Vi o meu primeiro mundial em 1974 e desse tempo ficou-me a forte impressão causada pelo guarda-redes Alemão Sepp Mayer. De tal forma que, quando quis ser jogador de futebol, escolhi aquele sitio amaldiçoado entre ferros a que se chama baliza e onde até a relva hesita em crescer.
O normal seria ter ficado impressionado pela forma como Beckenbauer lia o jogo antes de este acontecer, ou pelos desenhos imprevisiveis de Johan Cruijff contornando os defesas como se fossem pinos.
Ainda fui a tempo de ver a última sombra de Eusébio nos relvados Portugueses. E de ver soçobrar o talento e imprevisibilidade de Sócrates e Falcão ante a frieza e cinismo de Paolo Rossi e companhia. Essa seria a última vez que a presença de um argentino baixinho passaria despercebida.
Diego Armando Maradona ainda estava guardado na margem sul do oceano Atlântico, num tempo em que a globalização era apenas ficção científica. Mas era impossível guardar por muito mais tempo tamanho segredo. A consagração definitiva de El Pibe chegaria em 1986 e logo com a célebre ajuda da mão de um deus efémero. Infelizmente o talento incomensurável não encontraria o suporte interior necessário para reinar mais do que de forma fugaz. Em 1994 um controlo positivo de efedrina retirá-lo-ia definitivamente da ribalta. Isto já depois de, na passagem por Nápoles, ceder aos prazeres da “dolce vita”, de todo incompatível com a alta competição.
Nessa altura pensei que não teria tempo de vida suficiente para voltar a ver tal concentração de talento em apenas um jogador. Maradona fazia coisas que mais ninguém parecia capaz de algum dia imitar. Dizer isto pode ser profundamente injusto perante a magia de Ronaldo, Ronaldinho ou Zidane, por exemplo. Mas creio que também é justo afirmar que a retirada prematura do astro argentino ajudou a que tivessem trajectória e iluminação próprias ao invés de poderem ficar condenados a gravitar à sua volta.
O aparecimento de Messi contraria todas as probabilidades. Incluindo as do próprio jogador. Messi não era apenas mais pequeno que os demais, apesar de não ser difícil reconhecer-lhe as qualidades.
Era também um miúdo com problemas de saúde que requeriam tratamentos demasiado onerosos para as posses dos pais. Um acaso aparentemente infeliz que no entanto seria fundamental para o fazer viajar até Lérida, onde seria descoberto pelos olheiros do Barcelona. O trabalho de meticulosa filigrana de La Masia – onde chegou a jogar um escalão abaixo para poder estar ao lado de alguém do seu tamanho – foi determinante na metamorfose de um miúdo de 13 anos com apenas 1,40m para o atleta de alta competição que hoje todos conhecem.
O responsável pela sua contratação, Carlos Rexach, disse, então: “contratei-o ao fim de 30 segundos. Com mais de 40 anos de futebol, nunca havia visto nada assim. Em 4 oportunidades, converteu 3.” No último mundial do Brasil, Thiery Henry, seu antigo colega no Barcelona, testemunhou no mesmo sentido: “conheci grandes jogadores mas nunca vi ninguém fazer o que ele fazia. Em espaços reduzidíssimos pedia-nos a bola e desaparecia a serpentear, como se a bola estivesse colada aos seus pés.”
O toque de bola de Messi é inconfundível Fonte: Facebook Oficial de Leo Messi
Agora julgo que é definitivo: demorará muito para aparecer alguém que se lhe assemelhe. Leo Messi é de longe o melhor jogador que alguma vez vi jogar. A forma como entende o jogo, como conduz a bola, como define, como inventa espaços, finaliza e reinventa o jogo é absolutamente genial. Só uma má condição física o aproxima dos mortais.
Elogiar Messi é também reconhecer o enorme talento e as qualidades de Ronaldo. É preciso ter muita sorte para podermos desfrutar na mesma vida de jogadores deste quilate. O que o “nosso” jogador tem conseguido no tempo de Messi é absolutamente notável e creio que também ele é, pela sua abnegação, corresponsável pelo contínuo derrubar de barreiras e limites pelo argentino.
O tão desejado regresso do Rali de Portugal ao norte finalmente está a acontecer e é já na quinta feira que começa a prova a nível desportivo, visto os vários testes que já têm estado a acontecer. Esta que vai ser a quinta prova do WRC (mundial de ralis) conta com uma lista de inscritos de luxo composta por 96 carros, sendo 18 pilotados por portugueses.
Depois do pior rali da Volkswagen nos seus três anos de WRC, os alemães vão querer corrigir já esta situação e voltar Às vitórias, numa luta que se prevê mais emotiva que o normal visto o rali ser novo para todos os pilotos. Apesar disto o maior candidato é como sempre Ogier, bicampeão do mundo e vencedor de quatro das cinco últimas edições. Em 2012, o ano em que não venceu, é preciso relembrar que não estava a correr com um WRC, mas sim com um S2000, naquele que foi o ano 0 da Volkswagen no WRC. Mesmo assim ficou em sétimo na prova e à frente de vários carros da categoria máxima, entre eles o do seu atual colega de equipa Latvala. Se o francês ganhar chega assim às cinco vitórias e junta-se ao topo de vencedores da prova, que neste momento é ocupado por Mark Allen.
Dos 18 pilotos portugueses em prova apenas um participa nas contas do WRC, neste caso o WRC2. Falo de Bernardo Sousa que volta a competir nesta categoria mas desta vez aos volantes de um Peugeot 208 T16 em vez do Ford Fiesta RRC da temporada passada. O madeirense tenta mais uma vez a sua sorte nesta competição onde o ano passado mostrou ser dos mais rápidos, apesar de alguns azares nos resultados.
É importante ainda relembrar que este ano a principal prova portuguesa de ralis não conta para o nacional de ralis, pelo que a presença dos principais pilotos portugueses serve mais para testar afinações para a próxima prova do nacional que se disputa nos Açores em 15 dias também em pisos de terra. Dos principais candidatos aos primeiros lugares no nacional estão praticamente todos presentes, sendo a única excepção Ricardo Moura. Um dos grandes destaques seria a estreia do Skoda Fabia R5 pelas mãos de Pedro Meireles, mas um toque num dos treinos do piloto de Guimarães fez com que esta estreia apenas se venha a realizar nos Açores. No Rali de Portugal, o carro utilizado será o Fabia S2000 do ano passado, que agora pertence a Carlos Martins.
Se estás como eu e não podes ir ao norte ver a prova e participar nesta grande festa podes sempre acompanhar via Antena 3 e ver na RTP1/RTP2 cinco das 16 PEC nos seguintes horários:
Acabou! A época 2014/2015 foi péssima: o Porto vai sair deste ano desportivo sem um único troféu, nem uma “supertaçazinha”, que é ganha às custas da época anterior, pois nem a temporada transacta foi de sucesso.
Há muitas razões que podem ser apontadas para o insucesso desta época mas as mais importantes, ou pelo menos as que saltam mais à vista, podem ser listadas (sem ordem de importância) de forma mais ou menos correcta.
Arbitragens
Primeiro e para arrumar a questão, as exibições dos homens do apito. Já foram mencionadas as más arbitragens ao longo da época, até discriminados alguns erros em jogos específicos (podem ser mencionados outra vez se necessário) mas parece que estes têm que ser menosprezados devido a más exibições do Porto. Está errado. O facto de qualquer clube em qualquer momento da época passar uma má fase nada desculpa a constante tendência para beneficiar uma só equipa. Foi uma almofada nos momentos maus, foi um facilitador em jogos dificeis, nunca os deixaram cair. É sempre mais fácil beneficiar um clube que tem mais adeptos e mais simpatia da imprensa do que qualquer outro em Portugal.
Más escolhas técnicas e tácticas de Lopetegui
Já muito foi falado sobre Lopetegui, os próprios adeptos estão divididos em relação à continuidade do treinador – ao que tudo indica, porém, ficará para o ano. Não foi uma temporada fácil para o técnico espanhol, que chegou ao nosso futebol como um desconhecido.
Há sempre muita desconfiança quando um treinador estrangeiro vem para o futebol português. Afinal, este não lhe conhece as “manhas” nem os truques, diz-se que há a tendência para menosprezar os adversários e facilitar contra os clubes do fundo da tabela. Para aumentar ainda mais este olhar de soslaio, o treinador é espanhol. Dá sempre aquele sentimento patriota – admito que também sofro disso – quando um “hermano” vem para uma posição de poder no nosso país, neste caso no futebol. Ainda para mais, o raio do espanhol pôs-se a protestar com as arbitragens do Benfica, veja-se lá a soberba!
O que é certo é que as escolhas nem sempre foram as acertadas. Lopetegui chegou com a ideia de não haver titulares (o Porto aposta sempre forte na primeira fase da Liga dos Campeões pelo que a rotatividade tem que acontecer) e de que todos podiam fazer parte da equipa inicial seja qual for a equipa-base. A Liga portuguesa, no entanto, é uma liga de algum combate em que se exige máxima concentração em todos os jogos, principalmente nas deslocações, logo a concentração de um jogador que tem jogado pouco e o entrosamento não são os mesmos de um jogador que está constantemente a em acção.
Jackson foi figura de proa na época do FC Porto Fonte: Página de Facebook de Jackson Martínez
Outro pecado de Lopetegui foi uma abordagem táctica ineficaz e a falta de um plano B em jogos importantes. Por exemplo, o Porto não ganhou nenhum jogo ao Benfica este ano e, no entanto, os vermelhos nunca tiveram a iniciativa de jogo (aliás nem contra o Sporting). Mesmo no Dragão, a estratégia portista caiu por terra quando Jesus desceu a equipa depois de Tello ter criado perigo nos minutos iniciais. A partir daí não houve um segundo plano, assim como não o houve na Luz quando o primeiro não estava a resultar ou no Dragão, contra o Sporting, para a Taça de Portugal. Muitas foram as vezes em que o Porto bateu contra o muro de betão elevado pelas equipas adversárias; poucas foram as vezes em que o superou com eficácia.
Apesar destes e de outros erros, Lopetegui foi mudando ao longo do ano, tendo sido mais os jogos em que mexeu bem nas substituições do que mal e a equipa tem, realço, uma ideia de jogo. Uma auto-análise só fará o técnico melhorar e encarar a próxima temporada com mais esperteza (sim, esperteza é a palavra indicada).
Hiperbolização do plantel
Muito se falou sobre o orçamento do Porto em contratações este ano. Os Dragões tinham gasto em Setembro de 2014 cerca de 33 milhões de euros, o Benfica 30 milhões (veja-se a “enorme” diferença de 3 milhões) e o Sporting cerca de 16 milhões. Entraram no nosso plantel principalmente promessas de craques, jogadores que tinham estado menos bem nos seus clubes e alguns emprestados – seria, portanto, um ano para apostar forte na recaptura do campeonato. Mas Roma e Pavia não se fizeram num dia – era necessário colocar estes jogadores a funcionar como equipa e a alguns era preciso recuperá-los primeiramente. De uma forma simplista, pensou-se que seria colocar uns craques e estava o trabalho feito mas nada é assim tão preto no branco. E neste capítulo, apesar das imensas saídas, o nosso rival directo desta época levava uma vantagem invisivel. A espinha dorsal que ficou nas águias é sólida, sabe jogar e tem muita experiência no nosso campeonato, sendo que, além do mais, pôde concentrar-se só na Liga desde cedo.
