Tribuna VIP:  Portugal não tem um problema de formação, tem um problema de transição

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João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol no Tainan City, de Taiwan, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

A saída de Rodrigo Mora, Mauro Furtado recentemente deveria fazer-nos pensar o futebol em Portugal. Porque Rodrigo Mora entre outros tantos não é o problema, é apenas mais um sinal de um problema muito maior.

Portugal sabe formar jogadores, temos boas academias, bons treinadores de formação, conhecimento, metodologia e uma quantidade de talento extraordinária para um país da nossa dimensão.

Os resultados das nossas Seleções jovens provam isso, temos jogadores portugueses espalhados pelos melhores campeonatos da Europa também.

Por isso, não tenho grandes dúvidas, Portugal não tem um problema de formação, tem um problema de transição e nem tudo se resume a questões financeiras. Formamos. E depois?

Durante dez anos fazemos praticamente tudo pelo jogador, treinamos, ensinamos, acompanhamos, corrigimos, desenvolvemos, criamos condições para a vida escolar também, ou seja, investimos. Depois chega aos 18, 19 ou 20 anos e começa a parte verdadeiramente difícil.

Onde vai jogar? Que oportunidades lhe vamos dar para jogar?

É aqui que começamos a perder muitos deles, Rodrigo Mora é um caso mediático, Mauro Furtado é outro, Diogo Moreira saiu a custo zero do Benfica, entra agora no Milan por 45 milhões.

Mas preocupam-me ainda mais aqueles de quem ninguém fala, jogadores que passaram pelas Seleções Nacionais jovens, que conquistaram títulos internacionais, que estiveram entre os melhores das suas gerações, e que aos 22, 23 ou 24 anos estão nas divisões inferiores, ou praticamente desapareceram do futebol profissional.

Se isto acontece a alguns dos melhores, imaginem o que acontece aos restantes milhares. Claro que sei que nem todos atingirão patamares de excelência, mas alguma coisa não está a funcionar.

O talento precisa de jogar

A passagem para o futebol sénior é provavelmente um dos momentos mais difíceis da carreira de um jogador, na formação, compete essencialmente contra jogadores da mesma idade.

Depois entra num balneário profissional, agora joga-se pelo emprego do treinador, pelo contrato do colega, pelo prémio, pela subida, pela manutenção, pelo campeonato, por equipas que não tem as mesmas condições dos grande de Portugal.

E o erro passa a ter outro preço, é precisamente aí que o jovem precisa de um plano. Não precisa que lhe ofereçam o lugar, precisa de sentir que existe um caminho.

Precisa de saber que um mau jogo não significa desaparecer durante dois meses, que perder uma bola não significa voltar para a equipa B, que um erro não apagou dez anos de talento.

O jovem precisa de exigência. Mas também precisa de confiança.

Não podemos colocar um jogador de 18 ou 19 anos permanentemente em brasa e esperar que desenvolva todo o seu potencial, o talento não cresce apenas com minutos. Cresce com minutos, contexto, confiança, responsabilidade e tempo.

A culpa não pode ser apenas do treinador

Digo isto sendo treinador, é muito fácil apontar o dedo ao homem que escolhe o onze. “Não aposta nos jovens”, às vezes é verdade. Mas conheço o outro lado, o treinador perde dois jogos, começa a pressão, perde três, começa-se a discutir o futuro.

Precisa de ganhar no domingo, e quando precisa desesperadamente de ganhar, tende a reduzir o risco, entre um jogador de 19 anos e outro de 29, muitas vezes escolhe a experiência.

Podemos criticá-lo, mas também precisamos de perceber o contexto. Por isso, a formação não pode depender apenas da vontade do treinador.

Hoje chega um treinador que gosta de jovens, amanhã chega outro que prefere jogadores experientes, depois chega outro e pede oito contratações. E começamos tudo outra vez.

Que projeto é esse?

Um clube precisa de saber quem é independentemente de quem se senta no banco. O treinador deve ter liberdade para treinar, escolher e decidir, claro. Mas existem princípios que têm de pertencer ao clube. A formação deve ser um deles.

Vivemos demasiado ao sabor do resultado

Este é outro problema do nosso futebol, precisamos de ganhar hoje, precisamos de entrar na Europa este ano, precisamos de vender este verão, precisamos de resolver o problema desta semana. E o futuro? Logo se vê.

Mudamos treinadores, mudamos diretores, mudamos modelos, mudamos jogadores, mudamos estratégias, e depois perguntamos porque não existe identidade. Bernardo Silva falou sobre a identidade do futebol português. É uma discussão que vale a pena fazer.

Qual é hoje a identidade da nossa Liga? O que queremos ser? Que espaço queremos dar ao jogador português? E, principalmente, para que estamos a formar?

Não é uma questão de estrangeiros contra portugueses

Quero deixar isto muito claro, não sou contra jogadores estrangeiros. Trabalho fora de Portugal há 12 anos e sei perfeitamente aquilo que jogadores de diferentes países e culturas podem acrescentar a uma equipa.

O problema começa quando é mais fácil contratar fora do que desenvolver dentro.

Há um paradoxo que vejo muitas vezes, ao jovem formado no clube damos três jogos para provar que está preparado. Ao jogador contratado damos seis meses porque “precisa de adaptação”, ao jovem dizemos que ainda não está preparado. Ao jogador que custou dinheiro precisamos de dar oportunidades porque é necessário rentabilizar o investimento.

Então pergunto: Quem tem verdadeiramente tempo para crescer?

E depois existe o dinheiro

O caso de Diogo Moreira acrescenta outra dimensão a esta discussão. Um jogador formado no Benfica sai a custo zero, poucos anos depois, aparece associado a uma transferência para um gigante europeu por dezenas de milhões de euros.

Podemos discutir as circunstâncias da saída, contrato, salário, oportunidades, decisões do jogador, decisões do clube, cada caso tem a sua história. Mas há uma pergunta que não podemos evitar:

Como conseguimos investir tantos anos na formação de um jogador e assistir depois à criação de enorme valor fora de Portugal?

Não significa que todos os jovens devam ficar. Isso seria irrealista. Nem significa que todos aqueles que saem irão valer milhões. Obviamente que não. Significa apenas que o potencial também tem valor, e talvez precisemos de aprender a valorizá-lo antes de o mercado o fazer por nós. Porque existe uma ironia difícil de explicar: Formamos. Deixamos sair. Vemos valorizar.

E depois gastamos dinheiro à procura no mercado daquilo que tínhamos dentro de casa. E talvez devêssemos deixar de perguntar apenas quantos jogadores formamos. Talvez a pergunta deva ser outra:

Quantos conseguimos levar da formação até ao futebol profissional e ter coragem para apostar neles?

João Prates
João Prateshttp://www.bolanarede.pt
João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Egito, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

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