Em 2012, Andriy Shevchenko retirou-se e tanto a Ucrânia como o Dínamo de Kiev perderam a maior referência da sua história. Contudo, no mesmo clube em que na célebre época de 98/99 explodiu Andriy Shevchenko, está agora a explodir uma nova estrela que pode consagrar-se como o herdeiro de Sheva. O seu nome é Andriy Yarmolenko e é um dos jogadores mais interessantes do futebol de leste.
O 10 do Dinamo de Kiev é um extremo direito ao estilo de Hulk. Que significa isso? Significa que o ucraniano é um extremo muito vertical, com um pé esquerdo fenomenal e que adora fazer diagonais em direção à baliza contrária. Contudo, e apesar de aparentar ser já um grande elogio, classificar Yarmolenko como um clone de Hulk seria redutor. Apesar de terem as suas semelhanças, Andriy parece ainda mais dotado que o brasileiro. O astro de Kiev conta com um reportório elaborado de fintas capazes de desorientar qualquer defesa, que abrange vírgulas, La Roulette, a La Croqueta – tão característica de Andrés Iniesta -, a célebre pedalada e ainda muito mais. Com 1,89 metros e 82 quilos, o ucraniano é também extremamente robusto fisicamente, e o seu poderio físico não se esgota na robustez, pois Yarmolenko é também muito rápido e ágil. Os atributos técnicos do jogador ucraniano também não se esgotam no seu muito entusiasmante reportório de fintas, pois Andriy tem um óptimo primeiro toque e uma finalização muito apurada. Tudo isto combinado faz com que Andriy seja um jogador extremamente concretizador, especialmente nas jogadas de transição rápida, onde, fazendo uso do seu bom primeiro toque e do seu bom remate de média distância, marca muitos golos. Aliás, um golo que exemplifica muito bem isto é o golo que o jogador marcou ao Rio Ave, na edição deste ano da Liga Europa.
Capitão do Dínamo em acção Fonte: Facebook do D.Kiev
As estatísticas do 10 do Dinamo de Kiev também atestam a sua capacidade goleadora, visto que na época passada marcou 21 golos em 39 jogos e nesta época em 18 jogos já balançou as redes 9 vezes. Ao olhar para as estatísticas da época transacta e especialmente para as desta época, salta à vista a capacidade do extremo de assistir os seus companheiros, uma vez que na época passada realizou 8 assistências e esta época já conta com 11. Tendo tudo isto em conta, é fácil ver as razões pelas quais o ucraniano é um dos extremos mais completos e cobiçados do futebol europeu. Em suma, Yarmolenko é um extremo muito imprevisível, com uma excelente capacidade finalizadora, brilhante no um-para-um e ainda um bom assistente.
A elevada qualidade e a capacidade de fazer a diferença não nascem de um vazio. Todas as qualidades técnicas, biotécnicas e tácticas de um atleta são fruto de um processo contínuo de formação e prática. Por sua vez, é a qualidade desse processo que determina o nível de desempenho do respectivo atleta. O mesmo poderemos dizer de um coletivo. Até aqui, pouco ou nada de novo, e, como se sabe, os bons jogadores e as boas equipas não nascem nas árvores: são antes um produto da excelência e do trabalho árduo.
Contudo, em Portugal regista-se uma dada ausência de determinação para dar um salto em frente. Como exemplo, basta olhar para os clubes que militam nas duas divisões profissionais e contabilizar quantos deles possuem uma academia e planos de desenvolvimento que são seguidos à regra para produzir atletas de alto nível.
Em Portugal “vai-se fazendo”, e creio que é urgente mudar essa mentalidade e revolucionar a realidade no futebol de formação. Acima de tudo, isto tem de ser feito para que possamos futuramente atingir patamares de topo no futebol de alto rendimento e, assim, reforçar o estatuto adquirido nas últimas décadas. Enfim, podemos olhar para os bons exemplos como os aplicados pelas federações alemã, espanhola e belga, e assumir que revolucionar resulta. Contudo, nem tudo é negro e sem graça em Portugal. Há pelo menos dois grandes tópicos que convém abordar e trazer para junto de nós para reflectir.
