Publicidade

«Hoje em dia prefere-se um jogador sem experiência de Primeira Liga a um experiente com provas dadas» – Entrevista BnR com Alex Soares

Clara Maria Oliveira · 24 min

Foto: Volos FC

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

A sabedoria popular aconselha a todos: “Não voltes a um lugar onde já foste feliz”. Por isso, no caso de Alex Soares, está a voltar a um país onde teve uma má experiência, que espera reverter. O novo jogador do Volos NFC, da primeira divisão grega, abordou todos os passos da carreira, mas, na hora de olhar para trás no tempo, confessa que, se voltasse a ter 20 anos, não mudava o caminho que percorreu. Nem sempre acreditou que podia ser profissional de futebol, mas a ilha da Madeira trocou-lhe os planos e, aos 30 anos, ainda espera aprender e melhorar como jogador.

«Quando fui para o Marítimo percebi que ia ser jogador de futebol».

Bola na RedeNasceste em Lisboa. Quais são as tuas primeiras memórias com a bola no pé? Muitos vasos partidos?

Alex Soares: (risos) Por acaso, não. Lembro-me de jogar futebol na escola e de gostar. Sempre que podíamos, no intervalo, estávamos a brincar com a bola. Era uma coisa que fazíamos desde pequeninos, é normal todos os miúdos gostarem de jogar à bola e nós não éramos exceção. Penso que foi aí que começou tudo.

Bola na RedeComo e com que idade surge a oportunidade para jogares no Benfica?

Alex Soares: Os meus pais são benfiquistas. O meu pai era mestre de karaté e eu estava a aprender com ele, mas um dia, com 10, 11 anos, passámos os dois no Estádio Da Luz e vi uns miúdos a jogar futebol. Pedi logo ao meu pai para me inscrever nas escolinhas do SL Benfica. Assim, deixei o Karaté e comecei a jogar futebol. Começou depois de ver os outros a jogar, experimentei e correu bem comigo.

Bola na RedeSempre foste médio centro? Normalmente, no início, todos querem jogar na frente e ser avançados, aconteceu contigo, também?

Alex Soares: Eu era avançado no futebol de 7 e no primeiro ano de futebol de 11. Depois, passei para médio e fiquei sempre nessa posição, desde os iniciados e até agora. Bola na Rede: Qual é a posição no terreno e que sistema tático acreditas que te assenta melhor?

Alex Soares: Gosto de jogar como um oito, numa ligação entre a defesa e o ataque. Não sou propriamente um 10 ou um seis, mas gosto de fazer essa ligação. Gosto de jogar no 4-3-3 normal, com um médio defensivo e dois interiores. No entanto, também gosto de jogar só com dois médios, num 4-4-2 clássico ou um 3-4-3, porque é nestes sistemas que tenho mais liberdade de andar pelo campo onde for preciso.

Bola na RedeÉ quase um Box To Box…

Alex Soares: É isso mesmo.

Bola na RedeSe tivesses de escolher as tuas melhores características como jogador, quais seriam e porquê?

Alex Soares: Acho que leio bem o jogo, sei o que o que está a pedir em cada momento. Além disso, acho que tenho boa qualidade de passe, vertical, principalmente. Não gosto de andar a passar a bola atrás no campo, porque gosto mais de colocar a bola na frente para os outros atacarem.

Bola na RedePercebeste desde cedo que podias ser jogador profissional?

Alex Soares: Ainda demorou algum tempo. Sempre gostei muito de jogar futebol, mas sempre soube que tinha miúdos melhores que eu. Até as coisas realmente acontecerem, sempre achei que não ia dar certo, por vários motivos. Não é que não fizesse por isso, mas tinha colegas que já eram internacionais e com outras qualidades que fazem mais a diferença no jogo. Era mais legítimo para eles serem jogadores, que eu, que me limitava a fazer a minha parte e sempre fiz tudo para chegar lá, felizmente correu bem.

