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Benfica 0-0 FC Porto: Todos queriam ganhar e ninguém quis perder

cabeçalho benfica

«O empate é um resultado que pode deixar os adeptos algo desiludidos. Mas eu, como treinador, já perdi muitos jogos porque jogando ao ataque e a outra equipa em contra-ataque marca e ganha. (…) Podíamos não ganhar, mas era muito importante não perder.»

(Mário Cagica Oliveira) As ideias são de Giovanni Trapattoni, último treinador campeão no Benfica, antes de Jorge Jesus. Quem me conhece (ou já leu o que escrevi noutras ocasiões) sabe que sempre fui muito crítico com determinadas decisões do treinador português. Hoje, porém, creio que o treinador do Benfica pensou bem o jogo. Soube ser pragmático e cedo percebeu que as circunstâncias de jogo poderiam não lhe ser favoráveis, caso tivesse tomado riscos desmedidos. Ao contrário dos jogos em Paços de Ferreira e no terreno do Rio Ave, Jesus percebeu que um ponto poderia ser um mal menor no jogo em questão. Já diz o velho ditado: «mais vale um pássaro na mão do que dois a voar».

(Francisco Vaz Miranda) Foi ligado ao facto de o empate lhe ser suficiente – pelo menos visto à luz de Jesus – que a equipa do Benfica se apresentou ao longo de todo o encontro. Por demais visível em toda a primeira parte esta retracção e contenção do Benfica – pouco costume na Luz – e que acabaria por tornar a primeira metade num verdadeiro marasmo. A média de uma falta a cada dois minutos neste tempo de jogo é suficiente para se ter a noção do tão pouco e pobre futebol que se jogou.

Surpreendeu Lopetegui ao reforçar o meio-campo (porventura já prevendo um jogo extremamente físico e de contacto) com as entradas de Rúben Neves e Evandro, empurrando Oliver para perto de Eliseu na extrema-direita do ataque portista e Herrera para o banco. Já Jorge Jesus apostou, e uma vez mais incompreensivelmente, em Talisca para o lugar de Salvio. Depois da nulidade que foi em Vila do Conde a jogar na mesma posição, o baiano voltou a rubricar uma exibição tão boa quanto o jogo no seu todo: nula.

As amarras do jogo de título começaram, pois, a construir-se na primeira parte, em que só ficou um remate de Jackson Martínez por cima da baliza para contar em termos de oportunidades de golo. De resto, faltas, passes perdidos, contactos físicos e bolas pelo ar era tudo aquilo que se via na Luz.  Em certa medida fez, até, lembrar os derbys de Madrid entre o Real e o Atlético. Um Benfica demasiado expectante e sabendo que o empate lhe servia os interesses deixava o Porto ter a bola. Mas longe, sempre bem longe de Júlio César. É esta uma das grandes qualidades deste Benfica e que salta à vista em jogos deste tipo: mesmo sem a posse da bola, o Benfica não se deixa incomodar por isso e, impedindo o adversário de se aproximar com perigo, consegue controlar o jogo a seu gosto.

Jardel fez uma exibição fantástica no clássico Fonte: Sport Lisboa e Benfica
Jardel fez uma exibição fantástica no clássico
Fonte: Sport Lisboa e Benfica

(Mário Cagica Oliveira) No segundo tempo, a tendência inverteu-se. O Benfica melhorou e quis procurar com maior vontade a baliza de Helton. Lopetegui percebeu isso e tentou lançar Quaresma para agitar o jogo dos dragões, mas a decisão foi infeliz. O internacional português passou ao lado do jogo e, tal como Hernâni que também entrou no segundo tempo, não conseguiu criar desequilíbrios, nem tão pouco provocar a expulsão do sempre imprevisível Eliseu (já tinha um cartão amarelo).

Já o Benfica, que no primeiro tempo não tinha conseguido exercer domínio no centro do terreno, melhorou substancialmente com a entrada de Fejsa para o lugar do apagadíssimo Talisca. Mais uma exibição miserável do médio/avançado brasileiro, que teima em regredir no seu processo de integração no futebol europeu. No sentido oposto, Fejsa entrou para modificar o jogo encarnado. O trinco sérvio é um dos jogadores mais inteligentes do nosso campeonato e voltou a comprová-lo no encontro de hoje. Irrepreensível no posicionamento, fortíssimo na recuperação de bolas e quase perfeito a ler o jogo. O amarelo que leva hoje – fruto da lógica falta de ritmo de jogo – é um bom exemplo disso mesmo. De resto, pertenceu mesmo o médio sérvio a melhor oportunidade do jogo, com um remate por cima da baliza, muito semelhante ao de Jackson Martínez no primeiro tempo.

O empate neste clássico acaba por se ajustar ao que ambas as equipas procuram produzir durante os 90 minutos. Os dragões foram melhores no primeiro tempo e os encarnados no segundo, sendo que as duas melhores ocasiões de golo foram repartidas por ambas as equipas. Tendo em conta a classificação atual e os jogos que faltam até final, parece-me claro que o Benfica tem, neste momento, 85% de possibilidades de renovar o título de campeão nacional.  Para o FC Porto, caso se confirme mais uma época a zeros em termos de títulos, é um enorme rombo no investimento e expectativas criadas para esta temporada 2014/15.

A Figura:

Jardel –  Um jogo perfeito do defesa-central do Benfica. Nem um erro e sempre muito certinho nas abordagens aos lances do adversário. É um guerreiro, um jogador com excelentes atributos físicos e, acima de tudo, um verdadeiro jogador de equipa. Hoje, depois do amarelo a Eliseu, fartou-se de dar indicações e fazer dobras ao colega do lado esquerdo da defesa encarnada. Quem o viu e quem o vê. Está feito um senhor central. Menções honrosas também para Samaris, Maxi Pereira e Fejsa. Quatro patinhos feios que demonstram bem que o futebol é muito mais do que apenas talento individual. (Mário Cagica Oliveira) 

O Fora-de-jogo:

Abordagem de Jorge Jesus ao jogo – Não consigo encaixar a filosofia de Trapattoni neste jogo. Um Porto combalido da humilhação de Munique não podia, de maneira alguma, ser temido da maneira como foi. O Benfica podia ter acabado com o campeonato hoje e não o fez por demérito próprio. Não obstante isto, é notável a organização defensiva de nível mundial do Benfica que Jesus construiu. (Francisco Vaz Miranda) 

Foto de Capa: Sport Lisboa e Benfica

Benfica 0-0 FC Porto: Lopetegui jogou para não perder e Jesus fez-lhe a vontade

eternamocidade

Um dos lugares comuns que não raras vezes são repetidos, quando se analisa a competência ou incompetência de um treinador ou de um jogador, é o facto de este querer ou não ganhar. Depois do clássico desta tarde, no Estádio da Luz, talvez esse seja o argumento mais importante para ser analisado por parte dos adeptos portistas. Quanto a mim, não tenho dúvidas de que foi nessa premissa que Lopetegui caiu no jogo de hoje. Depois de um jogo como o de hoje, é impossível criticar o FC Porto por erros defensivos, tática errada ou posicionamento desacertado em campo. Não posso, porque nada disso aconteceu. Depois de um jogo como o de hoje, não posso entrar no exercício de criticar apenas A, B ou C. Após um clássico como o que vimos, a “única” coisa que posso apontar ao FC Porto é a falta de ambição em vencer.

