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«Golo de Charisteas? Não foi por esse lance que perdemos a final» – Entrevista BnR com Ricardo

Herói para uns, vilão para outros. Na certeza porém que, se não fossem os seus reflexos felinos, o futebol português teria perdido aquele que é, talvez, o momento mais épico da Seleção Nacional numa grande competição. Fez-se Homem sob o desígnio da pantera, mas foi de leão ao peito que enfrentou a selva do futebol português. Passou por terras de “nuestros hermanos”, mas foi em Leicester que se sentiu em família. Num exclusivo Bola na Rede, aqui tendes Ricardo Pereira, por quem um dia o Rei se ajoelhou.

– Guarda-redes-avançado avançou rumo a Norte –

“O Manuel José soube que o Quinito ia levar-me para Guimarães e antecipou-se: mandou o João Loureiro e o Álvaro Braga Junior ao Montijo, para me levarem”

Bola na rede [BnR]: Gostava de começar esta entrevista com um assunto fraturante: gabas-te de nunca ter falhado algum penálti na tua vida, mas a janela da casa de banho do talho da D.ª Maria Emília desmente esta afirmação. Em que ficamos?

Ricado Pereira [RP]: Epá, como é que sabes isso? [risos] Aquilo não foi um penálti, foi um livre direto! À noite, depois do banhinho tomado e do jantar, pedíamos sempre aos nossos pais para ir um bocadinho até à rua e por lá ficávamos, porque antigamente entretíamo-nos na rua: jogávamos ao “garrole” (…) sabes que jogo é este? Um grupo de malta fugia e um tipo ficava parado; quando alguém gritava “garrole”, esse gajo ia atrás da malta e combinávamos previamente se era o jogo dos 15 passos, ou dez, ou 20… se ele dissesse “garrole” a alguém, dentro do espaço que tínhamos combinado, essa pessoa tinha de parar obrigatoriamente e ficava ela a apanhar. Opa, eram jogos que se faziam naquela altura e juntávamo-nos todos em frente ao talho, que tinha aquelas janelas maiores com uma soleirazinha para estarmos sentados. Havia sempre alguém que trazia uma bola… nesse dia, a bola vem no ar e eu dei uma cabeçada: acertei mesmo na janela pequenininha e estoirou o vidro todo.

BnR: Labreca de alcunha, guarda-redes (e avançado) de posição, foi aos 16 anos que te fixaste definitivamente na baliza do Clube Desportivo do Montijo. O à-vontade com bola, que te foi sempre apontado como um defeito, atualmente seria uma mais-valia?

RP: Por acaso já disse isso muitas vezes… na altura o Ricardo era o maluco! Era o que jogava fora da baliza, ouvia constantemente a malta fora do campo “Vai para a baliza!” ou isto, ou aquilo… infelizmente, não havia tanta qualidade como há hoje, em que os guarda-redes saberem jogar com os pés é quase obrigatório. Costumo brincar e dizer que atualmente os guarda-redes já nem precisam de defender. Sempre joguei bem, punha a bola onde queria à distância e comecei muito cedo a assumir este risco, mas também respaldado pelos treinadores, como é óbvio. Uma vez, em Guimarães, levei uma chapelada do Pedro Mendes: o jogo estava emperrado e assumimos o risco de eu começar a jogar um bocadinho como antigo libero, para soltar mais um homem do meio-campo para o ataque; para jogarmos com o Pedro um bocadinho mais encostado aos médios, servindo como médio de cobertura, e tanto o Petit como o Rui Bento saltavam um bocadinho mais para a frente. Para fora, eu é que era o tonto, mas era um risco assumido por toda a equipa e não tenho dúvidas nenhumas que era muito benéfico, que faz bem ao jogo e faz bem aos guarda-redes serem mais completos. O acertar todos querem, o falhar ninguém quer e esta maneira de jogar deu-me muito mais sucesso do que insucesso. Hoje em dia até se arrisca demasiado, do meu ponto de vista, mas os adeptos têm que saber que são riscos calculados pelo treinador, para chamar o adversário e conseguir ultrapassar a primeira fase de pressão.

Fonte: Facebook Ricardo Pereira

BnR: Aos 18 anos, atravessaste o equivalente ao Triângulo das Bermudas para chegar ao vértice Boavista, numa equação que contava com Vitória SC e Sporting.