Bola na RedeForam sempre expectativas um pouco mais baixas.

Alex Soares: Foram. Sempre quis ser jogador de futebol, mas sei que fazer golos e assistências faz muito a diferença. Sempre tive a noção de que eram esses que davam o salto mais rápido, mas o segredo foi sempre acreditar que eu também ia lá chegar e aconteceu.

Bola na RedeFizeste muitos sacrifícios para conciliares os estudos com o futebol?

Alex Soares: Fiz até ao 12.º ano. A partir daí, o futebol começou a ficar mais sério e acabei por não fazer mais nada. Até lá, nunca tive conflitos entre a escola e o futebol. Eu estudava durante o dia e treinava durante a tarde, então não havia conflito. Quando cheguei ao Oeiras, por exemplo, já era mais difícil porque voltava mais tarde a casa e jantava muito tarde, mas havia tempo para tudo e nunca houve problemas.

Bola na RedeQual foi o momento em que pensaste “Eu vou ser mesmo jogador profissional de futebol”?

Alex Soares: Quando fui para o Marítimo. Fiz o meu primeiro ano de sénior no Esperança de Lagos, mas não éramos profissionais e depois fui para a Grécia e as coisas não correram bem e, claro, fiquei preocupado com o futuro. Entretanto, surgiu o convite do CS Marítimo, as coisas começaram a correr de maneira diferente e comecei a assumir-me jogador de futebol.

 

«Hoje em dia prefere-se um jogador sem experiência de Primeira Liga a um experiente com provas dadas».

Bola na RedeAinda te lembras como foi a mudança da formação do Benfica para o Benfica Campus?

Alex Soares: Fiz um ano no Benfica Campus. Aquilo tem umas condições fantásticas. Antes jogávamos no pelado dos Pupilos do Exército e de repente começámos a jogar na relva e era uma diferença enorme. Provavelmente, os miúdos que agora lá estão não dão tanto valor, porque foi a realidade que sempre conheceram, mas para nós era um mundo novo e continua a ser, apesar de todos já estarem mais habituados.

Bola na RedeAchas que foi um passo fundamental para que os jogadores da formação fossem vistos de outra forma?

Alex Soares: Acho que agora os miúdos já se podem sentir jogadores. Nós antes treinávamos no pelado dos Pupilos do Exército e tomávamos banho de água fria. Agora, se alguém tem uma meia rota, é porque algo não está certo. Há uns anos atrás não existiam estas condições todas e equipas B, etc. Alguns jogadores tinham boas condições nas camadas jovens dos clubes, mas quando tinham de ir para a Segunda B, sentiam muito a diferença e desistiam. Alguns jogavam muito bem e eram promessas nos juniores, mas acabaram por não ter sucesso devido à grande diferença de condições. Agora, os clubes já são mais profissionais e têm mais cuidados, não só com o trabalho de campo, mas também com tudo o que é preciso para um jogador dar certo no futebol. Eu não sou assim tão velho, mas na minha altura era bastante diferente (risos).

Bola na RedeAcabas a formação a jogar no Odivelas, Oeiras e, por fim, no Belenenses. Que benefícios sentiste pelo facto de te formares em vários clubes?

Alex Soares: Fui conhecendo realidades muito diferentes. Saio do SL Benfica para o Odivelas, onde tinha de levar calções e meias para o treino. Estas experiências fazem crescer e ficamos com a noção de que é preciso muito trabalho e sorte para ter sucesso.

Bola na RedeCom a experiência que tens agora, como viste a evolução do jovem jogador português?

Alex Soares: Acho que o jogador jovem português está muito valorizado e acho que é, em parte, fruto do trabalho dos treinadores. Os treinadores portugueses são muito bons, não só os que estão no topo, mas também os que estão na formação. Com os bons resultados, também fazem evoluir atletas e, junto com as boas condições e a visibilidade, fazem valorizar o jogador português. Agora, até um jogador de uma equipa de mais pequena faz um golo ou um bom drible e está logo nas redes sociais, o que é ótimo. Mas, também há uma parte negativa, porque há miúdos que aos 15, 16 anos já acham que são grandes jogadores, mas não é bem assim, porque não pode haver espaço para todos. Mas, mesmo assim, acho que há mais benefícios, nesta era, que problemas.

