Desde o primeiro momento em que obtive contacto direto com o presente projeto, o jornal Bola na Rede, já escrevi, por uma ou duas vezes, uma espécie de desabafo em forma de súplica para que não volte a acontecer mais do mesmo no Sporting. Ataca-nos a inexperiência, a ignomínia e o dirigismo saloio e volta tudo ao (a)normal. E porquê? Porque estamos sob as asas de um clube a gritar decadência, abate e, na melhor das hipóteses, completa renovação nos diversos setores de labuta de modo a que se erga e que volte a ser o que outrora foi. Alguém depositou e entranhou esta pandemia no clube, portanto tratemos de fazer uma rusga em torno do responsável!

Os acontecimentos em torno do clube começam a adquirir um caráter que possui tanto de indiscritível como de absurdo. Existem mesmo coisas (a única maneira que encontrei para designar) que só acontecem no meu clube. Um exemplo ilustrativo constitui a posse de quarenta e não sei quantos presidentes. É verdadeiramente incrível a “viscondice” e a bajulação ao poder que os aficionados encerram em si. O facto traduz-se nada mais, nada menos, na luta (já antiga) entre a traça e a roupa: os dirigentes rompem a vestimenta do clube e obrigam-no a remendar-se simultaneamente.

A época encetou com o desastre da Supertaça Cândido de Oliveira. (O leitor que não espere uma análise meiga e perdulária da minha parte, portanto cá vai). Objetivamente e de modo sucinto, o 5-0 evidencia as sucessivas hecatombes que iriam sobrevoar Lisboa e remontar ao terramoto de 1755. No Estádio do Algarve, o leque de desculpas diminuiu drasticamente: o Lex, o E-Toupeira, os vouchers, o Zé Veiga, os bilhetes de Mário Centeno, o som do very-light. “Isso eram peanuts”. Quem desculpou a derrota dessa ou de outra forma semelhante, grita desonestidade intelectual. Perdemos porque fomos e somos inferiores em larga escala e em todos os contextos. A estrutura montada até aí, bem como as estratégias delineadas ruíram e poucas pontas estavam efetivamente presas…

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(Pelo meio, aquela sensacional reviravolta invertida diante do FC Famalicão…)

O comboio do Sporting parou no apeadeiro de Alverca. Na competição em que tinha sido consagrado vencedor no ano transato, saiu pela porta pequena na primeira eliminatória. E aqui? Quais foram as desculpas perante tamanha humilhação? Observei, perplexo, comentários como “a equipa titular não jogou”, “devia ter jogado na máxima força” ou “o Alverca é candidato à subida” (o meu preferido, sem sombra de dúvidas). Esfreguei os olhos, bocejei e lavei a cara com água gélida. Mas não era um pesadelo… A eliminação aconteceu! E perante ela, vejo o esgrimir de argumentos nulos do ponto de vista da solidez. Nem um golo marcado? Um 2-0 sem qualquer tipo de contenda? A obrigação do clube de Alvalade era a passagem à próxima eliminatória, independentemente do onze que se registasse! Imaginem se tivesse jogado o Mantorras…

(Em Tondela, o leão foi um gato. Em Barcelos, um felino ainda mais manso e meigo do qual não me lembro do nome nem sei se existe.)

Sporting
A época leonina tem sido para esquecer
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

As competições europeias, surpreendentemente, consistiam em exibições menos más e detentoras de algum ímpeto e pujança, embora a passagem aos 16/avos pudesse ser feita na primeira posição do grupo: inadmissível o desastre na Áustria diante do Lask Linz (3-0) e a atitude que o Sporting adotou na partida, marcada pela agoniante passividade e pela atitude satisfatória com o mínimo.

(A receção ao FC Porto e ao SL Benfica foi efetuada com um tremendo insucesso. No total, a turma leonina confiscou zero pontos. “Mas bateu o pé”, “mas jogou de igual forma e, em diversos momentos do jogo, foi superior aos rivais”. Mas perdeu!) *
*Nota: O jogo decorrido na Pedreira, diante do SC Braga, não merece comentários da minha parte, nem acho que mereça de qualquer adepto.

Ora, fora das três principais competições nacionais, restava uma resposta positiva na Europa: em Alvalade, na primeira mão, diante do Istanbul Basaksehir, a formação verde e branca pintou, possivelmente, a melhor exibição da época até à data e o golo sofrido caracteriza, por um lado, o esforço dispensado e que se traduziu inglório e, por outro lado, a importância que era atracar na Turquia com o registo limpo. Lá, na passada quinta-feira, decorreu mais uma réplica do sismo da Supertaça – prevísivel – e o Sporting CP caiu com estrondo. Não sou bruxo nem possuo poderes vaticinadores de coisa nenhuma, mas conheço o meu clube: o bafio da eliminação estava ali quando, ao intervalo, a eliminatória se encontrava empatada. O tento leonino iludiu os mais distraídos e o golo turco, ao cair do pano, demonstrou o fenómeno do “acontecer Sporting”.

Até aqui, o panorama desportivo. Agora o panorama estrutural e financeiro:

O mercado de transferências trouxe prendas envenenadas ao clube e dissabores futuros: Jésé, Bolasie, Fernando e Eduardo. No sentido inverso, Bas Dost viajou para Frankfurt, Thierry Correia acelerou para Valência, Raphinha para o Rennes e Bruno Fernandes, no mercado de inverno, para Manchester. (Note-se que a prioridade passava pela compra de um central, um médio (posição seis) e um avançado). O processo perfeito de managing de uma empresa dita grande e eclética. Frederico Varandas escusa de tentar adentrar no ramo da competência porque continuam a pairar sobre o clube as assombrações de Hugo Viana e Beto. A formação sempre foi o método de sobrevivência da instituição promotora de verdadeiras coqueluches e agora é atirada para uma valeta e despejada nos contentores da traição de valores mais altos. A direção presente vai necessitar de se aplicar para explicar e argumentar a favor da política de contratações atuais, quando possuía exemplos como Matheus Pereira, Daniel Bragança, Ryan Gauld, Domingos Bragança, etc.

Além desta súmula de problemas e do mar de incertezas, urge a discussão acerca da rescisão de Jorge Silas: portanto, a lógica é despachar um treinador sem qualquer tipo de matéria prima ou apetrecho para competir seja pelo que for e que fez o máximo que lhe foi possível durante a estadia em Alvalade. A não ser que a cúpula dirigente esteja a delinear um projeto sólido, alternativo e aliciante de preparação da época que se avizinha e não queira contar com o atual treinador por já ter destinado o lugar a outrem. Sublinho o termo aliciante, pelo facto de qualquer pessoa, no auge da sua sanidade mental e conhecedora da atualidade desportiva do clube, não querer – e muito bem – treinar o Sporting CP. Por acréscimo, as expectativas nem nos índices mínimos se situam, porque a estratégia continua sem existir, os fundos de meneio e a tarimba idem e o acesso à Champions League, competição de elevado prestígio, é a condição, tão necessária como suficiente, de trazer alguém que seja capaz de revolucionar toda esta pasmaceira.

Um último reparo: antes de estratégias, planos, projetos e parcerias, o grande desafio passa pela chegada à gruta onde a UNIÃO mora, lá ao longe…

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão