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Chama-se Coimbra, nasceu em Viseu, cresceu na Amora e entusiasmou no Benfica. A viagem da carreira de João Coimbra permitiu-lhe, acima de tudo, cumprir sonhos, conhecer ídolos, juntar grandes amizades, e ter muitas histórias … das boas. Nem sempre a carreira lhe sorriu e, por incrível que pareça, foi com um sorriso de amarelo que viveu dos melhores momentos na carreira. Na formação viveu um jogo que ninguém quis ganhar e, no jogo da vida, perdeu alguém muito especial.

Enquanto jovem e com as quinas ao peito não esquece o troféu que levantou na sua cidade, mas pouco se lembra da vez que, no hospital em Espanha, o médico lhe repetiu a mesma frase vezes sem conta, depois de Diaby lhe ter batido à cabeça. Para trás ficam os risos do Mantorras, balneários inesquecíveis, boas relações e histórias com os treinadores, o choque da Índia e um Benfica que nem sempre deu o apoio que era preciso. Nesta viagem pela carreira, o jogador de 34 anos reconhece alguma autocrítica e conta como foi surpreendido numa ourivesaria na Suíça pelo Geovanni.

A viver no Luxemburgo, com Portugal no horizonte, o médio antecipa o que quer para o resto da carreira. A boa disposição de João Coimbra fez com que, em jeito de remate, coisa que o jogador do US Mondorf-les-Bains nunca teve muito, assim admite, tivesse de poupar os leitores ao retirar muitos do “(risos)” ao longo de toda a entrevista.

 

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«Isso marcou-nos muito, marcou muito a minha carreira. Foi sem dúvida uma das coisas mais tristes que me aconteceu na carreira»

Bola na Rede: Começando mesmo pelas raízes da tua carreira no futebol, como chegas à formação do SL Benfica?

João Coimbra: Nasci em Viseu, em Santa Comba Dão, mas sempre vivi na Margem Sul, na zona de Lisboa. Vivi desde cedo na Cruz de Pau, em Amora e, no prédio onde morava, a zona era situada numa rua fechada, praticamente todos os dias jogávamos à bola. Fazíamos balizas de madeira, com pregos e com redes. O gosto do futebol surgiu daí e também do meu pai que sempre foi um benfiquista ferrenho que me levava aos jogos do Benfica. Sempre tive um gosto pelo futebol. Lembro-me que com sete/oito anos a única prenda que pedia aos meus pais era que me deixassem jogar futebol, na altura no Amora que era mais perto de casa. Aos nove anos, penso eu, lá consegui convencer a minha mãe e fui fazer testes ao Amora e, logo no primeiro treino, o treinador que era o mister Rocha, pediu-me logo o bilhete identidade, na altura nem tinha ainda. Fiquei logo, entrei mais ou menos a meio da época. Foi uma época onde o resto da temporada correu muito bem ao Amora. Eramos escolinhas e fomos até ganhar a Setúbal, que era a principal equipa da Margem Sul. Tínhamos mesmo uma boa equipa e, na altura, o Benfica tinha um protocolo com o Amora e fomos treinar cinco no fim da época ao Benfica. Ficamos três, o que mostra também a boa equipa que tínhamos. Desde então consegui ficar no Benfica onde fiz o resto da minha formação.

Bola na Rede: Durante a formação apanhas alguns jogadores que até conseguiram carreiras interessante, o Sílvio e o Manuel Fernandes por exemplo. Numa fase que se fala tanto de formação e Seixal, até que ponto se perderam bons talentos e bons jogadores na altura da tua formação? 

João Coimbra: Claramente. Digo isto muitas vezes, independentemente da carreira que fiz, consegui chegar a profissional do Benfica, mas acredito que hoje muitos mais podiam chegar. As condições hoje são totalmente diferentes, ainda por cima, a minha geração apanhou a mudança de estádio, a destruição do antigo para construção do estádio novo. Andávamos a treinar em campos pelados nas redondezas de Lisboa. Andávamos com os cestos às costas como costumávamos dizer, e os jogos não eram como agora. Agora desde os sub-10 já são televisionados. Agora há muitos jogadores que saem por milhões antes de chegarem à equipa principal, exemplos de Bernardo e Cancelo. Acredito que na minha altura, que se tivéssemos as mesmas condições, mais poderiam ter chegado lá cima (equipa principal) porque tínhamos muita qualidade.

Bola na Rede: És campeão de juniores pelo Benfica, como foi ganhar esse título?

João Coimbra: O campeonato de juniores foi um dos títulos mais significativos para mim em termos pessoais. Nesse ano perdemos o Bruno Baião, o nosso colega de equipa que faleceu depois um treino, devido a problemas no coração. Foi sem dúvida nenhuma um título que nos marcou muito, num ano que foi muito triste para todos nós. Isso marcou-nos muito, marcou muito a minha carreira, nunca me tinha acontecido algo do género. Foi sem dúvida uma das coisas mais tristes que me aconteceu na carreira. Felizmente conseguimos também ganhar o título para dedicar a ele e à família, mas foram momentos muito dolorosos.

Bola na Rede: Pela seleção portuguesa és campeão europeu sub-17. Que recordações guardas desse torneio?

