montou uma equipa em 5-3-2 que vive para dar bola aos dois motores da frente, Robben e Van Persie. Diante do México, porém, Van Gaal foi ao baú buscar as raízes do seu 4-3-3 e foi isso que lhe permitiu seguir em frente. Porque, mais do que coerência, é bom ter memória. Do outro lado, o verdadeiramente espectacular Miguel Herrera vai deixar saudades – liderado pelo seu guia espiritual, Rafa Marquez, este México deixou litros e litros de perfume de qualidade de jogo, mas, no momento decisivo, nem as dúzias de mãos que Ochoa tem lhe valeu. Porque a Herrera ainda falta, pelo menos, uma coisa: saber ser Van Gaal.
Costa Rica 1-1 Grécia
(5-3 após grandes penalidades)
A ironia do futebol nascerá sempre dos resultados. No encontro entre as duas maiores surpresas presentes nos Oitavos, nunca tal premissa esteve tão marcadamente presente. O Mundial até pode ser dos guarda-redes, mas há um nome que figurará a letras grandes e gordas: Keylor Navas. Mesmo que esta Costa Rica – e, sobretudo, Bryan Ruiz e Joel Campbell – nos faça sorrir, é o seu super keeper que nos deixa com um brilho nos olhos. A destreza, agilidade e qualidade de posicionamento faz todas as suas defesas parecerem irrisoriamente fáceis. Mesmo que argumentemos, interiormente, que não pode ser assim tão difícil – afinal, do outro lado está só a Grécia. Continuamos a olhar para estes gregos com o desdém que talvez eles mereçam e o desfecho do jogo, per si, amenizou os espíritos de quem se sentiu minimamente vingado – por uma vez, e na frieza da ironia, a Grécia perdeu da mesma forma como sempre ganhou.
Keylor Navas. Uma das figuras do Mundial’2014 Fonte: fansided.com
França 2-0 Nigéria
Desconheço as odds que apontavam para a vitória da França na Copa quando a selecção montada por Deschamps desembarcou no Brasil. Ao contrário de outros tempos, faltava a figura de proa (Ribery) e o malabarista (Nasri). Mas, na ignorância, haveríamos de encontrar nos ‘Bleus’ doses desmesuradas de fiabilidade na defesa, de intensidade no meio-campo e de versatilidade no último terço – e, com e por isso, uma das mais poderosas equipas. Diante da Nigéria, tiveram ainda a inteligência de especular com o jogo e de alimentar o que sempre atraiçoa as equipas africanas: as expectativas. Enyama foi o maior paradigma dos conjuntos que chegam da África (subsariana, sobretudo): brilham, encantam, conquistam-nos com a ingenuidade e velocidade do seu jogo e, quando já estamos enleados pelo seu futebol, atraiçoam-nos, desatando, qual jogador de ténis sub-100 em Roland Garros, a cometer erros não forçados. E, por isso, invariavelmente, perdem.
Alemanha 2-1 Argélia
(após prolongamento)
Por mais farta e aprazível que seja uma refeição, nunca é sensato dispensar uma sobremesa, ainda para mais quando ela tem todo o aspecto de prometer um conteúdo muito mais extraordinário do que a forma. O Alemanha-Argélia foi isto mesmo: o 0-0 no final dos 90 minutos não reflectia o jogo tão bem jogado e disputado quanto emocionante que foi e, por isso, o prolongamento era um guloso desejo de quem desejava um golo que fosse para ficar saciado por completo. A sobremesa era, no entanto, muito melhor do que aquilo que fora apresentado: Mbolhi voltou a ser humano e sofreu dois golos; a Argélia, no último assomo da crença com que o seu jogo sempre foi pautado ao longo do Mundial, marcou e transformou cãibras em esperança durante 30 segundos. Por certo que nem Low esperava sofrer tanto, nem Halilhodzic almejava fazer do conjunto argelino uma equipa no sentido mais puro e verdadeiro da palavra. Sem IVA e com poesia, o amante guloso agradece(u).
