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Regresso a Casa: A Liga dos Campeões e os 3 jogos de Messi em Lisboa

Francisco Correia · 10 min

Foto: UEFA

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O Regresso a Casa é uma rubrica na qual os antigos redatores voltam a um lugar que bem conhecem e recordam os seus tempos remotos, escrevendo sobre assuntos actuais.

O amante de futebol vive um desafio: ver a maior quantidade de (bons) jogos, mesmo que nos últimos tempos ande a maior parte do seu tempo entre as divisões da sua casa, e que essas partidas sejam disputadas sem adeptos nas bancadas. Há quem siga esses encontros, mas há quem não tenha interesse em vê-los por considerar esta época perdida, devido à grande paragem provocada pela pandemia. Para este primeiro grupo de pessoas – para o qual eu sou suspeito – pergunto: quanta concentração precisamos para ver este futebol? É assim que devemos consumi-lo por tempo indeterminado?

O futebol à porta fechada não me encanta, porque não acredito ser necessária tanta concentração para desfrutarmos do jogo. O que está à volta deste desporto, como factor de união e auto-conhecimento, também nos cativa. Mas terá de ser desta forma que iremos ver campeonatos a serem decididos e a festa nas ruas não poderá ser feita – o que irá acontecer com a Liga dos Campeões, em Lisboa, tão perto de muitos que nos lêem.

A confirmação da vinda da maior competição do futebol Europeu nunca deixará de ser uma boa notícia para o país, mas a recepção e abordagem política ao evento não foi de todo a melhor. O Primeiro-Ministro, António Costa, exaltou que a realização da Liga dos Campeões em Lisboa era “uma vitória dos portugueses”, nomeadamente dos “profissionais de saúde”, que continuam a travar o crescimento de casos de covid-19.

A classe política governante, no seu inconsciente, à procura de se afirmar no poder no futuro, não se conseguiu conter com os frutos que a “Champions” pode trazer à economia nacional. Por breves momentos, reparámos num esquecimento do número crescente de casos na capital, arredores e infelizmente, outra vez, em outros pontos do país – não é exequível, neste panorama, supor que esta fase final da Liga dos Campeões seja feita com adeptos nos estádios. E assusta ainda mais o presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, afirmar tranquilamente que não existe um plano B, caso nada possa acontecer na capital portuguesa.

Toda a conjuntura em Lisboa preocupa, é vista atentamente lá fora e haverá certamente uma enorme pressão no universo político (talvez vergonha) em não voltar atrás, a uma situação próxima de confinamento. É necessário fortificar dois substantivos: lei e ordem, especialmente nesta altura de Verão, onde cresce a tentação de voltar a fazer uma vida normal e surgem problemas sazonais como os incêndios e a necessidade súbita das forças de socorro. O combate ainda não está ultrapassado, o “milagre português” não existiu – felizmente, a evolução da pandemia travou muito devido ao nosso forte confinamento – e é impensável estar ao sabor do número de casos, que nunca param de aumentar a cada dia que passa.

Portugal destacou-se pela organização de eventos desportivos como a final da Liga dos Campeões de 2014, a Liga das Nações de 2019 e ainda o Euro 2004, que tanta saudade nos deixa, vamos querer ser nós próprios a deitar todo esse trabalho e poder? Foi “prometida” uma final europeia na cidade do Porto até 2026, e no ano passado foi levantado um véu para uma eventual realização de um Campeonato do Mundo inédito e intercontinental com Espanha, e, quem sabe, Marrocos. Muito desse trabalho vai sendo feito e começa agora a ganhar novas proporções, especialmente na imagem de Portugal no universo futebolístico (melhorar a qualidade do seu campeonato e não apenas exportar o “seu produto para fora”) e em toda a sociedade que precisa de mais apoio e união do que nunca. O mesmo se aplica aos nossos festivais de música, à “gigante” WebSummit e outros grandes eventos pelo país – vamos mesmo querer perder isso tudo? Que esta Liga dos Campeões também trate de coroar a atitude da população portuguesa, que ainda precisa de se consciencializar sobre o tempo que vivemos.

Voltando ao futebol, muitos dos adeptos, tal como muitos que escrevem e lêem o Bola na Rede, tiveram outro desafio: o de se refugiarem na substância do jogo. Provavelmente nunca assistimos a tanto debate de ideias, como no BnR TV, ao acesso aos protagonistas de todas as idades e muitos conteúdos de recordação. Houve tempo para olhar para trás e aprender. Por isso, agora “regressei a casa”, a pensar no futuro, porque queremos voltar a ver bom futebol, queremos comunicá-lo ao maior número de pessoas possível, recuperar hábitos de trabalho, a nossa sanidade até, e saber que, mesmo à distância, vem aí Messi (e tantos outros craques) e a Liga dos Campeões a Lisboa. Foram em apenas três ocasiões que o astro argentino marcou presença nos relvados da nossa capital e vamos aqui relembrá-los.