RP: Não foram apenas o Vitória e o Sporting, porque naquela altura havia muitas equipas interessadas (…) o Barreirense dobrava o ordenado que fui ganhar para o Boavista: fui ganhar para o Boavista 250 contos/1250 € e o Barreirense dava-me 500 contos/2500€; o Campomaiorense, onde estava o mister Manuel Fernandes, que era da minha zona e me conhecia (…) O Manuel José soube, através do empresário [Carlos Costa], que o Quinito ia levar-me para Guimarães nessa noite, e antecipou-se: mandou o João Loureiro e o Álvaro Braga Junior ao Montijo, para me levarem. Nessa altura, já tinha ouvido falar nos boatos do Sporting, mas coisas concretas não havia nada. Quando regresso dos dois ou três treinos que fiz no Boavista, à experiência, vou direto para o último jogo do Campeonato pelo Montijo, em Quarteira. No regresso a casa, chegamos ao Campo Luis de Almeida Fidalgo e o Presidente diz-me “Acompanha-me, porque está ali uma pessoa para falar connosco” e eu até pensei que fosse para me pagarem os ordenados em atraso. Chego lá e estava o falecido Juca, do Sporting, e foi quando disse “Não há volta a dar. Já dei a minha palavra ao Boavista e não vou voltar atrás”.

BnR: Rejeitaste o Sporting, pela palavra dada ao Boavista, e o Barreirense, que te duplicava o salário, pela aposta na carreira. Escreveste certo por linhas tortas ou, se pudesses, estas decisões teriam sido um rascunho?

RP: Quis ir para o Boavista porque era um clube de primeira linha, em ascensão, com percurso na Europa… era o que queria para a minha carreira: evoluir e trabalhar. Sabia que ia ser muito difícil jogar desde princípio porque era um miúdo e, naquela altura, os tempos eram bem diferentes. Graças a Deus fui para o sítio certo, onde cresci em todos os aspetos.

O Passado Também Chuta: Angola no Mundial 2006

Em 2006, Angola alcançava a principal competição de seleções no panorama internacional. Mundial teve então mais uma seleção cuja língua oficial é o português. Depois de um percurso espetacular na fase de qualificação, os “Palancas Negras” não pretendiam apenas ir passear à Alemanha, havia a ambição de passar à fase do “mata-mata”.

O percurso até ao território alemão começou três anos antes: na pré-eliminatória de acesso à fase de grupos de qualificação, Angola teria de vencer o Chade para manter o sonho de ir ao Mundial. A primeira mão correu da pior forma possível com a derrota fora por 3-1 em que Oumar Belonga fez um hat-trick. Seria necessário um jogo espetacular em Luanda para anular a desvantagem e ultrapassar este difícil obstáculo. Akwá e Mauro fizeram os golos da vitória angolana que permitiu manter vivo o sonho de ir ao Campeonato do Mundo.

Inseridos no grupo quatro, os mwangolês defrontaram a toda poderosa Nigéria, Argélia, Gabão, Zimbabué e o Ruanda. Com a Nigéria a ser apontada à partida como o principal favorito a garantir a vaga de acesso ao Mundial, eram poucos os que acreditavam que os comandados de Luís de Oliveira Gonçalves iriam de facto causar uma surpresa ao longo da ronda de qualificação.

O apuramento começou da melhor forma possível com o nulo na visita às “Raposas do Deserto”, contudo o melhor resultado seria alcançado na segunda jornada. Com o Estádio da Cidadela bem composto, Angola recebia a Nigéria recheada de craques como Joseph Yobo e John Utaka e era importante vencer para saltar desde logo para a liderança do grupo. A partida foi bastante equilibrada e só aos 84 minutos é que surgiu o triunfo a favor dos angolanos: Gilberto recupera a bola no meio-campo ofensivo, deixa para Zé Kalanga que cruza para a área onde aparece o capitão Akwá a rematar para o único golo da partida, soltando a euforia nas bancadas.

A vitória pela margem mínima contra a favorita Nigéria foi o ‘mote’ para as Palancas arrancarem a todo o gás rumo à concretização do sonho. Seguiu-se um empate fora a duas bolas contra o Gabão e dois triunfos por 1-0 contra o Ruanda e Zimbabué, o que manteve Angola no topo da classificação do grupo com 11 pontos à entrada para a 6.ª jornada.

A ida a Harare, capital do Zimbabué, assumia-se como importante antes dos confrontos contra Nigéria e Argélia e perder não era opção, já que a Nigéria, com menos um ponto, estava à espera dum deslize para saltar para a liderança. O certo é que os angolanos acabariam por acusar a pressão e perderam esse embate por 2-0, com os tentos a serem apontados no decorrer da segunda parte, o que levou à descida para o segundo lugar da classificação.