Hélton. 37 anos, 15º jogador com mais jogos na história do FC Porto Fonte: Página de Facebook do FC Porto
Houve ainda uma inconstância nos nossos jogadores, alguns tipicamente na sua fase de adaptação a novo clube ou a novas funções. Aconteceram evoluções positivas como as de Casemiro ou Tello; outros baixaram de produção como Brahimi; e alguns há que pautaram o campeonato por alguma inconstância como Quaresma (que esteve melhor do que na época passada) e Herrera. Se se fizesse um gráfico com a qualidade das exibições nas partidas do campeonato, alguns atletas iriam do 0 ao 10, o que não pode acontecer numa prova de estabilidade/regularidade.
Há jogadores que devido ao seu talento ou pico de forma nunca deixaram de estar ao seu melhor nível durante a época como Danilo, Jackson Martinez, Oliver e, em menor escala, Alex Sandro. Tal como já disse numa crónica anterior, o Porto tem uma grande equipa mas não é a melhor que já teve, ao contrário do que muitos quiseram afirmar.
Responsabilidade dos jogadores
Um assunto já tocado pelos meus colegas do Bola na Rede, por mim e pela grande maioria dos adeptos – a falta de ambição dos jogadores. O Porto guerreiro a que fomos habituados não perdia com o Sporting em casa daquela forma, não desperdiçava a oportunidade de se aproximar do Benfica quando se deslocou ao Nacional nem se deixava empatar pelo Belenenses ao minuto 84 num jogo que podia dar o título ao rival. Houve uma perda de identidade notória! Há uma falta de experiência, idade e de saber o que é o Porto. Poucos são os jogadores no nosso plantel para os quais olhamos e que reconheçamos como um pilar de estabilidade, do saber o que é ser portista. É um problema que, na minha óptica, transcende o treinador – os jogadores parecem olhar para o Porto cada vez mais como uma ponte para outros clubes e só assim se percebe a falta de pernas em jogos que têm de ser ganhos obrigatoriamente. Talvez seja preciso cobrar à boa maneira portista outra vez, em vez de estarmos sempre a fazer cafunés a profissionais.
Resta preparar a nova época com especial cuidado, analisar cada sector, posição e encontrar jogadores que vão ao encontro das características de jogo do treinador, em vez de contratarmos bons jogadores que vão demorar a assimilar as suas ideias. Loepetegui não vai mudar muito a forma de jogar, é casmurro nesse capítulo, pelo que saibamos então encontrar os atletas certos para a equipa.
Outros pontos importantes de referir são a estabilidade financeira do clube e a política económica – aí reside o cerne de toda a estrutura. A nível financeiro, a direcção tem de ser muito inteligente pois esta, sim, é a maior ameaça ao nosso clube. Com ponderação e cabeça fria encaremos o que aí vem com a força do Dragão e sempre prontos a apoiar o clube do coração no melhor e no pior.
Já aqui confessei a minha paixão pela Juventus. Não é difícil perceber, portanto, que tive uma semana bastante feliz. Desde que o Inter conquistou a Liga dos Campeões, com José Mourinho, que o futebol italiano não tinha um representante sério nas competições europeias. Esse futebol altamente estereotipado está de volta aos grandes palcos, às grandes finais e à grande glória. E com ele, a Juve.
Não vou voltar a escrever sobre o porquê de esta Juventus estar onde está: Allegri construiu um futebol fluido, descomplicado, rápido e assente na organização de Vidal e Pirlo e no talento individual de Pogba e Morata. Vou antes falar sobre o pulmão destes bianconeros. Homem que só conheceu esta paixão, que vibra com as mais banais vitórias como se se tratassem de finais, que defende a Juve (literalmente) até ao último fôlego: Gianluigi Buffon.
Trinta e sete anos. Melhor jogador em campo numa meia-final da Champions. Decisivo. Impenetrável. Doador de confiança. Melhor guarda-redes dos últimos 10 anos. Claro que me delicio com a juventude de Neuer, os rasgos de Casillas e que ainda me lembro do poderio de Oliver Kahn. Mas Buffon sempre foi o meu guarda-redes preferido. E mostrou, mais uma vez, que continua em forma e com ganas de conquistar o título que lhe tem fugido. Foi ele que não conseguiu defender o penálti que deu a Champions ao Milan em 2003, e talvez por isso a responsabilidade lhe pese nos ombros. A Juventus corre nas veias deste homem, e isso ficou bem visível quando festejou o golo decisivo de Morata na passada quarta-feira.
Buffon quer levantar um troféu que nunca conquistou Fonte: Facebook da Juventus
Voltando à vecchia signora, esta tem vindo a ser alvo de um enorme descrédito desde o início da temporada. As previsões são quase sempre negativas, o favoritismo sempre oferecido ao oponente, e a equipa italiana é permanentemente vista como o “elo mais fraco”. E mesmo depois dos “prognósticos no fim do jogo” (bendito João Pinto), a grande maioria dos comentadores continuava céptica e receosa quanto às futuras partidas. Sorte, erros dos árbitros ou fraqueza do adversário, tudo valia para desvalorizar a campanha europeia da Juventus.
Chegada a final, chegado o Barcelona, voltam a surgir os típicos comentários: “o Barcelona já ganhou”, “a final está decidida”, “não têm hipótese”. Diziam o mesmo aquando do Dortmund, Mónaco e Real Madrid. Curioso. A Juve tem qualidade para se bater com o Barça e, mesmo que não alcance a vitória, tem mais que motivos para celebrar. Com o título italiano garantido, na final da Liga dos Campeões e da Taça de Itália, corre o glorioso risco de ser a melhor equipa do ano. Buffon, Pogba, Pirlo, Morata, Vidal, Tévez e companhia: contamos convosco.
