19 de novembro de 2013. Suécia e Portugal disputavam uma vaga de apuramento para o Mundial 2014 e, entre o susto e a alegria, seriam os portugueses a seguir em frente. Um jogo que ficou, inevitavelmente, na História da seleção portuguesa, não só por carimbar o acesso a mais um Mundial, como também pelas circunstâncias em que tudo aconteceu. O nome em destaque não poderia ser outro: Cristiano Ronaldo.
Quatro dias antes, Portugal vencera a Suécia por 1-0, com um golo do craque português na reta final do encontro a fazer explodir todo o Estádio da Luz. Um golo que daria uma vantagem importante para a segunda mão, ainda que contra uma seleção capaz de responder por cima. Mas o que é certo é que o célebre “Eu estou aqui” seria repetido mais vezes em solo sueco.
Após uma primeira parte muito morna, com oportunidades para ambos os lados, o nulo não se desfez e seguir-se-ia um segundo tempo recheado de luta, suor, emoção… e até mesmo com duas reviravoltas num curto espaço de tempo. Uma segunda parte de muitos golos!
Depois de muito ter tentado, Cristiano Ronaldo voltaria a bater Andreas Isaksson, logo após o regresso dos balneários. Um golo que obrigaria a seleção local a ter de marcar três para passar para a frente da eliminatória. Os minutos foram passando e a presença da armada lusitana no Brasil parecia cada vez mais certa, mas houve alguém a querer sobressair e mostrar que nada estava resolvido. Até porque, de facto, não estava…
Sensivelmente a meio do segundo tempo, Zlatan Ibrahimovic saltou mais alto dentro da pequena área e atirou para o empate. O público acordou, a emoção regressou e, poucos minutos depois, na cobrança de um livre direto, o avançado (na altura a atuar pelo Paris Saint-Germain FC) tratou de dar esperança a todo o universo sueco, dando a cambalhota no marcador.
Previam-se minutos finais de muita aflição para a seleção orientada por Paulo Bento. Minutos esses em que era fundamental saber defender para não conceder mais golos. Certo é que Portugal conseguiria muito mais do que isso, novamente por intermédio do suspeito do costume.
Em lances praticamente iguais (assim como o do primeiro golo), a seleção lusa soube jogar em profundidade, aproveitar as fragilidades nas costas do setor defensivo contrário e, com isso, sentenciar qualquer dúvida que restasse.
Cinco minutos após a reviravolta da equipa de Erik Hamrén, Cristiano Ronaldo apareceu para bisar na partida e, logo a seguir, assinar a reviravolta com mais um hat-trick na sua carreira. Quatro golos de Portugal na eliminatória, quatro golos de Cristiano Ronaldo, quatro célebres festejos “Eu estou aqui”.
É quase impossível não recordar este 2-3 em Estocolmo como um dos jogos que mais fez vibrar (e de que maneira!) todos os portugueses. Pelo contexto, pela contra-reação e pelo que estava em jogo. Com toda a justiça, Portugal carimbaria a presença no Mundial 2014 a realizar-se no Brasil, embora o sucesso na competição, nesse ano, tenha ficado aquém do esperado.
Para esta semana, apresento uma seleção diferente daquelas que tenho feito. Por sugestão de um amigo, decidi eleger o onze do século XXI com jogadores que não ganharam a Liga dos Campeões.
Em caso de dúvida entre dois jogadores para a mesma posição, tentei dar “prioridade” àqueles que já não jogam, por detrimento de jogadores que ainda estão no ativo e que, por isso, ainda poderão vencer a “orelhuda”. No caso do guarda-redes, isso não se aplicou, porque não tive dúvidas em relação a quem era a melhor escolha.
Em termos estatísticos, não incluí os jogos e golos nas pré-eliminatórias de qualificação para a Liga dos Campeões.
Parece que 2020 não vai permitir a criação de boas recordações. Com a chegada e propagação de um vírus desconhecido e mortal, o mundo parou e o desporto, nomeadamente o Atletismo, não foi, logicamente, excepção.