A reação à derrota não se fez esperar e ocorreu na receção à Argélia: Akwá e companhia saíram vitoriosos por 2-1 e aproveitaram ainda o surpreendente empate da Nigéria em casa do Ruanda, último classificado do grupo, para ficar em igualdade pontual antes do derradeiro ‘tira-teimas’ em Lagos.

Quem vencesse esse encontro dava um passo gigantesco rumo à Alemanha. Não perdendo, Angola assumiria a liderança devido à vantagem no confronto direto. A Nigéria entrou a todo o gás e inaugurou o marcador logo aos cinco minutos, por intermédio de Jay-Jay Okocha. Os angolanos chegaram a temer o pior face ao golo madrugador sofrido, mas a seleção conseguiu aguentar o ímpeto dos visitados durante grande parte do encontro e, aos 60’, alcançou o empate pelo médio experiente Figueiredo. Esse tento revelou-se fundamental para reduzir a distância de Luanda a Berlim, viagem que estava perto de se realizar depois do empate obtido fora.

Na penúltima jornada, os “Palancas Negras” podiam desde logo garantir a ida ao Mundial, caso vencessem o Gabão e a Nigéria perdesse com a Argélia. A primeira tarefa foi realizada com sucesso – vitória por 3-0 -, contudo as “Super Águias” não vacilaram com um triunfo sem espinhas por 2-5. Ficava tudo por decidir na última e derradeira jornada.

Com a enorme pressão de não poder falhar na visita ao Ruanda, Angola sabia que tinha de obter o mesmo resultado da Nigéria para conquistar o primeiro lugar do grupo. O golo não aparecia, o relógio de jogo parecia não querer abrandar, juntando isso ao facto da Nigéria já estar a vencer confortavelmente o Zimbabué, a frustração começou a tomar conta dos atletas angolanos, até que se chega ao minuto 79. Numa bela jogada coletiva, Zé Kalanga cruza do lado direito para Akwá fazer o golo mais importante da história do Futebol angolano. O resto do jogo foi aguentar a vantagem preciosa de um golo e depois foi festejar a qualificação inédita para o Mundial.

O sorteio da fase de grupos ditou que Angola ficasse no grupo D com Portugal, México e Irão, sendo que a estreia seria feita em Colónia frente à seleção portuguesa. Com o semba “Estamos a Vir” cantado por Yuri da Cunha e Puto Prata como música motivacional de fundo, os “Palancas Negras” rumaram ao território germânico com a bagagem cheia de ambição e vontade de causar sensação durante o torneio.

A estreia no dia 11 de junho de 2006 correu da pior forma para os adeptos angolanos: um golo solitário de Pauleta foi o quanto bastou para Portugal vencer, embora a seleção angolana tenha dado luta e ficou a sensação de injustiça pelo resultado negativo. Contudo, a boa exibição realizada frente a um dos candidatos à vitória final veio provar que Angola podia mesmo sonhar com a ida à fase a eliminar.

Frente ao México, na segunda jornada, o jogo assumia caraterísticas de ‘tudo ou nada’, já que uma derrota ditaria a eliminação do torneio. Em Hannover, o favoritismo era do conjunto azteca, mas a boa exibição frente a Portugal dava ânimo aos angolanos para chegar à primeira vitória de sempre num Mundial. O México teve a maior parte das oportunidades mais perigosas do jogo, embora os comandados de Oliveira Gonçalves também conseguiram pôr em sentido a defesa adversária. A expulsão de André Macanga a 10 minutos do fim quase estragou a exibição positiva dos “Palancas Negras”, contudo o nulo não foi desfeito e houve divisão de pontos no final da partida.

À entrada para terceira e última jornada, Angola ainda podia qualificar-se para a fase seguinte: para isso, teria de vencer por uma margem confortável o já eliminado Irão e esperar por uma vitória portuguesa em Gelsenkirchen. Ora, se Portugal estava a fazer a sua parte para ajudar os compatriotas angolanos, faltava somente derrotar o Irão.

Mesmo sem hipóteses de passar, o Irão não facilitou e quis despedir-se com uma vitória, sendo que esteve por cima durante a primeira parte, mas faltou maior assertividade na hora de rematar à baliza. No segundo tempo, a conversa foi outra e Angola chegou à vantagem aos 60 minutos: do lado direito, Zé Kalanga cruzou na perfeição para Flávio “Cabeça de Ouro” Amado cabecear para o primeiro golo de sempre dos mwangolês em Mundiais. A vantagem duraria pouco tempo, uma vez que os iranianos chegaram ao empate na marcação de um canto por intermédio do defesa Bakhtiarizadeh aos 75’. O 1-1 perdurou no marcador até ao apito final e a seleção angolana acabou mesmo por acompanhar o Irão na despedida do território alemão.