Diante da Alemanha, Mbolhi defendeu (quase) tudo Fonte: noticias.bol.uol.com.br
Argentina 1-0 Suíça
(após prolongamento)
Falar desta Argentina é debruçarmo-nos sobre a melhor matéria-prima nas mãos do pior artista. A albiceleste continua a ser uma equipa-montanha cujo ponto mais alto é o meio-campo, onde tudo se divide e separa: de um lado da colina os que só defendem; do outro lado, os que só atacam, vendo em Messi uma outra forma de ser Maradona. E em Dí Maria, Sísifo. No desenlace da gloriosa carreira de Hitzfeld, a esperança suíça vivia na ponta da chuteira de Shakiri e no espírito guerreiro de Rodriguez (talvez o melhor defesa esquerdo da Copa), atraiçoada, sobretudo, quando, embriagada pelos ‘olés’ que conseguiu despertar no público, se esqueceu da baliza de Romero. A Suíça teve oportunidade de ser feliz – não o foi, primeiro por incompetência, depois porque Scolari deixou que Sabella adoptasse Caravaggio por uma fracção de segundo. Como uma verdadeira pintura, o grande plano televisivo de Lavezzi a benzer-se resume tudo: era preciso Deus. E esse continua a jogar com o ‘10’ da Argentina, ao lado do feliz, por uma vez, Sísifo – e só estes dois alimentam o direito de esta ‘equipa’ se achar candidata.
Bélgica 2-1 EUA
(após prolongamento)
Honrando os seus maiores antepassados, os belgas entraram no jogo como uns verdadeiros Diabos Vermelhos. E foram batendo… Origi, Hazard, Mertens, De Bruyne, até Vertonghen, todos eles, fazendo muitos, pareciam sempre poucos para o que se estava a construir. Para os EUA, a baliza-alvo estava ainda muito longe: bem por detrás dos três metros de estilo capilar de Witsel ou Fellaini. Enquanto a Bélgica ia batendo, os novos heróis de Obama, pelo cérebro Bradley e pelas locomotivas Beasley e Yetlin, começavam a desbravar caminho (e cabelo) e a ver Cortouis, ainda que lá longe. A certa altura, com tanto ataque e contra-ataque, afigurou-se-nos como sendo um jogo da Copa de Futsal. E a Bélgica ia batendo e ia batendo e ia batendo. E Howard estava sempre lá! Desafiando o recorde de defesas num único jogo e, mais do que isso, a impossibilidade da omnipresença; só um monstro para o derrubar. Lukaku aceitou o repto e tratou de humanizar o colega do Everton e keeper americano. De repente, voltaram a saborear o sucesso dos anos 80 e a euforia descontraída tomou conta de cada uma das chuteiras dos comandados de Wilmots – a inesgotável alma dos EUA, porém, ainda acreditava e revigorou-se com o pequeno Green. Foi ele quem materializou o enorme espírito norte-americano em golo, dando (mais) justiça e justeza ao resultado. O resultado de um show – na verdade, de um (s)Howard.
Nós, latinos, herdámos o sangue quente da nossa ascendência. Alegramo-nos e revoltamo-nos com facilidade. Deixamo-nos engolir pela irracionalidade, pela paixão. Somos, sobretudo, dados a estados de alma.
O futebol propicia-os a cada remate que queima a relva antes de rasar o poste, a cada defesa impossível ou a cada corte milagroso sobre a linha de baliza. Não precisamos de ter sido educados a gostar de uma das equipas em jogo para vibrar com cada um destes momentos, porque até podemos escolher uma pela qual torcer no decurso do encontro. Acaba por ser indiferente porque queremos, sobretudo, sentir, criar empatias. Viver a emoção e a responsabilidade de quem lá está dentro e entrar em euforia ou revolta consoante aquilo que a partida nos trouxer.
Para nós, pessoas dadas a emoções, este Mundial tem sido absolutamente fantástico. Cada minuto de cada jogo parece trazer algo inesperado, imprevisível, como se o início de cada jogo oferecesse doses iguais de favoritismo para cada lado, independentemente das selecções em confronto.
Pudemos sentir isso em vários jogos da fase de grupos, começando na goleada da Holanda à campeã Espanha (1-5), passando pelas vitórias da Costa Rica ante Uruguai e Itália e pelo nulo imposto por Ochoa ao Brasil, e terminando no empate da Argélia ante a Rússia. Houve, obviamente, mais momentos emocionantes neste período da prova, mas estes são excelentes exemplos do quão fantástico tem sido este Mundial para nós, pessoas dadas a estados de alma.