A Juventus está na final da Liga dos Campeões. E as finais jogam-se com duas equipas.
Por mais que eu queira (e eu não quero) é complicado não falar disto.
Nasci em 1989, adoro o Benfica desde Dezembro de 1994, já lá vão muitos anos. Cresci numa altura em que o mais fácil seria ser adepto do FC Porto ou mesmo do Sporting. Vi o Benfica levar 7 em Vigo, acompanhei os 11 anos de travessia do deserto sem campeonatos ganhos, lembro-me de perguntar ao meu pai a razão pela qual um estádio gigantesco (como a antiga Luz o era) estava vazio em jogos em tarde de domingo. Vi o Benfica a treinar em vários campos lisboetas, vi um Benfica sem rumo, vi um Benfica que fazia do título de hóquei ou de futsal a festa do ano. Tinha que levar com a chacota dos meus amigos sportinguistas (não estou a criticar isso, era natural), perguntei vezes sem fim ao meu pai como era quando o Benfica era campeão, punha-me a imaginar como seria ter um Benfica dominador no nosso país.
Em boa verdade, e apesar deste clube estratosférico não ter vencido todos os campeonatos de há 6 anos para cá, as coisas começaram a mudar desde 2009. O FC Porto foi perdendo a hegemonia e neste momento há uma clara de divisão (para não lhe chamar outra coisa) entre os dois colossos do futebol nacional.
Este bicampeonato acaba por me trazer à memória tudo aquilo que sempre fui lendo, ouvindo, visualizando dos idos anos 60, 70 e 80. Um Benfica resplandecente, apaixonante, dominador em toda a linha, seja no futebol ou em muitas outras modalidades.
Ver pelo segundo ano consecutivo a Praça do Marquês repleta, iluminada por centenas e centenas de tochas que iluminaram a capital, ver o Aeroporto Sá Carneiro a transbordar de alegria, ver ruas de Maputo e de muitas outras cidades além-fronteiras com benfiquistas em euforia, ver toda uma série de coisas fez-me ver, pela 5892.ª vez, que o Benfica é único.
Abençoada a hora em que decidi ver-te, Sport Lisboa e Benfica, naquele final de tarde de 1 de Dezembro de 1994. Estávamos destinados um ao outro. Agora há que pensar no futuro! RUMO AO TRI!! Rumo ao tricampeonato que já nos foge desde 1977. Nem tudo pode ter mudado, mas muita coisa já não está na mesma. Benfica no topo do futebol português…donde verdadeiramente nunca saiu.
Já nem o Marquês tinha memória. Havia sido há tanto, tanto tempo. Em 1983/1984, mais precisamente. A noite de ontem foi, por isso, de história: o bi-campeonato voltou a cair para o Benfica, para uma equipa comandada, sobretudo, por dois ‘J’, de Jesus e de Jonas. A melhor, segundo a frieza dos números. E, consequentemente, e apesar de tudo, merecedora de créditos e congratulações.
Há cerca de um ano, neste mesmo espaço, deparei-me com a necessidade de aprender a (com)viver com a festa no Marquês. Apresentei os parabéns ao Benfica e sublinhei a falta de comparência ao Campeonato por parte do FC Porto, que facilitou sobremaneira a tarefa benfiquista. Com a chegada de 2014/2015, imaginei que poderia ser diferente. Um ano volvido, duas notícias, uma boa e outra má: a positiva é que o FC Porto não voltou a cometer os erros que levaram à hecatombe de 2013/2014; a má noticia é que cometeu outros, que lhe custaram tantos pontos quanto o resgate do título. E este, na perspectiva do portista, é o verdadeiro problema.
Os elogios à equipa da Luz serão veiculados e propagandeados, nos próximos dias e semanas, pela imensa nação vermelha. De forma natural e justa. E sendo o momento do festejo e do lançamento eufórico da mais electrizante tocha vermelha, simultaneamente, do lado do Dragão é, urgentemente, tempo de reflexão.
No ano transacto «a verdadeira novidade desta época foi a falta de comparência do FC Porto. Foram os equívocos na construção do plantel, foi o tremendo erro de casting em que se tornou Paulo Fonseca, foi, enfim, a banalidade na qualidade de jogo do Dragão que tornou o campeonato, a partir de um dado momento, num calmo e tranquilo passeio para o Benfica.». Este época não aconteceu nada disso. O FC Porto reforçou-se muito e quase sempre bem – Indi, Marcano, Casemiro, Brahimi, Óliver e Tello (já para não falar em Evandro, Ruben Neves ou Aboubakar) vieram acrescentar qualidade ao plantel. Em teoria, claro. Mas quem foi acompanhando o FC Porto ao longo da época foi percebendo que os deslizes poderiam sempre acontecer. Muito dessa iminência foi resultando de um claro descomprometimento, desconcentração, desconhecimento, falta de identificação em relação ao que é o FC Porto por parte de muitos dos novos elementos – algo potenciado pelo facto de terem sido 15 os reforços, um número tão necessário quanto exagerado e que dificultou a imperiosa adaptação a um clube que já não tem hoje, à porta do balneário, verdadeiros bagageiros da mística portista.