Por cá no que se refere a treinadores e a formadores existe competência, conhecimento e um considerável nível de formações técnicas adequadas ao contexto do futebol de formação. Estes elementos são parte da chave que tem permitido ao nosso futebol sobreviver e ir formando talentos com um valor considerável. Contudo, o que existe em falta é estratégia e organização em plano macro que visem o desenvolvimento de atletas de alta competição. Falta planificar para ganhar e fazer a diferença. Quando estes elementos se conjugarem de forma harmoniosa, poderemos por fim assistir à formação de um número muito superior de atletas de elevada qualidade e com condições para fazerem a diferença em qualquer campo dos quatro cantos do planeta. Em alguma parte, isto já foi uma realidade no passado; então porque não “repicar” alguns discos antigos e formular uns conceitos?
Sanjoanense Vs. Carregado Foto: Sandra Cunha
Para já, o que existe vai sendo trabalhado a espaços (uns maiores do que outros), em redutos muito característicos, em contextos muito específicos e em condições sociais e organizacionais que apenas propiciam a existência de “milagres”. Pois sim, temos muitos treinadores que além de bem formados e competentes são igualmente milagreiros. Infelizmente, ainda se trabalha de um modo relativamente feudal, onde cada um se limita a tomar conta da sua quintinha. Isto não potencia em nada o trabalho dos nossos treinadores e sobretudo – e mais do que tudo – não desenvolve nem fomenta o enorme potencial dos nossos atletas.
Na realidade, tudo isto nos leva a ter a maior parte dos projectos formativos estagnados, o que tem originado o surgimento de poucos atletas de bom e de grande nível. Isso reflecte-se na qualidade das equipas portuguesas e das nossas seleções. Ou seja, uma grande parte do problema do futebol português está evidentemente no futebol de formação e na ausência de um plano de desenvolvimento e de potencialização dos nossos recursos.
Por outro lado, há algo que temos de admitir: o jogador português é talentoso. É tecnicista, criativo, aventureiro, fisicamente consistente, inteligente e desequilibrador. E são exactamente estes aspectos que devemos potenciar no futuro. Há que criar condições para o desenvolvimento de capacidades biotécnicas que valorizem estas características, pois o jogador português tem o “dom” de fazer a diferença, de romper com a monotonia e de destruir a lógica do equilíbrio de forças. O jogador português tem todas as características para ser o “atleta-artista” por excelência, pois ele devora o jogo e toda a paixão concentrada nas quatro-linhas. Não valorizar e não trabalhar este potencial tem sido um enorme “crime” a que todos temos assistido no futebol e no desporto português.
Isto é algo que temos de valorizar e sobretudo algo em que temos de pensar com urgência. E não tenhamos dúvidas: têm sido essas características que têm permitido em boa parte a sobrevivência do nosso futebol. Tem sido esse talento que tem permitido a existência de um ou outro resultado positivo. Sobretudo quando juntamos isto com os milagres que alguns treinadores e formadores têm realizado nos últimos tempos.
Carregado Vs. Arrudense Foto: Sandra Cunha
Por questões culturais, por variáveis sociais, pelo “futebol de rua” ou pelo trabalho que tem sido feito em alguns clubes, o jogador português tem características que lhe permitem existir acima da média. Contudo, não existe sustentabilidade nem forma de potenciar e gerir este fenómeno de forma continuada. Não existe um plano e isso não nos permite hoje dar um salto em frente e consequentemente almejar resultados desportivos de excelência de forma consolidada – tanto a nível de clubes como de seleções.
Nem tudo é negativo. Em Portugal existe um enorme potencial – algo raro em países com as nossas características demográficas. Temos treinadores e formadores com conhecimento e jovens talentosos. Poucas nacionalidades conseguem imprimir tanta competência, paixão e qualidade técnica numa dada arte, e creio que o nosso caminho passa por saber formar segundo isso mesmo. Caro leitor, temos de formar para fazer a diferença em campo. E para isso requer-se um salto em frente em termos ideológicos e, consequentemente, a criação de uma “escola artística” de futebol.
PS: Nota muito positiva para a nossa seleção de Juniores Sub-19 que se qualificou para a Ronda de Elite do Europeu da respectiva categoria. Por sua vez, a equipa nacional de Juvenis Sub-17 está igualmente de parabéns, pois tem realizado uma caminhada exemplar rumo ao europeu de 2015. Lá está, o potencial está todo aqui.
Pouco faltava para as 19h45 quando se ouviu, em Alvalade, o hino da Liga dos Campeões. É sob esta música que o Sporting deve estar todos os anos mas é, sobretudo, esta a competição onde nos devemos sentar e usufruir do privilégio que é ver Nani jogar futebol. Tanto se fala sobre a qualidade do português em relação aos restantes na liga portuguesa, mas hoje e um pouco por toda esta fase de grupos temos assistido à superioridade do número 77 em relação a praticamente todos os seus adversários internacionais. Quatro golos e duas assistências em cinco jogos são registos interessantes mas o rendimento de Nani não é explicável por unidades quantificadoras.