Apesar da eliminação precoce, Angola saiu de prova com uma boa réplica e deixou o povo mwangolé orgulhoso dos seus atletas. São muitos os que ainda se recordam da famosa caminhada até à Alemanha nessa ano e ambicionam que Angola volte a carimbar a passagem até à fase final dum Mundial, já que se passaram cerca de 14 anos desta inédita presença.

 

Universo Paralelo: Zidane falha penálti e Portugal vai à Final do Mundial

Portugal estava a um passo de fazer ainda mais história em solo alemão. Na Allianz Arena, a Seleção Nacional tinha uma ‘oportunidade de ouro’ para chegar à final do Mundial, algo que não conseguiu em 1966, mas para isso acontecer era necessário ultrapassar um adversário que não traz boas memórias: tendo eliminado a equipa das Quinas na meia-final do Euro 2000, a França queria repetir o mesmo feito e alcançar novamente o jogo de atribuição do título de campeão do Mundo como em 1998, em que venceu em casa o Brasil por 3-0.

Os comandados de Scolari tinham já ultrapassado a Holanda e Inglaterra, com ambos os duelos a exigirem um esforço titânico por parte dos atletas portugueses, que acreditavam que a ida a Berlim era de facto possível de ocorrer. Do lado francês, Zidane era o comandante da armada gaulesa que venceu os jogos frente a Espanha e Brasil com elevada categoria e pretendia outra vez ser o “carrasco” de Portugal.

Com uma excelente atmosfera, o jogo começou com a França a querer logo visar a baliza de Ricardo, através de Malouda que fugiu bem da marcação de Miguel, mas o seu remate saiu sem a direção desejada. Portugal entrou adormecido na partida e Deco tratou de despertar os seus colegas: o mágico médio remata à entrada da área para uma defesa incompleta de Barthez, Pauleta chega atrasado a uma possível emenda e o resultado não se altera. O aviso luso estava dado para quais as verdadeiras pretensões para o resto da meia-final.

Aos oito minutos, foi Maniche a querer abrir o marcador em Munique e o seu remate causou perigo. Aos 13′ foi a vez de Ribéry combinar com Abidal, para o lateral cruzar para Henry que chegou atrasado por centímetros, deixando Scolari no banco a suspirar de alívio.

O bom ritmo dos primeiros 15 minutos foi rapidamente abaixo e o encontro entrou numa toada diferente. Os dois lados passaram a jogar mais na contenção, embora a França parecia estar por cima. Portugal ia tentando em vão lançar o contra-golpe até que, aos 31 minutos, os franceses iriam dispor de uma ocasião soberana para fazer o primeiro golo: Henry é tocado por Ricardo Carvalho e o árbitro apontou de imediato para a marca de onze metros.

O povo português nem precisava de rezar para que Zidane falhasse a grande penalidade, uma vez que na baliza estava um guarda-redes habituado a defender castigos máximos. Depois de ouvir o apito, o número 10 dos gauleses correu convicto para marcar mais uma vez a Portugal, mas Ricardo consegue parar eficazmente a bola e mantém tudo empatado. A estrondosa defesa do guardião do Sporting CP lançou a euforia no banco português, onde Scolari voltava a suspirar de alívio. Até ao descanso, não houve mais nada a assinalar e os jogadores foram para o balneário com o nulo no marcador.

Motivada pela defesa soberba de Ricardo, a seleção portuguesa entrou com toda a pujança no reinício da partida e abriu o marcador logo aos 47 minutos: o “puto maravilha” Ronaldo arranca do lado direito, tira dois defesas do caminho e assiste Pauleta que faz o 1-0. Enorme festa do lado português que estava agora mais perto de chegar a final.

Como seria de esperar, a reação francesa não demorou a surgir e foi novamente Zidane a testar a atenção de Ricardo num remate fora de área, com o guardião a fazer uma excelente parada e a manter Portugal na frente do marcador. A iniciativa de jogo passava a ser do lado francês que estava obrigado a correr atrás do prejuízo, com os portugueses a limitarem-se a defender e à espera de lançar um ataque “venenoso” para acabar com as dúvidas quanto ao vencedor do jogo.

