Trabalharam durante dois anos no Fulham antes do médio abandonar o clube rumo aos alemães do Bayern Munique. De Londres até Lisboa, Marco Silva e João Palhinha vão mesmo reencontrar-se no Benfica, depois de um negócio complicado e controverso.
Financeiramente, é um investimento que está a ser mais debatido do que a história do ovo e da galinha. É verdade que é um encargo financeiro que, a consumar-se totalmente, pesa 19 milhões de euros aos cofres do Benfica por um jogador de 31 anos. É igualmente verdade, e talvez mais honesto, que o Benfica está a investir 14 milhões de euros num jogador que foi titular na liga inglesa na temporada passada, num negócio que ainda pode chegar perto dos 20 milhões de euros.


Dou a mão à palmatória: o Benfica fez bem em deixar o mercado correr mesmo que isso significasse que o mercado corresse atrás de Palhinha – o Bayern não contava com o jogador e, por redundância, não queria que o jogador continuasse no clube depois do fecho do mercado, pelo que é um caso raro onde o valor que o clube vendedor pede pelo jogador seria sempre menor à medida que o mercado se aproximasse do fecho.
Posto isto, não sou o principal admirador das qualidades de João Palhinha: não é o meu tipo de médio defensivo predileto, mas há também que enquadrar no contexto, que tem algumas nuances. O internacional português chega como pedido expresso de Marco Silva, o facto do Benfica ter estado tanto tempo neste negócio também dá força ao treinador e mostra o peso que o mesmo já tem na estrutura e nas decisões de mercado, ainda que só tenha chegado há dois meses. Observando as debilidades que o Benfica tem em transição defensiva, bolas paradas defensivas e até quando se resigna ao seu bloco médio, percebo porque é que Marco Silva fez tanta força para juntar Palhinha ao seu plantel.
Separando as coisas, não quer isto dizer que o Benfica não está a praticar um bom futebol ou que Marco Silva tem feito um mau trabalho. De facto, o Benfica tem apresentado uma elevada produção ofensiva cujos precedentes remontam há mais de dois anos. No entanto, por imposições do coletivo e por características dos jogadores do plantel, a transição defensiva do conjunto encarnado é débil, o bloco médio parece frágil e a bola parada defensiva é um desastre à espera de acontecer- Lenglet e Tomás Araújo são dois bons defesas centrais com bola no pé, capazes de criar espaço em condução e encontrar companheiros entre linhas, mas não dominam o jogo aéreo nem são vencedores de duelos.
Na mesma linha, Enzo Barrenechea também acrescenta critério na posse e pausa em ataque prolongado, ficando aquém das expectativas para um médio defensivo em termos de raio de ação e transição defensiva. Com isto, o Benfica de Marco Silva tem depositado as suas esperanças defensivas na pressão alta, na reação à perda de jogadores como Prestianni e Barreiro e no comprometimento defensivo coletivo, ainda que as características para tal sejam escassas no 11 base até agora apresentado.
Face a este problema, aumentar a capacidade física da equipa com reforços como Alessandro Circatti e João Palhinha faz todo o sentido, não só aumenta o leque de opções existentes no plantel (lembrando que a época será jogada à quinta-feira e ao domingo), bem como são perfis diferentes e adequados às necessidades.


O perfil de Palhinha já conhecemos: é um ‘6’ destruidor de elevado raio de ação e que vale mais sem bola do que com bola, o completo oposto de Barrenechea e mais semelhante a Florentino, ex-jogador do Benfica e antecessor do argentino nessa posição. Acrescenta ameaça na bola parada ofensiva e presença na bola parada defensiva. De certo, terá um papel predominante a travar contra ataques adversários e mais presença em vigilância ofensiva do que propriamente a construir como Barrenechea faz, e talvez seja esse o desafio imediato de Marco Silva: quem joga?
O nome de Enzo Barrenechea tinha um traço por cima não há muito tempo atrás, mas hoje fala-se do argentino como um jogador importante do Benfica. O jogador não mudou, mas o contexto sim. O sistema de Marco Silva privilegia e protege muito mais o argentino do que o antigo duplo pivot. O jogador está confortável, confiante e a equipa está a ganhar, o que mudará com a chegada de João Palhinha? O português joga por estatuto? Aplica-se a meritocracia? Talvez a resposta ao problema se refugie em expressões como ‘falta de ritmo’ e a exigência competitiva justificará a rotação.


A fraca qualidade de Palhinha com bola poderá ser pouco notória se os encarnados mantiveram esta dupla de centrais, mascarando as dificuldades com bola do médio defensivo com as qualidades em construção de Lenglet e Tomás Araújo ao mesmo tempo que se mascara as fragilidades defensivas dos dois defesas centrais com as virtudes sem bola de João Palhinha.
Há que pensar também como Marco Silva montará a sua equipa em ataque posicional: frente ao AGF Aarhus, Barrenechea atuou como central à esquerda e a rede encarnada montou-se com os dois centrais e o médio argentino no meio campo dinamarquês e a serem responsáveis pela construção.
Com Palhinha, naturalmente terá que ser diferente para fazer melhor uso do raio de ação do português, isto é, pouco sentido faz contratar um médio que ajude na recuperação de bola e colocá-lo perto de uma faixa lateral. Marco Silva pode entender Palhinha como um médio fixo à frente dos centrais, formando um triângulo inicial ou até juntar Palhinha no meio dos centrais, formando a mesma rede de anteriormente, mas com alinhamento diferente.
Seja-se apreciador ou não das qualidades de João Palhinha, o impacto de um jogador com rodagem recente de Premier League em solo português é inegável, basta perguntar ao Bednarek. O médio português traz características diferentes do que há no plantel e coloca pontos de interrogação sobre a continuidade de algumas figuras pela Luz, entre as quais Barrenechea, Manu e até Ríos. Cabe agora a Marco Silva arrumar a casa e harmonizar a equipa taticamente, tendo em vista as características dos jogadores e do jogo seguinte.