O Alemanha-Argélia foi um dos jogos mais emocionantes deste Mundial Fonte: copadomundo.uol.com.br
Felizmente, a espectacularidade prolongou-se durante a fase a eliminar e, na primeira ronda, não faltou emoção a qualquer um dos oito encontros. O encontro mais previsível e condizente, no seu decurso, com aquilo que se previa que acontecesse terá sido o Colômbia – Uruguai, mas mesmo aí o espectáculo não desiludiu, com todas as diabruras que James e companhia proporcionaram ao público do novo Maracanã. Fora este, houve penalties em duas partidas (para além do Costa Rica – Grécia, o Brasil foi empurrado pelo Chile para essa “lotaria”, não se apurando por uma trave que ainda agora deve estar a tremer), grandes selecções (Holanda e França) com imensas dificuldades em levar de vencidos, nos 90 minutos, adversários cotados com poucas ou nenhumas chances de causar surpresa (México e Nigéria), e ainda três prolongamentos de encontros tanto imprevisíveis, como o Argentina-Suíça, como espectaculares, como foi o caso do Bélgica-EUA e do Alemanha-Argélia…
… sobretudo este. Foi o emanar de todas as emoções que nós, latinos, sentimos ao ver um jogo de futebol. Houve espectacularidade, momentos de quase-glória, solidariedade, garra, sacrifício, desespero e frustração. Mas só de um lado. O único com o qual nós nos poderíamos identificar. O habitual outsider por quem costumamos torcer e que trouxe a jogo toda a ingenuidade do futebol, aquela que se nota no futebol de qualquer rua ou complexo desportivo alugado entre amigos, fosse por miúdos ou por gente grande, cuja única preocupação é jogar, entregando-se com toda a alma ao desporto que amam, não ligando ao preço que terão de pagar… ou venham a receber.
A Argélia mostrou-nos o que é o futebol sem preço. Como nós, latinos, queremos que seja. Foi a “prenda” mais bonita que este Mundial, recheado delas, nos trouxe.
Está a decorrer mais uma edição do mítico torneio de Wimbledon. O tercerio Grand Slam da temporada e aquele que é para mim o torneio com mais classe do mundo, é também o mais pródigo em surpresa.
Isto porque não é só na relva dos campos de futebol que somos surpreendidos diariamente, agora ainda mais neste Mundial do Brasil. É também na relva do All England Club que diariamente somos surpreendidos com pontos, jogos e resultados que julgávamos impossíveis.
Falar de surpresa nesta edição de Wimbledon é falar de Nick Kyrgios. O australiano, de apenas 19 anos, derrotou nada mais nada menos que Rafael Nadal. O tradicional chegar, ver e vencer. Embora Milos Raonic tenha já tratado de mostrar que com ele não “se faz farinha” em relva, ao derrotá-lo em quatro sets, Kyrgios provou já ser a grande surpresa da edição deste ano.
O jovem australiano não teve medo de jogar contra o mais temível jogador do circuito. O braço não lhe pesou na hora de fazer o serviço de que precisava para conquistar os pontos de que precisava. É uma das mais surpreendentes vitórias, visto que Krygios ocupa ainda o 144º lugar do ranking ATP.
Australianos à parte, Grigor Dimitrov foi o autor de uma outra grande surpresa. A de derrotar o campeão em titulo e o tenista mais querido de Wimbledon, Andy Murray. Dimitrov venceu Murray em apenas três set’s para agora ter encontro marcado com Djokovic. Djokovic esse que se “viu grego” para vencer Marin Cilic em cinco sets.
Roger Federer e Novak Djokovic Fonte: Barclaysatpworldtourfinals.com
Na parte inferior do quadro, Roger Federer, o campeonissímo suíço, derrotou o seu compatriota e amigo Stanislas Wawrinka. Não foi um encontro fácil, frente a um Wawrinka que está numa forma brutal – e, diria eu, mais seguro até do que Federer – mas o veterano ex-nº1 garantiu, desta vez sem dificuldades de maior, a passagem às meias-finais da edição de 2014 deste torneio de Wimbledon.
Roger Federer irá então defrontar Milos Raonic, o canadiano que conseguiu a façanha de derrotar Nick Krygios, a grande surpresa desta edição e que por isso parte assim com menos peso em cima. Raonic já fez o que tinha a fazer neste torneio de Wimbledon, embora, claro, uma vitória sobre Federer que dê acesso á final eleve Milos Raonic para um nível absolutamente diferente.
Se tivesse de apostar, apostaria numa final Federer contra Djokovic. Mas, como li já nas redes sociais, só o facto de não termos os “big 4” nas meias-finais tornou já esta edição de Wimbledon mais interessante. E esta, goste-se ou não, é a magia da relva.
Soube-se ontem que o Sporting vai ocupar a vaga existente na Divisão de Honra deixada com a recusa do Caldas em subir, depois de se ter sagrado campeão da Primeira Divisão Nacional.