Olhando para aquilo que é o jogo, talvez a falta de ambição se deva sobrepor a tudo o resto. É certo que, para a história do futebol, pouco importa se o Benfica foi ou não beneficiado em alguns jogos, pouco importa se o FC Porto foi ou não ingénuo em tantos outros e pouco importa se o jogo de hoje foi apenas mais um exemplo daquilo que tem sido o campeonato nacional. Depois da partida entre a equipa de Jorge Jesus e de Lopetegui, o que me provoca mais confusão é não ter visto uma equipa com ânsia pelos três pontos, com desejo pelo único resultado que interessava no jogo de hoje: a vitória.

Olhando para o onze inicial do técnico espanhol, isso era por demais evidente: retirando do onze o principal motor (Herrera) e um dos principais desequilibradores (Quaresma) – colocando Rúben Neves junto a Casemiro e pondo Evandro no vértice mais avançado do meio campo, reposicionando Oliver numa ala – a imagem que Lopetegui deu foi a de um treinador receoso, com medo de perder em vez da vontade de ganhar. Em tese e num contexto mais “normal”, com o campeonato ainda no seu início e com muito pela frente para jogar, a ideia de Lopetegui, ainda que de clube pequeno, não seria totalmente alvo de crítica, até pela dificuldade intrínseca em jogar na Luz.

Com quatro jogos para disputar após o clássico e com a vitória como o único resultado possível, Lopetegui simplesmente não podia dar este sinal à equipa e aos adeptos. De um lado e de outro, facilmente se percebeu, a partir dos primeiros minutos do jogo, aquilo que seria o figurino do clássico. Do lado encarnado, com Jesus a colocar Talisca como falso ala, via-se um Benfica a ser muito mais pragmático e muito menos vertiginoso no jogo ofensivo. Por falar em jogo ofensivo, isso foi algo que nem sequer se viu do lado benfiquista na primeira parte, sem um único remate para amostra e para a estatística da partida.

FC Porto e Benfica não conseguiram marcar no jogo de hoje Fonte: FC Porto
FC Porto e Benfica não conseguiram marcar no jogo de hoje
Fonte: FC Porto

Do lado portista, a tática defensiva de Lopetegui procurava segurar o jogo interior e as dinâmicas de Gaitán e Jonas. Contudo, ao colocar nitidamente Casemiro em cima do avançado brasileiro, o FC Porto perdeu o primeiro elemento de construção, sendo que, apenas com Brahimi como “puro” ala, a equipa raramente conseguiu lateralizar o jogo e colocar no relvado da Luz uma das suas principais qualidades: o jogo pelas faixas. Por isso mesmo, a primeira parte foi quase um marasmo de futebol e um duelo tático em que as equipas se encaixaram no meio campo. Do lado benfiquista, o empate era ótimo e, mesmo nunca o conseguindo fazer no primeiro tempo, era fácil perceber que Jesus, tal como nos jogos do Dragão e de Alvalade, havia montado a equipa sobretudo para explorar o erro do adversário no setor defensivo.

Mesmo com o controlo da bola, o FC Porto raramente conseguiu entrar no último terço encarnado e por isso, bem feitas as contas à primeira parte, esta apenas teve uma verdadeira oportunidade, com Jackson, sem marcação dentro da área, a rematar forte por cima da baliza do guarda redes Júlio César. Com um jogo muito mais disputado do que bem jogado, o intervalo chegava sem saudades para os adeptos e depois de 45 minutos onde o Benfica jogava com a estratégia e o FC Porto parecia contentar-se com o resultado.

Como não podia deixar de ser, até pela falta de ideias de ambos os conjuntos no primeiro tempo, a segunda parte trouxe um jogo diferente, muito mais atrativo, rápido e intenso. Do balneário surgiu um Benfica muito mais pressionante, subindo linhas e colocando o bloco muito mais próximo, colocando o FC Porto em mais dificuldades para construir jogo. Lopetegui tentou emendar a mão, colocando Herrera, Quaresma e Hernâni nos lugares de Rúben Neves, Brahimi e Evandro, mas nem por isso a equipa conseguiu ser muito mais incisiva no último terço de terreno. Mesmo tendo o jogo quase sempre sob “controlo”, a posse de bola portista foi quase sempre estéril porque as dificuldades em criar perigo junto da defensiva contrária continuaram iguais às do primeiro tempo.

Mesmo com um ou outro lance de perigo de Jackson ou Hernâni, os portistas sempre transmitiram a imagem de uma equipa contente com um empate, que simplesmente não servia para as contas do campeonato. À medida que os minutos passavam, aquilo que se esperava é que se visse um FC Porto a correr mais riscos, a colocar mais homens no processo ofensivo e a ser mais incisivo e eficaz na procura pelo golo. Nada disso aconteceu pois olhar para o jogo portista é quase analisar uma linha que raramente teve turbulência, dado a acalmia em que o clássico esteve e que só beneficiou o Benfica.

Do lado encarnado, mesmo nas substituições, Jesus nunca escondeu aquilo que queria do jogo: colocando Fejsa no lugar de Talisca e André Almeida no lugar de Pizzi, o técnico português deu o sinal claro do que queria do clássico. Mais do que ganhar, o Benfica mostrou que não queria perder este jogo, para manter os três pontos e a vantagem no confronto direto relativamente ao FC Porto. Também por isso, o jogo desta tarde foi apenas mais um exemplo daquilo que tenho defendido ao longo dos últimos meses: mais do que o mérito que o Benfica terá na conquista do bicampeonato, desta Liga fica um FC Porto que deixa a imagem de que poderia ter dado muito mais e que apenas não sairá vencedor por ingenuidade, falta de experiência e falta de noção da realidade em muitos momentos da época.