Sem grande vontade de esperar por um rasgo genial de Zizou ou Henry, Raymond Domenech adota uma estratégia mais atacante e lança Louis Saha e David Trezeguet, de forma a ter mais homens na frente de ataque. Contudo, isso acabaria por ser fatal para os franceses…

O relógio do jogo estava a favor dos portugueses que iam fazendo os possíveis para o tempo passar o mais rápido possível, o que estava a correr de feição, apesar do enorme amasso sofrido: Ribéry (60’), Trezeguet (67’) e Henry (71’) podiam ter feito o empate, mas as suas tentativas foram facilmente defendidas por Ricardo. A França bem tentava de todas as formas possíveis chegar ao 1-1, contudo a defesa portuguesa estava concentrada e ia mantendo a baliza a zeros.

E como diz a velha máxima “Quem não marca sofre”, foi Portugal a “matar” o jogo à entrada para os últimos 10 minutos da partida, através de Simão. O número 11 aproveitou um rápido contra-ataque em que a defesa gaulesa estava descompensada, e no frente a frente com Barthez, picou a bola e fez o 2-0 que carimbou o passaporte para a final. O segundo golo sofrido deitou abaixo o conjunto francês que nem sequer conseguiu reerguer-se para tentar marcar o golo de honra.

Apito final do árbitro uruguaio Jorge Larrionda e a festa portuguesa explodiu de forma vibrante logo no relvado. Pela primeira vez na história, Portugal ia jogar a final dum Mundial e queria terminar a prova com um desfecho totalmente diferente do verificado no Europeu de 2004.

CR17 resolve Final e Portugal é campeão do Mundo

Dia 9 de julho de 2006. Domingo. O povo português reunia-se para voltar a ver a sua seleção numa final, mas desta vez o adversário não era a Grécia, mas sim a Itália. Acabada de eliminiar o anfitrião do torneio com recurso a prolongamento, a squadra azzurra procurava conquistar o quarto título de campeão do Mundo.

Figo, Cristiano Ronaldo e Deco contra Totti, Pirlo e Gattuso. A expetativa era enorme para ver este duelo que decidiria o vencedor do Mundial 2006. Com o Olympiastadion bem lotado, o jogo praticamente começou com o golo de Portugal: minuto sete, Cristiano Ronaldo ultrapassa bem Zambrotta e remata em jeito para o primeiro tento da partida. Buffon bem se esticou, mas “nem com asas” conseguia defender este belo remate do extremo do Manchester United FC. Vantagem madrugadora em Berlim para enorme felicidade dos adeptos portugueses.

Fortemente afetados pelo golo sofrido nos primeiros minutos, a resposta italiana foi tímida e sem grande perigo, com exceção feita para a tentativa de Pirlo num livre frontal aos 20 minutos, em que a bola embateu com estrondo na barra. Esse foi mesmo o único lance digno de registo dos italianos em toda a primeira parte, já que Portugal controlou a seu belo prazer o ritmo de jogo e foi com toda a justiça para o descanso em vantagem.

Insatisfeito com a resposta dada pelos seus atletas, Lippi fez entrar Del Piero com o objetivo de ver outra vez o número sete faturar, como havia acontecido contra a Alemanha. Mal entrou, o atacante quase fez o tento do empate: aos 48’, num canto batido com toda a classe por Pirlo, Del Piero cabeceou e a bola foi ao poste. Mais uma vez, eram os postes a substituir Ricardo e a ajudar Portugal a manter a sua magra vantagem.

Nesta fase do jogo, Portugal estava mais remetido a tarefas defensivas como seria de esperar, embora Ronaldo não quis limitar-se a defender e fez mesmo o segundo golo luso aos 65’ numa bela combinação com Deco à entrada da área, em que Buffon volta a não ter grandes hipóteses de defesa. O sonho de “conquistar o caneco” estava cada vez mais perto de se concretizar!

Iaquinta e Gilardino foram as últimas opções técnicas de Lippi para conseguir um empate milagroso. Scolari percebeu que era o momento para defender a vantagem preciosa de dois golos e fez entrar Ricardo Costa para o lugar de Figo, que recebeu uma enorme ovação no momento da substituição, já que o capitão luso fazia o seu último jogo pela seleção e podia acabar a sua carreira como internacional com “chave de ouro”.

A Itália arriscou tudo para marcar dois golos, o que felizmente para Portugal acabou por não acontecer, já que as maiores estrelas estavam desinspiradas na hora de finalizar. O jogo foi-se encaminhando a passos largos para o seu fim, e quando se ouviu o apito final foi a euforia total! Portugal dava mais um passo histórico e conquista o Mundial, sendo esse o primeiro título da seleção A.