Esta foi uma decisão que, para mim – e para a maioria dos sportinguistas –, tem tanto de surpreendente como de incerta. Sé é certo que nós todos queremos ver o nosso clube na divisão máxima de qualquer modalidade, também é verdade que o queremos ver a vencer e a lutar por títulos, e o que se vai passar, caso não aconteçam mudanças muito grandes no plantel, é que vamos ter um Sporting que vai contar com derrotas em todos ou praticamente todos os jogos, sendo que em alguns a diferença talvez se situe em mais de 100 pontos.
Mas afinal o que fez o Sporting aceitar este convite? Segundo a Direção (recordar para os mais desatentos que a modalidade é autónoma, ou seja, não pertence mesmo ao clube), “a dimensão histórica do Sporting Clube de Portugal, o estatuto de fundador do rugby em Portugal, a responsabilidade de em qualquer modalidade ter de lutar para estar entre os melhores, pesou na decisão do clube.” Se não deixa de ser verdade que a importância e a dimensão de um clube como o Sporting, neste caso específico um dos fundadores da modalidade no país, são fatores de peso, a decisão não deixa de ser muito arriscada por estes fatores. Se recordarmos um caso recente e atual do Sporting vemos que o Hóquei em Patins (este ano regressa ao Sporting a nível sénior) teve um crescimento sustentado, começando na formação e indo crescendo com os seus jogadores. O basket leonino, que começou na mesma temporada que o rugby, também apresenta um plano semelhante ao do hóquei; começou com o escalão de minis em ambos os sexos e está a começar a crescer, com a criação do escalão de sub-14. Fora estes escalões, com a criação da modalidade apareceu uma equipa de sub-19 e sénior feminina. No rugby também se verifica este modelo, mas este passo pode ser uma machadada no seguimento deste rumo que vinha a ser acertado, pois o desenvolvimento e aceleramento vão ter de ser maiores do que o esperado.
O lema do clube é honrado em todos os jogos, mas será suficiente? Fonte: Blogue SPVN
Apesar disso, posso estar a ser injusto, pois até ao início da temporada podem aparecer reforços de peso que farão melhorar a equipa e com isso a sua qualidade. Para a melhoria da qualidade do plantel os patrocínios serão decisivos, e a criação do canal do Sporting poderá ser uma boa alavanca, já que os jogos em casa desta modalidade serão transmitidos no canal. Com isto, a visibilidade vai aumentar, proporcionando um maior retorno a quem patrocinar o clube. Mas com os dados atuais penso ser unânime para todos que este passo foi maior do que a perna, podendo prejudicar toda a secção.
Para já, a única coisa certa é que a equipa contará com o meu apoio e o de todos os sportinguistas em qualquer circunstância. O Estádio Universitário em Lisboa contará, como sempre, com boas molduras humanas no apoio ao Sporting e a quem o defende dentro de campo.
Na semana em que tem início o Tour não pode existir qualquer outro tema para este artigo que não sejam as expectativas para a prova deste ano. E há sempre tanto para dizer!
Antes de mais, falar do percurso. Na sua 101ª edição, a Volta à França começará em Inglaterra e por lá continuará até à quarta etapa, o que já não é uma novidade mas é uma mudança relativamente à última edição, que teve o seu início em Itália. Dar seguimento a uma edição nº100 (que tem por motivos óbvios um grande impacto mediático) nunca é fácil, mas olhando para o percurso deste ano verificam-se duas mudanças que tentam ser um corte evidente com o passado recente: o aumento para cinco chegadas em alto e, principalmente, a eliminação de dois dos três contra-relógios habituais. Nos últimos anos, a crítica mais repetida por todos tem sido a excessiva importância dos contra-relógios nas edições do Tour, que reduziam drasticamente o espetáculo na montanha (expoente máximo na edição de 2012, ganha por Bradley Wiggins) e nota-se na edição deste ano uma clara preocupação com essa questão. É eliminado o contra-relógio de equipas (que costuma ser presença habitual nas grandes provas) e um dos dois contra-relógios individuais. Esta é, de facto, a grande novidade da edição nº101: há uma aposta forte na importância da montanha para a classificação final em deterimento dos contra-relógios e isso faz-nos antecipar uma luta espectacular nas etapas mais duras, apesar de este ano não haver a mítica chegada ao Alpe-d’Huez, que é sempre algo a lamentar por todos os amantes da modalidade.
