Quando Gianni Infantino chegou à FIFA prometeu modernizar o futebol. Anos depois, é impossível negar que o fez. A questão é perceber se essa modernização tem servido o jogo ou apenas o negócio.
A mais recente proposta do presidente da FIFA segue precisamente essa linha. A ideia passa pela criação de uma empresa paralela à própria FIFA, responsável pela comercialização dos direitos audiovisuais e dos patrocínios dos Campeonatos do Mundo. Na prática, pretende-se concentrar numa nova estrutura um dos ativos mais valiosos do desporto mundial, transformando ainda mais o Mundial num produto comercial.
Não é uma iniciativa isolada. Pelo contrário, surge como mais um capítulo de uma gestão que tem feito da maximização das receitas uma prioridade absoluta.
O Mundial deste ano foi disso exemplo. Assistimos à introdução de um sistema de preços dinâmicos para os bilhetes, cujo valor variava consoante a procura, aproximando a venda de ingressos da lógica das companhias aéreas ou dos concertos. Vimos também as novas pausas de hidratação, cuja justificação desportiva rapidamente deu lugar à perceção de que serviam igualmente para dividir o jogo em mais blocos e criar novos espaços publicitários em horário nobre. E tudo isto junta-se ao alargamento do número de seleções participantes, aumentando inevitavelmente o número de jogos, os direitos televisivos vendidos, os patrocínios e, naturalmente, a faturação.


É difícil criticar a FIFA por querer rentabilizar a competição desportiva mais vista do planeta. O Campeonato do Mundo movimenta audiências incomparáveis e receitas astronómicas. Seria ingénuo pensar que esse potencial económico não seria explorado.
O problema começa quando o futebol deixa de ser o fim e passa a ser apenas o meio.
A proposta agora apresentada tem ainda outra dimensão que suscita dúvidas. Entre as informações conhecidas está a possibilidade de a nova empresa ser liderada por uma personalidade próxima de Donald Trump. Independentemente da competência de quem venha a assumir essas funções, é impossível ignorar a relação de proximidade entre Infantino e o Presidente norte-americano, uma ligação que há muito levanta questões sobre a independência e a transparência das decisões tomadas na FIFA.
Naturalmente, existem argumentos a favor desta proposta. Um aumento das receitas poderá traduzir-se numa maior distribuição de verbas pelas federações nacionais, sobretudo pelas mais pequenas. Em muitos países, esse dinheiro pode significar melhores infraestruturas, maior acesso ao futebol para milhares de jovens e um desenvolvimento desportivo que, de outra forma, seria impossível alcançar. Sendo o futebol o desporto mais popular e acessível do mundo, especialmente em países menos desenvolvidos, qualquer investimento que contribua para esse crescimento deve ser visto com bons olhos.
Mas essa é apenas uma das faces da moeda.


A outra representa uma mercantilização cada vez mais intensa do futebol. Uma lógica onde as federações e as confederações vão perdendo autonomia, enquanto o poder se concentra em estruturas cada vez mais afastadas do jogo e cada vez mais próximas dos grandes interesses económicos. É o mesmo caminho que temos assistido no futebol de clubes: uma procura incessante por mais receitas, mais jogos, mais produtos e mais lucro. Agora, tudo indica que essa filosofia pretende conquistar definitivamente também o futebol de seleções.
Até 19 de setembro, as federações terão oportunidade de analisar a proposta e manifestar o seu voto. É possível que, até lá, sejam conhecidos mais detalhes capazes de esclarecer muitas das dúvidas existentes. Talvez surjam mecanismos de transparência, garantias de independência ou modelos de distribuição que alterem a perceção atual.
Mas, com a informação hoje disponível, esta não parece ser uma proposta pensada para fortalecer o futebol. Parece, acima de tudo, desenhada para fortalecer o negócio que vive do futebol.
O futebol sempre gerou dinheiro e continuará a gerá-lo. Isso nunca foi um problema. O problema começa quando todas as decisões passam a ser tomadas exclusivamente em função desse dinheiro. Quando o espetáculo deixa de existir para os adeptos e passa a existir para os investidores. Quando o desporto mais popular do planeta deixa de pertencer ao povo para servir interesses económicos cada vez maiores.
Talvez esta seja uma dessas ocasiões em que o futebol precisa de recordar quem realmente lhe deu a dimensão que hoje tem. Porque nem tudo o que aumenta as receitas representa um avanço. E, por vezes, a melhor decisão é simplesmente saber dizer que não.