Hoje, o Sporting entrou em campo com a plena noção de que só a vitória interessava. Pressionou, assumiu o jogo e chegou ao primeiro relativamente cedo. Carlos Mané aproveitou uma excelente arrancada de Jefferson pela esquerda – depois de outra onde sofreu um penalty claro que ficou por assinalar – e finalizou de baliza aberta um cruzamento com conta e medida. Dois jogadores que não têm sido titulares a mostrarem que a rotação em proporções bem calculadas é sempre uma boa ideia. E do resto da primeira parte pouco mais há a acrescentar que não uma sucessão de acontecimentos equivalentes. Ataque do Sporting, ataque do Sporting, ataque do Sporting. Mané em Nani e Nani senta um, Nani senta dois, Nani remata e recupera a bola, Nani senta mais um, e outro, e Nani marca. Daqui que não se retire que a qualidade técnica ou de drible é o mais importante: o essencial foi a capacidade de esperar pelo momento exacto. A temporização tão mal entendida pelo público comum foi a chave para o golo. Pouco depois, o Maribor empata sem sequer rematar. Má avaliação e algum azar de Paulo Oliveira e Cédric e Jefferson a colocar o pé onde não devia e há o 2-1.
O intervalo durou um pouco mais do que seria de esperar, mas quem espera sempre alcança. Muitos minutos depois e aí estava Nani de regresso. E os restantes, claro. O jogo reatou e quem parecia farto de ver o extremo leonino era o lateral do Maribor – no início da segunda parte ficou por mostrar um vermelho por entrada duríssima sobre Nani. Nem o pesadelo de o ter de marcar justifica tal acção e o árbitro errou novamente em lance demasiado claro que, fosse o Sporting menos superior, poderia ter tido influência no resultado final. Talvez pela pausa grande demais, a equipa de Marco Silva voltou mole e os eslovenos aproveitaram para pressionar e fazer o Sporting passar a pior fase do encontro. No entanto, depois de uma perdida infantil na defesa contrária, João Mário acabou por cruzar para Nani que, em esforço e de cabeça, conseguiu manter a bola jogável e permitiu a Slimani finalizar para o 3-1 que matou as aspirações do adversário. Terá sido porventura a primeira acção verdadeiramente boa do ponta-de-lança argelino em todo o encontro. Andas tu no banco a ver isto, oh Montero!
E daí em diante foi a cereja no topo do bolo de Nani e companhia. Nani isola Carrillo. Nani isola João Mário. Nani isola Montero. Nani isola William Carvalho. Não entraram mais, uns por azar outros por azelhice, mas nunca por falta de quem os criasse. Diz-se que na altura da necessidade atingimos todo o nosso potencial e aos sportinguistas resta rezar para que Nani sinta necessidade muitas vezes. O próximo episódio é em Londres. Até lá há uns treinos pelo meio. Não para o Sporting, claro, para ele.
A Figura
Nani – Não falta dizer nada, pois não?
O Fora de Jogo
Estádio José Alvalade/Graig Thomson – O problema na iluminação do estádio no intervalo renderá por certo uma pesada multa da UEFA e foi uma situação negativa a todos os níveis. O árbitro escocês (e a restante equipa de arbitragem!) deixou por marcar um penalty dos mais descarados que podem existir e permitiu que o lateral direito do Maribor terminasse o jogo depois de uma entrada que colocou a integridade física de Nani em perigo. Em cinco jogos, o Sporting foi claramente prejudicado pela terceira vez nesta fase de grupos.
Parece que foi ontem. Esse dia faz praticamente um ano. Tive a oportunidade de, ainda recém-chegado a esta casa muito nossa, poder escrever sobre o campeão brasileiro. E eis que essa segunda oportunidade chegou. Ela veio em forma de duplicado. E não, não estou a falar d’O Homem Duplicado – obra do ímpar José Saramago –, pese embora este título do Cruzeiro seja em muito semelhante ao anterior. No céu, mais uma vez, brilha uma constelação que resplandece os límpidos universos de Vera Cruz. Estas estrelas são cinco. Os títulos nacionais são quatro. A alegria é imortal.