Óliver Torres. A par de Jackson, o melhor dragão em 2014/2015. Fonte: Página de Facebook do FC Porto
No final de 2013/2014 pedia que se mostrasse «aos meninos colombianos, brasileiros, mexicanos e de todas as outras nacionalidades possíveis e imaginárias que aterrarão no Sá Carneiro e seguirão para o Dragão que jogar no Porto terá sempre de ser um privilégio. Exibam-lhes o BI deste clube e dêem-lhes a beber o ‘Ser Porto’». Mesmo descontando que hoje já não há, no tal balneário, Fernando Gomes, João Pinto, Jaime Magalhães, André, Jorge Costa, Vítor Báia, ou até Deco e Lucho, a alguém deveria ter incumbido esta missão. E essa, por mais abstracta que até possa parecer e/ou ser, não foi concretizada. A forma como o FC Porto entregou o Campeonato que o Benfica, per si, não estava a conseguir fechar é paradigmática. Paradigmática do tipo de jogadores que, envergando o manto azul-e-branco, parecem, não raras vezes, ter noção nenhuma do que é carregar consigo o nome de uma cidade orgulhosa de si mesmo. Em Belém repetiu-se muito daquilo que já se tinha visto na Choupana, diante do Nacional (empate duas horas depois de o Benfica ter perdido em Vila do Conde), no Estoril (empate logrado por Óliver no último minuto), de novo na Madeira (derrota com o Marítimo, num jogo aberrante dos dragões) ou, finalmente, na Luz, no jogo que poderia decidir o título e em que o FC Porto se apresentou apático, sem rasgo e ainda traumatizado pela derrocada de Munique, na Liga dos Campeões. Sim, a Champions é o desejo supremo e jamais condenarei os jogadores que ambicionam superar-se nessa competição, decretando o seu nome na galeria dos imortais. Mas isso não pode, em tempo algum, fazê-los olvidar do objectivo real,como que desrespeitando e menorizando o campeonato interno. Porque o FC Porto antes de se tornar a maior potência portuguesa lá fora, solidificou-se cá dentro.
Uma equipa que agarra a liderança à 5ª jornada para não mais a deixar tem de ter mérito. E, por isso, o Benfica tem mérito – mesmo que, em determinados momentos, o que hoje se estampa nos cachecóis vermelhos (quase como se fosse o nome do clube), em forma de sacrifício expiatório, tenha amparado. Mas o FC Porto, para seu bem, não se pode agarrar a isso. É incomparavelmente mais importante que a SAD portista olhe para dentro e repense o modelo em que se baseou, agora que se vive o primeiro momento, em muitos anos, de ameaça à hegemonia portista. Ou até já de um certo ascendente vermelho, concedo.
O discurso de contestação às arbitragens fez sentido num certo timing mas não é isso que, agora, vai trazer de volta os dois últimos anos cheios de nada. Urge pensar se a aposta numa pilha de jogadores estrangeiros cheios de qualidade mas completamente desenraizados nesta altura de carência de símbolos portistas é para repetir; exige o tempo que se reflicta se certos empréstimos em determinados moldes são aposta a seguir; é ainda imperativo perceber se Lopetegui, não obstante todo o desgaste (mas coisas boas que também trouxe), é um nome confiável para futuro.
Sobre todos estes tópicos, há perspectivas e palpites diversos. Também os tenho – e a eles voltarei em breve, a começar por Lopetegui (que é bem mais do que o que têm feito dele). De todo o modo, o FC Porto e a estrutura portista sempre se moveram sobre uma cultura de exigência, sendo que hoje, mais do que nunca, tem de ser esse o valor máximo que, como em tempo idos, volte a presidir à política da SAD para o ataque à próxima época. Para que as noites vermelhas no Marquês (ou noutro qualquer ponto) não se repitam. Ou, pelo menos, para que os fracassos como o de ontem em Belém terminem com os corpos azuis-e-brancos estendidos no terreno, sufocados pela dor de não terem sido melhores – e não pela inépcia de não quererem ter sido melhores. Tem feito falta ao Porto ser Porto.
Foto de capa: Página de Facebook do Sport Lisboa e Benfica
Em Abril de 1865, Abraham Lincoln era abalroado do comando do “barco” EUA. O 16º presidente de uma das actuais potências mundiais fora brutal e covardemente assassinado no Ford’s Theather enquanto assistia à peça “Our American Cousin”, depois de deixar um legado importantíssimo para a ordem social dos EUA ao abolir a escravidão e ao preservar a união depois de bem encaminhado o fim (declarado um mês depois da morte do presidente) da terrível guerra civil americana. Também aumentou a força governamental e modernizou a economia do país.
Lincoln não assistiu à prosperação económica e social dos Estados Unidos da América, não viu o seu país tornar-se na potência mundial que é hoje, mas teve o seu trabalho reconhecido. Como toda a gente, de forma mais evidente na hora da morte do que propriamente antes dela.
Ainda hoje são levadas a cabo “reverências” a Abraham Lincoln e é frequente vermos realçada a importância do legado do 16º presidente americano, porém, há uma homenagem que se destaca das restantes e essa é tão velha quanto a morte de Lincoln, surgindo precisamente na altura em que o presidente foi morto. Foi criada por Walt Whitman, intitula-se de “O Captain! My Captain”, e nela se sentem as lágrimas do mítico escritor pela morte de um presidente que começou por lhe ser indiferente, mas que no fim lhe mereceu a admiração (diria, até, veneração) deixada nas palavras que deixou imortalizadas num dos poemas mais conhecidas da literatura mundial. E não é só por ter sido citado várias vezes durante o filme mítico “Clube dos Poetas Mortos”, mas também pela carga emocional despejada no mesmo, reconhecendo o quão fundamental fora a intervenção do seu presidente para a manutenção da ordem social, tão importante num período de guerra civil – “Our ship is safe and sound” (“o nosso barco está são e salvo”).
Com as filhas ao colo, Gerrard toca pela última vez enquanto capitão do Liverpool na mítica placa dos balneários de Anfield Road” Fonte: Facebook do Liverpool
Podemos traçar um paralelo entre as lágrimas de Whitman e as dos adeptos do Liverpool no passado Sábado. E, se o poeta chorou Lincoln, os “melhores adeptos do mundo” choraram pela partida de Steven Gerrard, o homem que nunca os desapontou e que serviu de inspiração para muitas das suas batalhas quotidianas.
