Recordar é Viver | Luís Figo: O Príncipe Génio que fintava com o corpo

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O futebol é protagonizado por craques e as memórias que ficam são muito constituídas pelas lembranças que os mesmos deixam. A memória e as lembranças dos craques que outrora vimos são fundamentais para um dia os recordar devidamente. E este é sem dúvida um dos melhores que as quatro linhas de um campo algum dia teve o privilégio de ver atuar. No verão de 2026 fez 20 anos que alguém absolutamente lendário no futebol português e mundial deixou de representar a seleção nacional. Fê-lo pela última vez no Campeonato do Mundo de 2006 na Alemanha, ajudando a equipa orientada por Luiz Felipe Scolari a chegar ao pódio das quatro melhores seleções. Trata-se de Luís Figo.

Um jogador absolutamente singular na história do futebol português e internacional, pelo seu percurso, pela sua genialidade com a bola nos pés, momentos individuais e coletivos inesquecíveis e pelo seu tipo de liderança. Uma liderança serena e com base no respeito para com os adversários e vice-versa. A sua carreira brilhante dentro do campo, foi também marcada por algumas polémicas. Nunca com base no seu temperamento, visto ter tido sempre um perfil discreto, reservado e tendo sido um líder dentro e fora do campo. Mas com base nas decisões tomadas e na gestão da carreira. 

O percurso do jovem Luís Figo começou num pequeno clube na Cova da Piedade, os Pastilhas. Um clube que ficou sempre consigo e lhe deu uma alcunha para o resto da carreira. Aos 12 anos começou a jogar no clube da margem sul e manteve-se no mesmo até 1984/85. Nessa altura, os Pastilhas enfrentaram graves problemas e tomaram a decisão de terminar com o futebol. Luís Figo teve de arranjar outra solução para continuar a perseguir o sonho de um dia ser profissional de futebol.

Tentou a sua sorte no Benfica que era o seu clube, tal como o do seu pai. No entanto, o jovem Luís era franzino, magrinho e com as suas fragilidades, apesar do seu enorme talento com a bola. A formação benfiquista tinha imensos pretendentes a querer integrá-la e outros com um perfil mais forte chamariam mais a atenção do que o menino franzino da margem sul.

Descontente e influenciado pelos amigos mais próximos, Figo tentou aquele que seria o seu clube para sempre e a sua sorte foi diferente. O Sporting Clube de Portugal.  Acabou por ir para Alvalade nesse ano, onde realizou todos os escalões jovens até chegar à equipa principal em 1990 pela mão de Raúl Águas. Apesar de ter demorado a ganhar o seu lugar com o técnico seguinte (Marinho Peres, com o qual não jogou um minuto em 1990/91), acabou por o conseguir e era visto como um jovem talento com grande futuro. Mas ainda antes, tinha chegado a primeira polémica da carreira.

Ainda no final do seu período de formação, quando estava a representar a seleção sub-16 no Euro dinamarquês, a imprensa desportiva dedicava-lhe os primeiros textos pelo seu talento…, mas não só. Não recebendo o seu rendimento financeiro em Alvalade há bastantes meses, Figo assinou um contrato por três anos com o Benfica. Esta polémica estalou precisamente na véspera de Portugal (orientado por Carlos Queirós) vencer a RFA por 4-1 e se sagrar campeão da Europa de juvenis, num jogo em que Figo fez um golo e foi o centro de muitas atenções.

Luís Figo
Fonte: Mário Pinto/Bola na Rede

Fruto do bom desempenho, essa seleção portuguesa teve acesso ao Mundial do mesmo escalão um mês depois. Numa competição em que Portugal foi eliminado nas meias-finais contra a Escócia (país organizador) por 0-1, foi durante o mesmo período que se continuou a falar da mudança de Figo para a Luz. Mas o Sporting pagou as dívidas (iniciativa do presidente Sousa Cintra que não queria ver Figo fugir para a Luz), tudo ficou sem efeito (a sua assinatura era inválida por ser menor de idade) e o jovem permaneceu em Alvalade. Contudo, o jovem a brilhar pela seleção não se livrou de uma suspensão 45 dias, por ter assinado dois contratos. Essa suspensão deliberada pela Federação Portuguesa de Futebol acabou por não prejudicar Figo, visto que estava a representar a equipa nacional e esses 45 dias não se transmitiram no dia-a-dia do Sporting.  