No fim de um ciclo vitorioso como este, penso que não vale a pena nomear heróis. Gosto de pensar em salvadores coletivos. Uma ideia messiânica em que o próprio messias seja uno e indivisível e ao mesmo tempo pluri e que esteja em todos. Mas o que vale a pena (se a alma não for pequena) é destacar alguns pontos, estes mais objetivos. O Cruzeiro Esporte Clube soube manter a estrutura e as linhas vencedoras que já havia adquirido no campeonato de 2013. Marcelo de Oliveira provou ser um mestre no banco; Éverton Ribeiro o grande pensador; Fábio um líder; Dagoberto como o antigo rei dos Merovíngios; Marcelo Moreno completíssimo; … enfim. E claro, a torcida, que soube empurrar e manter a ansiedade do bi para dentro… e explodir na altura certa. A vitória com o Goiás por 2-1, num terreno quase impraticável devido às fortes chuvas estivais, foi mais uma demonstração de crença, num jogo que estava difícil de resolver.
Celestes unidos e crentes, no momento do golo Fonte: Facebook do Cruzeiro
O Cruzeiro está de parabéns. O futebol brasileiro também. Um campeonato bem disputado, sem querelas clubísticas ou polémicas de arbitragem de maior. Foi uma festa. No verdadeiro sentido da palavra. E deveria ser sempre assim. Os celestes tentam agora inverter, contra o rival de sempre, um resultado negativo de 2-0 na primeira mão da final da Copa do Brasil. Qualquer que seja o resultado, o título ficará – mais um – em Minas Gerais. É interessante ver o crescimento das equipas mineiras nos últimos anos.
Mas hoje, mais uma vez, o rei do Brasil brilha lá no alto, num manto cada vez mais azul. O sonho do bicampeonato realizou-se, enfim. As palavras serão sempre poucas para acompanhar mais um momento de glória alvi-celeste. Sobram então os factos, e esses são arrebatadores. O Cruzeiro Esporte Clube parece querer reinventar-se. Vai atrás dos seus próprios recordes. Tal como na música do grande cantor, mineiro de coração e cruzeirense Milton Nascimento: “será um caçador de mim.”
Se pudesse adjectivar este jogo e a fase de grupos realizada pelo Porto, a palavra seria tranquilidade. Ignorando os calafrios normais de um jogo de futebol, o que é certo é que o Porto conseguiu sempre superar as dificuldades, que nunca foram muitas. Só o jogo com o Shaktar Donetsk é que esteve em causa e mesmo nessa partida os dragões mereciam os três pontos. Hoje tratou-se de mais uma vitória anunciada: depois de três goleadas, o BATE Borisov uma vez mais provou que não é equipa com estofo para estas andanças e, mesmo apresentando-se organizado na 1ª parte, nunca conseguiu criar perigo aos dragões.
O Porto até começou adormecido, com alguma dificuldade nas transições, não conseguindo circular a bola de maneira eficiente. Nesta altura, a sensação era a de que os jogadores estavam simplesmente a deixar o jogo correr, sem grandes ansiedades, sem grandes pressas. A defesa esteve sólida (Marcano e Indi formaram a dupla de centrais) e uma boa organização defensiva por parte de Herrera e Casemiro foram deitando por terra os ataques trapalhões dos bielorussos. No ataque, Oliver perdia algumas bolas e Quaresma e Brahimi, não parecendo inspirados, foram cumprindo, e assim o tempo decorreu até ao final da primeira parte. Sem grande história, sem grandes percalços.
Tello e Herrera marcaram dois dos golos da vitória portista e festejaram assim no balneário Fonte: Página de Facebook de Cristian Tello
Na segunda parte, o Porto entrou mais esclarecido e por vários momentos sufocou a defesa do BATE Borisov – este ascendente materializou-se no grande golo de Herrera, aos 56 minutos. Nem parece o mesmo o mexicano: está mais confiante e eficiente, não falha tantos passes e pauta melhor os momentos de jogo. É certo que esta partida não é a melhor para avaliar este “novo” Herrera, sendo que só o tempo dirá se o jogador teve evolução ou se foram simplesmente momentos de maior qualidade nas suas inconstantes exibições. Voltando à segunda parte de Borisov, Brahimi subiu de produção e, na direita, com um Quaresma um pouco desinspirado, Danilo deu conta da ala por completo, subindo e descendo com uma facilidade admirável – fez-lhe bem a confiança dada por Dunga.
