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Brasil 0-3 Holanda: Sem ordem, sem progresso e sem terceiro

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O RESCALDO

Nunca pensaram os brasileiros estar tão longe do Maracanã no fim-de-semana de 12 e 13 de Julho de 2014. Fosse como fosse, depois da hecatombe da última terça-feira, diante da Alemanha, era aos anfitriões que competia receber a selecção holandesa (caída aos pés da Argentina, nas grandes penalidades) para, entre eles, discutir o pequeno consolo do último lugar do pódio do Mundial 2014.
Scolari mudou. Convictamente ou não, alterou seis pedras no onze inicial, mantendo o 4-2-3-1. Do lado holandês, destaque apenas para a alteração forçada produzida por Van Gaal: Sneijder (lesionado no aquecimento) deu o lugar a De Guzmán, com a Holanda no seu (in)característico 5-3-2.

Ainda alguns jogadores brasileiros secavam as últimas lágrimas originadas pela débâcle frente à equipa germânica e já David Luíz saltava com Robben e esquecia-se dele – o holandês pegou na mota, ultrapassou Thiago Silva e foi puxado. A dúvida: dentro ou fora da área? O árbitro Haïmoudi entendeu ter sido já dentro e assinalou penalty (e esqueceu-se de expulsar o capitão brasileiro). Van Persie não perdoou e tratou de adiantar a Holanda. 0-1 aos 3 minutos e os fantasmas a voltarem …

Se Scolari tinha um plano de jogo – talvez esteja a ser optimista –, este ruiu bem cedo. A Holanda ficou, desde logo, confortável no jogo. Sobretudo porque apresentou um meio-campo de grande qualidade, muito dinâmico e disponível: Wijnaldum, Clasie e De Guzman têm qualidade técnica, capacidade de ocupação dos espaços e poder de decisão. A este trio, junta-se Robben que, nesta Holanda, recua e pega na bola desde trás, comendo metros, e dando uma velocidade supersónica ao jogo da equipa. Atrás, com 3 ou com 5, a ‘Laranja’ manteve as marcações e referências individuais, num jogo do gato e do rato que, invariavelmente, levou de vencido; nos poucos momentos em que a marcação foi arrastada e a equipa aparentou desequilíbrio, logo surgiu uma compensação ou dobra.

Do outro lado, uma equipa que não o é. Um conjunto atabalhoado, que sobrevive à espera de um rasgo individual (antes com Neymar, hoje com Óscar) que possa estender a equipa e aproximá-la do golo. Sem conseguir ligar jogo – Scolari nunca resolveu o problema ao longo da competição e hoje ocuparam as posições no duplo pivot Paulinho, Luiz Gustavo, Hernanes, Fernandinho e também Ramires por lá passou –, a única diferença que a equipa demonstrou foi outra mobilidade ofensiva, fruto da troca de Fred por Jô. Curto, demasiado curto para todo e qualquer sonho.

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Van Persie assinou o seu quarto golo no Mundial’2014
Fonte: FIFA

Nestas bases, quando o golo de Blind surgiu, aos 16 minutos, esteve longe de ser uma surpresa. Aliás, foi mesmo uma dupla confirmação: a de que o Brasil estava, novamente, perdido em campo (emocional e tacticamente); e a de que David Luiz está muito longe de ser um central fiável e consistente. Blind, esse, não se fez rogado, e perante a oferta do ‘4’ da Canarinha, em pleno coração da área, voltou a bater Júlio César.

A partir de então, e com um 2-0 a seu favor, a Holanda resguardou-se mais e deu a iniciativa ao Brasil, sabendo que, fruto de todo o contexto, os espaços poderiam surgir e Robben ou Van Persie estariam prontos a não desperdiçar. Do outro lado, sentindo o aroma de déjà vu, Óscar pegou na batuta da equipa brasileira e tentou levá-la para a frente: com arrancadas, com dribles, com combinações curtas, com um remate perigoso (21’) e com um livre que quase deu golo (38’). De todo em todo, materializado em zero, quando o apito para o intervalo soou.

Com o reatamento do jogo, Scolari voltou a empreender modificação no meio-campo: saiu Luiz Gustavo e entrou Fernandinho. A equipa melhorou, de facto: subiu um pouco as linhas e tornou-se, sobretudo, mais proactiva, mais pressionante e buscando a bola de forma mais agressiva. Mesmo que depois, quando a tem, não saiba ao certo o que lhe fazer. Aliás, só isso pode explicar a contínua (e disparatada) insistência no passe longo e jogo directo à procura de explorar as costas da defesa holandesa – David Luiz foi o principal promotor desse modo de jogar que redundou em nada mais nada menos do que zero.

Ficando a Holanda mais na expectativa, o Brasil tinha supremacia na posse de bola mas poucas ideias, não conseguindo penetrar ou criar perigo, perante uma defesa que, dentro do seu estilo, apresentou-se sempre bastante coesa e solidária – neste aspecto, Vlaar voltou a ser um verdadeiro esteio na equipa de Van Gaal. A única excepção foi um remate de Ramires, à passagem do minuto 60, que quase deu golo.

Com o jogo a entrar no minuto 70, surgiram as substituições (Janmaat na vez de Blind; Hulk por troca com Ramires, já depois de Hernanes ter entrado para o lugar de Paulinho) e alguns lances mais delicados. Em qualquer uma das áreas, pareceu ter ficado um penalty por assinalar: primeiro por falta de Blind sobre Óscar, depois por carga de Fernandinho sobre Robben. Porém, numa altura em que o jogo se arrastava para o fim – e a agonia atingia limites extremos em Brasília –, já depois de muito Óscar ter tentado e de um remate perigoso de Hulk, haveria de ser a Holanda a dar a machadada final, através de uma jogada conduzida por Robben (esteve nos três golos), com assinatura de Janmaat e com emenda e conclusão de Wijnaldum. 0-3 aos 90+1.

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Para a História: Holanda é 3ª classificada no Mundial’2014.
Fonte: FIFA

Sem grande lamento de qualquer dos intervenientes, o apito final surgiria de seguida, momentos depois de Van Gaal ter dado a oportunidade ao 3º guarda-redes, Vorm, de pisar o palco da Copa (e de ter feito sair Clasie, por troca com Veltman). O resultado pode até ser exagerado mas o desequilíbrio do placard apenas confirma que a melhor (e mais organizada) equipa ficou no 3º posto. Um justo prémio para Van Gaal: um treinador perspicaz, calculista e previdente, que alimentou o sonho de uma Selecção que é hoje limitada em recursos e em quem ninguém se atreveria a apostar para 3ª classificada do Mundial do Brasil. Do Brasil de Scolari que viveu na ilusão e no desejo sem fundamento e cujos últimos dias foram apenas o mais duro choque com a realidade.

A Figura: 

Georginio Wijnaldum – Poderia surgir como impulso, dado ter sido da sua autoria o último golo do jogo. Longe disso! A bola que colocou na baliza de Júlio César foi apenas a recompensa por uma super exibição no meio campo da Holanda: quase sempre discreto mas sempre presente. Com qualidade de posicionamento, com capacidade de passe, com discernimento para a tomada da melhor decisão e com pulmão para a chegada à frente, foi um porto seguro. E só tem 23 anos.

O Fora-de-Jogo:

David Luiz – Depois do terrível jogo diante da Alemanha, a sua exibição de hoje foi, de novo, marcada por inúmeros erros. No 1º golo, Robben salta consigo no início da jogada mas depois dispara sem qualquer reacção ou sentido de posição do brasileiro; no 2º golo, literalmente faz uma assistência para Blind, num lance digno de central dos iniciados. Além destes, viveu períodos do jogo em que pareceu completamente desnorteado, fazendo passes de forma continuada sem qualquer nexo, e assinando aquelas suas incursões ofensivas que mais não são do que um convite à equipa adversária para atacar. Talvez a sua condição emocional, no momento, aconselhasse a não ter jogado.

O Passado Também Chuta: Mario Kempes

o passado tambem chuta

Argentina é tango e mais craques que estrelas no céu. Uma vez, a Argentina organizou um Campeonato do Mundo. O país vivia o trágico pesadelo da ditadura militar de Videla. Algum “cambalache” aconteceu para que Argentina conseguisse permanecer na prova, mas a Argentina também tinha um senhor craque chamado Mario Alberto Kempes. Apareceu para o futebol ao mesmo tempo que um centrocampista primoroso chamado Ardiles. Todo o mundo fala de Maradona e do Campeonato Mundial que alcançou, mas, como dizia Bocage: “antes do mundo ser mundo / e antes de haver adões / tinha o Luisinho preguinhos no fundo / com que rompia os calções”. E antes de Maradona existiu Mário Kempes “El Matador”.

Era uma bala a caminho da baliza contrária. Avançava com a bola nos pés e rematava de média e curta distância como os grandes. Era inteligente; sabia colocar-se; jogava sem bola. Veio para Espanha; vestiu a camisola do Valência e fez-se respeitar no campeonato espanhol como poucos o conseguiram até aos nossos dias. Não é preciso muito; hoje, este mundo da internet pode levar-nos à mais variada documentação da época e se procuramos veremos como Mario Kempes era considerado e temido pelos campos de Espanha. Por Espanha e Europa passaram craques argentinos da mais variada dimensão: desde o falecido Di Stéfano até ao atual Messi, passando por Omar Sivori, Kempes ou Maradona. A Argentina tem fornecido ao mundo futebolístico craques em todas as posições e para realçar uma delas que não é muito habitual mencionarei o guarda-redes Loco Gatti. A Argentina, hoje, encontra-se no cimo, novamente, a nível de seleções. Messi terá muito. No entanto, fintar como Messi fintava o português Simões e o futebol não foi inventado há meia-dúzia de anos.

Mario Kempes é uma das maiores figuras da história do Valência  Fonte: insidespanishfootball.com
Mario Kempes é uma das maiores figuras da história do Valência
Fonte: insidespanishfootball.com

Mario Kempes, além de campeão mundial em 1978 com a sua seleção, levou o Valência a ganhar uma Taça das Taças e uma Taça de Espanha e com o River Plate ganhou um campeonato argentino. É pouca coisa, mas a realidade económica dos clubes situa-os perante as oportunidades de alcançar ou não alcançar campeonatos sonoros e o clube onde mais durou Kempes, o Valência, nunca passou de um segunda fila com prestígio. O Real Madrid e o Barcelona, acompanhados a larga distância pelo Atlético de Madrid, foram no passado e são no presente os clubes que gozam do poder e da oportunidade de formar equipas que são autênticos caprichos.

Por todas estas circunstâncias, Mario Kempes, ainda que esquecido pela comunicação social, é ainda maior. Levar um Valencia a ganhar uma Taça das Taças não o faz qualquer um e conseguir o primeiro Campeonato do Mundo para Argentina é bastante mais difícil que atingir hoje o louro da imortalidade. Muitas vezes somos ingratos, mas a História sempre marca o caminho percorrido com pedras e mais tarde ou mais cedo tropeçamos com a complexidade do passado e com a sua verdadeira dimensão.

Temos um Tour ligado às máquinas!

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Cabec¦ºalho ciclismoNão me lembro de ver um Tour com uns primeiros 5 dias tão destruidores. E, ao contrário do que se esperava, o pavet não teve culpa nenhuma. Ainda nenhum ciclista tinha colocado a sua roda frontal sobre as pedras de Roubaix e já as desgraças tinham acontecido. Motivo? O pior possível! Aquilo que todos os amantes da modalidade (sejam praticantes, sejam observadores) mais temem e odeiam ver. Quedas, quedas e mais quedas.