Evoluiu tática e tecnicamente e ganhou mais protagonismo com a chegada de Bobby Robson (1992/93) ao comando técnico leonino, consolidando-os depois durante o tempo de Carlos Queirós como treinador do Sporting (1994/95). Queirós e Figo já se conheciam bem desde os tempos das seleções nacionais. Entre os consulados de Robson e Queirós em Alvalade, Luís Figo realizou 117 jogos, fez 22 golos e realizou 14 assistências. Um rendimento muito interessante numa equipa onde também brilharam no mesmo período jogadores como Balakov, Iordanov, Jorge Cadete, Capucho, Paulo Sousa, Juskowiak, Stan Valckx, Peixe, Vujacic ou Amunike. Ainda hoje recordada pelos sportinguistas como das equipas mais prestigiantes que viram.  Ajudou a vencer a Taça de Portugal em 1995, frente ao CS Marítimo por 2-0 no Jamor. Nos anos de leão ao peito, Luís Figo chamou à atenção o mundo do futebol, com a sua habilidade, rapidez e qualidade individual e coletiva. Depois de uma década em Alvalade e seis anos depois da primeira polémica, veio uma outra semelhante, mas com contornos maiores.

Perto da saída de Alvalade em 1995, num processo em que o Sporting deixou para muito tarde a sua renovação de contrato (que se concretizando levaria a que saísse do clube por valores maiores), as propostas do estrangeiro anteciparam-se e o então jogador sportinguista que tinha uma carreira internacional à sua espera, sairia a custo zero. No entanto, a primeira proposta veio de Itália. O Parma adquiriu os seus serviços num contrato relevante e após duras negociações com o empresário do jogador (José Veiga). Acontece que pela mesma altura, Figo assinava um outro contrato com a Juventus, que alegadamente acreditava ser apenas um pré-acordo. Uma situação muito ferida do ponto de vista legal.

Ao descobrir a situação, a Federação Italiana de Futebol castigou Figo por ter assinado dois contratos, Parma e Juventus abandonaram o interesse pelo jogador e o mesmo foi impedido de jogar em Itália por dois anos. Surgia depois o interesse do Barcelona, que acabaria por ser a sua nova etapa da carreira. Contudo, Luís Figo só conseguiria ir para Camp Nou depois do Barça pagar 500 mil contos (2,5 milhões de euros atualmente) para desbloquear a situação envolvendo os pré-contratos e os direitos de formação. 

O então médio formado no Sporting e depois de brilhar em Alvalade, chegou a Barcelona numa época de transição. Na época anterior, a prestação da equipa blaugrana foi má (quarto classificado) e tinham saído quase todas as estrelas do plantel em rota de colisão com o treinador Johan Cruyff. Ronald Koeman, Romário, Stoitchkov, Txiki Begiristáin saíram da Catalunha em 1995 e a equipa ficara muito desfalcada no campo da qualidade individual. O jogador português foi uma das escolhas do técnico holandês para renovar a equipa e foi um dos três jogadores mais utilizados na época de estreia (a par de Sergi Barjuán e Carles Busquets).

Originalmente um médio ofensivo, Cruyff torna-o um extremo aproveitando ao máximo a sua habilidade e criatividade para o lado direito do ataque, fazendo uma ligação do espaço entre a ala e o espaço entre linhas. Durante a época 1996/97, reencontrou Bobby Robson como treinador numa época em que se tornou um dos titulares indiscutíveis num conjunto recheado de qualidade (Ronaldo Nazário, Stoichkov, Luis Enrique, Giovanni, Laurent Blanc, Popescu, Fernando Couto, Pep Guardiola ou Pizzi) e venceu quase tudo (Taça das Taças, Supertaça Espanhola e Taça do Rei, numa final em que fez dois golos).

Foi durante este período e depois na era de Louis van Gaal como técnico (1997-2000) que Figo ganhando um estatuto de ídolo para os adeptos blaugrana, um dos capitães (juntamente com Pep Guardiola, Sergi Barjuán, Abelardo Fernández e Luis Enrique) e foi-se tornando num dos melhores jogadores do mundo.  Com a camisola blaugrana, Luís Figo fez 249 jogos em cinco épocas, marcou 45 golos e realizou 87 assistências. Coletivamente, venceu duas Ligas Espanholas, duas Taças do Rei, uma Supertaça Espanhola, uma Taça das Taças e uma Supertaça Europeia. Até que no ano 2000, vem a grande e complexa polémica da carreira, recentemente recordada no documentário da Netflix “El Caso Figo: El fichaje del siglo”.