Em tese, o empate na Luz seria um bom resultado, houvesse mais campeonato para recuperar a desvantagem. Como não há, a frustração que fica é a de, no clássico desta tarde, não ter visto um FC Porto com a ambição que se exigia e com a vontade em ganhar que se imperava à equipa. Nada disso aconteceu, e o que fica é uma equipa com quatro jogos por disputar sem qualquer objetivo realista por conquistar. Tal como havia dito há uma semana, os jogos contra Bayern e Benfica seriam decisivos para a época portista. Uma eliminação com a melhor equipa do mundo e um empate na Luz é algo que, em tese, é perfeitamente natural. Aquilo que não é natural, para um adepto portista, é ver uma equipa que, mais do que querer ganhar, hoje mostrou que não queria perder. É isso que me custa. E é por isso que o campeonato acabou hoje. 

A Figura:

Casemiro/Samaris – Num jogo tão fechado taticamente, os dois médios defensivos foram claramente as figuras maiores do clássico. De um lado e de outro, a consistência dada pelo brasileiro e pelo grego foram fundamentais para o buraco tático em que o clássico se transformou praticamente do primeiro ao último minuto.

O Fora de jogo:

Julen Lopetegui – A imagem que transmitiu ao colocar um onze tão defensivo foi a de um treinador sem espírito portista e sem noção de que a vitória era o único resultado que servia à equipa. Sai da Luz com um empate e, tal como no jogo no Dragão, com a noção de que apenas não será campeão por culpa própria e por falta de nervo quando se exigia.

Foto de Capa:

Recordar é Viver: Benfica vs FC Porto

recordar é viver

Hoje é dia de clássico, o jogo mais explosivo do futebol português, neste caso o jogo do título. Num Estádio da Luz que se prevê completamente lotado, os dois grandes rivais enfrentar-se-ão numa partida que poderá muito bem ser decisiva para as contas deste campeonato. Portanto, temos tudo para assistir a mais um desafio inesquecível entre duas equipas, desafio esse que se juntará à galeria dos muitos e muitos clássicos que ainda hoje permanecem na história do futebol português.

Seleccionei três partidas entre Benfica e FC Porto, sendo que todas elas terminaram com resultados diferentes, tendo como ponto comum o facto de terem contribuído de uma forma decisiva para o desfecho de cada campeonato.

Benfica 2-3 FC Porto: Época 1991/92

Resumo do Jogo

Temporada 1991/92, 28.ª jornada, 90 mil espectadores no antigo Estádio da Luz. Fantástica tarde para a prática do futebol e por isso mesmo ambiente efervescente nas bancadas. Cerca de 30 mil (!) adeptos do FC Porto fizeram questão de comparecer na Luz para dar o decisivo impulso à equipa orientada por Carlos Alberto Silva. Os “dragões” eram líderes isolados da prova e viam ao fundo do túnel a hipótese de reconquistar o campeonato ao Benfica, campeão nacional na altura, e que tinha como técnico um tal de Sven-Goran Eriksson, então na sua última época ao serviço dos “encarnados”. Mas já se notava claramente uma mudança de paradigma no futebol nacional. O FC Porto estava cada vez mais forte e ia aproveitando uma progressiva quebra dos rivais lisboetas, apesar de o Benfica ainda contar na altura com grandes plantéis.

Quanto ao jogo em si, um soberbo espectáculo de futebol. Golos, jogadas de perigo, emoção, casos, futebol total entre duas equipas de grande nível. O desafio era mais importante para um Benfica que se perdesse praticamente diria adeus à luta pelo título. A iniciativa de jogo pertenceu quase sempre às “águias”, mas as investidas do Benfica iam quase sempre esbarrando na seguríssima defesa do FC Porto, que era um dos grandes apanágios de Carlos Alberto Silva. À medida que o tempo passava o Benfica perdia fulgor, expondo-se cada vez mais ao letal contra-ataque do rival. Por isso mesmo, não espantou que os azuis-e-brancos de adiantassem no marcador por intermédio de João Pinto, através de uma grande penalidade, depois de uma falta cometida por Rui Bento que lhe implicou a expulsão.

A partir daí o desafio entrou numa fase louca, com golos para ambas as equipas. William empatou a contenda para o conjunto da casa, para de seguida Kostadinov restabelecer a vantagem azul-e-branca. Mas no minuto seguinte o Benfica voltou a empatar na sequência de um golo de Yuran, até que à beira do apito final (e numa altura em que o FC Porto também estava reduzido a 10 unidades, devido à expulsão de Jaime Magalhães), Timofte estabelecia o resultado final, colocando assim a sua equipa na rota do título. Quanto ao Benfica, a época ficava praticamente perdida e Eriksson já se preparava para regressar ao futebol italiano, onde continuaria a ser muito feliz.

Benfica 0-0 FC Porto: Época 1992/93

Resumo do Jogo

Uma época depois e cenário idêntico. O Benfica recebia um FC Porto que se encontrava na primeira posição e que procurava pontuar na Luz para ficar mais perto do bicampeonato nacional. Na segunda temporada de Carlos Alberto Silva no comando dos “dragões”, o FC Porto mantinha a espinha-dorsal da sua equipa, num misto de juventude (Vítor Baía, Fernando Couto, Jorge Couto, Domingos) com jogadores consagrados e mais experientes (André, Aloísio, Jaime Magalhães, Kostadinov). Pela frente tinha um Benfica dotado de um plantel assombroso (Hélder, Mozer, Veloso, Schwarz, Paulo Sousa, Kulkov, Pacheco, João Pinto, Isaías, Rui Costa, Vítor Paneira Rui Águas) e…Paulo Futre, o melhor jogador português da altura. Mas por mais estranho que possa parecer o Benfica tinha mais um campeonato em risco.

Toni era o treinador da equipa desde a 10.ª jornada, substituindo um Tomislav Ivic que teve uma primeira fase de campeonato paupérrimo. A 1.ª volta foi fraca, mas com a 2.ª metade da prova vieram as boas exibições e o futebol que se exigia a tão bom lote de jogadores começou a aparecer. Assim sendo, era com enorme expectativa que se antevia o “jogo do título” na Luz. Com um ambiente extraordinário nas bancadas, a partida decepcionou imenso. O Benfica raramente conseguiu construir grandes ocasiões de golo, ao passo que o FC Porto conseguiu gerir o jogo quase a seu bel-prazer, pese embora tenha passado por um outro susto. Encarando o jogo de uma forma extremamente pragmática, bem ao estilo de Carlos Alberto Silva, a equipa portuense saía da Luz com o mesmo avanço pontual sobre o Benfica, o que viria a revelar-se precioso para a conquista do bicampeonato.

Por seu turno, os comandados de Toni terminariam o campeonato no 2.º lugar, claramente uma desilusão para quem tanto tinha apostado para aquela temporada. Do mal o menos, o Benfica acabou por conquistar a Taça de Portugal daquele ano, mas já eram evidentes várias convulsões internas no clube e que teriam repercussões muito grave passados poucos anos.