Até começou muito bem. Um dos tópicos de discussão mais comum sobre o Tour é se faz sentido haver etapas em que não há um único quilómetro percorrido em França. Durante a primeira etapa, o público britânico mostrou que sim. O mundo estava maravilhado com a quantidade de adeptos que se encontravam na rua a aproveitar a pouco usual passagem de um pelotão desta qualidade. Fazer passar o pelotão em locais onde não existem usualmente grande provas é sem dúvida uma mais-valia para a prova, pois a emoção do público justifica e demonstra o que é a paixão pelo ciclismo. E estava tudo maravilhado com este cenário, até à recta da meta.

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O público britânico a demonstrar todo o seu amor pela modalidade
Fonte: resources2.news.com.au

Havia dois duelos que, à partida, excitavam todas as perspectivas: Cavendish vs Kittel e Froome vs Contador. No entanto, ainda não tinha acabado a primeira etapa e já um tinha sido destruído. Cavendish teve uma queda grave na luta pelo sprint e levou com ele a maioria do interesse e da emoção das etapas planas deste Tour. Lá se foi a demanda do record de mais etapas ganhas no Tour por parte do britânico e lá se foi igualmente a dúvida até ao último metro em todos os sprints finais. É verdade que tem de se dar mérito a Kittel e ao seu hat-trick, mas também é verdade que não há ninguém que não pense “se estivesse aqui o Mark Cavendish, não seria assim tão fácil”. Ainda estávamos a recuperar do drama desta perda quando chegámos à etapa número 5. A tão esperada etapa do pavet.

Para resumir este dia seria mais fácil escrever a lista dos ciclistas que não caíram, mas houve uma queda em particular que nos chocou a todos. Chris Froome, que já tinha caído na etapa anterior, voltou a cair mais duas vezes e, num momento genial da realização francesa, todo o mundo teve a possibilidade de ver em directo o vencedor do Tour de 2013 a cambalear e a desistir da prova. Momento absolutamente histórico. Primeiro porque nunca um abandono tinha sido registado em directo desta forma, com mais de dois minutos de plano fixo a mostrar as dores, as dúvidas, a equipa a trazer uma bicicleta nova e, finalmente, a decisão pela desistência. Em segundo lugar porque desde 1980, quando Bernard Hinault desistiu da prova, que um vencedor em título não abandonava o Tour de France. Com isso, ficou destruído o tão antecipado duelo Froome vs Contador. É verdade que, no meio disto tudo, houve um Marcel Kittel a demonstrar uma força impressionante nas chegadas em sprint, um Peter Sagan que vai à conquista da terceira camisola verde seguida papando todos os pontos possíveis e um Vicenzo Nibali que já leva a amarela com uma vantagem confortável para os maiores rivais. Mas, por mais que não se queira, e peço muita desculpa a Kittel, a Sagan e a Nibali, o grande protagonista deste início de prova tem sido indubitavelmente as quedas.

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O abandono de Chris Froome em directo para o mundo
Fonte: images.express.co.uk

Felizmente o Tour tem um pelotão com uma qualidade tão grande que ainda não está tudo perdido, muito pelo contrário. Continua a haver ciclistas brilhantes e ainda nem sequer entrámos nas montanhas, onde normalmente são as etapas mais memoráveis. Aliás, com a ausência de Froome e a maior fraqueza da equipa Sky até se antecipa um maior espectáculo, já que não haverá uma equipa de elite tão defensiva que tenta sempre colocar um ritmo tão elevado em todas as subidas e que é quase impossível atacar. O que mais se prevê agora é que a vantagem de Nibali seja atacada por todos e isso pode-nos oferecer etapas memoráveis; no entanto é preciso que acabem por aqui as quedas, especialmente nesta quantidade assustadora. É que a prova ainda não está morta, mas temos um Tour ligado às máquinas!

Holanda 0-0 Argentina (2-4 g.p.): A lotaria saiu aos sul-americanos

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Depois do vendaval alemão na meia-final do dia anterior, Argentina e Holanda quiseram jogar pelo seguro e nunca arriscaram muito. A consequência disso foi um jogo pouco interessante e quase sem oportunidades de golo. Mantendo-se fiel ao seu esquema de três centrais, a Holanda praticamente não incomodou a baliza de Romero – não só devido ao acerto defensivo da Argentina e da boa exibição de Mascherano no centro do terreno (perante alguma passividade do meio-campo foi ele que assumiu um papel de organizador que normalmente não é seu), mas também por causa do desaparecimento de Robben e de Van Persie. A selecção das pampas, por seu lado, esteve ligeiramente por cima na primeira parte, mostrando-se mais pressionante. Contudo, a equipa ressentiu-se da ausência de Di María e do facto de Messi ter estado pouco em jogo. Como nem Enzo Pérez (jogo interessante, mas a espaços) nem Biglia pareciam contrariar os já habituais problemas na construção argentina, o craque do Barcelona foi obrigado a recuar muito, ainda que sempre bem guardado por De Jong. Em todo o primeiro tempo, só um livre de Messi bem defendido por Cillessen e um cabeceamento de Garay (exibição atenta e segura) após um canto quebraram a monotonia reinante.

Depois do intervalo a Holanda passou a ter mais bola, mas nem por isso o jogo ganhou interesse. O futebol apoiado da equipa de Van Gaal não esticava o suficiente para chegar à baliza adversária, e a Argentina também não parecia muito mais capaz de criar perigo e quebrar o empate. Das vezes que se aproximaram da área holandesa, os homens de Sabella esbarraram num trio de centrais muito bem organizado, com o imponente Vlaar no comando das operações. De resto, pouco mais há a assinalar. Para se ter uma ideia do que foi o jogo, uma das melhores oportunidades da partida (falhanço de Higuaín após boa jogada e grande cruzamento de Enzo Pérez da direita) tinha sido, afinal, anulada por fora-de-jogo do avançado. A Holanda, por seu turno, teve uma possibilidade clara de ganhar aos 91 minutos, mas a primeira aparição de Robben foi contrariada de forma fantástica por Mascherano no último instante.