Bola na RedeCada vez vês mais jogadores a sair jovens por valores exorbitantes, algo que não acontecia na tua altura…

Alex Soares: Isto hoje em dia está cada vez mais um negócio. Paga-se cada vez mais pelo potencial e pelo que ele pode vir a ser e coloca-se muita fé nisso. Assim, é complicado para um jogador jovem de repente ser o centro das atenções. Uma coisa é estares em casa, mas de repente um país inteiro te conhece e o clube deposita grandes esperanças em ti… pode não correr bem, há quem lide bem com a pressão e existem outros que dão um passo atrás para depois dar dois à frente, mas é o que existe no futebol moderno. Hoje em dia prefere-se um jogador sem experiência de Primeira Liga a um experiente com provas dadas. Isso explica-se facilmente com a possibilidade de o jovem se pode valorizar e dar lucro. Compreende-se, porque os clubes são empresas e precisam de dinheiro, mas, por outro lado, acho que devia existir um equilíbrio num plantel, porque um miúdo sem jogos não está, no imediato, tão preparado para dar resposta como alguém com mais experiência. Na minha opinião, o futebol português perde um pouco com isso.

Bola na RedeCom apenas 19 anos, rumas a sul para jogares no Algarve, pelo Esperança de Lagos. Foi a primeira vez que saíste da tua zona de conforto?

Alex Soares: Sim, foi a primeira vez que saí de casa. Foi uma boa experiência porque o Algarve é uma zona muito boa e Lagos é uma cidade fantástica para se viver. Foi um bocado estranho começar a treinar às sete da tarde, porque era quando os meus colegas saíam do trabalho, mas a adaptação foi rápida e a época correu muito bem.

Bola na RedeFoi um choque de realidade a mudança para a terceira divisão?

Alex Soares: Não tinha conhecimento sobre a Segunda B, na altura. Sabia que era competitiva e encontrei bons colegas de equipa e bons treinadores. Também fui porque o meu empresário da altura me prometeu que eu ia ter muitas pessoas a ver os jogos e que era uma fase de transição, não correu bem assim, mas não estou nada arrependido e correu bem na mesma.

«Foi importante a chegada do Ivo Vieira, que me colocou a jogar e me disse que precisava de alterar alguns comportamentos».

Bola na RedeComo surge o convite para a tua primeira aventura no estrangeiro, no Panserraikos?

Alex Soares: Quando cheguei, o Panserraikos tinha descido para a segunda divisão. É um clube numa cidade no norte da Grécia, que não é muito bonita e onde se apanha muito calor no verão e, depois, muito frio no inverno. Vim à experiência em maio, passei um mês lá, depois ofereceram-me um rascunho de um contrato e disseram-me para voltar no início da época. Assim foi, voltei, mas o clube estava com muitos problemas depois da descida e ainda não sabiam se iam jogar na primeira liga porque alguns clubes gregos tinham feito umas “mafias” e, então, não sabiam se esses podiam descer e se o Panserraikos ainda podia voltar a subir. Começámos a treinar em julho e tivemos o primeiro jogo oficial em outubro, foi uma pré-época muito grande (risos). Mas, depois, as coisas não me correram muito bem e o que me foi prometido não foi o que me ofereceram e acabou por uma experiência curta. Serviu para aprender que o futebol não é um mar de rosas.

Bola na RedeO grego não é propriamente uma língua universal. Ainda te lembras como comunicavas com os teus colegas?

Alex Soares: Eles falam todos inglês. Não era um inglês correto, o que nem eu falava, mas entendíamo-nos assim. Agora já sei mais um pouco de grego, mas a maior parte das pessoas falam em inglês. Depois, dentro de campo não há línguas.