Benfica 2-0 FC Porto: Época 1993/94

Resumo do Jogo

Estávamos no dia 6 de Fevereiro de 1994, 18.ª jornada do campeonato nacional. O Benfica, orientado por Toni, defrontava o FC Porto que estreava no banco, em partidas a contar para o campeonato, Bobby Robson. O treinador croata, Tomislav Ivic, voltava a ser o réu e depois de uma má 1.ª volta saía do clube das Antas sem deixar saudades. O Benfica era o líder da prova com uma vantagem de quatro pontos sobre o rival (a vitória valia dois pontos) e por isso mesmo havia a consciência de que uma vitória benfiquista significaria o adeus ao título por banda do FC Porto.

No Verão de 1993 o Benfica havia sofrido uma razia em termos de saídas. Foi o célebre “Verão Quente” em que Paulo Sousa e Pacheco trocaram a Luz por Alvalade alegando salários em atraso, sendo que João Pinto também esteve a um pequeníssimo passo de seguir o mesmo caminho. Paulo Futre também já não morava na Luz, após ter saído para o Marselha, mas mesmo assim os “encarnados” aguentaram o choque e de uma forma surpreendente foram somando pontos, instalando-se no primeiro posto da tabela. Já o FC Porto mantinha a mesma estrutura da época anterior, mas com o Ivic o futebol praticado nunca convenceu, situação que se traduziu em vários desaires. Com Bobby Robson ao leme dos então campeões nacionais, a qualidade de jogo ira melhorar bastante e iriam ser criadas as bases para um ciclo dourado no clube.

Todavia, e em relação ao clássico na Luz, o Benfica triunfou sem grande discussão. Uma vitória por 2-0 em noite chuvosa alicerçada numa boa exibição das “águias” que jogaram com mais uma unidade em campo a partir dos 40 minutos de jogo, após expulsão de Fernando Couto com vermelho  directo, na sequência de uma agressão a Mozer, num lance que motivou uma célebre declaração de Robson na conferência de imprensa pós-jogo, afirmando que o resultado tinha sido de “Benfica 2-0  Fernando Couto”. Com golos de Ailton e de Rui Costa, o Benfica consolidava o primeiro lugar e praticamente arredava o FC Porto da luta pelo título, mesmo ainda faltando muito campeonato.

E a verdade é que a equipa da Luz sagrar-se-ia mesmo campeão nacional, para depois entrar numa espiral de más temporadas que conduziriam o clube a um período muito delicado da sua história. Por seu turno, o FC Porto venceria a Taça de Portugal dessa temporada, para depois…iniciar o trilho do pentacampeonato.

O novo “príncipe” do Mónaco

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cab ligue 1 liga francesa

Bernardo Silva, que no início desta época foi emprestado ao Mónaco pelo Benfica e posteriormente adquirido a título definitivo pelos monegascos, a troco de 15,75M€, tem estado em pleno destaque na equipa de Leonardo Jardim, aumentando a cada dia que passa a sua relevância e estatuto, somando minutos e adquirindo inclusive, na maioria das partidas, um lugar no onze predileto do treinador português. Muitos duvidavam de que conseguisse singrar ao mais alto nível na Europa em tão tenra idade e sem qualquer tipo de experiência em ligas principais, porém Bernardo tem demonstrado precisamente o contrário. Os elogios ecoam na imprensa francesa e internacional e os milhões gastos pelo clube no “novo príncipe do Mónaco” estão a revelar-se bem produtivos para as hostes do principado.

O jovem português, de 20 anos, não começou a temporada como indiscutível nas escolhas de Jardim, com os franceses a verem-no como uma aposta para o futuro e não tanto para o presente. Porém, as suas excelentes exibições, pautadas por momentos de brilhantismo e irreverência, provaram o potencial que lhe era atribuído e fizeram-no conquistar o seu espaço no emblema monegasco, mesmo que não seja na sua posição natural. Isto porque o estilo de jogo de Bernardo Silva é, claramente, o de um “10” puro – com uma tremenda visão de jogo, criação de oportunidades ofensivas, excelente qualidade de passe e uma capacidade técnica que a muitos deixa inveja -, posição que raramente se perfila no futebol dos tempos modernos, o que faz o treinador madeirense apostar em variadas ocasiões no luso a jogar pelo corredor direito, trabalhando como extremo/médio-interior. Este tipo de função leva o esquerdino, que não prima por uma constante ida à linha de fundo para cruzar, a pisar zonas mais interiores do terreno, nas suas características acelerações com bola, a que alia uma finalização, de certo modo, produtiva para um médio, contando, de momento, seis golos na Ligue 1.

O jovem português já leva 6 golos na Ligue 1 Fonte: Facebook de Bernardo Silva
O jovem português já leva 6 golos na Ligue 1
Fonte: Facebook de Bernardo Silva

Certamente, também tem ainda que melhorar determinados aspetos do seu jogo, primordialmente no foco defensivo, no qual revela, talvez fruto da inexperiência, algumas falhas evidentes, que necessita de trabalhar de modo a que possa tornar-se num jogador completo e consiga acompanhar os demais craques do futuro no panorama futebolístico. Para se tornar num jogador de topo mundial, Bernardo tem que conseguir juntar o equilíbrio defensivo à sua capacidade de criação de jogo e de desequilíbrio ofensivo.

Recentemente, frente à Juventus, na segunda mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, atingiu mais um feito na sua ainda curta carreira, no culminar de uma época que está a revelar-se absolutamente fantástica e surpreendente. Somou o primeiro jogo como titular na liga milionária e coroou-o como uma exibição bem positiva, apesar do empate no jogo (0-0) e da consequente eliminação dos monegascos face ao resultado negativo (0-1) adquirido na primeira mão da eliminatória, em Itália.

A próxima meta para o ex-Benfica passa pela seleção portuguesa, na qual já fez notar a sua presença em tempos recentes, num compromisso amigável com Cabo Verde, tendo sido um dos poucos jogadores lusos a evidenciar sinais positivos no encontro e o que esteve mais em destaque. Todavia, acredito que, com o atual sistema implementado por Fernando Santos na equipa das quinas, Bernardo pode ser incluído na disputa por um lugar no onze inicial, atuando numa posição de médio interior, algo similar ao que Fábio Coentrão fez no jogo contra a Sérvia, baixando, assim, o jogador do Real Madrid para o lugar onde atualmente rende mais, o de lateral-esquerdo. O médio do Mónaco assume-se como um dos pretendentes a este lugar, primordialmente pelo rendimento que tem vindo a demonstrar ao longo da presente temporada e à lacuna de atletas em boa forma e rendimento na nossa seleção.