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Com uma intervenção espantosa, Romero defende o remate colocado de Sneijder e abre as portas da final à Argentina
Fonte: Fifa.com

Ao longo dos 90 minutos, os restantes motivos de interesse acabaram mesmo por ser pormenores como a enorme cultura táctica de Kuyt, que permite a um atleta que joga normalmente a extremo-direito cumprir com distinção ora a lateral direito (na primeira parte) ora a lateral esquerdo (na segunda). Sneijder, embora sem o fulgor de há 4 anos, confere uma classe e uma clarividência diferentes ao meio-campo holandês; já do lado argentino, para além das exibições agradáveis dos dois atletas do Benfica, também o Sportinguista Marcos Rojo assinalou uma exibição competente, tendo sido dele um dos raros remates da partida. No outro flanco, Zabaleta não lhe ficou atrás e foi sempre dos mais lutadores. Quanto a Messi, apesar de ter estado apagado (e, tal como ele, também Higuaín, Lavezzi, Agüero e Palacio – houve mérito da organização defensiva montada por Van Gaal), protagonizou dois ou três pormenores interessantes das raras vezes em que teve uma nesga de terreno. As preocupações holandesas eram completamente justificadas, mas a equipa soube cumprir na perfeição.

No prolongamento a Holanda esteve como nunca tinha estado: instalada no meio-campo argentino e, pela primeira vez em todo o jogo, à procura do golo de forma declarada. No entanto, foi Palacio, que tinha rendido Enzo Pérez, a dispor da melhor oportunidade do tempo extra. O avançado, contudo, tentou fazer um chapéu de cabeça e a bola acabou por sair fácil para o guarda-redes. Nos penáltis, a sorte sorriu à Argentina: Vlaar, logo a abrir, e Sneijder, permitiram excelentes intervenções a Romero (Robben e Kuyt marcaram), ao passo que Cillessen não conseguiu parar os remates de Messi, Garay, Agüero e Maxi Rodríguez.

Vinte e quatro anos depois, a Argentina marca novamente presença numa final de um Mundial, desta vez em casa do eterno rival Brasil. Ao contrário do que aconteceu em 1990, agora já não há Diego Maradona, mas há Lionel Messi. Porém, apesar de contar com um jogador fora-de-série, a Argentina não tem mostrado um futebol cativante nem convincente. Pelo que se viu hoje e já se tinha visto antes neste Mundial, a lógica quase obriga a afirmar que a Alemanha tem via aberta para conquistar o título. Mas as finais são jogos à parte. E no futebol tudo pode acontecer, como ainda ontem se viu…

 

A Figura:

Ron Vlaar – É certo que Romero defendeu dois penáltis, mas nos 120 minutos foi o central holandês quem mais brilhou. Se a Argentina fez poucas jogadas perigosas, muito se deve ao atleta do Aston Villa: protagonizou cortes importantíssimos contra Messi, Lavezzi e quem quer que lhe aparecesse à frente, dominou tudo tanto pelo chão como pelo ar, em velocidade ou em antecipação. O futebol holandês tem a fama de ser algo permeável na defesa, mas hoje Vlaar contrariou essa teoria e deu a serenidade necessária aos seus jovens colegas de sector. Não merecia ter falhado o penálti. 

O Fora-de-jogo:

Qualidade do futebol praticado – Percebe-se que ninguém quisesse cometer erros que pudessem custar caro, mais ainda depois da Alemanha ter arrasado o Brasil. No entanto, duas ou três oportunidades de golo em 120 minutos de futebol é muito pouco. Foi o típico jogo decisivo onde a vontade de alcançar um bom resultado se sobrepôs à qualidade exibicional. No entanto, se é verdade que para o espectáculo foi mau, não é menos verdade que ninguém pode criticar as equipas por isso…

Brasil 1-7 Alemanha: Humilhação Histórica

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O RESCALDO

O futebol é impressionante! Entusiasmem-se os aficionados pelo futebol espetáculo e imprevisibilidade total. Hoje, nem o mais louco dos adeptos poderia esperar um desfecho assim. Uma vitória implacável, sem dó nem piedade dos alemães, perante um Brasil que buscava o sonho de ser campeão mundial no seu próprio estádio. Uma vitória inexplicável, que valeu “olés” dos próprios brasileiros, e que contou um cheirinho de tiki-taka do novo “alemão” Pep Guardiola. Sete tiros certeiros e um Brasil moribundo, que não perdia por uma diferença de 6 golos há 94 anos!

Na abordagem ao encontro, Scolari apostou em Dante e Bernard para colmatar as ausências de Thiago Silva e do azarado Neymar. Joachim Löw escolheu Toni Kroos, Khedira e Schweinsteiger para limpar o meio-campo brasileiro composto por Luís Gustavo e Fernandinho.

O primeiro murro no estômago dos brasileiros foi logo aos 11 minutos, com Thomas Muller, após a marcação de um canto, a aparecer sozinho ao segundo poste e a finalizar com um remate (!) rasteiro e sem hipóteses de defesa para Júlio César.

Com um estilo de jogo muito direto, sem ninguém para pegar na equipa e com dois extremos (Hulk e Bernard) que raramente auxiliavam os dois laterais nas tarefas defensivas, não houve como combater o domínio germânico. Uma Alemanha muito pressionante, que não dava espaços aos brasileiros e que rapidamente criava perigo no último terço do terreno. David Luiz e Dante estiveram desastrosos e Luís Gustavo e Fernandinho não conseguiram suster a pressão do meio-campo opositor. A equipa brasileira não se encontrava em campo e os alemães rapidamente abateram as esperanças de um povo que sonhava com uma presença na final – 1… 2… 3… 4 golos em 7 minutos e o Brasil estava de rastos. Aos 28 minutos, o impensável acontecia no Mineirão: os pupilos de Luís Felipe Scolari perdiam por 5-0!