1.

Fonte: André Maia / Bola na Rede

Sporting CP 2-5 FC Barcelona, 26 de Novembro de 2008– A estreia de Messi em Lisboa viria assim a ser no Estádio José Alvalade XXI, um dos primeiros palcos da Europa de futebol que conheceu o Barcelona de Pep Guardiola, que estava a cumprir os primeiros meses como treinador da equipa principal. Era a fase de grupos da Liga dos Campeões 2008/2009.

Depois de uma derrota por 3-1 em Camp Nou, o Sporting CP, orientado por Paulo Bento, voltou a perder para o FC Barcelona, mas quem estava em Alvalade viu Lionel Messi e testemunhou uma festa do golo.

O argentino fez a assistência para Thierry Henry para o 0-1; Gerard Piqué fez o 0-2 após canto e uma assistência com as costas do islandês Eidur Gudjohnsen. Na segunda parte, Messi marca o seu primeiro (e algo polémico) golo em Lisboa depois de Daniel Alves ter batido um livre rápido à frente da grande área do Sporting CP, após mão de Anderson Polga.

0-3 no placard e o resultado parecia pesado para o Sporting que em dois minutos conseguiu reduzir a desvantagem: 1-3 após livre directo de Miguel Veloso e 2-3 por Liedson. Mas, logo a seguir, Marco Caneira, ao tentar evitar golo de Pedro Rodríguez, fez auto-golo e o 2-4 para o FC Barcelona. Os catalães selaram o resultado final com penalty de Bojan Krkic, depois de Rui Patrício ter visto o cartão vermelho porque derrubou o suspeito do costume, Lionel Messi, dentro da grande área.

FC Barcelona, Sporting CP, Shakthar Donetsk e FC Basileia compunham este grupo e os primeiros clubes tomaram caminhos bastante (curiosos e) diferentes. O conjunto “blaugrana” venceu o grupo e iria ser o vencedor desta Liga dos Campeões, e a filosofia de Guardiola ganhou os seus primeiros passos, mostrando que era algo para ficar. Lionel Messi foi o melhor marcador do torneio com 9 golos e, mais tarde, foi galardoado com a Bola D’Ouro, porque campeonato, Taça do Rei e Mundial de Clubes também tinham sido conquistados.

O Shakthar Donetsk terminou em terceiro nesta fase de grupos, mas terminou a época mais feliz, pois venceu a Taça UEFA. Já o Sporting, segundo classificado, avançou para os oitavos-de-final, onde encontrou o FC Bayern Munique para os fatídicos encontros que terminaram 0-5 e 1-7 – total de 12-1 a favor dos “bávaros”. No entanto, o Sporting CP terminava mais uma vez em segundo lugar no campeonato e nomes como Rui Patrício, Daniel Carriço, Adrien Silva e João Moutinho continuavam a crescer no seio do clube, ao lado de Marat Izmailov, Fábio Rochemback, Hélder Postiga, Derlei e Liedson.

2.

Messi reencontrou o ídolo e amigo Aimar, em 2012, no Estádio da Luz                                                    Fonte: UEFA

SL Benfica 0-2 FC Barcelona, 2 de Outubro de 2012- Lionel Messi veio pela segunda vez a Lisboa e cruzou-se com um SL Benfica que viria a dar cartas no panorama europeu. O plantel “encarnado”, orientado na altura por Jorge Jesus, deixa certamente muitos benfiquistas com saudade, mas a fase de grupos desta Liga dos Campeões, 2012/2013, foi um osso duro de roer e viria a ter outros contornos.

O FC Barcelona venceu o SL Benfica por 2-0. Era a segunda jornada daquela fase do torneio. O avançado chileno Alexis Sanchéz abriu o marcador, com assistência de Messi, logo na primeira vez em que os “catalães” foram à baliza das “águias”. Na segunda parte, Messi fez nova assistência, atraindo vários jogadores do SL Benfica à sua volta e assistiu Cesc Fàbregas.

Para a história ficou o reencontro de Messi com o seu ídolo, Pablo Aimar, e uma foto do “El Mago” a controlar a bola e rodeado por vários jogadores do FC Barcelona.

O FC Barcelona venceu o grupo e foi até às meias-finais. Quando se “temia” por uma final espanhola – porque a supremacia de nuestros hermanos estava em alta no futebol europeu – acabámos por presenciar uma final alemã entre FC Bayern Munique e Borussia Dortmund.

Já o SL Benfica, ia melhorando o seu futebol, mas aquela semana de Maio de 2013 jamais será esquecida. Num espaço de poucos dias, os “encarnados” perderam o campeonato para o FC Porto, a final da Liga Europa para o Chelsea e a Taça de Portugal para o Vitória SC.

Os dois emblemas reencontraram-se na segunda volta da fase de grupos e esse encontro no Camp Nou terminou empatado a zero. O FC Barcelona, já apurado, usou uma equipa maioritariamente composta por suplentes e o Benfica também fez algumas mexidas. Apesar do nulo, o jogo foi recheado de vários falhanços na cara do guarda-redes e de cortes em cima da linha de golo. Messi jogou a última meia hora do encontro e até terminou o encontro lesionado, depois de ter sofrido um choque numa das pernas enquanto driblava o, então, guarda-redes “encarnado”, Artur Moraes.

3.

Messi ficou em branco na última vez que jogou em Lisboa, diante do Sporting CP                                                        Fonte: UEFA

Sporting CP 0-1 FC Barcelona, 27 de Setembro de 2017- Para Messi regressar a Lisboa foram precisos cinco anos e foi esta a última vez que o astro argentino e o FC Barcelona jogaram em Portugal para a Liga dos Campeões. Apesar da vitória por 0-1, os “catalães” reencontravam um Sporting CP competitivo que, com Jorge Jesus, foi-se intrometendo nas decisões dos títulos internos e acumulou boas exibições com outros grandes clubes europeus.

No mesmo dia e à mesma hora, o Benfica perdeu por 5-0 na Suíça com o FC Basileia, o FC Porto tinha vencido categoricamente o Mónaco por 3-0 e o Sporting apenas se ficou por uma derrota pela margem mínima com auto-golo do defesa central urugaio, Sebastian Coates. “Vender cara a derrota” foi a expressão mais lida no dia seguinte em todos os jornais e ficou a sensação de que fez uma noite europeia em Alvalade. Na retina ficaram as exibições de Mathieu, Fábio Coentrão e Rui Patrício no capítulo defensivo e, mais adiante, de Battaglia e Bruno Fernandes, que enchiam o meio-campo como podiam, e este último, agora Manchester, chegou a testar os reflexos de Ter Stegen.

Para além de FC Barcelona e Sporting CP, Juventus FC e Olympiakos compunham este grupo. Os “leões” conseguiram vencer os dois jogos com os gregos e chegaram a tirar um ponto à vecchia signora, em Alvalade, num empate a um golo. Na segunda volta, o Sporting CP perdeu por 2-0 em Barcelona, ficou em terceiro lugar e rumou à Liga Europa, onde caiu nos quartos-de-final perante o Club Atlético Madrid, que acabou por vencer esse troféu. O desfecho dessa eliminatória ditou os conhecidos desentendimentos entre o plantel sportinguista e o, na altura, presidente, Bruno de Carvalho, e o final dessa época ficou marcado pela invasão à Academia de Alcochete, a 15 de Maio de 2018.

Na “Champions”, o vencedor foi o Real Madrid CF – arqui-rival FC Barcelona tinha caído nos quartos-de-final, após uma reviravolta louca da AS Roma.

“Sinto que tive uma grande oportunidade de ganhar”, chegou a dizer Jorge Jesus no final deste Sporting CP 0-1 FC Barcelona. Quando agora o Mister fala no Brasil que aprendeu nos jogos com FC Barcelona ou Real Madrid CF, são estes momentos que ele de certeza não esquece.

E por falar em memória, o Bola na Rede esteve em Alvalade a assistir a esse encontro e o testemunho pessoal dos autores da crónica deste jogo, o Guilherme Costa e o André Maia, também não é esquecido – porque eles já podem dizer que viram Messi jogar (e viram-no ainda mais de perto à saída de Alvalade, com a situação actual parece que estamos a falar de outra era).

Quase se conta pelos dedos as vezes que Messi jogou em solo português. Por cá, vamos tendo a sorte de poder ver ao vivo (ou ter de perto a presença do) o “nosso” Cristiano Ronaldo, mas agora, um cenário pandémico e o decorrer dos seus acontecimentos fez com que Lisboa fosse novamente a capital do futebol europeu. Teremos direito a uma chuva única de todas as estrelas do futebol actual encabeçada com a presença das duas maiores figuras da nossa geração e, talvez, de sempre.

A última final europeia, em Lisboa, foi em 2014 e sorriu para uma equipa espanhola, o Real Madrid CF. Poderá agora a capital portuguesa ser o talismã para o outro gigante espanhol? Muitos dizem que quando se tem Messi, tudo pode acontecer (o “Barça” venceu sempre em Lisboa com Messi em campo e não chega à final desde 2015), mas há outros candidatos poderosos e a demonstrar rotação elevada depois desta pausa que afectou a vida de todos. Aproveitemos tudo isso no nosso querido mês de Agosto, mas em segurança.

https://www.instagram.com/p/CBidR-VJpPA/

Artigo revisto por Joana Mendes

Francisco Correia

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