Muito se criticou Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira por deixarem fugir do emblema “encarnado” esta jovem promessa do futebol português, mas já não é tempo para isso. Agora, há que desfrutar do seu talento nato com bola e vê-lo em ação ao mais alto nível. Com 20 anos, Bernardo Silva promete não parar por aqui e, se trabalhar bem o potencial que ainda tem por explorar, será um dos craques do futuro, não só de Portugal, como também em termos internacionais. E quem sabe, se continuar a exibir-se a este nível, daqui a pouco tempo até o poderemos ver a dar outro passo na sua carreira, rumo a um emblema com maiores aspirações que o Mónaco.

Foto de Capa: Facebook de Bernardo Silva 

Académica 1-2 Gil Vicente: A sorte merece-se

futebol nacional cabeçalho

Na conferência de imprensa de antevisão a este encontro, José Mota afirmou que a sua equipa ainda não tinha beneficiado de erros de arbitragem. Na antevisão do próximo encontro, contra o Benfica, poderá voltar a queixar-se do mesmo, porém, não terá tanta legitimidade para tal, pois os dois golos marcados pelo Gil Vicente foram conseguidos através de duas grandes penalidades, a última bastante duvidosa.

Sorte? Talvez (José Mota admitiu-a na conferência de imprensa). Mas esta, diz a sabedoria popular, protege os audazes e o Gil Vicente procurou a sorte que teve e os três pontos que traz de Coimbra não têm ponta de injustiça. A formação de Barcelos foi sempre a mais inconformada, aquela que mais quis vencer a partida e que mais bola teve no meio campo contrário (os números apontam para 58-42 a favor da Académica, mas a maior parte desta posse foi tida no seu meio-campo). Entrou pujante, com o lado esquerdo do ataque em particular destaque, beneficiando da envolvência da Ruben Ribeiro com o mesmo, ajudando Yazalde a ser o principal desequilibrador do ataque gilista.

O golo da Académica surgiu, portanto, contra a corrente do encontro, através de uma grande penalidade (duvidosa) cometida por Berger (de regresso a Coimbra para disputar um jogo com “significado especial”, segundo o mesmo em declarações na conferência de imprensa) sobre Rafael Lopes e convertida por Rui Pedro.

Estar em desvantagem no marcador não diminuiu a vontade do Gil Vicente. Nem isso, nem o facto de jogar fora de portas, nem a posição que ocupa ou o facto de o terreno sobre o qual jogava estar muito molhado. A equipa gilista continuou a carregar sobre a Académica e viu-se recompensada. Evaldo viu-se em posição privilegiada, “patrocinada” pela passividade da defensiva da Académica e isolou-se perante Cristiano, que, ao ver o brasileiro fugir para o golo, não teve outra opção senão cometer grande penalidade (o guardião da Briosa viu, no nosso entender erradamente – deveria ter sido expulso -, o cartão amarelo, falhando o próximo compromisso). Ruben Ribeiro, da marca dos onze metros, não falhou.

O jogo acabou para a Académica quando Ivanildo foi expulso Fonte: Facebook da Académica de Coimbra
O jogo acabou para a Académica quando Ivanildo foi expulso
Fonte: Facebook da Académica de Coimbra

A Académica mostrou um esboço de reacção depois do golo do Gil Vicente, mas só durou até ao intervalo. Na segunda parte, a prioridade passou a ser a contenção, e isso foi conseguido durante algum tempo, pois não houve grandes situações de perigo dos de Barcelos e menos bola no meio-campo dos estudantes, porém, à medida que a segunda parte ia passando, ia aumentando a vontade do Gil de sair de Coimbra com os três pontos e Yazalde voltou a ser determinante neste capítulo, trazendo consigo a equipa, aproveitando um lado direito estranhamente descompensado.

Não havia resultados do esforço gilista, no que a oportunidades de perigo diz respeito, mas a recompensa surgiu com uma grande penalidade (muito duvidosa) cometida por Oualembo sobre Avto. Cadu não falhou.

Ivanildo tentou inverter a tendência, mas, apesar de Rafael Lopes e Rui Pedro estarem entrosados com o guineense, este parecia sozinho na batalha de garantir, já, a presença na próxima edição da Liga Nos e, claro, foi insuficiente. Frustrado, e, depois de criar um lance perigoso na área do Gil Vicente, reclamou grande penalidade. Artur Soares Dias assim não entendeu e expulsou-o, aparentemente, por protestos. Acabava aí (minuto 80) o jogo para a Académica.

A Figura

Ruben Ribeiro: Não vacilou da marca dos onze metros, e ajudou muito a sua equipa a garantir uma vitória importantíssima. Foi fundamental na construção ofensiva, enconstando-se ao lado esquerdo do ataque, ocupado por Yazalde, o mais produtivo. Também teve um papel importante a defender e a garantir supermacia a meio-campo.

O Fora de jogo

Artur Soares Dias: Três grandes penalidades assinaladas (Viterbo e José Mota estiveram de acordo sobre a legitimidade das mesmas – “foram bem marcadas”). Duas delas foram muito duvidosas (a primeira e a última), na outra cometeu o grave erro de não expulsar o guarda-redes da Académica.

Erros com influência no resultado – foi volumoso para as oportunidades que exisitiram.

Caso do jogo

Segundo Penálti marcado a favor do Gil Vicente (65 minutos): Avto domina a bola, flete para um dos lados e cai perante um eventual contacto de Oualmebo. A existir, terá sido muito leve e provavelmente insuficiente para fazer cair o avançado gilista. Deu origem ao 2-1 que sentenciou o encontro.

Foto de capa: Facebook da Académica de Coimbra

Onde estava o Sporting no 25 de Abril?

cab reportagem bola na rede

Lisboa, 10 de Abril de 1974. O Sporting está nas meias-finais da Taça das Taças e recebe o Magdeburgo, da República Democrática Alemã (RDA), vulgo Alemanha Oriental. Três dias antes os leões tinham batido o V. Setúbal em Alvalade por 4-2 e carimbado o acesso aos oitavos-de-final da Taça, mas entretanto o goleador Héctor Yazalde, que já ia com 41 golos apontados só no campeonato (acabaria com 46, recorde absoluto em Portugal), lesionou-se e falhou o jogo europeu. Sem o seu artilheiro, o Sporting sofreu um golo e mostrou algumas dificuldades em concretizar. Só o cabeceamento certeiro de Manaca, a 15 minutos do fim, impediu que o clube de Alvalade fosse à RDA em desvantagem. De qualquer forma, o empate 1-1 já não augurava nada de bom.