O Atletismo – um desporto de verão, por eleição – nem chegou a aquecer, como se costuma dizer. Num ano em que muitas estrelas tinham já abdicado da temporada em pista coberta, de forma a preparar da melhor forma possível os Jogos Olímpicos de Tóquio, que estavam previstos realizar-se neste verão, a temporada ao ar livre foi totalmente inexistente.
Ainda assim, no pouco que este ano nos deu, existe um atleta que nunca irá esquecer que foi neste 2020 que bateu, aos 20 anos, por duas vezes, um recorde mundial. Armand Duplantis, também conhecido – como prefere – por “Mondo” Duplantis (alcunha dada por um amigo italiano do seu pai), o jovem sueco que há muito tempo bate recordes, saltou na Vara o que nunca alguém tinha saltado. Seja Bubka, Kendricks ou Lavillenie, nenhum deles passou a 6.17 metros ou 6.18 metros, o atual recorde mundial. E muitas curiosidades há acerca deste “puto” sueco…
MAS, AFINAL, DUPLANTIS É SUECO OU NORTE-AMERICANO?
Muitos poderão ter estranhado o título do nosso artigo. Todos já viram Mondo Duplantis a competir com as cores suecas, e até já o viram conquistar um título europeu, ao ar livre, no verão de 2018, ainda com 18 anos. A verdade é que o uniforme que Duplantis enverga tem as cores suecas, porque ele assim o decidiu.
Duplantis representa as cores suecas, mas poderia ter escolhido outras cores Fonte: Oslo Diamond League
Nascido no Louisiana, em 1999, Armand é filho do norte-americano Greg Duplantis – que também praticou Salto com Vara, tendo chegado aos 5.80 metros – e da sueca Helena Duplantis, uma antiga atleta de Heptatlo e de Voleibol. Ambos se conheceram quando Helena foi para Louisiana com bolsa escolar e desportiva para frequentar a LSU, e de lá não saiu mais.
Armand Duplantis fala inglês nativo e, embora, já comece a expressar-se em sueco, a sua própria mãe confidenciou que ele não é fluente, sendo o que pior fala a língua em casa (Armand tem uma irmã mais nova e dois irmãos mais velhos, e Andreas também representa a Suécia no Salto com Vara, desde 2009).
Foi aos 15 anos que Armand decidiu que iria representar a Suécia. Apesar de a legislação facilitar a mudança na passagem a sénior, Mondo nunca mais olhou para trás e sempre considerou lógica a sua decisão. O atleta refere que o grande factor a pesar na sua decisão terá sido a ascendência e as raízes da mãe. Já o pai de Armand confidenciou ao NY Times que outros fatores também foram tidos em conta, como o facto de o processo de seleção sueco ser bastante mais acessível do que o norte-americano.
A escolha pela Suécia terá sido, assim, uma decisão lógica e ponderada. Uma decisão legítima, uma vez que, tendo duas nacionalidades, Duplantis teria o direito de escolher representar o país que bem quisesse. No entanto, nos EUA, algumas vozes se levantaram contra a decisão do jovem. Sendo norte-americano, o atleta beneficiou de todos os apoios do sistema escolar do país e, considerando que nem sueco fala, é alguém “mais norte-americano” do que sueco, pelo que deveria retribuir a aposta e investimento do país em si. Isso só a Duplantis dirá respeito, mas na internet não é difícil encontrar exemplos de vozes que ainda hoje se manifestam contra a decisão do jovem atleta.
O Draft da NFL é um evento verdadeiramente único, e uma das características que lhe dá essa singularidade é o facto de se estender ao longo de três dias.
Se na primeira noite apenas são escolhidos 32 jogadores – equivalentes à primeira ronda –, no segundo dia são realizadas a segunda e terceira rondas, nas quais são selecionados mais 74 atletas. Por fim, no terceiro e último dia, que neste caso vai ser hoje, dia 25 de Abril, falamos de uma verdadeira maratona que dura sete horas e engloba a quarta, quinta, sexta e sétima rondas, concluindo assim o Draft.
