Nos dias de descartabilidade em que vivemos (e que o redator deste texto, no exemplo em questão, não critica nem condena, pelo contrário!), nos quais se assiste à crescente diminuição da validade dos parceiros sexuais (deixaram de se chamar “namorados” e namoradas”), que se assemelham cada vez mais à daquele pão de forma que se compra nos supermercados (reparem que é sempre de uma, duas semanas no máximo), surgem cada vez mais como uma lufada de ar fresco e cada vez menos como um motivo de enjoo, histórias de amor verdadeiro e promissoramente longínquo.
No futebol não é diferente, e há jogadores a saltitar de clube em clube, aliciados pela promessa de contratos e/ou vidas melhores promovidas pelos agentes desportivos, sendo cada vez mais raro (e, por isso, bonito) existirem futebolistas com uma longa passagem num clube ou com um vínculo exclusivo ao mesmo. São raríssimas as juras de amor, ainda mais quando um jogador se encontra num momento de forma extraordinário e vê o seu valor disparar, juntamente com a sua margem de manobra negocial perante o clube, seja para a renovação, tendo em vista um aumento de salário, ou para a troca de emblemas.
Quando o consegue, o seu rendimento normalmente diminui, impulsionado pelo relaxamento e tranquilidade que o aconchego de uma conta bancária mais rica lhe proporciona. Dá-se a carreira por garantida, e o futebol imita a vida, mais uma vez, remetendo para a metáfora daqueles que vão tendo cada vez mais “qualidade” de parceiros, dando por assegurado o futuro da sua felicidade… até estarem sozinhos e se apercebem do quanto desperdiçaram e do quão espectacular teria sido ter aproveitado o assentamento em tempo próprio.
Foi, assim, bonito e refrescante ouvir Harry Kane dizer que ficaria extremamente feliz se passasse mais uma década no Tottenham numa altura em que atravessa um momento de forma fantástico, apenas dias antes de assinar uma exibição fantástica diante do Arsenal, clube de que fora adepto até aos 11 anos, assinando os dois golos que deram a vitória aos Spurs no derby do Norte de Londres (2-1 final, desmontando uma barreira defensiva que emergia como quase intransponível nos últimos jogos), o que comprovou que não entrou em relaxamento após a melhoria salarial e confirmou o amor que tem ao clube que representa.


[Se, daqui a 10 anos, ainda estiver aqui, ficarei extremamente feliz. Muitos jogadores, hoje em dia, têm tendência para mudar de clube ou de país]
Fonte: Facebook do Tottenham
Kane e o Tottenham deram espaço um ao outro para que o primeiro pudesse crescer e ser tudo o que a outra parte da relação exige, e isso, ao contrário do que muitas vezes acontece, não os afastou. Pelo contrário. A distância aumentou o amor um pelo outro e a capacidade de uma das partes em “estar” nesta relação, e os resultados estão à vista: Kane evolui a cada dia que passa (capacidade atlética cada vez mais impressionante, a técnica que se julgava limitada e sem margem de progressão cresceu, e o faro de golo, que se julgava nos píncaros, aumentou) e vai dando mais e mais alegrias aos adeptos do Tottenham, levando 22 golos na sua conta pessoal em todas as competições, muitas vezes com exibições notáveis, como são exemplo flagrante as últimas duas que assinou, marcando quatro golos e sendo o homem do jogo em ambas (West Bromwich e Arsenal).
Depois de dez anos a “conhecerem-se”, Kane e Tottenham assumiram a relação e estão mais felizes do que nunca. O afastamento e as “discussões” recentes (vulgo empréstimos e parca utilização de Kane) juntou-os e podem, agora, vir a ser muito mais felizes do que alguma vez sonharam ser juntos… porque uma união destas só pode dar na celebração de um casamento (vulgo títulos, feitos históricos).
P.S.: Uma palavra ao Tomás Cunha, que já há algumas semanas me vinha a “pedir” um artigo sobre Kane e que me disse “é desta que o escreves”. Disse-lhe que pensei não o fazer mas… aqui está, “chefe”!
Foto de Capa: Facebook do Tottenham




