Não se pode afirmar que deixou o Liverpool numa situação mais favorável do que aquela em que o clube se encontrava quando se estreou na equipa principal, mas depois de um período em que a equipa, de forma sucessiva, não conseguiu qualificações europeias e em que a disputa do título era uma miragem, Steven Gerrard foi o motor da equipa que devolveu a esperança aos adeptos dos reds, no ano passado, disputando, taco-a-taco e até ao fim do campeonato, o título com o Manchester City. Toda a gente apontava aquela como a “tal” época em que Steven Gerrard iria, finalmente, erguer o troféu de campeão inglês que tanto desejava, mas o futebol é ingrato. Por vezes cruel. E não há nada mais a fazer do que lutar contra essa adversidade, como ele tão bem sabe.
Sempre que a maré era desfavorável, era o primeiro a remar contra ela e nunca optou pela saída mais fácil quando tal acontecia, revelando qualidades raríssimas nos futebolistas dos dias de hoje – lealdade e honra. Lealdade por nunca ter rumado a qualquer outro clube e honra por ter cumprido as palavras que disse quando se estreou pelos reds, em 1998, afirmando que gostaria de passar o resto da vida no clube. Características bem vincadas de um líder, de um verdadeiro exemplo enquanto capitão.
O quinto torneio Masters 1000 da temporada teve um desfecho algo previsível, com o número 1 mundial Novak Djokovic a ganhar o seu 24.º título desta categoria e 4.º em Roma (2008, 2011, 2014 e agora 2015), vencendo na final o número 2 mundial Roger Federer.
No seu primeiro encontro, Djokovic sentiu algumas dificuldades contra Almagro; o 6-1 do primeiro set fazia prever um encontro fácil, mas Almagro jogou (e serviu) perto do seu melhor nível no segundo set e venceu o tie-break para forçar uma terceira partida, em que um mau jogo de serviço de Almagro foi o suficiente para decidir o encontro. Apesar do equilíbrio, em nenhum momento pareceu que Almagro pudesse mesmo ganhar o encontro, devido à sua fraca resposta ao serviço e especialmente à sua já conhecida fraqueza mental nos pontos importantes contra os jogadores de topo. De todas as formas, foi quiçá a melhor exibição do Espanhol desde que regressou da sua lesão.
Nos oitavos de final, Djokovic teve outro encontro difícil contra outro especialista de terra batida conhecido pela sua fragilidade mental em momentos importantes: Bellucci. O esquerdino, cujo estilo tem algumas semelhanças com o de Nadal, ganhou o primeiro set 7-5, servindo muito bem e sendo muito assertivo com a sua direita carregada de topspin. Não conseguiu porém manter o nível no segundo set, e no terceiro claudicou nos momentos decisivos como é seu apanágio. Apesar de duas rondas iniciais difíceis contra adversários perigosos, Djokovic chegou novamente aos quartos de final.
Djokovic continua a somar títulos na carreira Fonte: Yann Caradec
Nos quartos enfrentou quiçá o seu maior teste do torneio, numa reedição das meias finais do US Open do ano passado contra Kei Nishikori. Os dois primeiros sets foram muito equilibrados, com o desenlace a parecer depender capacidade do Japonês de controlar os seus ataques e evitar cometer erros não forçados. No terceiro set, porém, Nishikori claudicou física e mentalmente – os dois aspectos que o separam dos jogadores de topo – e Djokovic – ao contrário de Nishikori, conhecido pela sua incrível força física e mental – com a sua habitual consistência do fundo de campo carimbou o seu passaporte para as meias finais.
Nas meias-finais, Djokovic teve o encontro mais fácil do torneio, ao defrontar Ferrer – jogador com estilo idêntico ao do sérvio mas inferior em todos os aspectos do jogo. O Espanhol beneficiou da desistência de Andy Murray – cansado após ganhar em Munique e Madrid em semanas consecutivas – para chegar sequer às meias-finais, onde nunca ofereceu qualquer réplica a Djokovic.
Na final, Djokovic defrontou Federer pela 39ª vez na sua carreira, com os dois jogadores à procura do seu 24º título Masters 1000. O Suíço surpreendeu muitos ao bater com grande facilidade Berdych e Wawrinka para chegar à final, quando se pensava que os seus dias de candidato a grandes títulos em terra batida poderiam estar contados. Na final, porém, apesar dum início forte, não conseguiu parar Djokovic, que assim ganhou o seu quarto Masters 1000 da temporado em 4 jogados (não jogou Madrid), com o período de 20 minutos em que o Sérvio quebrou Federer para ganhar o primeiro set e quebrou-o de entrada no segundo set a revelar-se decisivo.
Destaques:
-Pela primeira vez na sua carreira, Nadal chega a Roland Garros sem ter conquistado qualquer título Masters 1000 em terra batida. Desta vez foi Wawrinka, que nunca lhe havia tirado um set em terra batida, a vencer Nadal por 7-6 6-2, isto apesar de o Espanhol ter tido 4 set points no primeiro set;
-Federer atingiu a final de um grande torneio de terra batida (Masters ou Roland Garros) pelo 14º ano consecutivo, um recorde;
-Apesar da sua derrota nos quartos de final, Berdych atingiu o ranking mais alto da sua carreira (#4) e será o quarto cabeça-de-série em Roland Garros.
Belém. Estádio do Restelo. Quente e ilusória tarde de Maio. Mais uma vez, o Bola na Rede presente num momento decisivo: para o Belenenses e para o FC Porto. Imperiosa a vitória para ambos – para os primeiros, para continuar a sonhar com a Europa; para os segundos, para continuarem a alimentar o sonho do resgate do título.