Bola na RedeQuais as maiores diferenças que sentiste entre a terceira liga portuguesa e a segunda liga grega?

Alex Soares: Eu só fiz um jogo oficial. Começámos a jogar em outubro e eu só assinei em novembro, depois vim a Portugal no Natal e, quando voltei à Grécia, foi para rescindir contrato porque já não tinha condições para ficar. Do que experienciei, era tudo muito mais profissional e com jogadores mais experientes, que já tinham jogado na primeira liga, notou-se logo essa diferença.

Bola na RedeUma época depois, voltas a Portugal, para jogares no Marítimo. Não jogaste logo na equipa principal e ainda fizeste alguns jogos na equipa B na Segunda Liga, certo?

Alex Soares: Fiz uma época e meia na equipa B. Assinei no último dia janeiro, fiz essa meia época e a seguinte, mas não joguei muito até chegar o Ivo Vieira. Depois, acabei por chegar à equipa principal.

Bola na RedeA estadia na Segunda Liga foi importante para dares o salto e te estabeleceres como um jogador de primeira divisão?

Alex Soares: Acho que sim. Tive a sorte de já ter apanhado o reaparecimento as equipas “B”. Fiz meio ano na Segunda B e uma época na Segunda Liga. É bom em termos de experiência porque poucos de nós tínhamos jogado nesse nível e, como éramos quase os mesmos do ano anterior, era malta com pouca experiência. De vez em quando vinham jogadores da equipa principal e era importante essa interação que o Marítimo fazia entre os miúdos e os jogadores da equipa A. Para mim, foi importante a chegada do Ivo Vieira, que me colocou a jogar e me disse que precisava de alterar alguns comportamentos. Como queria jogar, fazia tudo o que ele queria (risos). Tudo começou a correr bem, com o Ivo Vieira começámos a ganhar e a jogar melhor e depois fui informado que ia fazer a pré-época à equipa principal.

Bola na RedeNa altura, já vias qualidades no Ivo Vieira para estar no patamar onde está hoje?

Alex Soares: Sim. Ele sempre teve a mesma mentalidade de bola no chão e jogar desde trás e gostava de marcar muitos golos. Sempre preferiu ganhar 5-4 do que um 1-0 e acho que a base dele sempre foi a mesma. É normal que evolua em algumas coisas, mas nunca mudou de identidade e é por isso que ele está a ter sucesso. Espero que continue.

Bola na RedeAinda te lembras da tua estreia na Primeira Liga, pela mão de Pedro Martins? O que vai na cabeça de um jogador nessa altura?

Alex Soares: Foi na primeira jornada da Primeira Liga na época 2013/14, frente ao SL Benfica e ganhámos 2-1, em casa, foi especial. Hipocrisias à parte, ganhar a um grande tem um sabor especial. Comecei a pré-época a jogar o normal de um miúdo a ganhar o seu espaço e com poucos minutos. Tudo mudou no final da preparação para a época, quando fizemos uma parte contra a equipa que ia ser titular no primeiro jogo do campeonato e as coisas correram mesmo bem. Tenho a ideia de que não ia ser titular no jogo, mas só o Pedro Martins poderá dizer (risos), achava que ia ser o Rodrigo Lindoso, mas ele lesionou-se nessa semana e foi a minha oportunidade. Tive uma estreia muito feliz, correu bem e ganhámos o jogo. Na altura gostava muito do SL Benfica, não é que agora tenha algo contra, mas teve um peso extra porque passei lá oito anos. Foi estranho jogar na Primeira Liga porque via os jogadores todos na televisão, quer os meus colegas de equipa, mas principalmente os jogadores do SL Benfica. Depois do apito inicial o que importa é jogar e esquecemos tudo o resto e queremos é ganhar.

«Ainda hoje me considero maritimista. Adorei a minha experiência no CS Marítimo e na Madeira».