Neste segundo dia, tivemos direito a mais surpresas. Com bastantes jogadores de qualidade ainda “na mesa”, os Cincinnati Bengals – que também tiveram a escolha número um da primeira ronda – decidiram oferecer uma prenda ao seu novo quarterback Joe Burrow: selecionaram Tee Higgins com a 33.ª escolha. D’Andre Swift, running back que vários analistas previam que pudesse sair na primeira ronda, acabou por rumar aos Detroit Lions, enquanto que os Chicago Bears usaram a sua 43.ª escolha em Cole Kmet, o primeiro tight end a ser selecionado no Draft deste ano.
Esta foi uma noite mais emocionante no que toca a trocas. Tanto na segunda como na terceira ronda, foram várias as movimentações de equipas que se queriam posicionar de forma a conseguirem os seus jogadores prediletos. No entanto, a grande surpresa da noite não foi proveniente de nenhuma troca, mas sim de uma escolha que vai dar bastante que falar por parte dos Philadelphia Eagles. A razão é muito simples.
Em 2016, os Eagles utilizaram a segunda escolha do Draft para selecionar Carson Wentz, quarterback proveniente de North Dakota State University. Wentz era visto como o franchise quarterback, mas uma série de lesões têm colocado a sua carreira em risco. Contudo, todos esperavam que esta fosse a sua época, e, num ano com tanta qualidade na posição de wide receiver, essa parecia ser a escolha mais lógica. Os Eagles decidiram surpreender tudo e todos e escolheram Jalen Hurts, quarterback de Oklahoma que é visto como um atleta muito promissor, mas com algumas falhas que têm de ser trabalhadas. Com algumas lacunas nas posições de receiver, corner ou safety, esta foi uma decisão questionável, para dizer o mínimo.
Seria fácil falar da pandemia da COVID-19, dos incêndios na Austrália ou de todas as outras catástrofes que têm marcado este início de década. No entanto, e focando no tema, 2020 tem sido bastante generoso para o Andebol nacional.
Portugal entrou com o pé direito no ano. Conseguiu um brilhante (e histórico) sexto lugar no Europeu, realizado em Janeiro, batendo seleções poderosíssimas, como França ou Suécia. Ao nível de clubes, o SL Benfica ia fazendo uma campanha imaculada na EHF Cup, com quatro vitórias em quatro jogos. O FC Porto encontrava-se na fase a eliminar da Liga dos Campeões, e apresentava reais aspirações de passar à fase seguinte – tinha pela frente o Aalborg Handbold da Dinamarca. Já o Sporting CP tinha realizado uma prestação competente também na Liga dos Campeões, ainda que a eliminação frente ao CS Dínamo Bucuresti tenha sido algo surpreendente.
O SL Benfica estava no Grupo A da EHF Cup, com quatro vitórias em quatro jogos Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede
Tudo parecia estar bem encaminhado para que fosse mais um grande ano do Andebol nacional. Com olhos postos em Tóquio, Portugal tinha pela frente uma dura tarefa com o torneio de qualificação olímpico. No entanto, tendo em conta o nível demonstrado no mês de Janeiro, Paulo Pereira e os seus comandados tinham reais aspirações em atingir os Jogos Olímpicos.
Tudo mudou no espaço de semanas. Um ano que tinha começado de forma quase perfeita depressa começou a tomar outros contornos. A EHF emitiu um comunicado que oficializava a suspensão de todas as competições, o que respondeu a algumas perguntas que pairavam no ar.
Em primeiro lugar, a Liga dos Campeões. Devido à grande quantidade de jogos ainda por realizar, a Federação Europeia decidiu cancelar todas as eliminatórias e qualificar os dois primeiros classificados do Grupo A e B para a Final4. Em termos práticos, isto significa a eliminação do FC Porto e o apuramento de THW Kiel, FC Barcelona, Paris Saint-Germain HB e Veszprém HC para a final a quatro.
Depois, foi a vez da EHF Cup. Aqui, a solução também foi simples: cancelar a competição. Assim, e apesar da caminhada que realizara até à suspensão dos jogos, o SL Benfica viu o fim da sua aventura europeia, pelo menos até à próxima época.