Depois da habitual homenagem do FC Porto a Pepe (antigo prodígio belenense que morreu com apenas 23 anos), os momentos iniciais da partida mostraram um FC Porto a tomar conta do jogo. Sem Casemiro e com Ruben Neves no onze, os portistas assumiram a posse e foram tentando empurrar os azuis do Restelo para trás – em muitos momentos, concentraram-se 21 jogadores no meio campo belenense. A equipa de Jorge Simão, a pender para um 4-2-3-1 sem bola – com Pele e Ricardo Dias lado a lado no meio-campo, com Carlos Martins mais à frente e com os extremos Fábio Nunes e Sturgeon a fecharem os corredores –, procuraram tapar todos os espaços e o certo é que foram conseguindo bloquear um FC Porto que, apesar de ter muita bola, não raras vezes foi pouco objectivo, ainda mais lento e com carências ao nível da profundidade do seu jogo. Nada de novo, portanto.
Por outro lado, o Belenenses procurou não limitar-se ao processo ofensivo. Assim, nos primeiros vintes minutos, e aproveitando alguns momentos de apatia e desleixo no processo defensivo dos portistas, soube carrilar o jogo pelo seu lado esquerdo (principalmente), criando frísson junto da baliza de Helton em vários momentos – Camara e Sturgeon foram os protagonistas, sendo que o segundo dispôs mesmo de uma oportunidade de ouro, já depois de ter ultrapassado o keeper dos dragões.
Talvez um pouco assustado, o Dragão tentou reagir. Importante a acção de Óliver nesta fase da partida, metendo-se mais em jogo e, com isso, dando oportunidade para Brahimi e Alex Sandro serem, também eles, mais participativos. O médio espanhol inventou um golo que Herrera, na cara de Ventura, desperdiçou, e foi também dos pés do médio espanhol que saiu o lance que, passando pelos protagonistas anteriores, terminou com a finalização bem-sucedida de Jackson(44’). O FC Porto lograva, assim, o golo que, melhor ou pior, com maior ou menor velocidade, procurou desde o início – mesmo nos momentos em que abdica de uma transição ofensiva rápida potencialmente perigosa em favor de um ataque construído e pensado de forma aparentemente tão científica que chega a ser contraproducente.
Posicionamento defensivo do Belenenses
A 2ª parte arrancou com o jogo nos mesmos moldes, ainda que o Belenenses tenha tentado uma pressão mais efectiva junto dos centrais portistas. Carlos Martins tentou sempre acompanhar de perto Camara nesta missão e mesmo a linha defensiva belenense chegou a posicionar-se bem perto da divisória do terreno, por forma a condicionar o máximo possível o início de construção portista. O problema? Alguns espaços criados entre a defesa e os médios, que, ainda assim, o FC Porto raramente soube aproveitar. Até ao começo da dança das substituições – com a troca de Sturgeon por Dálcio, aos 57’ –, os portistas podiam ter chegado ao segundo golo quer por Oliver quer numa bola a que Jackson não chegou por muito pouco.
Apesar de o jogo estar aparentemente controlado, os portistas nunca o fecharam em definitivo e o ritmo da partida foi baixando na mesma medida em que o Belenenses foi sentindo que o empate era possível. Possível mas não provável, ainda assim. Lopetegui retirou Brahimi e depois Quaresma, lançando Evandro e Hernâni, respectivamente, e derivando Oliver para o flanco esquerdo; por sua vez, Jorge Simão fez entrar dois Tiago: primeiro Caieiro e depois Silva (retirando Ricardo Dias e Carlos Martins), ensaiando uma espécie de 4-4-2, com Camara junto de Tiago Caeiro. O certo é que o jogo, mantendo-se entretido, não revelava grandes oportunidades de golo – a primeira excepção foi um lance criado e inventado por Alex Sandro, que acabou por sair junto ao poste de Ventura; a segunda foi o golo do empate belenense. Uma boa jogada de Dalcio, que, depois de ultrapassar Alex Sandro, procurou o espaço central da grande área, onde surgiu a tal dupla avançada: Camara não chegou à bola mas Tiago Caeiro foi oportuno e, perante Helton, fez o 1-1. A réstia de esperança portista parecia desfazer-se ao minuto 85.
Os últimos momentos da partida foram vividos entre a decisão, por parte de Lopetegui, de retirar Oliver (!) para lançar Adrián Lopez e o falhanço de cabeça por parte de Jackson Martínez, que mais não significou do que o canto do cisne numa partida que o FC Porto tinha obrigatoriamente de vencer mas em que, acabando por repetir erros já vistos e nesta Liga, nunca foi capaz de ser suficiente impositivo e afoito para o materializar. E daí que o seu sonho se tenha esfumado, entregando o título na bandeja que o seu rival não estava a conseguir atingir em Guimarães.
Para o Belenenses, a chegada à Liga Europa continua a ser uma possibilidade. Mesmo não dependendo de si próprio, os azuis do Restelo vão entrar em Barcelos (e tão longa é já a história entre estes dois emblemas…), na próxima jornada, com a mente num objectivo pouco realista no início da época mas que é hoje encarado como um passo decisivo para a consumação de um Belenenses “de nível europeu”, tal como afirmou Jorge Simão no pós-jogo. E isso é algo assinalável – estamos, afinal, a falar da equipa que, no binómio investimento-rendimento, é, possivelmente, o melhor dos exemplos a seguir.
