João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol no Tainan City, de Taiwan, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Rúben Amorim deixou recentemente uma frase que nos merece reflexão:
“Os jogadores devem entender o jogo, não o sistema. É fundamental ter diferentes formas de jogar.”
Talvez esteja aqui uma das discussões mais interessantes do futebol atual. Durante anos habituámo-nos a definir treinadores pelos sistemas.
“Joga em 4-3-3.”
“É um treinador de 3-4-3.”
“Prefere o 4-2-3-1.”
Mas será assim tão simples?
Uma equipa pode começar em 4-2-3-1, construir em 3-2-5, defender em 4-4-2 e, em determinados momentos, pressionar com uma estrutura completamente diferente.
Então qual é o sistema?
O sistema é apenas o ponto de partida, o jogo é muito mais do que isso.
Entender o jogo
Um jogador não pode limitar-se a saber onde deve estar.
Tem de perceber por que razão está ali.
Onde está o espaço?
Quem dá largura?
Quem fixa?
Quem ataca a profundidade?
Quem garante o equilíbrio?
Se o avançado baixa, quem ataca as costas da defesa?
Se o adversário pressiona com três, como criamos superioridade na primeira fase de construção?
É isto que significa entender o jogo.
Porque o futebol muda constantemente e o jogador que apenas conhece a posição pode ficar perdido quando o jogo deixa de respeitar o desenho inicial.
Identidade não é rigidez
Amorim disse ainda algo particularmente importante e que ele próprio aprendeu com a experiencia no Manchester United.
“Se não temos as características para jogar de uma certa maneira, cabe a nós adaptarmo-nos.”
Aqui está, para mim, o ponto essencial, um treinador deve ter identidade e princípios. Mas identidade não pode significar rigidez.
Se tenho centrais rápidos, posso assumir determinados riscos com espaço nas costas, se não tenho, devo fazer exatamente o mesmo apenas para ser fiel à minha ideia?
Se tenho extremos fortes no um contra um, devo criar situações para os potenciar, se tenho um avançado que joga muito bem entre linhas, devo procurar criar relações à sua volta.
O modelo deve potenciar os jogadores e não aprisioná-los.
Adaptar não significa abdicar das nossas ideias, significa encontrar a melhor forma de as aplicar aos jogadores que temos e aos problemas que o adversário nos coloca.
O adversário também pensa
Existe ainda outro detalhe importante, do outro lado está outro treinador.
Também observa.
Também analisa.
Também identifica padrões.
Também procura perceber onde pressionamos, como construímos e que espaços deixamos quando atacamos.
Se fazemos sempre exatamente a mesma coisa, tornamo-nos previsíveis.
Por isso, mudar a forma de construir, pressionar ou ocupar determinados espaços não significa perder identidade.
Podemos mudar a estrutura e manter os princípios, essa, para mim, é a verdadeira flexibilidade tática.
Talvez, então, devêssemos deixar de perguntar apenas:
“Em que sistema joga esta equipa?”
E começar a perguntar:
“Que problemas esta equipa é capaz de resolver?”
Porque o futebol não pergunta ao treinador qual é o seu sistema preferido.
O futebol apresenta problemas.
Os melhores jogadores, e os melhores treinadores encontram respostas.