Aos 65’, Jackson Martinez concluiu com eficácia uma jogada pela esquerda do ataque portista e trouxe (mais) tranquilidade à equipa portuguesa, e assim já leva 5 golos na fase de grupos. Por sua vez, já com o jogo a terminar, Tello concluiu uma jogada de contra-ataque do Porto – sendo um jogador que precisa de confiança, o golo chega em boa altura, até porque Quaresma está sempre à espreita pela titularidade.
O Porto terminou o jogo com um score favorável de 3-0, alcançando os 13 pontos na fase de grupos e logrando mais 1 milhão de euros a entrar nos seus cofres (na fase de grupos já contabiliza quase 20M€). Com tranquilidade e sem muita história a contar, os portistas seguem invictos na Liga dos Campeões.
A Figura
Herrera – Esteve presente nos 3 golos portistas e assinalou uma grande exibição. Bons passes, dribles vistosos e um grande golo foram a marca de Herrera neste jogo, ainda que o mexicano também tenha estado em evidência na maneira como, na segunda parte, conduziu a bola para o ataque.
O Fora-de-jogo
Quaresma/Brahimi – Nenhum dos dois esteve mal; foram sempre dando sequência às jogadas de ataque (Quaresma com menos eficácia) mas não se pode dizer que tenham estado tão vistosos como em outras partidas.
Bola na Rede dedicado aos jogos da 4.ª eliminatória da Taça de Portugal, aos 40 nomeados ao melhor 11 do ano da UEFA e às notícias mais importantes da última semana.
Com Mário Cagica Oliveira na moderação e Francisco Manuel Reis (FCP), Francisco Vaz Miranda (SLB) e João V. Sousa (SCP).
Para ouvirem os restantes podcasts, podem seguir para este link.
Son Heung-Min é um dos destaques deste início de época do Leverkusen. Forma com Bellarabi e Çalhanoğlu um dos tridentes mais perigosos da Europa, capaz de desfazer qualquer defesa em pedaços.
Chegou à Alemanha para jogar no Hamburgo e rapidamente ascendeu à equipa A. A evolução foi sendo feita por etapas e ano após ano foi melhorando os seus números. O talento era notório e as suas exibições não passaram despercebidas a ninguém. O Leverkusen não quis deixar passar a oportunidade de contar com ele e no Verão de 2013 contratou-o por 10 milhões – valor simbólico para um craque da cabeça aos pés.
Não tenhamos dúvidas de que o jogador foi sempre deixando apontamentos que demonstravam a capacidade para se afirmar como uma das maiores figuras do campeonato alemão. É letal no último terço do terreno – apresenta argumentos na finalização e no drible. É um jogador inteligente e não precisa de muito espaço para criar oportunidades para si mesmo e para os colegas. Consegue entender o que cada jogo pede e isso torna-o peça-chave numa equipa que privilegia o controlo do jogo e que assume acções de risco sempre na mais alta velocidade. A junção de todas estas qualidades tornam-no apto para assumir qualquer posição da frente do ataque. Seja à direita, esquerda ou ao centro.
Três golos em quatro jogos na Liga dos Campeões Fonte: Facebook do B.Leverkusen
As suas qualidades e exibições já valem nomeações e, em 2013, ficou no pódio na atribuição do prémio de melhor jogador asiático do ano, atrás de Honda e Nagatomo. A Coreia do Sul tem jogadores interessantes e alguns até se encontram a jogar na Alemanha, tais como Joo-Hoo Park e Ja-Chel Koo, ambos do Mainz. Son é, de longe, o mais talentoso e precisa de companheiros de outro gabarito para almejar conquistar algo a nível de selecções.
O futebol de ataque do Leverkusen assenta que nem uma luva no estilo de jogo do fantasista sul-coreano. A juventude deixa-nos antever uma margem de progressão grande e, com a evolução bem conseguida até ao momento, é permitido dizer que o céu é o limite.
Será difícil pedir melhor: esta terça-feira, o Futebol Clube do Porto dá-se ao luxo de regressar à competição três semanas depois, para pisar o maior palco do futebol europeu completamente tranquilo, sem pressão de maior. Uma vez mais, seria difícil pedir melhor e são poucos aqueles que, na verdade, o podem fazer.
Com o apuramento garantido, o regresso à maior e mais importante competição de clubes do mundo é feito com toda uma outra pressão. Ou, arriscaria dizer, sem pressão. À entrada para o último terço da fase de grupos, o FC Porto apenas se faz acompanhar de Real Madrid, Bayern de Munique e Borussia Dortmund nesta privilegiada posição.