Toni Kroos, com 2 golos, foi um dos responsáveis pelo massacre alemão Fonte: FIFA
Toni Kroos, com 2 golos, foi um dos responsáveis pelo massacre alemão
Fonte: FIFA

Até ao intervalo, o sofrimento brasileiro prolongou-se e ninguém conseguia acreditar no que estava a acontecer. Sem muito para refletir, Scolari, durante o descanso, só podia tentar minimizar alguns estragos e evitar o que já muitos anteviam: o pior resultado de sempre de uma equipa nas meias-finais de um Mundial de futebol. Assim, saíram de campo Fernandinho e Hulk e entraram Ramires e Paulinho. As melhorias foram ligeiras, mas serviram para atenuar o domínio alemão após o intervalo. Até que aos 58’, Low retirou de campo o consagrado Klose – que se tornou no melhor marcador de sempre em fases finais, superando Ronaldo (outra desilusão para os brasileiros) – e colocou o avançando móvel Schurrle. Diante uma dupla de centrais completamente apática e sem reacção, não surpreendeu que as transições alemãs se tornassem ainda mais mortíferas. Completamente letal, o avançado do Chelsea foi a tempo de marcar mais 2 golos (69’ e 78’) e aumentar ainda mais a tristeza e estupefação dos jogadores e adeptos brasileiros. Até final, o máximo que os moribundos jogadores brasileiros conseguiram fazer foi marcar um golo pelo apagadíssimo Oscar.

Fim de contas, a Alemanha, mais do que ter vencido, humilhou o anfitrião Brasil por 7-1 e seguiu para a final do Mundial’2014. Como previa desde o início, os germânicos são os maiores favoritos à conquista da final e faço já a minha aposta em como nem a Holanda, nem a Argentina terão grandes argumentos para superar esta fortíssima equipa alemã. O Brasil, por sua vez, sai devastado e com muitas lacunas por corrigir. Desde logo, Scolari. A motivação não é tudo e hoje a imagem de Scolari fica demasiado frágil e ligada a uma das maiores humilhações do futebol mundial.

A Figura:

Impossível escolher um jogador alemão. A catástrofe brasileira contrastou com a fantástica exibição coletiva dos alemães. Um verdadeiro banho de bola, com cheirinho a tiki-taka de Guardiola.

O Fora-de-Jogo:

Luís Felipe Scolari é, obviamente, o principal responsável pelo descalabro. Opções duvidosas, incapacidade para colmatar as ausências de Neymar e Thiago Silva e descredibilização total do futebol brasileiro. O fim de uma era.

Tour em Londres

cab reportagens bola na rede

Nunca tinha ido para a estrada assistir a uma prova de ciclismo fora de Portugal. Hoje foi o dia. Quando me apercebi de que a minha estadia em Londres ia coincidir com a passagem do Tour pela capital inglesa, não hesitei em fazer planos para ver ao vivo os melhores ciclistas do mundo. Desde criança de que passo tardes infindáveis na companhia de Luís Piçarra, Paulo Martins e Olivier Bonamici a acompanhar Tour após Tour na Eurosport. Ir ver a maior competição velocipédica com os meus próprios olhos foi, por isso, um sonho concretizado.

Estava a chover quando saí da estação de metro de Green Park, um dos parques que circundam o famigerado Buckingham Palace e que hoje servia de Fan Park do Tour. Todo o jardim estava vestido de amarelo e branco às bolinhas vermelhas – as cores predominantes na festa do Tour. Gente a pé e de bicicleta, velha e nova, de todas as etnias e nacionalidades, foi-se acercando de The Mall para acompanhar os derradeiros momentos da 3ª etapa desta Volta a França.

Green Park, um dos três Fan Parks de Londres
Green Park, um dos três Fan Parks de Londres

A 350 metros da meta e a pouco menos de 3h da hora prevista de chegada, fiquei a guardar lugar junto às barreiras de protecção de bandeira portuguesa na mão. Entre um casal de velhinhos a aguardar religiosamente o momento, um grupo de amigos britânicos vestidos com camisolas de ciclismo e empenhando cerveja engarrafada, um solitário quarentão de capacete e um pai e um filho visivelmente entusiasmados por estar ali.

Depois da passagem da caravana dos patrocinadores (que envergonharia muito Carnaval em Portugal), de mais uma valente chuvada (que molhou o piso e enfeitou a avenida de guarda-chuvas) e de várias horas a acompanhar a corrida através dos relatos dos speakers (ora no inglês local, ora no francês habitual), lá chegou o pelotão. Nem consegui perceber logo quem tinha ganho. Vi o comboio da Team Giant-Shimano na dianteira e Sagan bem posicionado e ainda quis acreditar que o eslovaco ia levar a melhor, mas acabou mesmo por ser Kittel – novamente ele – a superiorizar-se no sprint. Tive a certeza disso quando vi um colega de equipa do alemão a estender os braços para o ar em sinal de festejo.

Ontem, a BBC anunciava que cerca de 2,5 milhões de pessoas tinham assistido à 2ª etapa do Tour, entre York e Sheffield. Hoje não sei quantas pessoas estiveram na estrada, mas pude confirmar a paixão que os ingleses sentem por este desporto fantástico. Agora vou continuar a ver o Tour na televisão…

Um representante português no Tour
Um representante português no Tour

Ochoa: o “super-homem” voa ou é só fogo-de-vista?

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ligue 1

O Mundial é, provavelmente, a maior montra do mundo do futebol. Transforma estrelas em jogadores de banco e jogadores de banco em estrelas. Este Mundial não está a ser excepção e há nomes de que nunca ninguém ouvira falar que começam a vir à tona. Nesta edição, em particular, os guarda-redes estiveram em destaque – Ochoa, Keylor Navas, Tim Howard ou Krul foram algumas das luvas em primeiro plano.