Por fim, e porque nem tudo são más notícias, a EHF anunciou o cancelamento de todas as qualificações para o Campeonato do Mundo de 2021, que se vai realizar em Janeiro, no Egito. O apuramento passa a ser feito com base na classificação do último europeu, o que significa que Portugal garantiu um lugar num Mundial pela primeira vez desde 2003, ano em que recebeu a competição!
— Federação de Andebol (@AndebolPortugal) April 24, 2020
2020 é um ano que ficará na memória dos amantes de Andebol durante muito tempo, por boas e más razões. Em termos de seleção, o crescimento e evolução estão à frente de todos, ressalvando sempre que Portugal tem sido sortudo em certos momentos. A mudança no processo de qualificação para o Europeu permitiu o apuramento nacional, e a pandemia que nos afeta a todos facilitou esta qualificação para o Mundial.
A sorte protege os audazes, e Portugal tem-se colocado em posições favoráveis para que a sorte o protegesse. Agora, a seleção não pode relaxar. É preciso que se foque na evolução, evolução essa que deverá ter como base os alicerces que estão a ser colocados.
A formação é a parte mais importante da vida de um futebolista – é isso que lhe permite caminhar e ir subindo patamares. Sem formação dificilmente existiria futebol, ou pelo menos com tanta qualidade como aquela que conhecemos hoje em dia. Atualmente, o futebol atingiu um ponto tão categórico que nada é como antes, e existem autênticas unidades que permitem ao jogador potenciar todos os seus recursos.
A Academia de Alcochete, uma referência a nível mundial para os amantes desta modalidade, é um bom exemplo. Se recuarmos rapidamente a 2016, Portugal sagrou-se campeão europeu com uma panóplia de jogadores formados no Sporting CP.
Embora nos últimos anos as fornadas de qualidade não sejam tão boas como outrora, acredito que nos próximos anos voltaremos a ser a referência à qual fomos habituados. A formação faz parte do ADN sportinguista, tal como a qualidade. Por esse motivo, devemos continuar a apostar de forma inteligente, para Alcochete voltar a ser a máquina produtora que todos reconhecem.
Decidi elaborar um onze leonino com jogadores da formação. Irei utilizar um esquema tático de 3x5x2, e como base desta escolha estará a qualidade técnica e tática.
A pandemia causada pela Covid-19 continua a estar em foco por todo o mundo e, independentemente do setor de atividade, a economia vai, inevitavelmente, cair a pique, tal como já se confirmou não só em Portugal como em todos os países lesados.
No mundo do desporto, a situação não foi diferente e as várias modalidades estão a sofrer consequências dramáticas. No futebol, e no caso em concreto do FC Porto, a crise já se faz sentir.
Face a todas estas problemáticas inevitáveis, a SAD do FC Porto optou por apresentar aos jogadores do plantel principal da equipa uma proposta de um corte salarial temporário de 40%. Uma decisão difícil que o clube tentou evitar, mas que face à longa paragem das competições acabou por ser necessário. Segundo o que foi apurado, os jogadores compreenderam a posição do clube e aceitaram esta medida, apesar de ter havido alguns pedidos de ajustes à proposta. A decisão avança já em abril e apesar de temporária – prolongar-se-à até junho – irá abranger todos os profissionais da equipa A, incluindo o treinador Sérgio Conceição e todos os elementos do clube.
Presidente do FC Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa, terá de cortar os salários pela primeira vez na história do clube Fonte: FC Porto
No entanto, a SAD do FC Porto também deixou algumas garantias. Os jogadores serão reembolsados posteriormente, quando a normalidade retomar. O clube garante que os jogadores receberão 20% do valor cortado quando as competições retomarem e os restantes 20% quando voltar a haver jogos no Estádio do Dragão, uma vez que as receitas de bilheteira voltam a entrar nas contas.
As preocupações do setor financeiro do clube não se depreendem apenas no corte salarial do plantel. A maior problemática deve-se também ao facto de ter de contornar o fair-play financeiro, o que significa que tem obrigatoriamente de fazer vendas num valor superior aos 100 milhões de euros. Num momento em que o valor dos jogadores no mercado baixou consideravelmente, será uma situação muito complicada de ultrapassar. O que é certo é que também continua a haver a possibilidade de que esta medida possa ser adiada, uma vez que as competições continuam paradas por tempo indeterminado.