A festa prolongou-se por mais uns dois dias na receção aos 23 heróis nacionais que elevaram a bandeira portuguesa ao patamar mais alto do Futebol e mudaram o “triste fado português”. Portugal parou completamente nesse dia 11 de julho de 2006, com todas as pessoas a querer ver de perto o troféu conquistado com todo o mérito na Alemanha.

O melhor 11 do Sporting com nacionalidades diferentes

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Desde que comecei a acompanhar jogos do Sporting que me habituei a ver grandes jogadores a desfilar a sua classe no antigo relvado de Alvalade, assim como no atual Alvalade XXI. Alguns deles tornaram-se mesmo Bola de Ouro e/ou Bota de Ouro. Infelizmente, nem todos poderão ser incluídos neste “onze”, mas são as condicionantes que nos impomos para a criação desta equipa de estrelas. Assim, para escalonar esta “Dream Team” tenho de ter em consideração o melhor jogador que vi jogar em cada posição, sem que possa haver dois da mesma nacionalidade.

Pode parecer fácil, mas esta última condicionante obriga a deixar muitos jogadores de enorme qualidade fora desta equipa. Relembro que vou só escalonar atletas que me lembro de ver jogar pelo Sporting, pelo que, a título de exemplo, não surgirá nenhum dos Cinco Violinos e mesmo que os tivesse visto jogar, não os poderia incluir todos.

Dito isto, vem descobrir a minha selecção de craques, podendo aceitar muitas outras sugestões da tua parte. Podes fazer também este exercício, mas não te esqueças de não repetir dois jogadores do mesmo país. (E não vale “batota” com duplas nacionalidades 😉).

Futsal com um telhado de vidro

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No dia 8 de abril, soube-se o futuro próximo do Futsal, pelo menos o do português: todas as competições foram dadas como concluídas. Devido à pandemia COVID-19, não estão reunidas as condições para as competições retomarem e, desta forma, a FPF declarou o fim das mesmas e também que não haverá campeões, subidas ou descidas. Certo é que a bola só vai começar a rolar nas quadras portuguesas na próxima época de 2020/21. E agora? É a questão que muitos devem estar a fazer…

A verdade é que para além do “e agora?” surgem, pelo menos, duas questões específicas muito importantes: a ida à UEFA Futsal Champions League de dois clubes e as subidas dos clubes que tinham pretensões a isso. Ao longo do artigo, olharemos em específico para cada uma delas, que estão em análise por parte da FPF também.

QUEM SÃO OS REPRESENTANTES PORTUGUESES NA EUROPA?

Desde que a UEFA Futsal Champions League sofreu alterações, há duas vagas para clubes portugueses e que, normalmente, são ocupadas por Sporting CP e SL Benfica. Porém, já houve a oportunidade de ver o SC Braga/AAUM na antiga UEFA Futsal Cup, juntamente com os leões. Apesar de os dois clubes lisboetas serem os mais fortes candidatos a estes lugares, quem não nos diz que podia haver outra surpresa como em 2017/18?

A problemática que pode aparecer é exatamente os poucos argumentos financeiros dos restantes clubes, à exceção de Sporting CP, SL Benfica e SC Braga/AAUM, para suportar uma aventura europeia. Sim, é verdade, mas ninguém os tira a possibilidade de chegarem à Final do play-off nacional e, consequente, ida às competições europeias. Já lá chegou a AD Fundão e o SC Braga/AAUM, logo, não é algo que seja impossível. Aqui, a FPF terá de ter muito cuidado quanto à sua decisão final no sentido em que era possível qualquer um clube dos oito nos play-off chegarem à Final.

De relembrar ainda que todas as competições da UEFA, ou relacionadas à mesma, continuam adiadas – em especial, a UEFA Futsal Champions League, que devia voltar a 24 e 26 de abril – até ordem ao contrário por parte do órgão que coordena a modalidade na Europa.

BnR TV: Ukra e Clemente em animada troca da histórias de balneário

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O espetáculo está garantido: temos Bola na Rede TV com dois convidados-especiais: Ukra e Paulo Clemente. Um programa recheado de histórias e muitos comentários engraçados. Só vendo! Fica também o nosso obrigado ao CD Santa Clara pela pela organização deste BnR TV!

Com Mário Cagica Oliveira, Marco Ferreira, Ukra e Paulo Clemente.