Jogando desde 1995/96 no Barcelona, Luís Figo era a estrela da equipa, um dos mais amados pelos adeptos e um dos capitães de equipa. Contudo, o jogador considerava que não era valorizado em termos financeiros pela direção do clube. O craque português tinha valores salariais mais baixos que Rivaldo e Kluivert no mesmo clube e do que jogadores como Zidane (Juventus), Del Piero (Juventus) ou Ronaldo Nazario (Inter). O então presidente, Josep Lluis Nuñez estava de saída após 22 anos de reinado à frente dos catalães e considerava Figo inegociável, apesar de não querer renovar com o jogador para valores mais atualizados na época. Haveria eleições no Barça e o favorito a vencê-las era Joan Gaspart, então vice-presidente que também não pretendia renovar o contrato de ninguém durante o período eleitoral. Quando se falava no nome de Figo e da sua hipotética renovação, os outros candidatos também evitavam falar visto não terem (ainda) poder para resolver a situação.

Ao mesmo tempo, havia eleições no Real Madrid e Lorenzo Sainz (então presidente dos madridistas) era o favorito a vencê-las. Tendo o Real vencido duas UEFA Champions League nos três anos anteriores, à partida não haveria razões para bater Sainz no ato eleitoral. No entanto, Florentino Pérez (então desconhecido empresário) arrisca e avança com uma candidatura e garante desde o início que se for eleito traria para o Bernabéu… Luís Figo. No entanto, o jogador português queria permanecer em Barcelona, mas sentindo que o clube catalão não se estava a mostrar interessado em melhorar o seu contrato, as conversas com Madrid ficaram de porta aberta.

Se no início parecia algo artificial, com o tempo e com Florentino a nunca recuar nesta promessa, a ideia de Figo vir para Madrid acabou por ajudar muito a vitória do empresário no ato eleitoral contra Sainz. Ainda no começo da campanha eleitoral, Florentino Pérez terá manifestado a vontade de contratar o jogador português ao eterno rival junto de José Veiga (empresário de Figo). Alegadamente, assinaram um pré-contrato a garantir que Luís Figo iria para o Real Madrid caso Florentino fosse eleito e qualquer renúncia ao mesmo, o português teria de pagar cinco mil milhões de pesetas (30 milhões de euros hoje) ao clube madrileno. Esse valor que iria servir para pagar uma promessa de Florentino aos sócios merengues: se Figo não viesse para a equipa, o novo presidente pagaria todas as cotas dos sócios durante a época.

Existindo ainda hoje dúvidas se tudo terá sido assim ou não (Figo alega nunca ter visto esse pré-contrato nem ter dado permissão a José Veiga para o assinar, versão desmentida pelo ex-empresário), a verdade é que Figo assinou pelo clube madrileno ainda durante o período de férias após o Euro 2000 (onde brilhou e foi dos melhores jogadores do torneio). No Barcelona, Joan Gaspart foi eleito dias depois e alega ter recebido uma chamada de Figo a sugerir que pagasse os cinco mil milhões de pesetas para resgatar o jogador português para o Barça, caso contrário iria para Madrid. Gaspart considerou tal impossível no momento e mais nada fez. Uma versão que é desmentida por Figo.  

Após um verão bastante intenso em toda a linha, Luís Figo trocaria o Barça pelo Real Madrid, naquela que é considerada uma das mais (senão a mais) polémicas transferências da história do futebol. À época foi a transferência mais cara até ao momento, 62 milhões de euros foi quanto custou a promessa de Florentino Pérez enquanto candidato à presidência do Real Madrid. Um valor que só seria ultrapassado um ano mais tarde, com a aquisição de Zinédine Zidane por 75 milhões de euros, também pelo Real Madrid.

Apenas três meses depois da mudança, o jogador português voltaria à Catalunha. Havia um Barcelona x Real Madrid e era a primeira vez que voltava à antiga casa depois da mudança polémica. O ambiente foi dos mais pesados e tensos até hoje vistos, com quase 100 mil pessoas a assobiar e a gritar contra Figo. O jogador português era capitão do Barça e os sócios e adeptos do Barça lembram que no verão anterior, ainda antes da mudança, Figo deu uma entrevista ao jornal Sport a dizer que ficar no Barcelona era “uma decisão irrevogável” e dizia “não ao Real Madrid, quer Florentino ganhe ou perca”.

Com toda esta sequência de acontecimentos, Luís Figo passou de ídolo a traidor na cidade Condal. Durante esses 90 minutos (o Barça venceu o Real por 2-0, golos de Luis Enrique e Simão Sabrosa), Figo entrou no estádio com um numeroso conjunto de seguranças, foi assobiado sempre que tocava na bola e choviam todo o tipo de objetos (moedas, isqueiros ou garrafas de vidro) sempre que se aproximava da linha lateral. Uma situação que se repetiu mais tarde em 2002, quando choveu uma cabeça de leitão quando o português ia marcar um pontapé de canto. 

