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5 factos desconhecidos sobre o futebol em Portugal

Inês Figueiredo Mendanha · 7 min

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Em Portugal, temos tendência para nos focarmos na actualidade do futebol, onde o desporto anda de mãos dadas com interesses de todos os tipos; no entanto, Portugal tem uma história futebolística muito rica, com episódios marcantes que devem ser recordados pêlos amantes do desporto-rei, cobrindo histórias desde uma época em que o futebol aclarava os dias negros de um país submergido em ditadura, até aos recordes mais recentes que transformaram a Ocidental Praia Lusitana numa referência para o futebol mundial. Assim sendo, aqui vão cinco factos desconhecidos sobre o futebol português.

5.

Um presidente que virou primeiro-ministro – Não, não estou a falar de Silvio Berlusconi, presidente do AC Milan durante 31 anos e antigo primeiro-ministro de Itália. Em 1995, num breve afastamento da política activa, Pedro Santana Lopes, aceita o desafio de José Roquette, neto de José Alvalade, e candidata-se à presidência do Sporting Clube de Portugal. Reza a história que o neto do fundador do clube tinha uma estratégia para o clube, mas não tinha imagem nem vontade de se envolver directamente no futebol (pelo menos à data…), e por isso, decidiu apoiar alguém com forte imagem pública, escolhendo Santana Lopes para o efeito, mediante a condição de este não se envolver em qualquer actividade política enquanto se mantivesse à frente dos destinos do clube de Alvalade.

Assim, Santana Lopes foi presidente do clube de três de Junho de 1995 a 10 de Abril de 1996. No seu curto mandato, comemorou a conquista da Taça de Portugal de 1994/1995, frente ao CS Marítimo; acabou com várias modalidades do clube, como o futebol feminino, voleibol, hóquei em patins e basquetebol. No entanto, a sua passagem ficaria marcada pela ruptura com o treinador leonino, Carlos Queiroz, demitido do clube em 1996 e substituído por Octávio Machado. A sua demissão do cargo de presidente do Sporting foi ditada por circunstâncias políticas, sendo substituído por José Roquette, que ao levar a cabo reformas profundas no funcionamento do clube, conseguiu conquistar um título de campeão nacional ao fim de 18 anos de seca.

4.

A Batalha de Nuremberga – À primeira vista, a Batalha de Nuremberga parece ser uma campanha militar entre Aliados e as Potências do Eixo, ocorrida na Segunda Guerra Mundial, como a Batalha de Dunkirk ou da Grã-Bretanha. Spoiler: não é. Acreditando-se ou não, foi um jogo de futebol (embora mais parecesse de futebol americano) dos oitavos-de-final do Mundial de 2006, entre Portugal e Holanda. É considerado o jogo mais violento da história dos Mundiais de Futebol; bateu o recorde de cartões distribuídos: ao todo, foram mostrados 16 cartões amarelos e quatro vermelhos.

Às vezes, dizemos que numa determinada partida, o metro quadrado pagou-se caro, mas só ficamos a saber, verdadeiramente o significado dessa expressão ao vermos este jogo. O festival de pancadaria começou cedo: aos seis minutos, Boulahrouz entra de sola à coxa de Cristiano Ronaldo (que à custa de tanta pancada, viria a ser substituído logo aos 34’), entrada logo vingada por Maniche com uma rasteira a Van Bommel; segundos depois, Costinha abalroa Cocu e pouco depois, Nuno Valente aplica um golpe de Karaté a Robben, que foi entendido como pé em riste do holandês. Após um carrinho a Deco, Figo dá uma cabeçada a Van Bronckhorst; logo a seguir, Boulahrouz dá uma cotovelada a Figo e é expulso. Depois, após um carrinho por trás de Deco a Heitinga, Petit implica com o holandês e é agredido por Sneijer. Entretanto, Deco atrasa uma reposição de bola dos holandeses, é derrubado por Cocu e expulso por acumulação de amarelos. Nos descontos, Van Bronckhorst rasteira Tiago e é expulso por acumulação de amarelos. Algures no meio deste espectáculo de MMA, Maniche fez o golo que apurou Portugal para os quartos-de-final da competição.

3.

O espião Cândido de Oliveira – Todos os anos ouvimos falar de Cândido de Oliveira, quando se joga a supertaça baptizada com o seu nome, mas poucos imaginam a relevância deste nome para o país. Cândido Fernandes Plácido de Oliveira nasceu em Fronteira, Portalegre, a 24 de Setembro de 1896 de onde foi enviado para a Casa Pia de Lisboa em 1905 após ficar órfão.

Desde muito novo, demonstrou ter  jeito para a bola e em 1914/15 começou a jogar pelo SL Benfica até 1920, ano em que, juntamente com mais alguns colegas da instituição, fundou  o Casa Pia AC. O espírito de liderança fê-lo capitão de equipa no primeiro jogo da história da Selecção Nacional a 18 de Janeiro de 1921, num jogo em Madrid, contra a Espanha, onde a equipa lusa acabaria por sair derrotada por 3-1.