Invejável, desejada por muitos, mas, acima de tudo, importante. Depois de três semanas sem jogar, com o ritmo competitivo em baixo e o regresso aos trabalhos enquanto equipa, não seria tarefa fácil entrar no primeiro minuto a lutar pelo apuramento, pelo que a posição ganha por direito pelos Dragões surge em data perfeita.
Nunca vi paragens internacionais com bons olhos. Não pela substituição dos jogos a azuis e brancos pelo vermelho da selecção que raramente me convence; não por ver Éder somar jogos atrás de jogos sem marcar um golo com a camisola das quinas; mas sim – e esse sim, é O motivo – porque quanto mais jogos realizam, melhor jogam os comandados de Lopetegui. Foi assim com os técnicos anteriores, é assim com o basco.
Posto isto, que não sobre lugar a interpretações indesejadas: o Futebol Clube do Porto vai à Champions para vencer, como sempre o fez. Tem, sim, uma outra margem de manobra e, acima de tudo – é aí, só aí, que pretendo chegar – muito menos pressão. De resto, um primeiro lugar para conquistar.
O pequeno Mark, enfiado no seu quarto em Canning Town, gesticulava, gritava, pontapeava o que encontrava pela frente, transformando o quarto num autêntico cenário apocalíptico. Não culpava ninguém senão o mundo por roubar ao seu pai o tempo e disponibilidade necessários para o levar com regularidade até à Academia de Futebol do Arsenal, onde queria formar-se como jogador de futebol entre os grandes. Ser um dos protagonistas dos jogos de Premier League de Sábado à tarde, aparecer nos resumos dos golos do fim-de-semana e ter cânticos dedicados pelos fãs de Highbury Park. Não pela fama, mas pelo reconhecimento de quão bom jogador era.
Surgiu uma solução prática dois anos depois, o West Ham, cujo centro de formação ficava mais perto de sua casa. Começou a treinar na esperança de um dia envergar uma camisola maior, embora abordasse cada treino frustrado por não estar entre um dos grandes do futebol inglês. Gesticulava e gritava com os colegas e pontapeava cada bola com a fúria própria de um pré-adolescente inconformado com o que o Mundo lhe tinha dado.
Queria chegar a um patamar alto, e sabia que tinha de fazer do West Ham um Arsenal para conseguir ser visto pelos senhores do futebol de elite. Pragmático como sempre foi, tornou-se um líder e contagiou os colegas com a sua determinação de chegar mais alto, e isso trouxe-lhe dividendos: dois anos depois, aos 15, fez a sua primeira aparição num jogo de seniores, pelas reservas do West Ham, e outro par de anos mais tarde estreou-se ao serviço da equipa principal, num encontro da Taça da Liga.
Noble tornou-se um ícone do West Ham Fonte: halley37 (Flickr)
Não desperdiçou a oportunidade e agarrou-a com unhas e dentes. Foi aparecendo esporadicamente na equipa principal, e foi parte integrante de uma época importante para o clube, marcada pelo regresso à Premier League. No final da mesma, recebeu o prémio de Young Hammer of the Year (melhor jogador jovem do West Ham durante o ano), atribuído pelos adeptos, e ainda ficou em segundo lugar na corrida ao Hammer of the Year (prémio de jogador do ano do West Ham). Tinha conquistado o coração dos adeptos, estava num clube que iria disputar a Premier League e, quando deu por si, já tinha somado várias internacionalizações pelos escalões de formação da Inglaterra.
Mark apaixonou-se pelo clube. Passou a ter o roxo e o azul bebé impregnados na pele. Agora, numa altura em que é protagonista dos jogos da Premier League, aparece nos resumos do fim-de-semana desde há 10 anos a esta parte (sempre com a camisola dos Hammers vestido), resumos em que é alvo dos cânticos dos adeptos – não pela fama mas pelo reconhecimento da garra, ilustrada na forma como gesticula e grita com os colegas e na maneira como pontapeia cada bola e disputa cada lance como se fosse um miúdo de 11 anos frustrado com o Mundo – e apercebe-se de que tudo valeu a pena: o facto de não ter singrado no Arsenal e a frustração que serviu de base à sua ascensão, que se traduz no seu estilo de jogo aguerrido e apaixonante.
No último fim-de-semana disputou apenas mais um jogo pelos Hammers. O número 299 em todas as competições, e o 204 na Premier League. Um recorde na longuíssima história do West Ham. Disputou todos os 52 minutos que esteve em campo com o seu estilo próprio. Aguerrido e impondo a si mesmo a pressão de vencer. Porque não sabe viver sem ela. Porque ele é daqueles Jogadores que trazem para o campo toda a alma que têm, e que fazem da camisola que vestem parte integrante do corpo. Mais do que tornar a vitória um objectivo de conquista urgente, torna-se o próprio clube, e não apenas mais um ser humano motivado por recompensas financeiras ou sociais.