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O melhor 11 do FC Porto com nacionalidades diferentes

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Como não há nada melhor que desafios nesta quarentena, decidi elaborar o possível melhor onze do FC Porto com nacionalidades diferentes. Foi uma decisão bastante difícil, visto que tive de deixar de fora jogadores que, em condições normais, teriam um lugar cativo nesta equipa. Vamos então ficar a conhecer esses cidadãos do mundo, que se juntaram dentro das quatro linhas e formaram um 4-4-2.

Parma Calcio 1913| O renascimento de um histórico italiano

Da glória europeia à falência, renasceu um clube histórico em Itália. O Parma Calcio 1913 é um exemplo de como a má gestão financeira arruinou um clube, atirando-o para a quarta divisão italiana, e de como o emblema recuperou de forma soberba. Regressou aos palcos principais do campeonato italiano na época passada e terminou em 14.º lugar. Na presente temporada ocupa a confortável nona posição.

O Parma foi fundado em 1913, originalmente como Parma Associazione Calcio. Em 2004, altura em que se registou a primeira falência do clube, o nome foi alterado para Parma Football Club. Em 2015, após a segunda falência, obteve o nome de Parma Calcio 1913, que se mantém até aos dias de hoje.

Em 2015, os “Giallo Blu” atravessavam o pior momento da sua história. A prestação da equipa no campeonato estava a ser desastrosa e no campo financeiro o cenário repetia-se. O clube acabou por declarar falência e ser fundado novamente, descendo até à Serie D, que corresponde à quarta divisão do futebol italiano. De forma surpreendente, um clube histórico como o Parma teve a recuperação merecida. Até ao regresso ao topo do futebol italiano passaram-se três épocas e o mesmo número de subidas de divisão.

Esta não havia sido a primeira falência do clube. Em 2004, o Parma passou por um processo semelhante, mas não foi castigado com descida imediata de divisão. Todavia, os maus resultados na época 2007/2008 resultaram num 19.º posto na tabela classificativa, e consequente descida de divisão. No entanto, na época seguinte voltaria a estar no primeiro escalão do futebol transalpino.

Os anos de maior sucesso dos “Giallo Blu” deram-se na década de 1990 e início da década de 2000. Os anos dourados do Parma começaram em 1991/92, com a conquista da Taça de Itália. O clube voltaria a conquistar este troféu nas épocas 1998/99 e 2001/2002. Em Itália, apenas conquistou mais um título de relevo, a Supertaça em 1999/00. A nível europeu, venceu a Taça das Taças em 1992/93, ganhou a Supertaça da UEFA em 1993/94 e conquistou por duas ocasiões a Liga Europa (1994/95 e 1998/99). O Parma nunca conquistou o troféu de campeão de Itália, mas alcançou a segunda posição em 1996/97.

Nos anos 90, o Parma tinha um plantel com nomes que marcaram gerações. Na baliza é o caso de Cláudio Taffarel e Gianluigi Buffon, que se formou e estreou como profissional no clube. Outros jogadores também colocaram o seu nome na história do clube, como Gianfranco Zola, os irmãos Fabio e Paolo Cannavaro, “Pippo” Inzaghi, Stoichkov, Lilian Thuram, Hernán Crespo, Verón, Alberto Gilardino, entre outros.

Alessandro Lucarelli é uma das grandes figuras do clube e um dos nomes mais importantes do passado recente do Parma. Transferiu-se para o Parma em 2008/2009, quando o clube militava no segundo escalão. Apenas saiu do clube após garantir a subida à primeira divisão em 2018, aos 40 anos de idade, acabando a carreira nessa época. O antigo capitão dos “Giallo Blu” não representou o Parma no grande regresso ao topo do futebol italiano.

Pelo emblema italiano passaram alguns internacionais portugueses. Na melhor fase do clube, jogaram lá Fernando Couto, Sérgio Conceição e Paulo Sousa. Posteriormente, Danilo Pereira, o defesa Pedro Mendes e Silvestre Varela vestiram a camisola do Parma. Atualmente, Bruno Alves é o único jogador português no clube, transferindo-se o ano passado e sendo o atual capitão.

O mundo do futebol dá muitas voltas e o Parma é um exemplo disso mesmo. Mas, apesar de tudo o que se passou no clube, este emblema histórico foi capaz de “dar a volta” ao resultado e realizar uma reviravolta fantástica, de regresso ao primeiro escalão do futebol italiano.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

10 grandes jogadores que o SL Benfica quase contratou

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Todos os anos chegam jogadores de maior ou menor qualidade ao SL Benfica. No entanto, já pensaram na quantidade de grandes jogadores que estiveram perto de envergar o manto sagrado, mas que por alguma razão a sua transferência nunca se concretizou? É precisamente isso que vos trago hoje. A lista não está em nenhuma ordem específica.