O Bola na Rede esteve presente no Restelo
OS DESTAQUES
Filipe Ferreira/Fábio Nunes – A asa esquerda do Belenenses funcionou sempre muitíssimo bem. Pese embora Quaresma tenha conseguido ganhar alguns confrontos com Filipe Ferreira durante o primeiro tempo, o lateral lisboeta apresentou-se sempre em bom plano no momento defensivo do jogo e foi uma ajuda preciosa para o companheiro Fábio Nunes, extremo que deu várias dores de cabeça a Danilo. Foi, de resto, pelo lado esquerdo do ataque o Belenenses chegou a maior parte das vezes à área do FC Porto.
Ricardo Dias/Pelé – Ricardo Dias, o elemento mais recuado do meio-campo belenense, juntou ao acerto posicional uma atitude positivamente agressiva durante o jogo e conseguiu com isso ganhar muitos duelos no miolo. Ora sozinho, ora (normalmente) em parelha com Pelé, o aveirense que até passou pela formação do FC Porto foi sempre seguro e compenetrado. Apesar de tudo, o grande destaque vai para Pelé. Ter nome de craque não chega, de todo, para ser craque. Mas, aos 23 anos, o luso-guineense tem tudo o que é preciso para vingar ao mais alto nível: técnica apurada, , inteligência táctica, força física, inteligência táctica e capacidade de liderança dentro de campo. Hoje voltou a dar mostras disso mesmo.
Fábio Sturgeon/Dálcio – Sturgeon foi sempre dos mais inconformados da equipa da casa e fez a vida negra a Alex Sandro durante o primeiro tempo. Irrequieto, rápido e bom de bola, como sempre. Para o seu lugar entrou, no início da seguda parte, Dálcio. O técnico do Belenenses, Jorge Simão, justificou a substituição com a acumulação de fadiga de Fábio Sturgeon. A verdade é que Dálcio, jovem de 18 anos que muito tem dado que falar, aproveitou a oportunidade e tirou o cruzamento açucarado (mais do que um pastel de Belém!) que deu o golo ao recém-entrado Tiago Caeiro.
Jackson/Óliver – Do lado azul e branco (hoje, cor de rosa e preto), ó nos é possível salientar pela positiva o desempenho de dois jogadores: Jackson e Óliver. Foram os dois melhores jogadores ao longo de toda a temporada e foram os dois melhores jogadores na partida de hoje. São e serão sempre talento, magia, simplicidade, entrega e eficácia. Se o colombiano marcou o golo e tentou sempre oferecer soluções ofensivas aos colegas, o espanhol voltou a pegar na batuta para orquestrar o ataque portista, mesmo quando Lopetegui o “empurrou” para a faixa esquerda.
Disse Jorge Jesus que este título de campeão que hoje traz alegria ao país é o mais importante do seu legado no banco do Sport Lisboa e Benfica. Não gostando eu de atribuir etiquetas de importância X ou Y aos troféus que Cosme Damião recebe (podem vir a ser 6 dos últimos 8 disputados a nível nacional…), vejo-me, hoje, obrigado a render-me ao que Jesus disse. A celebração de um bicampeonato 31 (!) anos depois é um cabal passo para que o Benfica recupere aquilo que lhe é intrínseco: a hegemonia do futebol português.
Após a autêntica razia no plantel e quando víamos Eliseu e Derley chegarem para um lado e Brahimi, Tello, ou Óliver para outro, quantos diriam que o Marquês se inundaria de vermelho como se verá daqui a momentos? Se o soberbo triplete da passada temporada muito se deveu a Luís Filipe Vieira por ter sido o único a acreditar em Jesus depois de o mundo benfiquista ter ruído em 15 dias em Maio de 2013, o bicampeonato que hoje celebramos devemo-lo, em primeira instância, ao treinador. Sim, o Benfica ficou fora das competições europeias em Dezembro. Sim, o Benfica foi eliminado precocemente da Taça de Portugal. No entanto, apesar destas saídas de estrada, Jorge Jesus conseguiu com que o plantel mantivesse o foco naquilo que era o mais importante. Face ao plantel de que o Benfica dispõe actualmente, cedo se percebeu que seria impossível geri-lo de forma a garantir sucesso em todas as provas.
Segredando-o ao círculo próximo de amigos e confidentes benfiquistas, tive, em Dezembro, praticamente a certeza de que o bicampeonato nos chegaria às mãos. A vitória sem espinhas no Dragão foi a clara demonstração da superioridade do Benfica como equipa mais consistente e regular e um enorme rombo no Porto, que realizou um dos maiores investimentos da história do futebol nacional. Sabendo-se da evolução que as equipas de Jesus têm na segunda volta do campeonato, a vantagem de 6 pontos que aí fora conquistada revelar-se-ia fulcral, assim o Benfica mantivesse a vantagem no confronto directo com o rival. Como aconteceu.
Jonas trouxe o toque de classe que empurrou o Benfica para o 34.º Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica
Sem que a qualidade de jogo tenha atingido os níveis de épocas passadas, Jorge Jesus começou a construir este Benfica de trás para a frente. Fazendo da Luz uma autêntica fortaleza e da segurança defensiva (veja-se, por exemplo, a evolução de Jardel e a altíssima qualidade da época do brasileiro) o esteio de uma equipa que depois se podia soltar e entregar aos génios de Jonas – o melhor jogador do Campeonato -, Gaitán e Salvio e ao suor de Lima a magia lá na frente. Tudo isto sem esquecer a confiança que Júlio César trouxe às redes, a melhor época de Maxi de vermelho ao peito – RENOVAR PARA ONTEM! -, um Luisão como já nos habituou, um Samaris que parecia um corpo estranho e agora é dono e senhor do meio-campo e um Pizzi que, sem ser Enzo, muito fez para tentar fazer esquecer o argentino.
Resta agora festejar, esperar que Jesus renove e começar a sonhar com o tri. O Povo está feliz.