Mark Noble é assim. A frustração do miúdo de 11 anos levou-o a tornar-se num autêntico líder de homens, e alguém que só não consegue colocar os interesses da organização que serve à frente dos seus porque esses também são os seus. Um verdadeiro exemplo de amor à camisola. Um espécime raro que serve de bálsamo à alma ferida de puristas como o redactor deste texto, que vêem nestes casos uma das coisas mais bonitas que o futebol tem para oferecer.
O que penso sobre os fundos e sobre os fundos no Sporting
Falar sobre fundos tornou-se quase tão corrente como falar da bola que bateu no poste, dos erros dos árbitros, dos golos, etc. Mas quando falamos de fundos estamos a falar do TPO (third party ownership), isto é, da partilha de passes de jogadores entre clubes, entidades financeiras, investidores, agentes, empresários e até mesmo dos próprios jogadores. O seu fim já anunciado provocará seguramente grandes mudanças no futebol em todo o mundo, particularmente na América do Sul e Europa.
Ao contrário do que parece ser a corrente de opinião no actual Sporting, não olho para os fundos e vejo o anti-cristo. Pelo menos nem mais nem menos do que vejo noutro qualquer instrumento ou parceiro financeiro de que o clube se possa socorrer. O problema, a haver, está em quem negoceia e na forma como defende os respectivos interesses. Este não se confinará apenas às negociações com fundos, mas também à generalidade de parceiros a quem o clube recorra para se financiar. Cabe a quem representa o clube nas negociações retirar as maiores vantagens, porque do outro lado da mesa não está o Pai Natal com um saco de prendas, mas apenas alguém que procura ganhar dinheiro.
O que haverá de diferente aqui se do outro lado da mesa, ao invés de representantes da Doyen ou QFIL, estiver o chairman de um banco ou entidade de crédito similar?
Especificamente sobre o Sporting, lamento que a discussão esteja a ser muitas vezes mistificada, outras vezes manipulada, em que muito contribuíram os maus resultados desportivos que ocorreram no momento em que o clube apostou mais declaradamente neste tipo de financiamento. Os resultados dos rivais provam o que todos sabemos acerca de qualquer negócio: meter dinheiro nos problemas pode vir a representar um problema maior se a aplicação deste não for bem gerido. Ao Sporting faltou sempre alguma coisa ou várias ao mesmo tempo -um bom treinador, estabilidade e saber a dirigir, qualidade do o plantel-: quando tinha um faltava outro. Os resultados do SLB e, de forma mais sustentada, do FCP comprovam que poder chegar a melhores jogadores tem um carácter diferenciador.
Depois, há fundos e fundos. O que agora sucedeu com a renegociação das percentagens detidas pelo fundo do ex-BES, o Sporting Stars Fund, é o resultado de uma circunstância muito especial: o fim do banco com quem se tinha originariamente negociado e o facto de o próprio fundo ser sobretudo um parceiro do Sporting. Na prática, ao invés de deter acções, o fundo comparticipava no risco de aquisição de jogadores – risco que, neste caso concreto e ainda sem fazer as contas, deve ter sido pago sobretudo do lado do investidor. Não fossem estas circunstâncias especiais, será que alguém em bom juízo aceitaria os pouco mais de 12 milhões só e apenas pelas percentagens detidas de passes de jogadores valorizados (como William Carvalho e Adrien, por exemplo)?
Haveria muito a discutir sobre os fundos no Sporting. Inclusive, por exemplo, se é boa política disponibilizar percentagens de passes de jogadores ainda em formação. O que me parece é que o clube não deveria abdicar de uma ferramenta como esta sem pelo menos ter uma alternativa que lhe permitisse estar mais perto dos seus concorrentes directos, sob pena de comprometer a respectiva competitividade.
Bruno de Carvalho tem sido um dos maiores críticos aos fundos Fonte: Facebook Sporting Clube de Portugal
Perceber a estratégia do Sporting
O Sporting fez deste tema bandeira da actual gestão. No entanto, já fez uma inflexão notória que tem aparentemente passado despercebida nos comentários sobre o tema: começou por pedir a regulamentação da actividade para, agora, agitando fantasmas sobre o comprometimento da verdade desportiva, querer a sua extinção.
Várias vezes tenho tentado perceber esta cruzada lançada aos fundos, e a conclusão é quase sempre a mesma: o Sporting pretende com o fim dos fundos diminuir a capacidade de investimento dos seus rivais, de forma a deixá-los, sem as respectivas verbas, mais próximos dos valores que consegue aportar ao seu futebol. Isso seria perfeito, mas quanto a mim, para poder resultar em pleno, tem dois grandes inconvenientes:
(i) As maiores receitas dos seus rivais continuarão a possibilitar, pelo menos na teoria de que jogadores mais caros são melhores, maior capacidade competitiva. Os dinheiros dos fundos servem apenas para partilhar o risco na aquisição dos passes dos atletas; as elevadas verbas necessárias para pagar os ordenados destes têm que ser encontradas nas receitas dos clubes. É possível que, com o fim dos fundos, diminuam também as receitas obtidas na realização de mais-valias. Será essa diminuição em grau suficiente para nivelar os 3 grandes?
(ii) O fim dos fundos acabará por ditar um afastamento dos 3 grandes portugueses dos melhores palcos e, consequentemente, das grandes receitas -a menos que se descubra uma forma de contornar a perda do dinheiro destas parcerias. Que impacto tal terá no ranking dos clubes na UEFA, que determina o acesso à Liga dos Campeões/Milhões? Pelo menos no futebol, a ideia de ombrearmos com “os maiores da Europa”, se já era cada vez mais quimérica, passará a ser impossível.
E aqui, na capacidade de atracção de financiamento e investidores, o problema continuará a ser, em grande medida, maior do nosso lado. Hoje a visibilidade do Sporting é inferior à dos seus rivais e isso é notório ao nível das parcerias e patrocinadores. Inverter este cenário é ainda mais ciclópico quando se sabe o atraso de muitos anos que levamos no marketing, corporate e demais áreas comerciais e de promoção da marca.
Os fundos não representam uma panaceia para todos os males (como sabemos de experiência própria), mas, sem eles e sem alternativa, clubes como os 3 grandes portugueses, Atlético de Madrid, Valência, e outros remediados europeus terão que se contentar em serem os eternos figurantes no “el passillo” aos mais ricos.
Todas as estratégias comportam riscos. Sobre a actual, partilho a desconfiança sobre estes instrumentos, mas não me auto-excluiria do seu uso sem uma alternativa, e não estou muito optimista sobre os seus resultados práticos.
Sobre a generosidade e bondade da argumentação a propósito da transparência do dinheiro e respectiva posse, parece-me que quem tem como patrocinadores a Tacho Easy ou a Herbalife se devia abster de grandes comentários. Como em geral sobre quase todo o dinheiro acrescentaria.
Sobre o efeito pernicioso dos fundos e relações nebulosas com agentes de jogadores, diria mais ou menos o mesmo. Não faltam exemplos, passados e recentes, em que o clube, para fazer valer os seus interesses, atravessou a linha que a lei e a ética impõem.
Que perigo representam os fundos?
Dizer isto não é ignorar os perigos que representa a existência dos chamados fundos. O seu peso crescente no futebol mundial é evidente:
– Mais de um milhar de jogadores na Europa são já pertença de entidades financeiras.
– Grande parte destes jogadores pertence a um reduzido número de entidades ou agentes. O risco de dependência e subjugação dos interesses dos clubes aos interesses de um trust de investidores é notório.
Mais do que a sua extinção, parece-me que a regulação desta actividade (como aliás de qualquer outra) se tornou imperativa. Mas isto não ilude que perigos semelhantes ou até mesmo mais lesivos da verdade desportiva se tenham, anteriormente, tornado realidade no futebol, muito antes da chegada dos fundos. Não mais nem menos do que em todas as outras actividades onde existem grandes quantidades de dinheiro em circulação e em que o apelo do lucro fácil é permanente.
A posição da UEFA e da FIFA
Os organismos que tutelam o futebol internacional têm alergia aos temas fracturantes e, sobretudo, não gostam de muito barulho e escrutínio. A ideia de extinguir os fundos, ou melhor dizendo, a partilha da posse dos passes dos jogadores, é sobretudo preguiçosa. O futebol não ficará mais equilibrado nem mais transparente. Esta decisão deixa cada vez menos espaço aos clubes de matriz associativa, como é o nosso, deixando o caminho livre ao futebol de clubes com um dono ou accionistas. E o dinheiro encontrará sempre novos caminhos para continuar a crescer e a se multiplicar.