A festa habitual nas montanhas francesas Fonte: cyclingtips.com.au
Pensando agora nos atletas, destaca-se imediatamente outro factor a lamentar, precisamente por haver toda esta importância das montanhas: a ausência de Nairo Quintana, que é um dos melhores trepadores da actualidade e que nos daria certamente muito emoção nas montanhas. De qualquer maneira há muita qualidade no pelotão e teremos certamente um top 10 de luxo. Apesar de não querer focar-me demasiado em individualidades (para não correr o risco de ser injusto com ninguém) há alguns nomes que são incontornáveis e Chris Froome e Alberto Contador destacam-se claramente como os grandes favoritos à partida. No entanto, como se verificou no Critérium du Dauphiné, isso não é sinónimo de vitória para nenhum dos dois, pois num pelotão onde existem Nibali, Valverde, Talansky, Mollema, Van Den Broeck, Rui Costa, etc., qualquer descuido pode ser fatal. Prever quem vencerá a prova parece-me um exercício quase impossível, mas pode-se afirmar com toda a certeza que emoção não faltará. Uma última referência para Tiago Machado e José Mendes, que farão a sua estreia na mais ambicionada prova do circuito mundial de ciclismo.
Estamos apenas no princípio. Os meus próximos artigos serão dedicados a analisar cada semana da prova. O dia 5 de Julho está marcado no calendário há muito tempo. Está tudo pronto, está tudo ansioso, reservem os vossos lugares no sofá e não percam nenhum dos 3664 kms desta fantástica prova. O Tour vem aí e é já sábado!
Ao longo da história e das histórias deste fantástico desporto que é o futebol, são vários os capítulos dourados já escritos por jogadores lendários. Por isso, há momentos que os adeptos jamais esquecem, como as exibições assombrosas de Maradona, a fantasia de Pelé ou Eusébio e, claro, a magia de Messi ou da máquina de futebol chamada Cristiano Ronaldo. Não foi por acaso que mencionei estes nomes, caro leitor. É que, no fim de contas, dificilmente numa crónica como esta são deixadas muitas linhas para os protagonistas da retaguarda, para os artistas cuja presença é por vezes ignorada e cuja importância é por vezes esquecida. Isto porque excetuando casos raros, como os de Casillas, Buffon, Beckenbauer ou Maldini, os artistas do primeiro terço do terreno raramente são notícia e raramente são lembrados nas histórias dos grandes momentos de competições como um Campeonato do Mundo.
Não foi à toa que optei por recuar no tempo e colocar a fita um pouco atrás para começar por dar a minha opinião sobre o apuramento da Bélgica para os quartos-de-final do Campeonato do Mundo. E tudo porque, apesar da vitória dos Diabos Vermelhos esta noite na Arena Fonte Nova, em Salvador da Bahia, a grande figura da partida foi Tim Howard. Mas vamos por partes: Bélgica e Estados Unidos da América entravam em campo esta noite para dar o toque final nos oitavos-de-final e assim ganhar a oportunidade para defrontar no próximo sábado a seleção Argentina, que horas antes havia vencido a Suíça por 1-0. Nas equipas iniciais, Wilmots e Klinsmann optaram por não arriscar: na Bélgica, destaque para a titularidade de Origi no lugar de Romelu Lukaku, com Hazard e Mertens a explorarem o jogo pelas faixas; nos norte-americanos, o treinador alemão voltou a optar por entrar em campo sem um ponta-de lança-fixo, colocando Bedoya e Zusi no apoio ao falso avançado Clint Dempsey.
O veterano Tim Howard defendeu (quase) tudo! Fonte: Getty Images
Como já seria de esperar pelo desenho tático das duas seleções, a Bélgica tomou desde cedo conta das rédeas da partida. De facto, a promessa de resolver cedo a eliminatória por pouco não se revelou uma certeza logo no primeiro minuto do encontro, quando Divock Origi, após ser lançado em velocidade, viu Tim Howard brilhar pela primeira vez na partida ao negar-lhe o golo com o pé direito. O lance do avançado belga acabou mesmo por lançar a geração de ouro belga para uma exibição dominadora perante uma equipa norte americana que nunca abdicou de uma estratégia de maior expetativa e uma aposta efetiva no contra-ataque. Do outro lado, começavam a acumular-se as oportunidades desperdiçadas pelos belgas, com Kevin de Bruyne e Vertonghen a estarem perto de inaugurar o marcador. Ainda assim, no final da primeira parte, ficava a sensação de que os norte-americanos estavam a controlar a partida, pois apesar de não criarem perigo para a defesa belga, os EUA iam gerindo os pontos fortes do adversário, em especial o jogo pelos flancos, bem como os vários momentos do jogo.