Neste período de confinamento, são vários os desafios que vão surgindo um pouco por toda a internet e lanço aqui mais um. A ideia é simples, mas a execução é bem mais complexa do que parece inicialmente: vamos fazer uma equipa com os melhores jogadores que tenham passado pelo SL Benfica neste século, mas há um senão. Não se podem repetir nacionalidades!
Parece fácil? Desafio-te a deixar o teu 11 nos comentários e não vale batotas como dupla nacionalidade.
Hoje vamos recuar umas semanas no tempo! Tempo esse onde ainda havia futebol, onde havia pessoas no estádio, onde havia ambientes fantásticos, onde havia grandes equipas de um lado e do outro, onde havia Champions League!
Poderia estar aqui a falar das saudades que tenho de ver um jogo de futebol ao vivo, do pré e pós-jogo, da magia dentro de campo, mas não é esse o meu propósito. Hoje quero-vos fazer recordar a primeira mão do jogo entre Tottenham Hotspur FC e RB Leipzig. De um lado um treinador português, José Mourinho, e do outro o jovem alemão que tem encantado o mundo, falo, claro, de Julian Nagelsmann. Não seria difícil perspetivar uma eliminatória entusiasmante e digna de acompanhar.
Como sabem, o Leipzig acabou por vencer a eliminatória, com um 0-1 fora e um 3-0 em casa, e assim eliminar o vice-campeão europeu Tottenham Hotspur.
Este artigo vai ser dividido em três partes. Na primeira e segunda parte vou focar-me nas dinâmicas do Leipzig em momento ofensivo; na terceira irei destacar dinâmicas em momento defensivo
Vamos para a análise!
O primeiro jogo realizou-se no Tottenham Hotspur Stadium. A equipa da casa apresentava-se com um sistema tático de 4-4-2 e, por sua vez, o Leipzig apresentava um híbrido e mutável sistema de 5-2-3.
Onzes iniciais e movimentos mais frequentes
Dinâmicas em Momento Ofensivo
O Leipzig iniciava a construção com os três defesas centrais (Klostermann, Ampadu e Halstenberg), com Halstenberg e Klostermann abertos e Ampadu posicionado em terreno central. O Tottenham colocava dois jogadores na primeira linha de pressão, algo que não condicionava a saída de bola da equipa alemã, não só pela inferioridade numérica (4X2, contando com guarda-redes), como pela intencional pressão passiva da equipa inglesa. Os 3 centrais têm excelente saída de bola, pela capacidade técnico-tática que possuem e pela aptidão, principalmente de Halstenberg e Klostermann, de progredirem com bola, atraíndo adversários e desequilibrando na fase de construção de jogo.
Esta aptidão está relacionada com o facto de ambos terem como posição de origem defesa lateral esquerdo e defesa lateral direito, respetivamente. Já Ampadu (durante a carreira já utilizado na posição de médio defensivo) revela muita qualidade em momentos de verticalizar o jogo, pela excelente relação com bola e perceção do jogo. A circulação entre centrais para início de construção era paciente, sempre à espera do momento certo para progredir ou executar passe vertical.
Tinham duas alternativas preferenciais para sair: a primeira era por Ampadu, quando os dois elementos da primeira linha de pressão (Lucas Moura e Dele Alli) se encontravam mais espaçados, Ampadu conseguia progredir e executar passe vertical para espaço entre linhas ou passe longo a explorar a profundidade e amplitude de laterais ou avançados; a outra alternativa passava por Klostermann e Halstenberg progredirem com bola e atraírem o ala da equipa inglesa, abrindo espaço para lateral, avançado e médio do Leipzig combinarem.
Ao longo do jogo, foram os defesas-centrais os jogadores que mais passes efetuaram, destacando-se Ampadu com um total de 94 passes e uma percentagem de acerto de 95%.
É uma equipa que apresenta segurança e confiança para lidar com a pressão. Normalmente, atraíam o adversário para pressionar alto e depois conseguiam criar espaço em zonas interiores para verticalizar e acelerar já em zonas de criação.