No entanto, apesar deste resultado, a época desportiva do Sporting ia de vento em popa: 1º lugar no campeonato (que nem a derrota por 3-5 em Alvalade com o Benfica modificou), boa campanha na Taça e presença numas meias-finais europeias, ainda com a perspectiva de chegar à final. A situação política do país, contudo, era mais turbulenta. No dia 16 de Março, alguns militares promoveram uma tentativa falhada de golpe de Estado, que ficou conhecida como Intentona das Caldas. O regime de Marcello Caetano estava em alerta constante mas, ao mesmo tempo, confiante de que os militares revoltosos tão cedo não tentariam outra operação do género devido ao fracasso recente.

Foi neste ambiente tenso e indefinido, aliás, que se viveu o Sporting-Benfica a que já aludimos, disputado a 31 de Março. Depois do golpe frustrado, Marcello Caetano achou necessário “medir o pulso” ao povo que governava. Nada melhor do que o futebol e, concretamente, o maior derby de Portugal, para testar a sua popularidade junto das massas e mostrar aos revoltosos que o povo estava com ele. E qual foi a reacção dos adeptos quando viram que o Presidente do Conselho, a menos de um mês de deixar de o ser, assomou à tribuna acompanhado de João Rocha e Borges Coutinho, presidentes dos dois maiores clubes de Lisboa? Viraram-se na direcção da bancada presidencial, bateram palmas e aclamaram o sucessor de Salazar. Pode por isso dizer-se que foi no Estádio José Alvalade que teve lugar a última grande vitória do antigo regime.

magdeburgo
Magdeburgo-Sporting: os leões perderam 2-1 na RDA a 24 de Abril de 1974. A viagem de regresso foi atribulada
Fonte: sporting.footballhome.net

Nas palavras de Otelo Saraiva de Carvalho, um dos oficiais que comandaram a Revolução de Abril: “Pensei com os meus botões, «caraças pá! Então estamos nós aqui a trabalhar convencidos de que vamos ter um intenso apoio popular que vai derrubar o governo, e o Marcello tem uma ovação destas». Ficámos preocupados (…). Mais tarde chegámos à conclusão de que aquilo foi só fogo de vista. A malta que lhe bateu palmas naquele dia era capaz de lhe cuspir em cima no dia seguinte”. E a Intentona das Caldas, que tinha ocorrido semanas antes e por sinal coincidiu com o dia do jogo entre leões e dragões? Palavra de João Rocha: “na manhã do jogo vinham os tipos das Caldas, e disse aos responsáveis do Exército que não se fazia uma revolução num dia de Sporting-Porto.

Voltando ao percurso leonino na Taça das Taças de 1973/74, importa dizer que Yazalde continuava lesionado e não seguiu viagem para a RDA, onde a 24 de Abril se jogaria o acesso à final. Os leões, treinados por Mário Lino, entraram mal e aos 10 minutos já perdiam por 2-0. A 12 minutos do fim, Marinho reduziu e devolveu a esperança ao Sporting, mas Tomé falhou à boca da baliza o golo tão ansiado. Desta forma, o Sporting terminava a sua caminhada europeia às portas da final, onde os alemães venceriam o Milan por 2-0. Mas o último apito do árbitro foi apenas o início de uma verdadeira odisseia, uma vez que, em Portugal, faltavam poucas horas para a queda do regime de Marcello Caetano – o mesmo que tinha sido ovacionado semanas antes num Sporting-Benfica.

Com viagem marcada para o dia 25, a comitiva leonina acordou às 4h30 da manhã, pouco mais de quatro horas depois de Grândola, Vila Morena, de José Afonso, ter passado na Rádio Renascença, anunciando dessa forma aos militares que a Revolução estava em marcha. A equipa do Sporting soube do golpe de Estado ainda na RDA, quando chegou ao posto fronteiriço para entrar em Berlim Ocidental (enclave situado em plena RDA mas pertencente à República Federal Alemã, RFA). “Houve uma revolução em Lisboa e está a alastrar por todo o país”, era o que diziam os funcionários do posto. De Berlim voaram para Frankfurt, onde constataram que todos os voos para a capital portuguesa tinham sido cancelados. Foi, portanto, necessário recorrer a um plano B para levar a comitiva de volta a casa.

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A viagem de regresso não se chegou a realizar como previsto – o 25 de Abril mudou tudo
Fonte: caisdoolhar.blogspot.pt

Para a equipa do Sporting era uma incógnita o que se passava no país, e chegou a haver momentos de tensão quando surgiu o rumor de que havia milhares de mortos e feridos. A preocupação, no entanto, esbateu-se por momentos quando um dos acompanhantes da comitiva, ao ouvir esses relatos, teve a presença de espírito e o sentido de humor suficientes para atirar um “porra… e eu que deixei o carro na Baixa”. João Rocha conseguiu contornar o problema marcando à última hora um voo para Madrid, de onde todos partiriam depois de autocarro até Badajoz. Mas como, devido à situação política, as fronteiras portuguesas estavam fechadas, a comitiva teve de esperar cerca de 40 horas em território espanhol. A esta contrariedade acresceu o facto de os hotéis de Badajoz estarem sobrelotados, pelo que alguns jogadores tiveram de dormir no autocarro. A situação só se resolveu quando João Rocha conseguiu contactar com oficiais do Movimento das Forças Armadas – alguns relatos mencionam mesmo o próprio general Spínola – que permitiram à equipa do Sporting rumar finalmente a Lisboa, já na manhã do dia 26. Era o fim da odisseia. Nas palavras do luso-brasileiro Joaquim Rocha, à época jogador leonino, “uma viagem destas não vem na Bíblia!”.

Portugal entrava, assim, num período revolucionário que foi conhecendo momentos de maior ou menor fulgor, mas que só teve fim a 25 de Novembro de 1975, mais de um ano e meio depois. O Sporting, por seu turno, acabou a época em grande, vencendo os três jogos que faltavam até ao fim do campeonato e conquistando ainda a Taça de Portugal, frente ao Benfica. Os leões fizeram a dobradinha e tornaram-se no primeiro clube português a vencer uma competição em liberdade – ou, neste caso, duas – provando que não se deixaram afectar nem pela eliminação europeia nem pela odisseia germano-espanhola. A época de 1973/74 foi, portanto, recheada de acontecimentos para o emblema verde-e-branco, incluindo esse dia de fins de Abril em que, sem o saberem, jogadores e dirigentes deixaram eternamente para trás um Portugal ditatorial, regressando depois a um país em mudança e onde tudo parecia possível.

 

Foto de capa: sporting.footballhome.net

Fontes consultadas:

– Almanaque do Sporting

– Estórias de Alvalade

– 50 Anos a Rugir na Europa

– depoimento gentilmente cedido pelo ex-jogador do Sporting Fernando Tomé, que viveu os factos aqui relatados, e a quem agradeço

Um fim de semana à Sporting

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A génese do Sporting é o seu Ecletismo, e sempre será assim. Ao longo dos últimos anos, tem havido um certo afastamento de grande parte dos Sportinguistas das modalidades praticadas fora do Estádio José Alvalade.