Hoje quero falar-vos de Ochoa. Um guarda-redes com uma cabeleira de fazer inveja a David Luiz ou Fellaini, que enraíza o típico sul-americano louco e que nunca se afirmou como pilar essencial em nenhuma equipa. Ochoa fez um Mundial fantástico. Sentiu todos os olhares do mundo e actuou como um gigante. Aliás, despertou, inclusive, o interesse de grandes clubes como o Mónaco ou o Arsenal. Mas quem era Ochoa antes do Mundial? Poucos o conheciam. Se perguntassem por ele aos adeptos do Ajaccio, eles reconhecê-lo-iam com toda a certeza, ou não fosse ele um homem de grandes números. Que números? 71. 71 quê? 71 golos sofridos numa época. Esta é a verdade. Ochoa apresentou-se a grande nível ao serviço do México e foi uma muralha que só mesmo um penalty inventado conseguiu derrubar. Mas foi também o guardião mais batido da Ligue 1 na temporada transacta.

Ochoa foi do Inferno ao Céu em poucas semanas  Fonte: soccernews.com
Ochoa foi do Inferno ao Céu em poucas semanas
Fonte: soccernews.com

Se neste momento eu precisasse de contratar um guarda-redes, ficava indeciso. Optando pelo mexicano, que Ochoa iria eu adquirir? O intransponível Ochoa do Mundial ou o desconcentrado e medíocre Ochoa que actuou na Liga Francesa? Um jogador apenas de grandes palcos, que apenas com toda a pressão joga o seu melhor, ou um jogador fiável e regular? Ochoa já mostrou que pode fazer muito, mas a pergunta impõe-se: conseguirá ele manter a qualidade que demonstrou no Brasil, sem vacilar, numa das grandes ligas do futebol mundial?

Na minha opinião, Ochoa é fogo-de-vista. Uma boa prestação no Mundial não apaga uma carreira com muitas debilidades entre os postes. Por outro lado, Keylor Navas é um jogador que provou no Mundial ser aquilo que tinha mostrado ser na Liga BBVA, onde foi eleito melhor guarda-redes da época 2013/2014. Este está a ser o Mundial dos guarda-redes e Ochoa foi um dos protagonistas da competição. Agora vou esperar pelas notícias para ver que redes vai defender o azteca para o ano. Talvez as suas futuras exibições que me façam engolir estas palavras. Ou talvez não. Se calhar estou certo e os 71 golos sofridos numa época são um argumento sólido o suficiente para levar qualquer director desportivo a pensar duas vezes antes de o contratar.

O Passado Também Chuta: Marco Van Basten

o passado tambem chuta

Joga-se a final da velha Taça de Europa, com o nome reconvertido, em Lisboa. O cenário não podia ser outro; o Estádio da Luz não sabe se desta vez será o Inferno da Luz, mas para a equipa derrotada será mais do que um Inferno. Por isso, hoje só poderei escrever sobre um grande e mítico jogador que marcou época na Taça de Europa: Marco Van Basten. Foi, sem dúvida, um dos melhores avançados-centro de sempre. Era alto, cheio de presença; sabia descair para a direita ou para a esquerda; sabia construir ou lançar jogo desde o círculo central. Sabia tudo e os seus pés não eram exclusivamente os pés de um rematador. Jogou num ressurgido Ajax e num inesquecível Milão. Sem pretender ou sem mostrar obsessão, como manifestam alguns craques dos nossos dias, erigiu-se um jogador laureado com prémios internacionais, superando colegas seus como Gullit, Rijkaard, ou o italiano Maldini.

Filho de futebolista, marcado por esta condição e pelo empenho paterno, começou a beber futebol como quem bebe água desde a mais tenra idade. Teve a feliz ventura de se iniciar numa das escolas de formação de maior êxito como foi e é o Ajax e teve a sorte de ter o jogador-referência no seu clube: Johan Cruijff. Estudou-o profundamente e acabou por entrar na equipa, substituindo-o. E foi com Cruijff como seu treinador que, com um golo seu, voltou a colocar o Ajax no pódio europeu, ao ganhar a Taças das Taças. Evidentemente, o Milão, que andava com fome de grandes façanhas, chamou-o, e aquela máquina de fazer futebol começou a arrasar na Europa. O Real Madrid de Butragueño, Martin Vasquez e Sanchis, vindo de ganhar duas Taças da UEFA, sentiu nas suas carnes o triturar deste Milão.

A caminho da baliza Fonte: Goal
A caminho da baliza
Fonte: Goal

Entre Ajax, Milão e a seleção holandesa jogou quatrocentos e trinta e um jogos e marcou trezentos golos. Foi bicampeão europeu com o Milão de Sachi; entre todas as competições em que participou, foi oito vezes o maior goleador. Somou prémios individuais como quem coleciona isqueiros: melhor jogador do Mundo-FIFA em 1992; dois anos melhor jogador do Mundo-World Soccer; três vezes melhor jogador da UEFA; três vezes melhor jogador da IFFHS; duas vezes Onze d’Or; um Troféu Bravo; melhor jogador do Campeonato de Europa de 1988; uma Bota de Ouro; e se continuamos para bingo e começarmos a falar sobre os seus troféus coletivos entramos em delírio. Entre a Holanda e a Itália venceu seis campeonatos nacionais, duas Taças Intercontinentais, uma Supertaça e mais pedras preciosas que constituem o seu rosário de louros.

No entanto, entre os problemas físicos e a dureza dos rivais passou um calvário de lesões. Se com as lesões alcançou o reconhecimento e os louros que alcançou, imaginemos o que alcançaria se a saúde desportiva o tivesse respeitado mais e melhor. Possivelmente, deixaria marcas escandalosas. Começou a jogar em 1981 e despediu-se em 1995. Com ele quase desapareceu um tipo de avançado-centro; hoje, unicamente Zlatan Ibrahimovic se lhe assemelha.

Uma noite de classe azul e branca

amarazul

Classe. Do Futebol Clube do Porto não se espera outra coisa e assim foi a noite deste sábado. Se em Salvador Louis van Gaal era aplaudido pela sua substituição de ouro e Tim Krul erguido por milhares de almas laranjas, na rua Cândido dos Reis eram apresentados os novos equipamentos azuis e brancos. Warrior em inglês, “guerreiro” em português.