Foi já no Real Madrid que Figo recebe a Bola de Ouro 2000 (com a concorrência de Zidane e Andriy Shevchenko), embora ainda referente ao trabalho desenvolvido em 1999/00 ao serviço do Barcelona. No ano seguinte, foi coroado o melhor jogador do Mundo (superiorizando-se a David Beckham e Raul González) após uma primeira época excelente ao serviço do Real Madrid em que foi campeão espanhol.

Em 2002, no ano em que vence a UEFA Champions League, sofre uma lesão (rotura parcial de ligamentos no tornozelo direito) num encontro da competição europeia frente ao FC Porto e que acabou por condicionar o craque português para o resto da época, nomeadamente a sua participação no Mundial 2002 com a seleção portuguesa. Um Campeonato do Mundo de má memória para os portugueses (eliminação na fase grupos) e em que Figo estava em má forma. Embora se recuperasse desta lesão com sucesso, a mesma juntamente com a sua idade na época (30), a pouco e pouco foi marcando a fase descendente da carreira. Contudo, o rendimento do extremo português foi sendo sempre muito positivo.

Se no Barça, Figo estava algo condicionado pelo estilo de jogo da equipa muito próprio (posse, espaços curtos e mais coletividade), em Madrid jogava num patamar diferente baseado na individualidade, liberdade e soltura. Com o emblema do Real ao peito, Figo fez 245 em cinco épocas, fez 57 golos e assistiu por 85 assistências. Não sendo por vezes lembrado como não sendo uma figura de primeira linha da história do clube madrileno, em todo o seu período no Santiago Bernabéu, o craque português fez mais jogos e participou em mais golos (142) do que qualquer um dos outros galácticos em igual período (106 de Zinédine Zidane, 129 de Ronaldo Nazário e 63 de David Beckham). Em termos coletivos, Figo venceu duas Ligas Espanholas, duas Supertaças Espanholas, uma Liga dos Campeões, uma Supertaça Europeia e uma Taça Intercontinental.

Começou a perder espaço na equipa madridista com a chegada de Vanderlei Luxemburgo ao comando da equipa. A época 2004/05 acabou por ser a menos produtiva e de menor utilização para o jogador português (43 jogos, sete golos e dez assistências). A relação com o técnico brasileiro foi extremamente negativa, ao ponto de Figo o classificar como “o pior treinador” com quem trabalhou em toda a sua carreira.

Após cinco anos na capital espanhola e uma década em Espanha, Figo mudou de ares e escolheu Itália, para representar o Inter. Naquela que seria a última viagem a representar um clube, Figo fez 140 jogos em Milão, marcou 11 golos e realizou 34 assistências. Tendo uma participação ativa num grupo de jogadores muito experiente e com muita qualidade individual (Toldo, Córdoba, Materazzi, Zanetti, Júlio César, Cruz, Ibrahimovic, Recoba, Stankovic, Samuel, Maicon, Fábio Grosso, Patrick Vieira, Cambiasso, Adriano, Hernan Crespo ou Solari), Figo venceu quatro Ligas Italianas, uma Taça de Itália e três Supertaças Italianas.

Esteve para se retirar no fim de 2007/08, fruto da sua idade (35) e do seu desgaste físico, mas também pela relação negativa com o treinador do Inter de então, Roberto Mancini. Acontece que o técnico italiano sai no final da época e entra José Mourinho, um velho conhecido de Figo (trabalharam juntos no Sporting e no Barcelona, quando Mourinho fora adjunto de Bobby Robson) e um dos melhores treinadores do mundo de então. Com tal mudança, Figo acaba por jogar mais uma época e retira-se no fim de 2008/09, durante o jogo da última jornada frente à Atalanta. Aos 44 minutos, Figo é substituído e é aplaudido por uma plateia constituída por mais de 69 mil espetadores. Foi a última vez que um dos melhores da sua época pisou um campo de futebol como profissional.

Contudo, há uma camisola que assentou de forma particular no “pastilhas”, aquela que tem cinco quinas encostadas ao peito. Um percurso que terminou em 2006 no Mundial da Alemanha. Aos 33 anos e já sem a frescura física de anos antes, participou ativamente em três golos de Portugal. Assistiu Pauleta para o 1-0 (que fez o resultado) frente a Angola, deixou Deco em boa posição para o médio luso-brasileiro fazer o primeiro golo contra o Irão e saltou do banco aos 77 minutos, naquele que seria o seu último jogo com as cinco quinas ao peito para colocar a bola na cabeça de Nuno Gomes que faria o golo português frente à seleção anfitriã que já vencia por 0-3.