Menções honrosas: Roberto Soldado, Tapsoba, Bruno Guimarães, Danilo, Álvaro Pereira, Lisandro Lopez, Maxi López, Totti, Alexandre Pato e Alexander Hleb.

Que jogos devo rever nesta quarentena? Brasil 0-1 França

O que esperar de uma partida em que podemos ver em simultâneo jogadores como Roberto Carlos, Kaká, Ronaldinho, Ronaldo, Patrick Vieira, Zidane ou Henry? Isto em pleno Mundial, a competição mais prestigiante do imaginário futebolístico, sendo certo que seria difícil acontecer em qualquer outra competição. Tal aconteceu a 1 de julho de 2006 no Commerzbank Arena em Frankfurt a contar para os quartos de final do Mundial e, sobre o jogo, o melhor que me ocorre dizer é o seguinte: valha-nos Zidane. Ou pelo menos à França. Mas já lá vamos.

As seleções vencedoras das duas edições anteriores partiram para a Alemanha como crónicas candidatas ao título e foram integradas nos grupos F e G. Do lado dos brasileiros, estes ultrapassaram facilmente o seu grupo depois de três vitórias frente à Austrália, Croácia e Japão. Por seu lado, os franceses sentiram mais dificuldade para passar esta fase, tendo registado apenas um triunfo e dois empates, num grupo que contava com a Suíça, República da Coreia e Togo. O segundo lugar da França levou a Seleção a enfrentar a Espanha nos oitavos de final e os canarinhos defrontaram o Gana, onde ambos despacharam os seus oponentes e marcaram encontro na ronda seguinte, num dos desafios mais aguardados do ano.

Quanto ao jogo em si, e quem olhar para os dois onzes, pensa estar perante um fascínio futebolístico com tanta história presente entre as duas nações e com tantos craques ao dispor – respondendo concretamente à pergunta de partida. Contudo, a análise deste desafio remete-nos para uma realidade alternativa, podendo-se afirmar que a expectativa superou aquilo que de facto se viu. Principalmente do lado canarinho, a exibição ficou muito aquém daquilo que era exigível para um conjunto com tanta qualidade individual e que era a seleção campeã em título, convém relembrar.

Carlos Alberto Parreira escalou um onze com um trio de centrocampistas, juntando Juninho a Gilberto Silva e Zé Roberto, com Kaká e Ronaldinho mais adiantados e a atuarem soltos no apoio a Ronaldo.  A colocação de três médios, que não vinha sendo hábito, antevia um plano de maior contenção perante um opositor bem mais forte do que os que havia defrontado anteriormente. Do lado dos gauleses, Raymond Domenech apresentou o seu melhor onze, organizando a equipa no habitual 4-2-3-1 sem mexidas de relevo.

A seleção brasileira não vinha praticando um grande futebol neste Mundial e manteve esse desígnio neste confronto, no qual ficou retratada uma equipa sem ideias e bastante apática, que se despediu desta maneira da Alemanha. Em sentido contrário, esteve uma França que dominou as operações e justificou por completo a passagem à fase seguinte. A superioridade dos bleus foi evidente, destacando-se o bloco do meio campo composto por Vieira e Makélélé e sobretudo a magia de Zidane.

Esta foi por certo uma das melhores exibições individuais da carreira de Zizou que passeou toda a sua classe no relvado, mostrando a sua melhor versão, e deve servir de exemplo para qualquer adepto que procure momentos de inspiração no futebol. O melhor mesmo é acompanhar o desafio, pois vale sempre a pena recordar esta reunião de craques e deliciar-se com o perfume que o atual técnico dos merengues deixou, um dia, por aí espalhado.

ONZES INICIAIS E SUBSTITUIÇÕES:

Brasil – Dida; Cafu (Cicinho, 76’), Lúcio, Juan, Roberto Carlos; Zé Roberto, Gilberto Silva, Juninho (Adriano, 63’); Kaká (Robinho, 79’), Ronaldinho, Ronaldo

França – Barthez; Sagnol, Thuram, Gallas, Abidal; Patrick Vieira, Makélélé, Zidane; Malouda (Wiltord, 81’), Ribéry (Govou, 76’), Tiherry Henry (Louis Saha, 85’)

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão