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ATP Challenger Tour Oeiras Open 2: Em casa, mandamos nós!

Diogo Rodrigues · 11 min

Foto: Federação Portuguesa de Ténis

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Depois da dobradinha da semana anterior, o Complexo de Ténis do Jamor, um dos mais belos do mundo nas palavras de vários dos maiores intérpretes da modalidade, voltava a acolher novo torneio ATP Challenger Tour 80, em Oeiras, duas categorias abaixo dos ATP 250. Esperava-se emoção, competitividade, grandes encontros e, já agora, por que não sonhar com nova dobradinha? Convém referir que o quadro desta semana era, francamente, mais aberto e teoricamente de menor qualidade.

O repetente Thiago Monteiro, do Brasil (116º ATP), era o primeiro pré-designado seguido nesse lote de maiores favoritos pelo checo Zdenek Kolar, que voltava igualmente a repetir presença, ocupando a posição 150 do ranking. Nuno Borges atuaria com a pressão de ser o terceiro na lista de potenciais vencedores. No entanto, nomes como Alessandro Giannessi ou Gastão Elias, vencedor na passada semana, também eram jogadores com reais e legítimas chances de sair de Oeiras de sorriso no rosto.

Foto de Capa: Federação Portuguesa de Ténis

NOVO AFASTAMENTO  NA FASE DE QUALIFICAÇÃO

Com meia dúzia de compatriotas a acederem diretamente ao QP, Nuno Borges, Gastão Elias, João Domingues, Pedro Sousa, Pedro Araújo e Tiago Cação, mais cinco tentariam igual desidrato: Henrique Rocha, Fábio Coelho, Miguel Gomes, Jaime e Luís Faria. No entanto, todos falhariam o objetivo; apenas Rocha  avançaria uma das duas rondas necessárias para o conseguir.

MONTEIRO SURPREENDIDO DE ENTRADA

Seria, e com grande “estrondo”, que Thiago Monteiro, quem sabe vítima ainda do desgaste da semana anterior, mas também com a forte possibilidade de ter a cabeça já na época de terra batida que estava mesmo à porta, acabaria surpreendido pelo polaco Kacper Zuk, que não tinha as melhores recordações de Portugal, visto ter sido derrotado numa eliminatória a contar para a Davis, jogada na Maia. Contudo, e superando eventuais fantasmas de tamanho desaire, Zuk atuou a grande nível. E, servindo assombrosamente, derrotaria Monteiro em apenas duas partidas, 7-5 e 6-4, que seriam guia de marcha para um dos mais renomados tenistas brasileiros do século. Uma exibição que, para além de conferir ainda maior imprevisibilidade ao desfecho da prova, deixava água na boca quanto ao desempenho do polaco para o restante evento.

APENAS GASTÃO E BORGES SOBREVIVIAM À SANGRIA DA RONDA INICIAL

Ao contrário da semana anterior, a primeira ronda ditaria a eliminação de quatro tenistas lusitanos: João Domingues, afastado pelo húngaro Zsombor Piros, Tiago Cação, que tombava perante o poderio de Óscar José Gutierrez, brasileiro oriundo da fase de qualificação, enquanto Pedro Sousa cederia diante de Nuno Borges, num confronto fratricida que poderia ter caído para qualquer um dos lados. Ambos com filosofias de jogo diametralmente distintas, rubricaram pontos de elevada nota artística, com a passagem do maiato a ser apenas uma realidade percorridas mais de duas horas e três exigentes partidas.

Também Pedro Araújo (661º ATP) não descobriria antídoto para suplantar um atleta dentro dos 300 melhores do ranking, o gaulês Evan Furness, que acabaria com as ambições do jovem luso. Levada 1h30m por 7-6 e 6-3, com o português, principalmente na primeira partida, a demonstrar que, mantendo esta evolução e qualidade, poderá e deverá muito em breve aceder diretamente a fases de qualificação de torneios de categoria semelhante.

Quanto ao campeão em título, chamaria um figo ao primeiro obstáculo, o germânico residente no nosso país, Sebastian Fanselow, que cedia em dois sets, bem reveladores do momento de forma patenteado pelo tenista que, em 2016, ocupou a posição 57ª da hierarquia.

Ainda de destacar a suada vitória do quinto cabeça-de-série, o cazaque nascido em Moscovo, Dmitry Popko, que necessitou de 2h10m para ultrapassar um muito talentoso checo, Dalibor Svrcina de quem ouviremos, seguramente, falar  num futuro não muito distante.

PIROS SURPREENDE E GASTÃO ULTRAPASSA BORGES

Com os mais credenciados, com maiores ou menores dificuldades, a resistirem ao primeiro encontro, era hora de ver se esse favoritismo continuaria a ser cumprido. Dmitry Popko (153º ATP) trataria de esclarecer que nem sempre o ranking garante por si só o triunfo, pois Piros deixava pelo caminho um dos favoritos a chegar longe na competição.