Superioridade numérica em construção 4×2 | Atração da equipa adversária | Passe vertical a superar linha avançada e linha média do Tottenham
O posicionamento dos médios centros, Sabitzer e Laimer, determinava o progresso da circulação de bola. Apesar de na maior parte do tempo não serem jogadores com grande participação na construção de jogo da equipa, posicionavam-se entre a primeira linha de pressão e a linha média, sempre em espaço central.
Este posicionamento permitia aos médios, não só ter espaço para combinar com os avançados e com os laterais subidos no corredor (servindo como terceiro homem para combinação), como também abrir espaço para os centrais terem mais soluções para executar passe ou para progredirem. Os médios centros tinham muito mais um papel de terceiro homem em construção.
Em zonas de criação, os médios tinham a capacidade de criar, de manter o equilíbrio defensivo e de aparecer em zonas de finalização. Normalmente, Sabitzer era o médio que tinha mais liberdade para atacar. Nesse caso, Laimer ficaria mais recuado, preparando uma possível transição defensiva.
O posicionamento do médio centro permite ao defesa central múltiplas soluções na definição da jogada
Em construção de jogo, os laterais alinhavam-se com os médios, formando um sistema de 3-4-3. Quando a bola entrava em zonas de criação, os laterais subiam e formavam uma linha horizontal com os três homens da frente – sistema tático de 3-2-5.
Estes tinham um papel sempre muito ofensivo. Mukiele surgia sempre junto ao corredor. Por sua vez, Angelino podia, também, jogar em espaço interior, oferecendo o corredor a Werner. Tinham grande rotatividade e intensidade no ataque ao espaço, desequilibrando sucessivas vezes. Com liberdade quase total para atacar, apareciam muitas vezes em zonas de finalização.
Troca posicional entre Angelino e Werner Fonte: SRF
Normalmente, os avançados (Werner, Schick e Nkunku) posicionavam-se entre linhas, nunca se dando à marcação. Schick era o que se aproximava mais da linha defensiva, oferecendo movimentos em apoio frontal para combinação ou explorando a profundidade nas costas dos centrais. Nkunku e Werner movimentavam-se tanto para ser solução em criação, recuando até à linha dos médios e oferecendo mais soluções, como para receber no espaço entre-linhas, ou ainda, juntando-se aos corredores para criar superioridade numérica nesse espaço.
O posicionamento no espaço central dos avançados proporcionava muitas vezes uma superioridade numérica de 5 para 4 no meio-campo, pelos dois médios centros e os três avançados contra a linha de quatro médios do Tottenham. Para controlar esta superioridade numérica no meio-campo e as movimentações em apoio ou no espaço dos avançados, os elementos da linha média e defensiva do Tottenham encurtavam os espaços entre si, tanto verticalmente como horizontalmente, abrindo, consequentemente, espaço nos corredores laterais.
Assim, Angelino e Mukiele ficavam com espaço nos corredores a seu dispor. No vídeo anterior, é possível ver esta atração do adversário no espaço central para libertar os alas nos corredores.
Com a equipa do Tottenham tão compacta, o Leipzig apostou na procura da profundidade e amplitude nos corredores de forma a ferir o adversário. A movimentação de Werner para o corredor, de forma a forçar o duelo individual com lateral adversário, foi também várias vezes facultado durante o jogo. Enquanto isso, Nkunku posicionava-se em espaço interior, como um terceiro médio, ou dava apoio ao lateral Mukiele em espaço exterior.
Esta diversidade de movimentos dos avançados tinha o objetivo de criação de espaço, para que a equipa pudesse acelerar e atacar esse espaço criado.
A superioridade numérica no meio-campo permitiu ao Leipzig tomar conta do jogo durante toda a primeira parte. Os posicionamentos da equipa alemã obrigavam o Tottenham a defender de forma coesa, compacta e com linhas muito próximas.
O posicionamento de Timo Werner foi uma das maiores preocupações do Tottenham durante a partida. Werner é um jogador altamente inteligente e com uma capacidade física e técnica acima da média. Além de se posicionar entre linhas, podia movimentar-se na profundidade como “9” quando Schick realizasse movimentos em apoio (imagem em baixo), podia movimentar-se em profundidade e em largura junto ao corredor, ou poderia realizar trocas posicionais com os laterais (principalmente com Angelino).