Este afastamento deve-se à inexistência dum pavilhão no projecto arquitectado por Tomás Taveira; escolhido por uma direcção que pouco conhecimento deveria ter sobre o ADN do Sporting Clube de Portugal, que é sem qualquer dúvida a maior potência desportiva nacional. Alguns desportos históricos do clube, como por exemplo o hóquei em patins, viveram um longo desterro longe da “casa-mãe”, algo que finalmente está prestes a terminar, e ainda bem.

Este fim de semana, o Sporting discute duas finais europeias, uma em hóquei em patins  e outra em futsal, onde jogamos em “casa”. 20 anos depois, o hóquei volta à ribalta europeia, onde os leões irão discutir a conquista da Taça CERS. Algo que demonstra o excelente trabalho realizado por todo o departamento da modalidade, uma vez que há apenas dois anos o Sporting estava a disputar as divisões secundárias nacionais. Assim, esta qualificação para a final-four – à qual se junta a qualificação para a final-four da Taça de Portugal – já é uma pequena vitória e a afirmação que o Sporting está de novo num lugar de destaque nacional nesta modalidade.

Este pode ser um fim de semana histórico para os leões Fonte: Sporting Clube de Portugal
Este pode ser um fim de semana histórico para os leões
Fonte: Sporting Clube de Portugal

No que ao futsal diz respeito, as esperanças estão – e têm que estar – mais elevadas; o terceiro lugar na final regular do campeonato soube manifestamente a pouco. A uma equipa que é bicampeã em título exigia-se mais em algumas partidas realizadas nos últimos tempos. A meu ver, esta baixa de forma tem que ver com o apostar forte nesta UEFA Futsal Cup, e após duas derrotas em 2011 e 2012, este ano o Sporting quer mesmo vencer o troféu.

A ausência de Paulinho poderá ser um contratempo para a estratégia de Nuno Dias; o internacional português é um jogador explosivo, bastante desequilibrador nas alas e importante nas bolas paradas. Contudo, o Sporting tem este ano uma vantagem que não possuiu nas últimas duas edições, o factor casa. Com os bilhetes já virtualmente esgotados, os leões irão ter mais de dez mil Sportinguistas a torcer por eles nas bancadas do MEO Arena, um tónico que certamente irá trazer motivação adicional aos jogadores.

O sorteio não foi o desejado, com a equipa verde e branca a disputar a meia final frente aos grandes favoritos, o FC Barcelona. Mas para ser o melhor temos que ganhar aos melhores, e este ano é o do agora ou nunca. Creio que vencendo o jogo de hoje garante ao Sporting a possibilidade de sonhar bem alto com a conquista do troféu, e que vontade tenho eu de ver João Benedito com as mãos bem alto a mostrar a Taça!

Este fim de semana, respiro Sportinguismo.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Jogadores que Admiro #36 – Alan Shearer

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Lá em casa, além de ao habitual futebol português, assistia-se assiduamente à Premier League. E na altura em que também o meu Sporting dava cartas, com José Peseiro no leme, havia uma equipa inglesa que me enchia as medidas. Uma daquelas equipas que nunca ganharam nada, nem sequer lá chegaram perto, mas cujo plantel me fazia acreditar que talvez esse dia chegasse. O Newcastle.

Sim, eu sei. O Newcastle? Mas, no ano de 2004, os geordies contavam com uma estrela, um senhor, um capitão, que ainda hoje é um dos jogadores dos quais guardo as memórias mais bonitas. Alan Shearer, inglês, avançado. Shearer nunca alcançou a glória; preferiu ficar no clube de sempre, o clube da cidade onde nasceu, do que voar para Itália ou Espanha. Mas nesse norte de Inglaterra que o viu crescer ele é a lenda viva que ainda perdura.

Shearer tinha um estilo peculiar, incomodativo. Saltava com os cotovelos certeiros (aquilo a que chamamos hoje “saltar à Bruno Alves”), usava o corpo para ganhar posição, via como objectivo último a bola no fundo das redes e utilizava a força para o alcançar. Mas tinha também uma excelente visão de jogo; formava uma dupla de fazer inveja com Bellamy, e sabia jogar no vazio para dar tempo e espaço ao galês.

Alan Shearer é uma verdadeira lenda da Liga inglesa Fonte: Newcastle United
Alan Shearer é uma verdadeira lenda da Liga inglesa
Fonte: Newcastle United

É verdade que nunca ganhou nada com a camisola preta e branca. Mas levou o Newcastle a outros voos, marcou golos que deram fama a Nicky Butt, Dyer, Ameobi e muitos mais. Shearer era o matador que eu, ao vê-lo brilhar nessas tardes de domingo passadas em frente à televisão, tentava imitar logo de seguida a correr desenfreadamente no corredor lá de casa: imitava as jogadas do Newcastle, fazia tabelinha com a parede, com Bellamy, e finalizava! Ganhava a Premier League todas as semanas.

Tenho pena quando Shearer não é recordado como um dos melhores da sua geração. Porque o foi. E quando vejo aquele filme que nos fez a todos acreditar que íamos ser os melhores do mundo, o Golo, a história toca-me mais porque é o Newcastle. É o Shearer. Revejam o Golo e entendam o que estou a dizer: o Newcastle daquela altura, St. James Park, Alan Shearer e companhia, não deixam ninguém indiferente.

Obrigada, capitão.

Foto de Capa: Newcastle United

Masters 1000 de Monte Carlo: Djokovic imparável

A longa época de terra batida teve, na semana passada, o seu começo com o Masters 1000 de Monte Carlo. O torneio, que se realiza no principado do Mónaco, tem só por si algumas características especiais como, por exemplo, o facto de ser o único torneio desta categoria em que não é obrigatória a presença dos jogadores do top 10. No entanto, esta edição, em concreto, tinha mais alguns pontos de interesse: Será que Djokovic iria ser capaz de dar seguimento à excelente temporada que está a realizar? Iria Rafael Nadal, que tinha vindo a apresentar um nível bastante medíocre, seria capaz de voltar às vitórias no principado?

O torneio, que não contou com Andy Murray nem Kei Nishikhori, teve um começo bastante tranquilo. Os favoritos avançaram sem grandes sobressaltos. No entanto, nos oitavos-de-final da prova surgiram as primeiras surpresas: Roger Federer, que habitualmente não jogava este torneio, caiu aos pés de um excelente Gael Monfils, que acabaria por atingir as meias-finais da prova, caindo apenas aos pés de Tomas Berdych; Rafael Nadal, que estreou neste torneio uma nova raquete, foi obrigado a um terceiro set frente a John Isner; o então detentor do titulo, Stan Wawrinka, viu Grigor Dimitrov aplicar-lhe um corretivo (6-1 e 6-2). Estavam, assim, encontrados os 8 jogadores que iriam jogar os quartos-de-final.