Quem viu a fase inicial de duelo não o diria, pois o cazaque avançaria  impondo a sua potência para 0-3. Foi então que Piros começou a construir uma receita que combinava na perfeição: abnegação, crença e um incrível jogo de fundo de campo. Resultado: a conquista do primeiro parcial por 7-5.

Na segunda partida, o filme seria idêntico, mas só que, desta feita, e já ultra desgastado pelas longuíssimas trocas de bola, o gigante Popko, de aproximadamente dois metros de envergadura, acusaria, cedendo por 6-4, num encontro com a duração de pouco mais de 1h40m.

O duelo por todos mais aguardado  colocava frente a frente aqueles que, salvo melhor opinião, são os jogadores lusos atualmente em melhor forma. De um lado, Gastão Elias, que parecia estar imbatível. Do outro, Nuno Borges, que, em apenas duas temporadas como profissional, já conferira várias alegrias ao desporto lusitano, entre as quais vitórias em plena Taça Davis e conquistas de torneios desta igualha competitiva.

Depois de um começo consistente de ambos, foi atuando em verdadeiro estado de graça e com o oponente a poder fazer pouco mais que não fosse esperar que a tempestade abrandasse, tal era a quantidade de pontos ganhantes e pancadas ultra agressivas vindas do outro lado, que Borges fecharia por categóricos 2-6. Já no segundo, víamos um Gastão incrivelmente calmo, apesar da copiosa derrota. Aliás, pode ter sido essa uma das chaves para o triunfo do lourinhanense, dado Borges ter mostrado sempre mais as emoções, tanto nos bons como nos maus momentos, conduzindo a um parcial de 7-5 favorável ao mais experiente.

Já na derradeira partida, Gastão, adiantando-se para 3-0, desferiria golpe já mais devolvido, não obstante as incontáveis tentativas frustradas do nortenho, capitulando por 6-3. Este foi, na minha opinião, o encontro com maior qualidade técnico-tática de todo o torneio, com a caminhada de Gastão rumo aos quartos a ser consumada ao cabo de mais de 2h30m de puro regalo para a vista.

MAIS UM TESTE DE “FOGO” TRANSPOSTO COM DISTINÇÃO

Já com Kolar, Kovalik e Giannessi apurados para as meias finais, sendo que apenas o checo necessitara de três partidas para o fazer, eis que Gastão teria pela frente o ultra resistente e combativo Zsombor Piros, da Hungria.

Com seis quebras de serviço nos sete primeiros jogos, tudo menos normal, mesmo tendo em conta que se jogava sob terra, seria o jogo mais cerebral e elaborado tecnicamente. Isto além de estar envolvido numa incrível estabilidade emocional que e, mesmo atuando bem abaixo do rubricado nas rondas anteriores, garantiriam a Elias o triunfo por 6-4 no primeiro set.

Com a segunda partida a trazer um equilíbrio ainda mais latente, seria Piros a granjear uma superioridade de 3-5, prontamente anulada por Gastão  que repunha a igualdade. Só que o atleta de 22 anos, que tem como técnico o progenitor, acabaria por elevar o nível de jogo, arrebatando a partida por 5-7.

Era com ambos a ceder os serviços de entrada que principiava um parcial no qual a maior ciência de jogo, talento, experiência e maturidade de Elias vergariam por 6-3. Em 2h21m, a combatividade, astúcia, garra e resiliência de um atleta que se conseguir dotar o seu Ténis de mais armas ofensivas, será um praticante a militar a breve trecho no top 100 do ranking da ATP. De realçar a incrível capacidade física demonstrada pelo patrício que, em plena terceira partida, e já com mais de duas horas de duelo, fazia alucinantes sprints como se tivesse a idade do oponente.

Assim, ficava alinhado o elenco para as meias finais: Kovalik contra Giannessi, e Elias diante de Kolar. Isto numa jornada em que Borges e Cabral jogariam novo encontro decisivo em casa. Seriam eles capazes de assinar a dobradinha?

GASTÃO À PROVA DE ÁGUA

A jornada dedicada às meias finais de singulares e à final de pares iniciava com o duelo entre o sétimo pré-designado, o eslovaco Jozef Kovalik, ainda sem sets concedidos na competição, e o quinto nesse lote, o transalpino Alessandro Giannessi, que apenas concedera um.

O frente a frente começava com Kovalik a tomar as rédeas dos pontos, aproveitando o fraco segundo serviço do adversário para o castigar. Num parcial interrompido a 2-4, com o mesmo a estar suspenso devido à chuva durante pouco mais de 1h30m, nem isso pararia o domínio evidente do antigo top 60 mundial, que conquistaria o mesmo por 2-6. Já no segundo, e com guião idêntico a parecer ser rescrito, foi, e porventura cedendo à pressão do momento e ao desgaste do encontro, que o eslovaco passou subitamente a cometer erros sem justificação, com o experiente italiano a cair-lhe em cima.

Estando ultra disponível no capítulo físico, foi na base da consistência que se imporia por 6-4. Num terceiro parcial no qual nunca se registou um claro ascendente, com os breaks e pontos para tal a surgirem abundantemente e para ambos os lados, foi então que Giannessi, mesmo desperdiçando a 5-4, não voltaria a repetir o cenário e aproveitaria o serviço, fechando por 7-5, em 2h41m.

Momentos mais tarde, Elias e Kolar lutariam pela segunda vaga na final, reeditando um duelo ocorrido aqui mesmo, no ano transato.

O checo começava bem mais autoritário, imprimindo um ritmo diabólico de fundo do court, forçando Gastão a não comandar os pontos, como é do seu agrado. O luso, por sua vez, parecia preso de movimentos, batendo as suas pancadas bem atrás da linha de fundo, algo que Kolar aproveitava como ninguém. Ele que estava claramente em dia sim. 2-6 era o resultado de um parcial onde Kolar atuava bem acima do seu nível.

Contudo, vários fatores pareciam premonitórios de uma reviravolta: primeiramente, o facto de Kolar quebrar por regra nos segundos sets dos encontros, para além de que Elias havia recuperado nas duas últimas rondas sempre que perdera o primeiro set, invertendo o rumo dos acontecimentos. O perspetivado parecia virar realidade, pois Kolar estava agora bem mais irregular, com Gastão a comandar os pontos e o checo irreconhecível. Isto apesar de Elias ter desperdiçado o break inicial, com o set a ficar igualado a dois. Foi então que, servindo bem melhor e aplicando vários slices, “partia” por completo a mão de um tenista que usava e abusava de bolas em toque, facilmente percebidas e devolvidas com juros por alguém que tem na leitura de jogo um dos principais atributos.

O terceiro parcial seria o período do esmagamento total, com Gastão a mostrar qual a razão de ser o atleta  de terras de Cabral em melhor forma na atualidade, exibindo-se neste tramo de duelo ao nível dos melhores do mundo. Permitiria apenas cerca de uma dezena de pontos ao opositor, carimbando o passaporte para uma, eventual nova conquista , ao cabo de 1h57m.

Já na variante de pares, nova alegria. Borges e Cabral conquistavam mesmo a tão sonhada dobradinha, despachando os checos Kolar e Pavlasek por 6-4 e 6-0, em apenas 51 minutos.

OBRIGADO, GASTÃO

Chegados à hora das decisões encontrar-se-iam Elias e Giannessi, ambos de 31 anos. O face a face registava uma vitória para cada lado. O tenista de Spesia havia levado a melhor em 2017, em Madrid, enquanto Elias se desforrara na semana anterior, nas meias finais do Oeiras Open 1.

Depois de um começo equilibrado, sempre com Gastão a procurar ser ele a comandar os pontos, única forma de quebrar a resistência antagonista, acabaria por dispor de dois pontos de break ainda prematuramente, ainda que anulados com mérito.

Mas Giannessi não aguentaria nova investida, com Gastão a gerir tranquilamente até ter serviço para resolver o primeiro parcial, estavamos então com 5-4. Foi então que o italiano, agarrando-se mais que nunca aos pontos, qual rocha, e contando também com alguns erros pouco frequentes, até então, de Elias, dos quais destaco um smash falhado com o adversário já batido, faziam o placard ficar igualado a cinco.

Com Gastão a voltar a acelerar, desferia nova quebra no serviço contrário, mas Giannessi, mais ofensivo que nunca, teria o mérito de conduzir tudo a um tie-break. Aí, e com ambos a assegurarem os respetivos pontos de serviço até ao 3-3, a primeira mudança de lado, seria uma tentativa de fugir à esquerda, com esse mesmo lado a ficar em aberto. O luso executaria uma esquerda bem batida na subida e mesmo centrada na encordoação da raquete, que lograria fechar uma primeira partida que se estendia ao longo de 69 minutos, com esta a ser embolsada por 7-4 no jogo decisivo.

O diapasão de equilíbrio parecia repetir-se, a avaliar por um jogo de serviço inaugural de Giannessi bastante discutido, mas seria mesmo aí, e devido a uma bola do italiano fora por escassos centímetros que daria o break a Gastão, que o transalpino se envolveria numa acalorada discussão com o juiz de cadeira, que jamais deram a paz de espírito necessária para se voltar a focar no essencial, com este a ficar totalmente fora de si. Imperturbável a fatores extra jogo, o caseiro usou da sua experiência para capitalizar a frustração alheia e, em apenas 28 minutos de segundo set, carimbaria o décimo título Challenger da carreira, fechando o parcial em 6-1.

Deste modo, Gastão encerrou com chave de ouro duas semanas em que esteve imparável, provando que, mesmo para além dos 30, mantendo este nível estratosférico, poderá e deverá, tal como merece, reentrar nos 100 melhores da hierarquia, garantindo que, por agora ascenderá até à posição 156 da mesma.

Endereça-se os parabéns ao jogador e respetivo staff por estas duas semanas absolutamente memoráveis para o Ténis nacional, assim como a todos os que tornaram estes sucessos lusitanos possíveis.

Artigo revisto por Gonçalo Tristão Santos

Diogo Rodrigues

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