Neste último caso, o lateral funcionaria como lateral invertido e posicionava-se em terrenos interiores. Este comportamento é, por exemplo, muito comum nas equipas de Guardiola.
Apesar do jogo maioritariamente de posse no primeiro tempo, o Leipzig nem por isso deixava de usufruir de saídas rápidas para o ataque. Com um estilo de jogo bastante vertical, a equipa alemã tem uma capacidade de definição em velocidade muito acima da média. Vejam no vídeo seguinte, o pouquíssimo intervalo de tempo entre a recuperação de bola e o aparecimento em zonas de finalização.
Até ao golo, a equipa do Leipzig dominou o Tottenham a seu belo prazer. O golo mais que justificado apareceu no início da segunda parte. A jogada do penálti, que originará o golo, é um exemplo da pressão passiva do Tottenham. Mais do que passiva é pacífica, dada a falta de intensidade ao portador da bola e no fechar de linhas de passe do Leipzig. Além disso, existe uma distração que origina uma superioridade numérica em zonas de finalização de 3 para 1, junto ao lateral esquerdo da equipa inglesa. Neste caso, o ala esquerdo do Tottenham (Dele Alli), deveria descer no terreno e ajudar o lateral, mas faz precisamente o contrário.
Fonte: SkySport
A partir do golo, os comportamentos de ambas as equipas alteraram-se. O Tottenham pressionava mais em cima, dando oportunidade ao Leipzig para sair em ataque rápido. A equipa inglesa defendia através de encaixes individuais, no entanto vários aspetos corriam menos bem. Primeiramente, é de destacar o papel do guarda-redes e o seu conforto no jogo de pés. Gulácsi é dos melhores do mundo a compreender timings de passe e na execução dos mesmos.
Depois, e focando-me nos problemas defensivos do Tottenham, o espaço que davam entre a linha média e a linha defensiva era demasiado para jogadores habituados a executar em velocidades elevadas e em intervalos de tempo muito curtos. Depois, a falta de perceção do espaço e dos posicionamentos de alguns jogadores da equipa inglesa (neste caso Aurier e Gedson). Assim, pela capacidade de construção de jogo e superação da primeira linha de pressão, o Leipzig acelerava em espaço entre-linhas e chegava a zonas de finalização muito rapidamente.
Em São Paulo, nascia Roberto Carlos da Silva Rocha no dia 10 de abril de 1973. Mais conhecido como Roberto Carlos, um jogador de futebol que acabaria por marcar um legado na posição de lateral-esquerdo.
Com uma carreira consagrada por títulos e pela passagem por grandes clubes do futebol mundial, Roberto Carlos foi titular absoluto na lateral esquerda da Seleção Brasileira durante os Mundiais de 1998, 2002 (conquistando o pentacampeonato mundial) e 2006, apesar de nesta última ter sido algo contestado devido a um erro de marcação (distraiu-se a ajeitar as meias…) que resultou no golo do francês Thierry Henry, num jogo que acabaria por eliminar o Brasil.
Roberto Carlos tinha uma força muscular invulgar, visível na fisionomia das suas pernas, que aliás, lhe davam um ar “atarracado”, mas que o tornavam um jogador diferenciado, nomeadamente pelos seus remates fortes, corridas alucinantes e fantástica execução de bolas paradas. O jogador Brasileiro atuou por grandes clubes como o Atlético MG, Palmeiras, Inter de Milão, Real Madrid CF (num total de 11 épocas!), Fenerbahçe, Corinthians, Anzhi e ainda uma passagem fugaz pela Índia, já depois de ter anunciado a sua reforma, nomeadamente nos Delhi Dynamos.