Num dos encontros que mais espetáculo prometia, o que, de facto, veio a acontecer, Rafael Nadal derrotou em 3 partidas um sempre difícil David Ferrer. Nadal, que até poderia ter fechado o encontro em 2 sets, dispôs de serviço a 5-4 para selar o encontro, e realizou, provavelmente, uma das melhores exibições da temporada e marcava, mais uma vez, o duelo que todos esperavam frente a Novak Djokovic, que havia derrotado Marin Cilic sem grandes dificuldades. No que aos restantes jogos diz respeito, Milos Raonic, que havia vencido o português João Sousa, na segunda ronda, viu-se forçado a desistir perante o checo Tomas Berdych. Por sua vez, Monfils bateu Grigor Dimitrov por 6-1 e 6-3.

Tem sido uma temporada fantástica para Djokovic
Tem sido uma temporada fantástica para Djokovic
Fonte: Facebook Oficial do Torneio de Monte Carlo

Quase um ano depois, o útimo duelo entre ambos aconteceu na final de Rolland Garros de 2014, aí, com vitória para Nadal, Novak Djokovic e Rafael Nadal voltavam a defrontar-se. Num jogo em que os parciais não demonstram o equilibrio que esteve patente durante todo o jogo, o sérvio bateu o espanhol por duplo 6-3. Contudo, Rafael Nadal pode estar contente com o ténis que apresentou durante toda a semana. O espanhol, na minha opinião, está num progressivo crescimento que terá, possivelmente, o seu pico em Rolland Garros. Na outra meia-final, e respeitando a lógica, Berdych deu continuidade ao bom momento que está a atravessar e bateu Monfils por expressivos 6-1 e 6-4. Estavam, desta forma, encontrado os dois finalistas da edição de 2015 do Masters 1000 de Monte Carlo.

Naquele que, a meu ver, foi o melhor encontro de todo o torneio, Djokovic triunfou sobre Tomas Berdych numa equilibrada partida, que só ficou resolvida ao fim de 163 minutos de jogo. O checo foi o único jogador a conseguir roubar um set a Djokovic. Contudo, e para quem assistiu à final, pareceu sempre que o sérvio acabaria por triunfar, aliás, head2head assim o dita (17-2).

Novak Djokovic continua, assim, imparável. Depois da conquista dos Masters 1000 de Shanghai e Paris, e ainda do Masters de final de temporada, realizado em Londres, todos estes torneios dizem ainda respeito à temporada transata. No entanto, o sérvio não desarmou e começou a temporada de forma autoritária: Australian Open, Indian Wells, Miami e, agora, Monte Carlo foram os torneios conquistados por Djokovic. Ora não será difícil concluir que o sérvio conquistou todos os eventos de maior importância no circuito.

Embora não seja um grande fã de Djokovic, a verdade é que o sérvio está imparável. Será que é desta que consegue ganhar Rolland Garros? Esperar para ver.

Foto de capa: Facebook Oficial do Torneio de Monte Carlo

Dois castelos em ruínas

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O último lugar da Bundesliga pertence ao Hamburgo. O penúltimo lugar é ocupado pelo Estugarda. Duas equipas emblemáticas e com história no campeonato alemão, que se encontram moribundas no fundo da tabela.

O Hamburgo era um exemplo a seguir. Dono de um currículo invejável – tem 3 vitórias no campeonato pós-Segunda Guerra Mundial – e cliente habitual das competições europeias – ganharam a Taça dos Campeões Europeus em 1982/83 -, o clube veio-se perdendo e está afastado dos grandes palcos desde 2009/10, altura em que foi eliminado nas meias-finais da Liga Europa.

Sem rei, nem roque. As mudanças no banco têm sido certamente um dos motivos de inconstância. O primeiro foi Mirko Slomka, que começou a temporada depois ter salvado o clube da despromoção, e a seguir vieram Joe Zinnbauer e Peter Knäbel, director desportivo que assumiu interinamente o lugar. Nada mudou e Bruno Labbadia é, até ver, a última escolha para a cadeira quente. Depois de ter passado pelo Hamburgo em 2009/10, o treinador alemão volta ao activo após as quatro temporadas ao serviço do Estugarda.

Uma das causas da época desastrosa é o facto de os reforços não estarem ao nível que fez o Hamburgo avançar para as suas contratações, que visavam dar outra capacidade ao plantel. Marcelo Diaz, médio box-to-box recrutado ao Basileia, Lewis Holtby, Valon Behrami e Ivica Olic são os mais sonantes e, apesar da experiência e talento, não acrescentaram o que seria expectável. Quem não é reforço mas é outra das desilusões é Pierre-Michel Lasogga, que foi um dos destaques da época passada e tem sido uma autêntica sombra desse jogador – 2 golos em 21 jogos.

A temporada tem sido um desastre em Estugarda Fonte: Facebook do Estugarda
A temporada tem sido um desastre em Estugarda
Fonte: Facebook do Estugarda

Apenas um lugar acima, está colocado o Estugarda. O clube foi campeão em 2007, com uma equipa que contava com nomes como Sami Khedira, Mario Gómez ou o internacional português Fernando Meira. Os dias são outros e o emblema alemão já não tem capacidade de lutar pelo título, mas tinha obrigação de, pelo menos, fazer temporadas sem estar com a corda ao pescoço.

A equipa que joga no Mercedes-Benz Arena tem estado muitos níveis abaixo do esperado, mas ainda assim tem alguns jogadores interessantes a despontar. Filip Kostic tem sido um dos melhores da equipa de Huub Stevens, fazendo a diferença com a sua capacidade técnica e velocidade. Antonio Rüdiger, central possante e com elevada margem de progressão, está de volta depois de uma grave lesão e é um “reforço” importante na luta pela manutenção. É, a par de Timo Werner, um avançado que costuma partir das alas, a principal promessa do clube. Nem um nem outro tiveram temporadas muito felizes. Serey Dié, contratado ao Basileia em Janeiro, tem sido o motor do meio campo, destacando-se pela capacidade física. Daniel Ginczek, que tem marcado nos últimos jogos, afirmou-se como a referência ofensiva que tanta falta fez durante a temporada, já que Ibisevic esteve longe do seu melhor.

Chegamos ao sprint final e nem tudo está perdido. A manutenção encontra-se a poucos pontos e ainda existe hipótese de salvação. Teremos os dois históricos na segunda liga alemã?