No segundo tempo, a Bélgica entrou com disposição diferente na Arena Fonte Nova: com um ritmo muito mais forte e intenso, os Diabos Vermelhos foram sufocando, no primeiro quarto de hora da segunda parte, a equipa norte americana. Com Witsel e De Bruyne a incorporarem-se cada vez mais no jogo ofensivo da equipa, os alas Hazard e Mertens iam lançando o pânico na defesa americana. Não foi por isso de estranhar os inúmeros lances de perigo criados junto à área americana, mas Tim Howard revelou-se sempre uma barreira intransponível perante o forte caudal ofensivo belga. A bola à barra de Origi aos 61 minutos foi apenas o lance principal de um conjunto enorme de oportunidades belgas, perdidas por Mirallas, De Bruyne, Hazard e companhia, que viram apenas Howard como um autêntico muro que ia impedindo o golo mais do que merecido da Bélgica à medida que o tempo passava.
Pelo contrário, só em raríssimas ocasiões é que os comandados de Klinsmann chegaram com perigo à área de Thibaut Courtois. Ainda assim, a “injustiça” (se é que isso existe no futebol) podia ter acontecido bem perto do final da partida, quando, aos 92 minutos, Wondolowski teve o golo nos pés e acabou por não conseguir dar uma vitória histórica aos EUA. Contudo, e apesar do domínio belga, a enormíssima exibição de Tim Howard fez com que os jogadores de Wilmots acabassem por não chegar ao golo durante o tempo regulamentar, levando assim mais um jogo para o prolongamento. E, olhando para o que foi esse tempo suplementar, os adeptos do futebol devem estar agradecidos por a decisão ter sido levada até praticamente às últimas consequências.
Logo no início do prolongamento, a barreira que Howard ergueu ao longo da partida acabou por ceder com o golo de Kevin de Bruyne aos 93 minutos, num lance em que Lukaku, que entrou no início do prolongamento, correu vários metros para assistir o médio belga, que rematou cruzado e não deu hipóteses ao guarda-redes americano. O golo belga foi um forte golpe nas aspirações norte-americanas e acabou por ser a Bélgica a estar novamente mais perto de alcançar o segundo golo, em duas oportunidades desperdiçadas por Lukaku e Mirallas, que novamente tiveram Tim Howard como opositor. Ainda assim, a Bélgica acabou mesmo por chegar ao segundo golo, quando, aos 105 os papéis se inverteram e foi a vez de Bruyne assistir o avançado belga para o 2-0.
Lukaku e De Bruyne, a sociedade perfeita – um golo e uma assistência para cada um Fonte: Getty Images
Ao contrário do que se poderia esperar, a desvantagem de dois golos não levou a equipa de Klinsmann a deitar a toalha ao chão. Com o golo de Green aos 107 minutos, os norte-americanos voltaram à discussão de uma partida onde, fruto do desgaste físico das duas seleções, o espaço para ambas a criação perigo foi por demais evidente. Por isso, o resultado manteve-se num impasse até ao final da partida, com Lukaku e Dempsey a desperdiçarem excelentes chances para marcar. Apesar das últimas tentativas dos americanos, os belgas acabaram por manter a vantagem e assim conseguiram um apuramento justo e histórico para os quartos-de-final do Campeonato do Mundo.
Numa das melhores partidas do Mundial até ao momento, a Bélgica acabou por merecer uma vitória que apenas pecou por escassa. E isto porque do outro lado encontrou um super-herói na noite de Salvador da Bahia: Tim Howard. Não levou a vitória para casa mas, no fim de contas, foi a figura da partida. O problema é que há sonhos que nem os super-heróis conseguem parar. E hoje a Bélgica mereceu que o sonho se tenha concretizado.
A Figura
Tim Howard – Há poucas palavras para descrever uma das exibições mais memoráveis de um guarda-redes no Mundial. Parou quase tudo mas não evitou a derrota dos EUA e o fim do sonho dos americanos no Brasil.
O Fora-de-Jogo
Dempsey – A principal figura da equipa norte americana passou ao lado dos oitavos-de-final. A estratégia defensiva de Klinsmann não o favoreceu, mas ainda assim esperava-se mais da principal estrela da equipa dos Estados Unidos da América.