Além de campeão mundial pelo Brasil e vencedor de duas Copas América, foi bicampeão do Campeonato Brasileiro, fez mais de 580 jogos pelo Real Madrid, foi quatro vezes campeão Espanhol, ganhou três supertaças de Espanha, venceu três vezes a UEFA Champions League (1997-98, 1999-00 e 2001-02), uma Supertaça Europeia, conquistou duas Taças Intercontinentais, foi eleito pela UEFA o melhor lateral-esquerdo em 2002 e 2003, e venceu duas Supertaças da Turquia, acabando a carreira com um total de 127 golos, absolutamente notável para um defesa. Enfim, uma carreira recheada de medalhas e troféus ao mais alto nível, que lhe valeram o estatuto de “Lenda” e que o tornou de forma quase consensual o melhor lateral-esquerdo da história do futebol.
Pai de onze filhos, foi também uma personalidade caricata, tendo em 2014, aquando do nascimento do seu nono filho, referido não se lembrar se tinha tido filhos com seis ou sete mulheres diferentes – “Eu tive só duas esposas. Difíceis são as mulheres com quem eu tive filhos. Eu tenho oito de seis ou sete mães diferentes…. Eu não me lembro…. Então… era uma mexicana, uma húngara, outra brasileira…. Foram mais quatro… Talvez tenha sido seis”.
Por tudo isto, construiu um verdadeiro legado, que perdura até aos dias de hoje. É uma missão difícil encontrar um lateral-esquerdo que não tenha Roberto Carlos como a principal referência:
– Alex Telles:«Fascinava-me a forma de jogar do Roberto Carlos»;
– Alex Sandro:«Roberto Carlos e Patrice Evra são os jogadores que mais me inspiram. Eu já os usei como espelho e continuarei fazendo isso»;
– Marcelo:«Roberto Carlos continua a ser o melhor lateral da história»;
– Ashley Cole:“I’ve always tried to model my game on how Roberto Carlos plays. That’s what I’m trying to aim for. That’s what I want to be.”
Isto só para citar alguns dos melhores na posição, o que nos permite aferir o impacto que Roberto Carlos teve em todos eles. Não foi apenas um jogador com alto rendimento, mas alguém que teve uma forma de jogar tão própria e tão incrível que revolucionou a visão futura do que é um grande lateral.
Até à entrada em cena do jogador natural de São Paulo, tínhamos maioritariamente defesas-esquerdos e não laterais-esquerdos. Tínhamos jogadores que, como o nome indica, eram “defesas” e, como tal, limitavam-se a fechar o lado esquerdo da defesa, com algumas incursões tímidas no ataque, uns cruzamentos para a área, mas com pouco envolvimento na manobra ofensiva da equipa. Roberto Carlos fez com que fosse possível a estrela da equipa ser um lateral, provocou uma avalanche de novos laterais-esquerdos, uma estirpe de jogadores com imensa qualidade ofensiva e que tinham o Brasileiro como grande referência.
O ex-Galáctico tinha um pouco de tudo: imprimia enorme velocidade em todo o flanco, era intenso e agressivo a defender, tinha aquela “ginga” e técnica tipicamente canarinha, cruzava e chutava com uma precisão e intensidade única, foi capitão de várias equipas, cobrava bem as bolas paradas e marcava golos que se fartava. Se antes poucos jogadores nasciam com o objetivo de serem laterais-esquerdos, atualmente é das posições mais queridas no futebol, graças à influência que o antigo número seis da Seleção Brasileira conseguiu deixar neste desporto.
Mas o seu legado não fica apenas no lado esquerdo, uma vez que esta evolução do típico defesa acabou por influenciar também a evolução do defesa direito, ainda que numa fase mais tardia. Cada vez mais, os laterais ofensivos são alvo de destaque, pois além do papel defensivo que está inerente, funcionam, não raras vezes, como a grande referência de algumas equipas no primeiro momento de construção ofensiva, ou como um extremo, razão pela qual, cada vez mais, vemos os laterais a terminar as épocas como os principais assistentes da equipa (exemplos de Alex Telles, André Almeida, Grimaldo, Trent Arnold, Layun, Danilo ou Kimmich).
No futebol atual, cada vez há menos espaço para defesas laterais puramente defensivos, sendo que hoje são os números ofensivos a ditar a influência do jogador na equipa, funcionando como cartão de visita no momento da contratação. Depois de Roberto, um verdadeiro game changer, nada ficou como antes.