A derrota frente à Alemanha (1-3) em Estugarda, punha fim ao percurso de Figo com a seleção nacional, sendo nessa altura de forma inequívoca o jogador mais internacional de sempre com 127 jogos por Portugal. Um recorde que tinha sido batido cerca de um ano antes quando ultrapassou Fernando Couto (110 internacionalizações) e mais tarde batido por Cristiano Ronaldo em 2016, precisamente no Campeonato da Europa francês que Portugal venceria (1-0 aos gauleses com o mítico golo de Éder).

No campo dos golos, Figo fez 32 e só três compatriotas fizeram mais que o craque oriundo da margem sul: Cristiano Ronaldo (146 até ao momento), Pauleta (47 golos) e Eusébio (41 golos). No campo das assistências, também só CR7 bate Luís Figo. Pela seleção A, Figo tem 40 passes para golos dos companheiros de equipa e fruto da longevidade, apenas Cristiano Ronaldo já superou esse número. Só este histórico de números individuais mostra o quão lendário Luís Figo foi para o futebol português através da equipa nacional.

Do ponto de vista coletivo, participou em cinco fases finais (Euro 1996, 2000 e 2004 e Mundiais 2002 e 2006). Um histórico que teve início em 1991 (estreia num empate a uma bola contra o Luxemburgo) pela seleção A, mas já existia nos escalões mais jovens. Fazendo parte daquela que foi considerada “a geração de ouro” do futebol português (juntamente com Rui Costa, João Vieira Pinto e Jorge Costa entre os principais elementos), venceu nos escalões mais jovens o Euro 1989 (sub-16) e o Mundial 1991 (sub-20 disputado em Portugal e vencido no Estádio da Luz). 

Um craque com letras grandes, duas palavras sempre caracterizaram Figo dentro das quatro linhas: habilidade e classe. Nunca tendo sido dos jogadores mais rápidos do mundo, era um jogador rápido a pensar e a executar o que pretendia. Tanto assim era que muitas vezes os adversários não tinham muitas hipóteses de o travar. Recentemente no documentário sobre o craque português “El Caso Figo: El fichaje del siglo “, Roberto Carlos chega a dizer que “jogar contra Luís Figo não foi uma experiência, foi sofrimento”.

Com uma técnica invejável, era extremamente difícil tirar a bola dos pés de Figo, parecendo sempre que tinha um íman nas botas. No um contra um era praticamente imbatível, não com excentricidade, mas com toque leve que fazia logo a diferença. Figo fintava de forma curta, mas muito eficaz tirando adversários do caminho. Por vezes, nem tocava na bola e apenas usava o corpo para enganar os adversários, um movimento que se tornou numa imagem de marca para quem assistiu às suas performances.

Tendo tido experiências longas tanto em equipas com muita posse de bola com iniciativa, como em equipas mais fortes em transições e contra-ataque, Figo era também fortíssimo na qualidade de passe, tanto curto como longo e em profundidade para deixar um colega em melhor posição de concretizar. Era sempre um dos batedores, por vezes o principal batedor das bolas paradas da sua equipa. Cruzava muito bem e na hora de armar o pontapé, era um jogador completo.

Embora não tenha marcado golos em grande número, sabia marcá-los tanto com remates em força como em efeito. Os golos de Figo existem para todos os gostos. Além de toda a sua habilidade que o fazia craque de qualquer equipa por onde passasse, existiu também outro aspeto que fez de Figo um jogador particular para qualquer treinador que naturalmente só a idade o condenaria: a energia. O craque português tinha um pulmão inesgotável e uma capacidade física que se foi tornando cada vez mais evidente depois do arranque da carreira em Alvalade. Ao ponto de não ter tido lesões graves durante os períodos de Sporting, Barcelona e Real Madrid.

Ainda que não muito lembrado em comparação com outros nomes, todos estes aspetos fazem de Luís Figo um dos jogadores mais completos da história, mais universais e um dos quais se pode dizer que “não sabia jogar mal”. Em toda a linha, um dos diamantes do futebol português e um dos imortais do futebol global. Eterno, este Príncipe Génio que fintava com o corpo.

Jorge Afonso
Jorge Afonso
O Jorge apaixonou-se pelo futebol num dérbi em Alvalade e nunca mais largou. Licenciado em Comunicação Social e mestre em Ciência Política, vive entre estatísticas, memórias épicas e o encanto de equipas como o Barça de Guardiola ou a França de Zidane.

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