Bola na RedeMarcaste seis golos durante seis épocas ao serviço do Marítimo. Acreditas que um médio precisa de ter faro para o golo para ter sucesso, neste momento? Tens cada vez mais exemplos disso e parece que algumas pessoas se esquecem do resto.

Alex Soares: Acho que faz muito a diferença o número de golos na carreira de um médio. É impossível, mas, se tivermos duas exibições exatamente iguais, mas calhar de um dos jogadores marcar um golo e o outro ficar a zero, a crítica e a avaliação vai ser completamente diferente. Talvez não pelo treinador, mas, como o futebol é muito público, toda a gente tem direito a opinião. Acho que quem percebe menos de futebol são os jogadores e os treinadores (risos). Provavelmente um adepto não viu um jogo, mas lê a crítica e os jornais que formam muito a opinião pública. As estatísticas são algo mais recente, antes ninguém sabia quantas recuperações fizeste ou se completaste 80% dos passes. O que importava eram os golos e se fizeste algum erro. Costumo dizer isso ao meu irmão (Filipe Soares), e ele sempre fez bastantes golos, porque acho que pode definir a carreira de um jogador. Principalmente num jogador mais “normal”, não de topo, que faz várias coisas bem, acho que é uma característica muito importante.

Bola na RedeCostumas ler o que dizem sobre ti na comunicação social?

Alex Soares: Gosto de ler. Não me influencia, mas acho que é bom ter mais uma opinião. Eu posso ter uma opinião diferente, mas gosto de ouvir porque, principalmente quando falam que fizeste um bom jogo, sabe bem (risos).

Bola na RedeConsideras que o Marítimo foi uma das tuas melhores experiências no futebol, até ao momento? Que memórias guardas da ilha, onde os adeptos são bastante bairristas?

Alex Soares: Eu ainda hoje me considero maritimista. Adorei a minha experiência no CS Marítimo e na Madeira. Tenho lá pessoas que considero família, mas um dia a experiência tinha de chegar ao fim. Tinha de colocar comida na mesa e eu não como camisolas do CS Marítimo, mas gostava de um dia voltar, se fosse possível.

Bola na RedeDepois, sais mais uma vez de uma zona de conforto, onde acredito que já tivesses muitas amizades e uma vida estável e vais para o Chipre, jogar no Omonia. Estavas a precisar de experimentar algo novo no futebol?

Alex Soares: Depois de sair do CS Marítimo, queria conciliar um bom projeto desportivo com uma boa oportunidade financeira e foi isso que encontrei no Chipre. Tinha um bom salário e fui para um clube que se queria reerguer e voltar a ganhar. Não correu bem, por vários fatores, mas foi uma experiência muito boa. Não me arrependo nada de ter ido para o Chipre, apesar de termos tido alguns problemas financeiros. Encontrei vários jogadores portugueses e outros que já tinham passado pelo nosso campeonato e isso ajudou à adaptação. Depois, no segundo ano, o plantel era completamente novo e já não tinha a mesma relação com os colegas, mas já não tínhamos problemas financeiros porque o presidente mudou e nunca mais falharam. Foi pena que em termos desportivos nunca tenha corrido bem, porque tínhamos bons jogadores. O clube era organizado e agora ainda está melhor. Foram campeões cipriotas na época passada e terminaram o primeiro ano da pandemia, quando o campeonato terminou mais cedo, no topo da tabela. Era sinal que o clube se queria mesmo reerguer.

Bola na RedeExistem muitos jogadores portugueses que experimentam o Chipre e ficam por lá muitos anos. Conseguiste perceber porquê?

Alex Soares: Acho que têm gostado muito de ter jogadores portugueses. Lá temos muitos portugueses e jogadores que jogaram no nosso campeonato. Como o Chipre tem um campeonato vantajoso em termos financeiros e é competitivo, os portugueses saem e, como são, normalmente, apostas seguras e têm muita qualidade, continuam a ser aposta. Alguns jogadores jovens vêm para dar um salto para outras ligas e tem dado certo. E, como o verão é muito quente e o inverno é ameno e o estilo de jogo é semelhante, talvez sejam fatores que explicam essa procura e resposta.

Bola na RedeVoltando ao futebol, foste para um Campeonato novo, com métodos de treino e de jogo novos. Como foi jogar numa liga como a cipriota?

Alex Soares: Na altura, achava que existiam seis ou sete equipas competitivas. O campeonato, depois, divide-se a meio e os seis primeiros lutam pelo apuramento do campeão e o resto lutava pela manutenção. Existia uma clara distinção, claro que na minha altura era normal o APOEL ganhar aos outros, mas os outros também podiam ganhar ao APOEL. O campeonato tem jogadores bons, têm ido à fase de grupos Liga Europa e a liga está cada vez mais organizada. Às vezes, como estes clubes são mais calorosos, facilitam um bocado e, eu acho que é devido ao estilo de vida despreocupado que têm, o que causa uma falta de organização. Acho que é por causa disso que não têm tanto sucesso. Nota-se muito a diferença em termos táticos em relação ao campeonato português, porque no Chipre, por exemplo, preocupam-se mais com os avançados bons do que com a defesa e não têm uma boa capacidade tática.

«Só soube uns dias depois de contar ao meu irmão que ia ao Moreirense
que ele ia jogar lá também».

Bola na RedeEm 2019, surge um convite para voltares a Portugal e vestires a camisola do Moreirense. Foi uma decisão fácil de tomar, o facto de voltares ao teu país?

Alex Soares: A minha ideia era continuar no estrangeiro, na altura. Entretanto, a minha esposa estava grávida e, como o Moreirense é um bom clube, surgiu a oportunidade e optámos por voltar a Portugal, mas a ideia era continuar a jogar lá fora.

Bola na RedeContudo, há uma diferença entre todos os outros clubes onde passaste. Pela primeira vez, ias poder jogar futebol profissional com o teu irmão (Filipe Soares). Foi como voltares atrás no tempo, nos momentos em que jogavas com ele em tua casa, em crianças?

Alex Soares: Só soube uns dias depois de contar ao meu irmão que ia ao Moreirense que ele ia jogar lá também. Nunca pensei que acontecesse devido ao percurso dos dois, gostei que acontecesse, mas preferia que não tivesse acontecido porque esperava que ele já tivesse noutros patamares, mas foi uma experiência inesquecível. Já estava há muitos anos fora, tenho uma ligação forte com o Filipe, mas já não lidava com ele no dia a dia há muito tempo e foi uma coisa muito boa. Partilhámos coisas que, em circunstâncias normais, não aconteceriam. Assim, ambos tivemos um apoio importante nesse período.

Bola na RedeJogaram muitas vezes como dupla. Até que ponto jogar com ele ao lado era mais fácil? É como se tivessem de olhos fechados?

Alex Soares: Não é por ser meu irmão, mas facilitava-me a vida e aos outros jogadores todos. Na minha opinião, fazia a diferença em relação a todos os outros. Mas, da mesma maneira como o nervosinho desaparece depois do primeiro jogo, o facto de ele ser meu irmão desaparece e é só mais um colega de equipa, mas claro… na hora de festejar e no início e final do jogo, procurava-o sempre a ele, primeiro.

Bola na RedeAté tiveram um festejo peculiar num golo do Filipe Soares frente ao Boavista FC, na época passada…

Alex Soares: Desde que surgiu a oportunidade de jogarmos juntos, tínhamos dito que íamos fazer esse festejo. Eu não faço golos (risos) e demorou um pouco para ele marcar, porque nos dois primeiros golos pelo Moreirense (frente ao Gil Vicente) acho que eu estava lesionado, mas depois acabou mesmo por acontecer. Queria ter feito mais festejos desses, mas não deu.

Bola na RedeO Filipe Soares é uma das maiores promessas do futebol nacional. Quais as qualidades que acreditas que ele tem para dar um passo em frente na carreira?

Alex Soares: O percurso que ele fez nos clubes e seleções jovens diz tudo. Não tenho dúvidas de que em breve vai dar o salto. Acho que a pandemia dificultou a saída dele, porque os clubes estão com problemas financeiros e é claro que o Moreirense quer fazer um bom encaixe financeiro. Acho que o Filipe vai chegar ao topo, mas ele gosta de dar um passo seguro de cada vez e eu acho que, em breve, vai ter tudo o que ele merece. Como jogador, acho que ele é muito bom no transporte da bola e sabe se desenvencilhar no 1×1. Também é rápido e muito forte fisicamente, chega bem à área e percebe o jogo, acho que essas são as melhores qualidades que lhe posso apontar.

Bola na RedeVoltando à tua carreira, fizeste mais de 60 jogos em duas épocas no Moreirense. Consideras que fizeste das melhores temporadas da tua carreira em Moreira de Cónegos?

Alex Soares: A minha experiência no Chipre deu-me mais confiança e conforto com a bola, algo que não tinha, por exemplo, no CS Marítimo. Apesar de ter ido para uma equipa onde as coisas não correram bem, o Omonia era considerado um grande. As outras equipas jogavam mais atrás da linha da bola e isso obrigou-me a mudar certas coisas que repliquei no Moreirense. Lá correu tudo bastante bem a nível coletivo e pessoal, foram duas épocas boas, apesar de alguma instabilidade. O objetivo do Moreirense é claramente a manutenção e fizemos duas épocas tranquilas e até estivemos perto de fazer algo inédito. Tive a oportunidade de voltar a Portugal, mostrei que evolui e que melhorei com bons jogadores e bons treinadores. Se foi a minha melhor fase da carreira, não sei, mas no futuro vamos ver. Este ano, apanhei a pré-época um pouco tarde e estou fora de forma, mas espero que tudo corra pelo melhor. Bola na Rede: Na última época, o Moreirense teve três treinadores diferentes. Como reage um jogador a tantas rotinas diferentes, é difícil, ou parece bastante pior para quem vê de fora, como é o caso dos adeptos?

Alex Soares: É difícil porque são três treinadores com ideias diferentes. Já vínhamos com o Ricardo Soares há algum tempo e já estávamos super adaptados ao seu estilo e, de repente, vem o César Peixoto com um estilo completamente diferente. Não sei se era melhor ou pior, porque ele não teve tempo de o mostrar, mas gostei das ideias dos dois, cada um à sua maneira. Felizmente tínhamos um bom grupo que percebia rápido as ideias novas e, se tivéssemos mais tempo com o César Peixoto, tenho a certeza que íamos assimilar tudo. Depois, vem o Vasco Seabra, com novas ideias e com outras qualidades e defeitos, como tinham todos. Não se trata só da mudança de treinador, são mudanças na maneira de jogar e até a forma de bater cantos é diferente. Por isso se faz a pré-época, para sabermos o que o treinador quer, conhecer as ideias novas… e com três treinadores novos não podemos ter três pré-épocas diferentes. Portanto, acho que foi uma grande vitória do grupo ao conseguir dar resposta no campo, apesar disso tudo. Talvez não exista essa noção do lado de fora, mas a época teve outro sabor porque, mesmo com todas as alterações, todos acabaram por ficar com a ideia de que tínhamos um bom grupo.

«Tive algumas propostas, por exemplo de um clube da Polónia, mas não gosto do frio. Passei algum frio em Moreira de Cónegos e agora queria outro tipo de clima».

Bola na RedeEste ano, voltaste à Grécia, mas desta feita, vais jogar na primeira divisão, pelo Volos NFC. Sentes-te com a mesma ambição que tinhas aos 21 anos, na primeira aventura em solo grego?

Alex Soares: Sinto-me com muita mais experiência e com mais capacidade de resolver algum problema que possa aparecer. Tenho mais confiança, porque sinto que já tenho provas dadas e, quando vim pela primeira vez, não tinha, pelo menos como profissional de futebol. Portanto, não acho que vai correr bem, eu sei que as coisas vão correr bem porque tenho outra experiência e já são muitos anos disto, que fazem alguma diferença. Não venho para a Grécia fazer nada do que não sei e esse à vontade que vem da experiência que já tenho. Vou conhecer novos estilos jogadores, novos treinadores e isso vai contribuir ainda mais para a minha aprendizagem. Não sou novo, mas também não sou velho, portanto, tudo vai contribuir para o meu crescimento.

Bola na RedeQuais foram as primeiras sensações no novo clube? Como é um nome bastante desconhecido para os comuns adeptos portugueses, achas que é um projeto que devemos seguir de perto?

Alex Soares: É um clube novo. Quando cheguei, disseram-me que existiam dois clubes na cidade que andavam sempre em guerra e, entretanto, ambos terminaram e decidiram criar o Volos NFC, em 2017. Este é apenas o terceiro ano do clube na primeira liga grega. No primeiro ficaram em 11.º, no segundo ficaram em sétimo e, este ano, querem algo acima disso. Ainda não tenho muito conhecimento sobre o campeonato grego, mas disseram-me que existem quatro, cinco equipas que são diferenciadas das outras. Também me disseram que a nossa luta, supostamente, vai ser com o Asteras Tripolis pelo sexto lugar. Estou a gostar muito da equipa, tem muitos jogadores sul americanos e o treinador é espanhol e a malta gosta muito de jogar. Tenho gostado de ver, mais do que a fazer, porque não estou tão disponível como queria, porque perdi a pré-época toda. As condições de trabalho aqui são diferentes, mesmo para quem quer mais do que o sétimo lugar, o que pode ficar curto, mas o que importa é chegar a domingo e vencer, o que espero que aconteça.

Bola na RedePorquê a Grécia, de novo? Existiam mais propostas em cima da mesa?

Alex Soares: Tive algumas propostas, por exemplo de um clube da Polónia, mas não gosto do frio. Passei algum frio em Moreira de Cónegos e agora queria outro tipo de clima. Também pesou muito o facto de me dizerem que era uma cidade boa para se viver e um amigo meu que conheci no Panserraikos disse-me que o clube que dava garantias. Também é verdade que aqui há muita qualidade de vida e eu, como tenho uma filha de um ano e meio, isso é muito importante. Também pesou o facto de ter tido uma má experiência na Grécia e quero ter uma boa, tanto que escolhi o mesmo número que tinha no Panserraikos por isso mesmo, porque correu mal e agora vai correr bem, quase no mesmo sítio.

Bola na RedeHavia alguma coisa que o Alex Soares de 30 anos diria ao Alex Soares que estava a começar a carreira, fazias algo diferente?

Alex Soares: Como toda a gente, gostava de ter 20 anos com a experiência que tenho agora, mas acho que a evolução vem da experiência. Melhor ou pior, as coisas seguiram o rumo que tinham de seguir e não me arrependi de nenhum passo. Deixava o Alex tomar as decisões que tomou porque não estou arrependido de nada. Bola na Rede: Para terminar, quais os teus objetivos pessoais para o futuro ou pensas mais no presente?

Alex Soares: Não consigo idealizar o final da carreira, mais tarde ou mais cedo vai chegar, mas, para já, não penso nisso. Gostava de fazer algo engraçado no Volos NFC a nível coletivo, nem falo a nível individual. Era fantástico conseguir festejar uma ida à Conference League ou uma Liga Europa, que é algo inédito no clube, mas importo-me bastante mais com o presente. Não é que não me importe com o futuro, mas o meu foco é mais o que acontece agora e não tanto o que vou fazer depois.

Clara Maria Oliveira

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.