Ontem, o Futebol Clube do Porto brilhou mas, acima de tudo, inovou. #SemprePreparados para a #Invasão – afinal, as redes sociais serviram de maior suporte de divulgação do evento – os Dragões desfilaram num espectáculo inovador e bem conseguido que serviu não só para apresentar os conjuntos da marca norte-americana, assim como os ténis New Balance, mas também para fortalecer ainda mais a ligação jogadores-adeptos.

O prometido é devido e, como tal, Quaresma, Danilo, Alex Sandro, Helton, Fabiano e o recém-chegado Ricardo juntaram-se aos modelos Ruben Rua, Luís Marinho, Ricardo Guedes e a Maria Cerqueira Gomes e Débora Montenegro para um espectáculo de aproximadamente 25 minutos. Nem a chuva os parou e muito menos aos milhares de adeptos portistas, que não arrecadaram pé do Centro da Cidade.

Pinto da Costa, Lopetegui e Reinaldo Teles estiveram na primeira fila  Fonte: FC Porto
Pinto da Costa, Julen Lopetegui e Reinaldo Teles estiveram na primeira fila
Fonte: FC Porto

Ao som de um DJ convidado e de Marta Ren, e sob o olhar atento de Jorge Nuno Pinto da Costa e Julen Lopetegui, desenhou-se então uma bonita noite com elementos alusivos ao espírito guerreiro do clube e às ambições azuis e brancas. A Warrior, claro, marcou presença e prometeu ainda mais e melhor nos próximos anos, incluindo representantes portugueses.

Para já, e numa parceria que ganhou vida há algumas semanas, os norte-americanos podem contentar-se com o enorme crescimento de que têm sido vítimas felizes: apesar de já contarem com acordos com o Liverpool e o Sevilha, é com o Futebol Clube do Porto que têm atingido as suas publicações de maior sucesso nas redes sociais e ganho mais seguidores no Facebook e no Twitter.

Holanda 0-0 Costa Rica (4-3 g.p): A sabedoria desfez a muralha

logo mundial bnr

Pela primeira vez na história, Holanda e Costa Rica defrontavam-se num jogo oficial. Não havia portanto melhor palco que o Arena Fonte Nova, em Salvador da Bahia, para assistir a um encontro histórico que valia o último passaporte para as meias-finais do Campeonato do Mundo. De um lado, uma das equipas mais dominadoras da competição: depois da goleada aplicada naquele mesmo estádio frente à campeã do mundo Espanha, a Holanda chegava a esta partida decisiva vinda de um suado apuramento conquistado nos últimos minutos frente ao México. Do outro, tínhamos aquela que é considerada a grande revelação da prova: a Costa Rica. Treinada por Jorge Luís Pinto e comandada dentro de campo pelo gigante Keylor Navas e pela temível dupla Joel Campbell-Bryan Ruiz, os costa-riquenhos entravam em campo com o sonho de continuar a construir o castelo de sonho que começou a ser projetado no chamado “grupo da morte”, um grupo com três ex-campeões mundiais, em que a Costa Rica levou a melhor.

Holanda e Costa Rica começaram esta partida de forma desfalcada: na equipa de Louis Van Gaal, destaque para as ausências do lesionado De Jong e de Paul Verhaegh, que foram rendidos por Bruno Martins Indi e Memphis Depay. Com estas alterações, Van Gaal continuou com a opção de colocar o “camaleão tático” Kuyt na lateral direita, deixando Blind como defesa-esquerdo e optando por uma defesa com 3 centrais. No meio-campo, Wijnaldum atuou como médio mais recuado, dando apoio ao médio criativo Wesley Sneijder, que tinha como principal função alimentar os três avançados da equipa: Depay na ala esquerda, Arjen Robben no flanco direito e Robin Van Persie no centro do ataque. Em contrapartida, a Costa Rica apenas fez uma alteração no onze, com Jorge Luís Pinto a lançar Johnny Acosta para o lugar do castigado Óscar Duarte. Ao olhar para o esquema tático das equipas percebia-se que, apesar da diferença natural entre os protagonistas da partida, Van Gaal e Pinto tinham projetado o mesmo sistema tático, com 3 jogadores no eixo da defesa, 2 médios-centro, 2 alas com projeção ofensiva e 3 jogadores libertos na frente de ataque.

Como seria de esperar, os primeiros minutos da partida mostraram uma equipa holandesa a querer tomar conta da partida. Com um ritmo de jogo pouco intenso, muito em virtude das dificuldades que foi encontrando na primeira fase de construção, a seleção de Van Gaal nunca conseguiu imprimir muito dinamismo ao seu jogo ofensivo e apenas a criatividade de Sneijder ao serviço do jogo pelas faixas de Depay e Robben ia criando perigo à baliza de Navas. Do lado costa-riquenho, José Luís Pinto optou por não se esconder da partida e não teve receio do ponto forte da “laranja mecânica”: o jogo pelas alas. Por isso, não raras vezes os laterais Gamboa e Diaz incorporaram-se no jogo ofensivo da Costa Rica, que deixou na primeira parte Bryan Ruiz como homem mais avançado da equipa, com Tejeda e Bolaños como apoios no meio-campo e Joel Campbell a surgir como falso extremo direito para aproveitar o contra-ataque. Ainda assim, não se pode dizer que qualquer das estratégias tenha tido resultados práticos na primeira parte, pois a Costa Rica apenas aos 34 minutos, na sequência de um livre direto, assustou Cillessen; enquanto a Holanda, apesar de ter criado três boas ocasiões de golo (Van Persie aos 21 minutos, Memphis Depay aos 28 e Sneijder aos 36 minutos) nunca conseguiu justificar uma possível vantagem no marcador. Com efeito, o nulo nos primeiros quarenta e cinco minutos aceitava-se, não obstante as três belas intervenções feitas no primeiro tempo por Keylor Navas.