João Coimbra: Acima de tudo foi um título ganho na nossa terra, em Portugal. Nós com 17 anos termos ganho, ainda por cima em Viseu, onde nasci, e ter aquele estádio do Fontelo cheio, lembro-me muito bem de darmos a volta ao campo a festejar com as pessoas todas, lembro-me de quando vamos receber a taça e começarmos a todos a cantar o hino para todos os portugueses. Foi um marco importantíssimo e uma satisfação enorme de poder ganhar um título tão importante com as nossas cores.

Bola na Rede: Meses depois do Europeu e de ganharem a final à Espanha, perdem com os “nuestros hermanos” nos “quartos” do mundial sub-17. Foi difícil de digerir a derrota. Além disso, estavas a marcar o Cesc Fàbregas nesse jogo, e ele fez um bis, levaste muito na cabeça no balneário?

João Coimbra: Não, não, se bem me lembro, no dia a seguir, fui até num dos jornais considerado o melhor em campo do lado dos portugueses. Mas acima de tudo foi um mundial onde acredito que não fomos completamente preparados fisicamente. Vínhamos de férias, já depois de termos ganho o Europeu e talvez não tivéssemos nas nossas melhores capacidades físicas e demonstra bem a sequência de jogos que tivemos. Salvo erro, tivemos três jogos seguidos a sofrer cinco golos. O primeiro até estávamos a ganhar 5-0 aos Camarões, a 20 minutos do fim empatamos 5-5. A nossa sorte é que o empate dava e passamos, mas, entretanto, perdemos com a Espanha, 5-2, e até tivemos a vencer por 1-0. Uma exibição muito boa do Fàbregas que acabou por ser o melhor marcador desse Mundial…

Bola na Rede: Melhor marcador juntamente com o Manuel Curto…

João Coimbra: Sim, sim, tinha os mesmos golos, mas menos jogos, exatamente.

Bola na Rede: Em um dos teus embates pelas camadas jovens de Portugal tens um encontro insólito com a Itália, queres contar melhor esse jogo?

João Coimbra: Isso foi em sub-19, isso é surreal, surreal mesmo. Para um apuramento para o Campeonato da Europa de sub-19, eramos nós, a Itália, e o Cazaquistão, ou qualquer coisa e outra equipa no grupo. Entretanto nós ganhamos os nossos dois jogos e a Itália igual. Só que nós tínhamos uma melhor diferença de golos, e quem passasse em primeiro lugar tinha uma desvantagem que era fazer grupo de apuramento com França, Espanha e Israel. E então o melhor era passar em segundo lugar, mas nós, eu sou sincero, fomos para o jogo tranquilo a pensar em ganhar. Com o desenrolar da primeira parte eu estava a achar muito estranho os jogadores italianos a trocarem muito a bola, a não arriscar e tal, até que no início da segunda parte o nosso mister nos manda subir todos num pontapé de baliza da Itália. Nessa situação estávamos os jogadores todos em volta da área da Itália. O guarda-redes vai para bater o pontapé de baliza e começa a olhar para os colegas e para o treinador sem saber o que fazer e, chuta a bola para fora. Entretanto começamos a fazer pressão ao contrário, metemo-nos ao contrário, a tentar que eles fossem para a nossa baliza. Os avançados deles ficaram sem saber o que fazer, ficavam a olhar uns para os outros, a passar para trás ou a mandar a bola para fora. O estádio estava cheio e começou toda a gente assobiar, foi uma coisa surreal, nunca tinha experienciado e nunca mais voltei a experienciar. A verdade é que nós acabamos por empatar o jogo 0-0 e passamos em primeiro. Não passamos a outra fase com a França e com a Espanha, onde tive um dos momentos mais marcantes a nível negativo na carreira.

Bola na Rede: O que aconteceu?

João Coimbra: No jogo com a França levei uma pancada, salvo erro, do Diaby, onde levei com o joelho na nuca e tive um traumatismo crânio-encefálico, até com uma paragem cardíaca momentânea, onde tiveram de me entubar e tudo, pelo menos é o que me dizem, porque não me recordo muito bem. Eu não me lembro muito bem, só me lembro de acordar no hospital, aquilo foi em Espanha, mas estávamos a jogar com a França. No hospital lembro-me do médico me dizer “João, estamos em Espanha, estás na seleção, aconteceu isto e isto no jogo e já é a décima vez que te estou a dizer isto”. Eu acordava, ele dizia e eu voltava a dormir, e não me lembrava. Tanto que quando cheguei ao Hotel já não reconhecia o Hotel. Estava no quarto com o Ivanildo, um dos melhores que conheci na bola, espetáculo, quase não me falava. Comecei a achar estranho, e isto também tinha sido no ano em que acho que tinha acontecido a morte do Fehér e a seguir também à situação do Bruno Baião. Só uns anos depois é que o Ivanildo me disse que depois de me ter visto naquela situação no campo, e no dia seguir estava tranquilo a falar com ele, lhe fez muita confusão. A verdade é que nessa fase de grupos acabamos por perder os três jogos.

Bola na Rede: Como foi a recuperação dessa situação, tiveste algum “problema” nos dias a seguir?

João Coimbra: Não, não, no dia a seguir estava pronto para jogar se quisessem, só que os responsáveis na altura não quiseram, e quando vim para Portugal ainda me fizeram mais exames a ver se estava tudo bem. Duas semanas depois já estava a jogar.

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