Mas o Mestre Cândido, como a História o viria a lembrar, cedo pendurou as chuteiras e para abraçar uma histórica carreira de treinador, que começou em 1926 como seleccionador nacional, por lá ficando até 1929. Como à época, o futebol não era considerado uma profissão, Cândido de Oliveira trabalhou também como inspector geral nos CTT onde tinha acesso privilegiado a informações ligadas à espionagem, de que Portugal era um núcleo, durante a II Guerra Mundial, uma vez que era um país “neutro”.

O Mestre Cândido, que entretanto, voltara a treinar a selecção nacional (de 1935-1945), tornou-se agente de uma rede clandestina inglesa, formada com o objectivo de informar os Aliados sobre as movimentações alemãs no país e organizar grupos de resistência activa e passiva. Em virtude da sua participação na rede de espionagem britânica e da sua oposição ao regime, Cândido de Oliveira é detido em 1942 pela PVDE e enviado para o Tarrafal, onde permanece de Abril de 1942 a 1944, testemunhando os horrores do regime ditatorial. No entanto, a sua reputação e imagem internacional permitem-lhe viver um cárcere com algumas “regalias”, vivendo do lado de fora do campo e não sendo obrigado a participar nos trabalhos forçados. Após voltar ao país, retoma a sua carreira como treinador e empenha-se no jornalismo, deixando um legado inigualável.

2.

Eusébio e o Aproveitamento do Regime – É um facto mais que sabido que o regime do Estado Novo se aproveitou dos portugueses que puseram o nome do país nas bocas do mundo, nomeadamente Amália Rodrigues e Eusébio, dois monumentos nacionais em áreas completamente distintas. No entanto, há um mito que permanece inexplicado até hoje: Salazar impediu que Eusébio saísse do Benfica? As opiniões dividem-se.

O próprio Pantera Negra deixou a ideia de que em conversa com o ditador, teria ficado com a impressão de que estava proibido de deixar Portugal e o Benfica. Em 1962/1963, o King teria um pré-acordo com a Juventus FC; no entanto, o serviço militar obrigatório, fizeram com que permanecesse no país e no clube. Mais tarde, após ganhar a Bola de Ouro em 1965 e depois do sensacional Mundial de 1966, em que a Selecção Nacional ficou em terceiro lugar e Eusébio ganhou a Bota de Ouro de melhor marcador, com nove golos (não esquecer que Eusébio, embora tivesse nascido em Moçambique, como o país era território ultramarino, os seus cidadãos eram considerados portugueses), o Pantera volta a ser cobiçado por clubes italianos.

Reza a história que, mais uma vez, Salazar impediu a sua ida para o estrangeiro, mas o seu colega de equipa, António Simões, diz que na verdade, em função da péssima campanha dos italianos no mundial (não passaram da fase de grupos, foram recebidos em casa com tomates e hortaliças), a federação italiana proibiu a entrada de estrangeiros para permitir aos italianos formar uma nova selecção e isso impediu a saída de Eusébio para o estrangeiro. À falta de consensos nesta matéria, concordemos antes no seguinte: Eusébio foi o melhor jogador de sempre do Benfica. Um dos primeiros avançados de classe mundial africano. Um dos melhores jogadores portugueses de todos os tempos. O Pantera Negra merece, ao menos, este consenso.

1.

Bolas de Ouro – Portugal, com os defeitos e qualidades que todos lhe reconhecemos, pode-se gabar de ser um berço de estrelas. Do futebol, atenção. Nomes como Eusébio, Figo, Cristiano Ronaldo… impõem respeito. Ao todo, Portugal já soma sete Bolas de Ouro: Eusébio, em 1965, Luís Figo, em 2000 e Cristiano Ronaldo em 2008, 2013, 2014, 2016, 2017. Um registo verdadeiramente incrível, para um país pequeno como o nosso. No quadro mundial, somos apenas batidos pela Argentina, que tem nove: uma de Sivori, duas de Di Stéfano, seis de Messi. Maradona não podia ganhar o prémio, porque só a partir de 1995, jogadores não-europeus passaram a poder disputar o troféu (Sivori e Di Stéfano, tinham dupla-nacionalidade). Também a Alemanha ombreia com Portugal, tendo os mesmos sete prémios: dois de Beckenbauer, dois de Rummenigge, um de Gerd Muller, um de Lothar Matthaus e um de Matthias Sammer. No entanto, o actual capitão da Selecção Nacional, que com os seus 35 anos, continua a parecer ter 20, ainda pode mexer na balança. É pêlo menos isso que eu, enquanto portuguesa, espero que venha a acontecer.

Inês Figueiredo Mendanha

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