Robben foi sempre o elemento mais perigoso da selecção laranja  Fonte: Getty Images
Robben foi sempre o elemento mais perigoso da selecção laranja
Fonte: Getty Images

No segundo tempo, pouco se alterou. Do lado holandês, continuavam as dificuldades na construção do jogo ofensivo, com Van Persie preso à marcação dos três centrais da Costa Rica e Memphis Depay muito longe do nível a que já habituou os adeptos holandeses na competição. Por isso, durante os primeiros 20-25 minutos da segunda parte, apenas as arrancadas pela direita de Arjen Robben e a inteligência técnico-tática de Wesley Sneijder iam colocando em perigo o jogo da seleção da Costa Rica, que apesar de continuar a não criar perigo junto à defensiva holandesa ia nos primeiros minutos do segundo tempo controlando os vários momentos do jogo. A apatia tática da Holanda levou Louis Van Gaal a mexer (e bem) na equipa: retirou o apagado Depay das quatro linhas para colocar no seu lugar Jeremain Lens. Com esta alteração, para além do sangue novo que trouxe à seleção holandesa, Van Gaal deu à equipa um ritmo mais intenso e dinâmico, que permitiu à “laranja mecânica” encostar a seleção da Costa Rica às cordas pela primeira vez na partida no último quarto de hora da partida. A mudança no xadrez laranja teve resultados imediatos e nos últimos quinze minutos os holandeses poderiam mesmo ter alcançado uma vantagem decisiva para o apuramento para meias-finais. Sneijder, com um remate ao poste aos 82 minutos, e Van Persie em três ocasiões (83, 88 e bola ao poste aos 92 minutos) estiveram bem perto do golo da vitória. Por mérito de Navas e com a “bênção” dos postes da sua baliza, os costa-riquenhos conseguiram superar o momento mais complicado que tiveram durante o período regulamentar e, contrariando aquilo que se poderia esperar, acabaram por conseguir levar o jogo até ao prolongamento.

A forte investida da seleção de Louis Van Gaal acabou por ter continuidade no tempo-extra. Na primeira parte do prolongamento continuou o domínio holandês: fruto do desgaste físico da seleção da Costa Rica, a Holanda foi conseguindo aproximar-se da baliza adversária com maior perigo à medida que os minutos iam passando. Com Robben cada vez mais presente na dinâmica ofensiva da equipa e Robin Van Persie a conseguir progressivamente libertar-se da pressão defensiva adversária, os holandeses foram ameaçando o golo. Nesse período, destaque para um cabeceamento de Vlaar aos 93 minutos que apenas não deu em festejos holandeses devido a nova enorme defesa da muralha em forma de guarda-redes Keylor Navas. Ao fazer entrar Jan Huntelaar para o lugar de Bruno Martins Indi no início da segunda parte do prolongamento, Van Gaal procurou dar mais poder de fogo ofensivo aos holandeses. Ainda assim, a Costa Rica soltou-se das amarras táticas a que esteve agarrada durante 105 minutos e aos 116 podia mesmo ter chegado ao golo, permitindo uma bela defesa a Cillessen após remate de Ureña, que havia entrado no decorrer do segundo tempo para o lugar do apagado Joel Campbell. Logo na resposta, nova bola ao ferro para a equipa holandesa, num remate fortíssimo de Sneijder aos 118 minutos que Keylor Navas apenas conseguiu desviar com o olhar para a barra da baliza da Costa Rica. A garra tática e emocional da Costa Rica acabou por dar os seus frutos e, tal como havia acontecido frente à Grécia, a equipa de Jorge Luís Pinto conseguiu, mesmo contra todas as probabilidades, levar a decisão para as grandes penalidades. Para a luta decisiva na marca dos 11 metros, Louis Van Gaal decidiu arriscar e gastar a terceira e última substituição colocando o guarda-redes Tim Krul no lugar de Cillessen.

Navas, um dos melhores guarda-redes do Mundial'2014, voltou a ser decisivo  Fonte: Getty Images
Navas, um dos melhores guarda-redes do Mundial’2014, voltou a ser decisivo
Fonte: Getty Images

Na lotaria dos penáltis, a Holanda acabou por ser mais forte: em quatro remates, a seleção laranja não falhou uma única oportunidade; ao invés, a Costa Rica permitiu duas defesas ao herói Tim Krul, com os falhanços de Bryan Ruiz e Umaña. A Holanda atinge assim novamente as meias-finais de um Campeonato do Mundo e, depois do segundo lugar alcançado em 2010, a seleção de Van Gaal começa a ameaçar nova presença no jogo decisivo. Quanto à Costa Rica, restam apenas elogios para uma seleção desconhecida à partida e engrandecida na saída da competição, com Keylor Navas como figura central. Agora é esperar por quarta-feira, pelo Argentina–Holanda, mais um clássico do futebol mundial. A sabedoria de Van Gaal revelou-se fundamental para este apuramento. Num golpe de génio, o futuro técnico do Manchester United foi buscar uma carta escondida ao banco que se revelou decisiva nos penáltis: Tim Krul, pois claro. O único capaz de derrubar o sonho da Costa Rica.

 

A Figura

Keylor Navas – Seriam poucos, ou mesmo nenhuns, aqueles que apostariam na presença da Costa Rica nas meias-finais do Campeonato do Mundo. Na batalha contra os holandeses, a Costa Rica raramente criou perigo e teve no momento defensivo o seu ponto mais forte. Por isso, ao longo dos 120 minutos Keylor Navas foi o homem mais em jogo do lado dos costa-riquenhos: sempre seguro entre os postes, não raras vezes evitou o golo anunciado dos holandeses.

O Fora-de-Jogo

Joel Campbell – Completamente fora do jogo, o avançado da Costa Rica nunca conseguiu ser perigoso enquanto esteve em campo. Sai do Mundial sem brilho e sem conseguir levar a sua seleção mais longe na competição.